Entrevistas do Presidente da AJORB

ENTREVISTA EM 09 DE OUTUBRO DE 2.001

 

Entrevista concedida a  Marcos Lock (Faculdade de /Comunicações e Artes da USP, no curso de pós-graduação “Gestão de Processos Comunicacionais)

Marcos Lock: Como disse ao telefone, dei seqüência ao trabalho do Senac, desta vez na Faculdade de Comunicações e Artes da USP, no curso de pós-graduação “Gestão de Processos Comunicacionais”. Agora, diante deste novo desafio, preciso abordar os jornais de bairro sob novas óticas para desembocar naquilo que os professores chamam de “Projeto de Intervenção”.

Meu objeto de estudo é tentar mapear o bairro como um pólo que produz não apenas jornais, mas outras mídias, como revistas e rádios comunitárias e como elas se colocam a serviço dos interesses populares ou de de determinados grupos dominantes.

Neste sentido, gostaria que o sr. colaborasse conosco respondendo às questões alinhavadas a seguir:

 

1) Há registros mais completos sobre os primórdios dos jornais de bairro em São Paulo, do aquele que coletamos para a publicação do Senac?

 

Egydio Coelho da Silva: No livro " Os Jornais de Bairro na cidade de São Paulo", editado em 1.985 pela Secretaria Municipal de Cultura, cujo secretário era Gianfrancesco Guarnieri e o prefeito Mário Covas, consta que o " berço dos jornais de bairro" foi o bairro do Brás.

 A partir de 1.905, surgiram os jornais: O Comércio do Braz, Braz-Hoje e A Cidade do Braz em 13-05-1.907.  A Tribuna da Lapa surgiu em  1.911. 

E no Braz, em 13 de julho de 1.914, uma audácia que não se vê ainda hoje, surge um jornal diário de bairro: Diário do Braz. Chegou ao trigésimo número.

 

2) É possível estimar com certa precisão o número de jornais de bairro circulando hoje em dia em São Paulo? Há quem diga que são mais de 300.

 

ECS: É praticamente impossível, por que muitos jornais de bairro têm vida curta. Assim como surgem, podem fechar sem avisar ninguém. Mas estimo que existam de 150 a 200 circulando na cidade de São Paulo.

 

3) É possível estabelecer uma tiragem média dos jornais de bairro em São Paulo?

ECS: Os jornais de bairro não têm como como comprovar sua tiragem, porque o IVC, órgão mais confiável para comprovar tiragem de veículos, não aceita filiação de jornais que são distribuídos gratuitamente. As gráficas costumam declarar por escrito a tiragem dos jornais de bairro. 

A tiragem declarada dos 51 jornais filiados à AJORB dá um total de 1.454.000, que, dividido por 51, dá média de 28.509 por jornal. Essa informação consta inclusive em nosso página na internet (www.ajorb.com.br/dados ), onde se encontram as respectivas tiragens declaradas de cada veículo.

 

4) Da mesma forma, seria possível se chegar a algum número de pessoas envolvidas nos processos jornalísticos (jornalistas, diagramadores, fotógrafos, assistentes etc)  e comercial dos jornais de bairro? Quantos pessoas a Editora Ipê tem em sua equipe nestas duas áreas?

 

ECS: Aproximadamente quinze pessoas. Quantos aos outros, varia muito porque há jornal que o diretor faz praticamente tudo sozinho e outros são grandes empresas que empregam mais de 50 pessoas.

 

5)    O sr. poderia nos fornecer um pequeno histórico da Editora Ipê? Qual o jornal mais antigo que ela publica? Qual a tiragem individual de  cada jornal da editora? Onde circulam? Com qual periodicidade?

ECS: Transcrevo o texto publicado quando do aniversário do JBV:

"JBV: 25 anos de circulação

 No dia 15 de agosto o JORNAL DA BELA VISTA (JBV), carinhosamente chamado de Jornal do Bixiga pelos moradores do bairro, completou no último dia 15 de agosto 25 anos de existência. Desde sua fundação se identificou com o bairro e, graças ao apoio recebido da população e dos comerciantes, firmou-se definitivamente e hoje é, sem dúvida, o principal porta-voz do sub-distrito da Bela Vista e do bairro do Bixiga.

O jornal foi fundado em 15 de agosto de 1.976 por Egydio Coelho da Silva, que contou com a colaboração dos jornalistas Renato Santana e Luiz Marcos Barrero, ambos iniciaram sua carreira no jornal Voz da Terra, em Assis, e hoje são profissionais consagrados na profissão.

O JORNAL DA BELA VISTA (JBV) é uma publicação da Editora Ipê.

A partir de 1.987, seguindo uma tendência, que se verifica nos principais grupos de jornais de bairro de S. Paulo, a Editora Ipê lançou O HIGIENÓPOLIS, em seguida, O PARAÍSO em 1.988, e O CERQUEIRA CÉSAR em 1.990.

A experiência de se editar vários de jornais de bairro tem se mostrado eficiente, principalmente, quando - como é o nosso caso - os bairros são próximos um do outro e a região tem característica semelhante.

Os veículos tornam-se boa opção para leitores, que sabem o que se passa no seu bairro, além de noticiário geral de interesse para a região. Acrescente-se que é uma boa opção para os anunciantes, cuja mensagem publicitária não só abrange seu bairro, como também chega aos bairros vizinhos".

 

ECS: O jornal mais antigo é o Jornal da Bela Vista. Fundado em 15 de agosto de 1.976. A tiragem de cada jornal é de 20 mil exemplares e circulam nos respectivos bairros, que constam de seu título. Jornal da Bela Vista, O Paraíso, O Higienópolis e O Cerqueira César.

 

6)    Os jornais de bairro têm se fortalecido em seu papel, não apenas pelos número de veículos, mas porque a questão local ganha relevância em contraposição à globalidade do noticiário, cada vez mais intensa mas que nos rouba a identidade?  

ECS: Na verdade, o noticiário dos grandes veículos são quase cronados e não poderia ser diferente. Para se encontrar informação mais próxima do leitor e que não se acha em nenhum outro veículos de comunicação, é necessário ler o jornal de seu bairro. E sabemos que o fato que acontece perto da gente sempre tem mais interesse do que aquela que acontece longe. 

Existe uma peça teatral de Pedro Bloch, intitulada "Morre um gato na China", o que não interessa a ninguém. 

E evidentemente o interesse pela notícia iria aumentando se esse gato morresse no Brasil, no Estado de S. Paulo, na cidade de São Paulo, no seu bairro e, o superlativo do interesse, seria se morresse em sua casa.

 

7) Qual é o tipo de anunciante mais freqüente nos seus jornais? Por qual motivo? 

ECS: Os anunciantes mais frequentes são os que têm interesse em conquistar clientes mais próximos de seu estabelecimento: supermercados, restaurantes, agências bancárias, escolas, etc. 

8) Qual o anunciante mais antigo? Poderíamos entrevista-lo também?  

ECS:  Um dos anunciantes mais antigos de nosso jornal é o Restaurante La Távola, outro é A Ferragens Campeão, que praticamente anunciam desde a fundação do jornal. Seria bom entrevistá-los para ilustrar o motivo de anunciarem em jornal de bairro.

9) Os leitores se manifestam muito? Escrevem com freqüência para os seus jornais?  

 

ECS:  Os leitores se manifestam por telefone, pessoalmente diretamente aos funcionários, aos jornalistas e aos diretores do jornal, talvez por terem essa facilidade, proporcionalmente escrevem pouco para o jornal.

 

10) Os jornais de bairro tratam dos assuntos locais de fato ou estão mais interessados em se tornar veículos de mensagens comerciais?  

ECS: Quanto mais anúncios os jornais tiverem, mais notícias locais terão. 

O custo da notícia local é caro: é preciso ir buscar a notícia na fonte, com repórter, fotógrafo, etc. O noticiário geral é dado por agências de notícias e há até material distribuído muitas vezes gratuitamente. 

Por isso, quanto mais anúncio o jornal tiver mais matéria local poderá ter, pois haverá mais verba para investir na melhoria da qualidade do veículo.

 Há preconceito contra a publicação de anúncio; na realidade há leitor que lê o jornal primordialmente pelos anúncios. Existe um jornal em São Paulo que é vendido e é caro e só veicula anúncio. O leitor o compra para ler anúncio.

O anúncio incomoda somente quando se é obrigado a vê-lo ou ouvi-lo como acontece no  cinema, na televisão e no rádio. No jornal, o leitor o lê porque tem interesse ou vira a página e lê outra coisa.

11) Há alguma ligação dos seus jornais com alguma rádio comunitária local?  

ECS: Tínhamos bom entrosamento com a rádio comunitária aqui no Bixiga, mas infelizmente foi fechada, pois, o lobby das grandes emissoras não permite a regulamentação da sua atividade. É pena porque informam bastante prestam serviço à comunidade.

12) Como a população reage à importância dos jornais de bairro? Há alguma pesquisa que os seus jornais tenham feito a respeito?  

ECS: A reação é sempre positiva. Só é negativa quando cai a qualidade do jornal por algum motivo. E gente sente a reação pelo sorriso dos moradores quando vêem a gente na rua ou então pelo cumprimento seco sem sorriso.

Pesquisa feita na Bela Vista por estudantes, perguntando em que veículo acreditaria mais se visse uma notícia, citando os grandes jornais, rádios e TVs e o Jornal da Bela Vista, o nosso jornal ganhou em primeiro lugar em credibilidade. Nem poderia ser diferente, pois somos obrigados a nos esmerar em falar a verdade, porque a notícia local é conferida pelos leitores que estão muito próximo do fato noticiado. Nos grandes veículos, há a tentação de enfeitar um pouco a notícia.

 

13) Há alguma TV local nas regiões de circulação dos veículos da Editora Ipê?  

ECS: Acho que existem apenas programas noticiosos da cidade de São Paulo nas grandes emissoras. Talvez exista algum programa da TV Comunitária (Canal 14 da TV a cabo) sobre algum bairro. Eu desconheço.

14) Como o sr. vê a idéia de uma guia completo com os jornais, revistas e, se possível, rádios comunitárias de São Paulo?  

ECS: Seria ótimo para quem quer e precisa se comunicar com os bairros.

15) O sr. possui dados de jornais de bairro do exterior?  

ECS: Alguns colegas meus estiverem nos Estados Unidos e ficaram impressionados com a sua importância principalmente em Nova York. Na internet, pesquisei e demorei a descobrir que são conhecidos como Weekend magazines. Mas, infelizmente, não tenho dados nenhum sobre eles.

16) O comércio local apóia e prestigia de fato o jornal de bairro? E a relação com o poder público, por que ela é normalmente problemática?  

ECS: Sem dúvida, o comércio local prestigia o jornal de bairro. 

Nem tanto como gostaríamos que prestigiasse, mas atribuímos isso a eterna política de desaquecimento da economia, que empobrece a todos. 

E sem dinheiro, a primeira coisa que o comerciante faz é cortar a verba publicitária. É errado, mas infelizmente é que todos fazem.

Quanto ao Poder Público, a AJORB sempre pleiteou que a Prefeitura destinasse 20% da verba publicitária para todos os jornais de bairro, que são mais de 150. Mas isso nunca aconteceu. 

O máximo foi Paulo Maluf que chegou a destinar 5% e foi o período em que os jornais de bairro tiveram bastante anúncio da Prefeitura e puderam ficar um pouco mais fortes. 

Isto é injusto porque o jornal de bairro é distribuído gratuitamente e até cria o costume da leitura de jornal no povo mais humilde e menos letrado, portanto, presta grande serviço à população. 

A Prefeitura prefere gastar quase 100% da verba nos meia dúzia de veículos grandes em vez de destinar pelo menos 20% aos jornais de bairro. 

Os políticos só se lembram da importância dos jornais de bairro em véspera de eleição, quando saem de seus gabinetes e vão aos bairros procurar votos. Aí então descobrem que para se comunicar com os bairros precisam dos jornais locais.

 

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