Entrevistas do Presidente da AJORB

 

Entrevista de Egydio Coelho da Silva, presidente da AJORB - Associação dos Jornais de Bairro de S. Paulo.

Para: Marcos Lock (catálogo para exposição do Senac/CCA de 9 a 26/11/99)

1) Na sua opinião, qual a maior contribuição dos jornais de bairro para a sociedade?

ECS: Em face da globalização da comunicação (não confundir com a globalização na economia, que é uma falácia, uma farsa, um engodo), ao vermos noticiário nos mais importantes veículos de comunicação do mundo inteiro, inclusive na Internet, percebe-se que são muito iguais, quase cronados, as notícias são as mesmas. 

O mesmo acontece no âmbito nacional e estadual. Se se ouvir o rádio, ligar a TV, ler os jornais: Estado de São Paulo, a Folha de S. Paulo, o Diário Popular se perceberá que abordam os mesmos assuntos. A informação, que o leitor de um só jornal tem, é praticamente a mesma nos três jornais.
Assim, ironicamente as pessoas estão a par do que se passa nos Estados Unidos, na Europa, China, no Brasil, no Estado de São Paulo, na cidade de São Paulo, mas pouco sabem do que acontece no seu bairro.
E todos nós sabemos que os fatos, que acontecem próximo de nós, muitas vezes, são bem mais importantes do que os sucedidos mais distantes. Esta lacuna, que existe na grande imprensa escrita, falada e televisiva, é preenchida pelos jornais comunitários, entre os quais se destacam os jornais de bairro.
E a noticiário local não se resume apenas nas notícias; até os anúncios de produtos oferecidos perto de sua casa se transformam em notícia e facilitam a vida dos leitores de jornal de bairro. E não podemos esquecer talvez a principal função dos jornais comunitários, que, ao noticiarem os trabalhos desenvolvidos no âmbito da comunidade, une mais a população, facilita suas reivindicações e ajuda o administrador bem intencionado a saber quais as são as necessidades do bairro.

2 - Qual a opinião sobre a iniciativa do Senac/CCA em realizar esta exposição e debate?

ECS: A exposição e debate envolvendo jornais de bairro mostram que o Senac/CCA não poupou esforço para desenvolver um estudo sério sobre um segmento editorial, que exige mais esforço e trabalho, pois são muitos veículos a ser pesquisados e analisados.
É um trabalho bonito, bastante didático e, espero, estimulará o interesse dos jovens em participar de alguma forma no jornalismo comunitário. Isto é importante porque é preciso ampliar o número de jornais de bairro existente em São Paulo. 

São hoje aproximadamente 150, mas - em face da carência e abandono dos bairros de São Paulo - poderiam ser no mínimo o dobro, para melhorar a qualidade de vida dessa população.

3 - Qual a sua avaliação sobre o atual momento dos jornais de bairro em São Paulo, do ponto de vista editorial e gráfico?

ECS: As editoras de jornais de bairro, de certa forma, têm acesso às mesmas tecnologias (impressão e editoração gráficas) que os veículos de ponta possuem hoje em São Paulo. Com a vantagem de não precisar de capital. Sabe-se que a os grandes jornais (Estado, Folha, Diário Popular, etc.) são obrigados a investir grandes capitais para se atualizar graficamente, porque a competição entre eles é muito acirrada. 
E suas rotativas imprimem os respectivos jornais em poucas horas. No restante do tempo ficam ociosas.
Por isso, todos os grandes jornais competem entre si para oferecer os melhores preços e serviço gráfico aos jornais de bairro, que, na sua maioria, são impressos na gráfica dos principais jornais paulistanos. Portanto, a qualidade dos jornais de bairro é a mesma dos melhores jornais. 
Assim sendo, os jornais de bairro são privilegiados: não precisam de nenhum capital para ter acesso à mais sofisticada tecnologia gráfica.
Quanto à editoração gráfica, hoje é barata. Alguns microcomputadores em rede já deixam um pequeno jornal no mesmo nível dos grandes. Aliás, a editoração gráfica por computador começou em 1.984, nos Estados Unidos e, em 1.987 no meu jornal, JORNAL DA BELA VISTA, já tínhamos "montado" um micro computador, um AT (antes eram só XT) e "importado", por via não muito correta, uma impressora a laser, marca Neck, que nos custou 4 mil dólares. 
E iniciamos a editoração gráfica, utilizando um programa, editor de texto (Lauda), elaborado por meu filho e compatível com o programa Page Maker, como editor gráfico. Estranhamente antes mesmo de começarem os grandes jornais a adotar essa tecnologia. É certo que fui beneficiado porque meu filho era analista de sistema e estudioso das inovações tecnológicas nessa área e, por ser uma pequena empresa, fomos mais ágeis em adotar a nova tecnologia: mais prática, mais barata e eficiente.
4 - Qual o futuro dos jornais de bairro do ponto de vista informativo, jornalístico e tecnológico?
ECS: As pesquisas feitas em âmbito mundial vêm mostrando que os grandes jornais, em termos de aumento de leitores, estão estacionados e somente se observa crescimento nos jornais regionais.
Os motivos, me parece, é o aparecimento de meios de comunicação mais globalizados, como a televisão a cabo, por assinatura e a internet.
O jornalismo regional, onde se incluem os jornais de bairro, dificilmente sofre essa competição; existem hoje em São Paulo os canais de televisão comunitários, que, ao contrário, despertam interesse pelos assuntos locais e, portanto, aumentam o número de leitores dos jornais de bairro.
Outra aparente competição com os jornais de bairro é a idéia errônea de um ou outro grande jornal de fazer suplemento regional encartado em seus jornais. Eles não conseguem cobrir o custo de sua edição e não conseguem se comunicar com o bairro, porque editam o suplemento com notícias do bairro, que é bem diferente do jornal de bairro, cuja editoria se preocupa com notícias para o bairro.
Isto pode parecer jogo de palavras, mas não é. O diretor de jornal de bairro é envolvido com a comunidade, participa das entidades, da vida comunitária física e emocionalmente e, por isso, se comunica com ela.
Acho, portanto, que os jornais de bairro não precisam fazer modificação no modo de agir com relação a forma de noticiar os fatos de interesse de sua comunidade. Entendo apenas que devem procurar se aperfeiçoar cada vez mais profissionalmente, porque é sabido que "quem estaciona, regride".
Muitos jornais de bairro já têm páginas na Internet. No website da Ajorb há links para essas páginas. 

5) Poderia fazer alguma comparação entre os jornais de bairro de São Paulo em relação a outros no exterior?

ECS: Infelizmente ainda não disponho de pesquisa sobre os jornais de bairro no exterior. Alguns colegas (Oduwaldo Donnini, telefone: 3743-3011, diretor da Gazeta de Pinheiros e Olímpio Perrone, telefone: 3831-2988, diretor do jornal Revista da Região) estiveram nos Estados Unidos, visitando jornais de bairro de Boston.
Eles sempre comentam em nossas reuniões que ficaram impressionados com organização da associação de jornais de bairros deles. Possuem na Assembléia Legislativa e Câmara Municipal sala especial para jornais de bairro. Outra informação, é a que a associação de jornais deles angaria anúncios para todos os seus filiados, mesmo os anúncios locais, mediante uma pequena comissão. Eu preferiria, porém, que vocês entrevistassem os colegas acima citados que poderão lhes dar melhor informação e confirmar ou retificar as que lhes passei. 
 

| Fale Conosco |

 

 

AJORB - Associação de Jornais de Bairro
Rua. Major Diogo, 622 - São Paulo - Brasil
Fones: (011) 3107-6702 e 3242-0270   Email: ajorb@ajorb.com.br (não anexar arquivos)