Entrevistas do Presidente da AJORB

Entrevista de Egydio Coelho da Silva, presidente da AJORB - Associação dos Jornais de Bairro de S. Paulo.


Para Alexandra Eduardo, 

Universidade Metodista de São Paulo

entrevista em 24-08-2.000

 

  Elaboração de matéria sobre Jornais de Bairro para  um jornal feito por universitários e circula em todas universidades que possuem o curso de Jornalismo.

 

 Alessandra - Os jornais de bairro são bastante respeitados pela comunidade, já que está sempre à frente da maioria das reivindicações que acontecem. Mas com relação às universidades, o senhor acredita que elas "aprofundam" o suficiente para que os estudantes consigam trabalhar nesse ramo do jornalismo?

 ECS: Eu dirigia um jornal em Assis há nove anos e já era jornalista registrado no MT, quando ingressei na Faculdade de Jornalismo (FAAP), na década de 70.

E tirei bastante proveito porque, tendo experiência profissional, assimilei muito bem a parte teórica, que me tem sido muito útil.

Mas para quem nunca teve experiência profissional, nem estiver tendo prática concomitante com o recebimento de teoria, tem até dificuldade de entender as teorias. E, prática, com certeza não conseguirá.

Infelizmente, as pessoas se formam, com alguma teoria, mas a prática, as universidades, por mais que se esforcem, não conseguem dar aos alunos.

Mesmo os laboratórios, embora bastante técnicos, não preparam o aluno para o mercado do trabalho.

Os jornalistas, recém formados, somente alcançam competência profissional, no mínimo, depois de dois anos de atividade jornalística, pelo menos em nosso jornal que é semanário.

A única forma seria a regulamentação do estágio, que encontra no Sindicato dos Jornalistas Profissionais o seu maior adversário. De certa forma, eles têm razão porque se preocupam com a oferta de emprego que há tempo é bem menor do que a procura.

Conversei com uma jornalista carioca recentemente e ela me disse que no Rio de Janeiro o estágio é regulamentado. Com certeza houve acordo entre o sindicato patronal, o sindicato dos jornalistas profissionais e, provavelmente, com algum lobby dos alunos e das universidades.

O Sindicato Profissional se opõe porque, por preconceito, julga que as empresas jornalísticas teriam interesse em economizar no pagamento a profissional, utilizando o estagiário. É um engano.

O interesse das empresas seria apenas de dispor de profissionais mais competentes saindo das faculdades, mesmo porque hoje o leitor está bastante exigente e somente com qualidade se consegue manter o nível da publicação.

Entendo que a culpa da falta de regulamentação do estágio é da direção das faculdades, que se omitem e não fazem lobby suficiente para forçar a regulamentação.

Os alunos teriam também sua parcela de culpa, mas, infelizmente, quando adquirem a consciência de que precisam de muita prática para obter sucesso profissional já estão no fim do curso e precisam resolver seu problema particular com mais urgência.

Quanto ao jornalismo regional ou comunitário, as faculdades deveriam criar uma cadeira de jornalismo regional, no curso de jornalismo.

Quando terminei o curso de jornalismo na FAAP, o prof. Scatimburgo, então diretor da faculdade, me convidou para dar aula sobre jornalismo comunitário, pois eu já tinha experiência em fazer jornal comunitário no interior, em cidades como Assis, Ourinhos, Palmital e Cândido Mota.

Infelizmente, porém, não pude aceitar porque não dispunha de tempo para lecionar.

Alessandra: Muitos universitários conseguem seus estágios em jornais de bairro, ou seja, iniciam suas carreiras lá. Isso seria porque os jornais de bairro precisam de mão-de-obra mais barata?

 ECS: As empresas jornalísticas não podem oferecer estágio porque a legislação não permite.

Se algum jornal de bairro deixa universitário escrever em seu jornal, acredito, é porque é solidário com o estudante e deseja ajudá-lo. Mesmo porque o trabalho profissional de pessoas inexperientes dá mais prejuízo do que lucro.

Essa idéia de que jornais de bairro precisam de mão de obra barata é  tese defendida por alguns jornalistas profissionais, que temem que a regulamentação do estágio fará surgir mão de obra mais qualificada, que venha a disputar a já estreita fatia do mercado de trabalho.

Quem mais se prejudica é o estudante, que perde tempo e gasta dinheiro cursando faculdade de jornalismo e, após formado, terá que exercer outras profissões que não a de jornalista. 

 Alessandra: Em média, quantos jornais de bairro existem, oficialmente, na São Paulo?

 ECS: Oficialmente é quase impossível saber. Acho que todos os dias nascem jornais de bairro em São Paulo e um pouco menos também fecham.

Filiados à AJORB existem mais de 50 jornais de bairro. Ao todo em São Paulo, acho que devem existir de 150 a 200.

É menos de 10% do que deveria existir, pois, entendo que cada bairro, por menor que seja, deveria ter seu jornal de bairro. Como São Paulo tem mais de 2.000 bairros, a quantidade de jornais de bairro deveria se aproximar do número de bairros.

Daí, no meu entender, o campo que abre para ampliar o mercado de trabalho, pois se os estudantes de jornalismo tivessem um preparo profissional dirigido também para jornalismo comunitário teriam maior oportunidade profissional, não só como editor, mas também como proprietário de jornal de bairro.

Alessandra: Com relação ao ano anterior, houve crescimento no número de jornais de bairro?

ECS: Houve pouco porque a crise econômica, que afetou as pequenas e médias empresas (nossos principais anunciantes) dificultou a vida dos jornais de bairro, conseqüentemente impediu o nascimento de mais jornais. Mas mesmo assim houve. Acredito que aumentou em mais ou menos 20% o número de jornais de bairro.

 Alessandra: Neste mês, os jornais de bairro comemoram 102 anos de vida. Como o senhor enxerga o futuro desse jornalismo comunitário? Será que ele sofrerá alguma influencia dessa nova era tecnológica?

ECS: As pesquisas feitas em âmbito mundial vêm mostrando que os grandes jornais, em termos de aumento de leitores, estão estacionados e somente se observa crescimento nos jornais regionais.

Os motivos, me parece, é o aparecimento de meios de comunicação mais globalizados, como a televisão a cabo, por assinatura e a internet.

O jornalismo regional, onde se incluem os jornais de bairro, dificilmente sofre essa competição; existem hoje em São Paulo os canais de televisão comunitários, que, ao contrário, despertam interesse pelos assuntos locais e, portanto, aumentam o número de leitores dos jornais de bairro.

Outra aparente competição com os jornais de bairro é a idéia errônea de um ou outro grande jornal de fazer suplemento regional encartado em seus jornais.

Eles não conseguem cobrir o custo de sua edição e não conseguem se comunicar com o bairro, porque editam o suplemento com notícias do bairro, que é bem diferente do jornal de bairro, cuja editoria se preocupa com notícias para o bairro.

Isto pode parecer jogo de palavras, mas não é.

O diretor de jornal de bairro é envolvido com a comunidade, participa das entidades, da vida comunitária física e emocionalmente e, por isso, se comunica com ela.

Acho, portanto, que os jornais de bairro não precisam fazer modificação no modo de agir com relação a forma de noticiar os fatos de interesse de sua comunidade. Entendo apenas que devem procurar se aperfeiçoar cada vez mais profissionalmente, porque é sabido que "quem estaciona, regride".

Do ponto de vista gráfico, os jornais de bairro são impressos nas gráficas dos melhores jornais de São Paulo e a um custo relativo barato, porque as rotativas ficam ociosas e eles disputam o mercado do jornal de bairro, oferecendo preço bastante concorrido.

Quanto à internet, estamos empenhados em colocar todos os jornais filiados à AJORB na internet e o campo é bastante grande para os jornais de bairro, porque nós geramos notícias e não “copiamos” notícias de agências internacionais como fazem os portais que se apresentam como geniais aos internautas incautos.

 Alessandra: Gostaria que o senhor deixasse um recado para os futuros jornalistas que pretendem seguir esse ramo da profissão.

ECS:   Toda pessoa, que deseja ser jornalista, é, antes de tudo, uma pessoa ambiciosa em participar ativamente da comunidade e se comunicar com todos. Infelizmente ou felizmente não é ambiciosa no sentido de ganhar dinheiro.

Acho que vale a pena ser assim. Eu mesmo a vida inteira fui e continuo sendo assim. Quando estudante, escrevia em jornais estudantis e de classe.

Consciente de que precisava ganhar algum dinheiro para viver e constituir família, prestei concursos públicos e fui ser funcionário público. Depois disso, nas horas vagas e fim de semana fazia jornalismo como correspondente de grandes jornais e fundei jornais em cidades do interior e em bairros de São Paulo.

Talvez o melhor caminho – para quem deseja ter seu próprio jornal comunitário – primeiramente é entender bem de administração de uma editora de jornal comunitário, participar ativamente da vida comunitária de seu bairro e obter o apoio da comunidade para seu empreendimento.

A profissão de jornalista, em todos os setores, vale a pena para quem gosta da profissão, mesmo com pouca perspectiva de ser bem remunerado.

 Alessandra: Gostaria que o Sr. me passasse um perfil biográfico e explicasse qual a finalidade da AJORB.

ECS: 

Sou natural de Botucatu-SP, exerci a profissão de alfaiate até os 20 anos em Botucatu e em São Paulo. Fiz curso supletivo (na época madureza), depois técnico em contabilidade, no Mackenzie fiz especialização para lecionar contabilidade.

Quando estudante, editei um jornal mimeografado,chamado O Cronofo, da Academia de Letras (de estudantes) 21 de Abril (Colégio Frederico Ozanam) e o jornal O Corbiano do Centro de Oratória Rui Barbosa.

Nomeado funcionário público estadual fui trabalhar em Assis.

Lá fui correspondente dos jornais Última Hora e Gazeta Mercantil de São Paulo e colaborava nos jornais locais Gazeta de Assis e Jornal de Assis.

Participei de um concurso de contos, promovido pela Faculdade de Filosofia e Letras de Assis e ganhei o primeiro lugar com o conto intitulado "O Engraxate".

Em 1.963, fundei o jornal VOZ DA TERRA, que hoje é diário e completou 37 anos de circulação.

Removido para Ourinhos por problemas políticos, fundamos naquela cidade o jornal O Progresso de Ourinhos, que circulou naquela cidade durante cinco anos.

De volta a São Paulo, ingressei na Faculdade de Jornalismo da FAAP e concluí o curso em 1.973.

Fundei o JORNAL DA BELA VISTA em 15 de agosto de 1.976, hoje semanário, o qual completou neste ano 24 anos de circulação ininterrupta.

A partir de 1.987, seguindo uma tendência, que se verifica no jornalismo de bairro de S. Paulo, lançamos O HIGIENÓPOLIS, em seguida, O PARAÍSO em 1.988, e O CERQUEIRA CÉSAR em 1.990.

Na presidência da AJORB, da qual sou presidente pela segunda vez, procuramos imprimir uma filosofia de que todos os jornais comunitários são importantes e de não criar privilégio para uns poucos, nem discriminar nenhum jornal.

Por isso, o objetivo da AJORB é defender todos os jornais de bairro, filiados ou não. Aprovamos um Código de Ética, que, inclusive, está disponível em nosso website: www.ajorb.com.br

Para manter normas salutares, fazemos algumas exigências para que os jornais possam se filiar à AJORB, que são:

 Podem filiar-se à AJORB:

1) Jornais ou revistas, que circulem em um bairro ou uma região da cidade de S. Paulo.

2) Tenham, no mínimo dois anos de circulação ininterrupta.

3) Comprovem a regularidade da sua periodicidade.

4) Editoras que editem no máximo cinco (cinco) jornais de bairro;

5) Comprometam-se a se sujeitar ao código de ética da AJORB.

6)  Seja aprovada a sua admissão em reunião de Diretoria.

 

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