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Centro de Oratória Rui Barbosa - CORB

Espaço para expor obras de corbianos

Coordenador do Fórum corbiano: Egydio Coelho da Silva

Contos e crônicas de Geraldo Gomes Gatollini

BRIGA DE GALO

A BRIGA DE GALO
Como o símbolo da campanha política de 1958 de Adhemar de Barros era o galo, um correligionário teve a idéia de trazer para a Praça da Sé, no dia de um gigantesco comício, 50 galos de briga, que ele arregimentou de um criador de Arthur Alvim, uma vila da periferia da Penha. 
Às 17:30 horas, os engradados chegaram em um caminhão e os galos foram soltos na praça, no meio da multidão, quando muita gente já estava saindo do serviço para pegar os bondes e ônibus. Foi um tumulto. 
O povaréu que veio para o comício e aquele que estava de passagem ficaram perplexos. Muitas pessoas corriam atrás dos galos, para levá-los para casa. A Polícia foi chamada para resolver a questão. Mas, como o governador era Jânio Quadros, o comando policial resolveu ignorar as solicitações. 
Assustados, os galos entravam em qualquer lugar. Bares, restaurantes, edifícios, o cine Santa Helena, lojas, barracas de jornais e as escadarias da Catedral foram invadidos pelos galináceos. 
A multidão ria. Mas os promotores do evento não acharam graça alguma na iniciativa do correligionário. Quando a multidão ficou mais calma, os galos pararam de correr. Aí, começaram a cantar. 
Então, seu Tonico Brelo, o dono dos galináceos chegou junto ao secretário de Adhemar e lhe disse: “doutor, com essa cantoria toda, acho que esta eleição está em nossas mãos”. 
A noite chegou e os galos foram se aquietando. Uma parte deles foi reconduzida para o caminhão. Os demais, porém, foram levados para as casas de umas dezenas de pessoas. 
A mídia não registrou o acontecimento. É que ela estava comprometida com o governador e não queria se envolver. Nos comícios de Adhemar, só iam os pequenos jornais que estavam fora dos esquemas do governo, umas três rádios. Quando, eventualmente, apareciam, os grandes jornais procuravam apenas ressaltar as gafes do candidato que, aliás, eram muitas.
Furiosa ficou a cúpula da campanha de Adhemar. O dono dos galos apresentou uma conta bem salgada pela participação dos galináceos. Como não conseguiu receber, abandonou a campanha e passou a dedicar-se àquilo que mais entendia: briga de galos na periferia de São Paulo. 
Muita gente considerou este acontecimento a raiz da ojeriza de Jânio por brigas de galo. Logo que assumiu a presidência da república, proibiu-as, sumariamente, em todo o território nacional. 
Mas, Tonico Brelo não deu bola para a proibição de Jânio e passou a convidar amigos para assistirem às brigas de grandes campeões. Promoveu campeonatos estadual e, mais tarde, promoveu um campeonato em âmbito nacional. 
Dois galos foram disputar a final: um deles chamava-se Jânio Quadros e o outro, Adhemar de Barros. A luta, porém não chegou a terminar.
Tomando conhecimento da rinha, a polícia invadiu o local e prendeu os donos dos galos. Quanto aos galos, afirma-se que também foram presos, mas liberados em seguida. Parece que o Delegado não conseguiu achar neles nenhuma culpa. 
Dias depois, todos voltaram para suas casas. 
Tonico Brelo teve de voltar para a sua velha Paraíba. Mas não estava triste, antes pensava: “minha pequena e doce Paraíba, a terra onde vou morrer”.
Após a renúncia de Jânio, as brigas de galo retornaram em todo o território nacional e Tonico Brelo terminou seus dias promovendo rinhas e apostas por todo o Nordeste.

CORVO LUIZINHO

CORVO LUIZINHO
De segundas a sextas-feiras, os irmãos Sorriso chegavam à Praça da Sé por volta das 8:30 horas. Tinham o costume de tomar café juntos. No café, falavam de seus filhos, suas esposas, dos últimos acontecimentos com suas famílias, falavam também um pouco de política e, depois, cada um seguia para seu trabalho.
Foram apelidados de irmãos sorrisos, por terem o hábito de contarem suas histórias sempre com um sorriso nos lábios. 
Tomaz morava perto de Mogi das Cruzes, Seu Leopoldo e José, na Vila Mariana. 
Numa segunda-feira, estavam se despedindo frente à farmácia do Tesouro quando um barulho veio do céu. E, antes mesmo que conseguissem olhar para cima, um corvo caiu no meio deles. Retorcendo-se, tentando bater as asas desesperadamente, a grande ave não conseguia sair do chão. Seu Leopoldo pegou o corvo em suas mãos, levou-o até a farmácia e pediu ao farmacêutico, seu Marquetti, para que colocasse uma tala na asa da grande ave. Em princípio seu Marquetti pensou que aquilo iria lhe trazer um azar danado. Mas, como devia alguns favores aos irmãos, resolveu atender ao pedido.
Seu Leopoldo carregou a ave até um prédio onde havia uma fina joalheria e uma oficina de consertos de relógios. Perguntou ao zelador do prédio se, na varanda, havia algum espaço para o bichinho ficar. Havia. E ali ele foi ficando. 
No andar térreo, três portugueses eram proprietários de um restaurante de grande movimento. Ficaram sabendo do caso e, todos os dias, preparavam para a ave um prato repleto de restos de carne. Assim o corvo foi se recuperando e chegou até a engordar. Quando já tentava alçar vôo, resolveram levá-lo para Poá, onde Tomaz morava. E, assim, Luizinho deixou a praça onde estava vivendo, num sábado, para voltar à sua vida normal. 
Três dias depois, o corvo rondava a Catedral da Sé. Fazia evoluções em torno dos sinos. De repente, empinou o bico em direção ao Pátio do Colégio e veio, em um vôo rasante, até pousar na varanda, onde houvera passado vários meses. Na chegada provocou muito barulho. 
Como tinha muitos fãs, logo estes acorreram para revê-lo. 
Os portugueses trataram logo de preparar o almoço.
Deste modo, Luizinho foi ficando e se alimentando. Às vezes sumia. Passava algumas horas voando pelo centro da cidade e, depois, voltava. 
Parecia ter perdido o faro para carniças e bichos mortos. 
Foi fazendo sua vidinha. Mas, de repente, desapareceu. 
Como tinha uma argola vermelha presa na perna, era fácil distingui-lo. 
Foi visto em várias partes da cidade, mas não voltou mais para a Sé. 
Muitos meses se passaram. 
Numa madrugada de segunda-feira, um grupo de pessoas pregou faixas, cartazes e distribuiu panfletos na Praça.. No centro dessas peças publicitárias, aparecia um corvo.
Logo muita gente pensou que se tratava do Luizinho. 
Mas não era. Tratava-se da campanha promovida pelo jornal Última Hora contra o candidato à presidência Carlos Lacerda, governador da Guanabara. Panfletário e polemista terrível, tinha uma legião de admiradores e, igualmente, uma multidão de antipatizantes. Era um novo corvo que vinha habitar a Praça.
Os irmãos Sorriso continuaram com suas rotinas do dia a dia. Em suas conversas, sempre voltavam ao assunto do “Luizinho”, o corvo que, por muito tempo, foi o centro das atenções de muita gente na principal e mais dinâmica praça de São Paulo. 
Quanto ao outro corvo, foi cassado pelos militares. Hoje vive na lembrança de seus admiradores, muitos deles conhecidos por Viúvas de Lacerda. 

ESMERALDINO E SEU CACHORRÃO

ESMERALDINO E SEU CACHORRÃO

Esmeraldino Ramos nasceu para ser radialista. Em São Paulo, trabalhou para várias emissoras, sempre com grande sucesso. Seu programa de variedades era procurado por muitos anunciantes. Por isso, com a emissora faturando alto, Esmeraldino era a coqueluche do proprietário. Casado, pai de duas filhas, dizia-se apaixonado pelas três mulheres de sua vida: Aída, a esposa, Vera e Marilda, as filhas. 
Sua paixão, porém, guardava ingredientes estranhos. Passava a maior parte de seu tempo pelos bares e restaurantes da Praça da Sé. Das nove ao meio-dia, era o locutor empolgado, engraçado, que dava mil conselhos para as donas de casa. Passava receitas de bolos, declamava poesias, falava de Jesus, pregava fidelidade, apresentava músicas românticas. No seu programa não entrava jingles. Ele mesmo lia a propaganda, recomendando este ou aquele produto. Sua conta no banco estava engordando rapidamente. Mas, além disso, fazia negócios com imobiliárias e recebia, como comissão, lotes de terrenos na periferia de São Paulo, na Praia Grande, em Itanhaem, em Peruíbe e possuía, no Guarujá, um apartamento. Ele era o tipo de radialista que todo dono de emissora adora. 
O único defeito de Esmeraldino era o copo. Após o trabalho, estava ele sempre de copo na mão, nos bares de sua predileção. E assim, entre um negócio e outro, tomava suas longas talagadas da pinga mais pura, uma tal de Quatro Paus, que, quase por ironia do destino, ou presságio, era fabricada em Itapira.
Sua fama era tanta, que os mídias das agências o procuravam para anúncios e campanhas publicitárias, e, muitas vezes, ele dizia, do alto de seu pedestal da fama:
- Bem, só daqui a um ano. O programa está lotado e tem uma fila enorme, esperando.
- Mas não se esqueça de nós, estaremos aguardando sua ligação — respondiam os interessados.
O dono da rádio quis, certa vez, ampliar seu programa para até as 14:00 horas, mas Esmeraldino foi descartando. Disse que não agüentaria falar durante tantas horas. Corria o risco de comprometer a qualidade. E, assim, Esmeraldino ia vivendo.
Cansada da bebedeira do marido, Dona Vera, por ver frustradas todas suas tentativas de interferência, tomou uma decisão radical. Sem que ele soubesse, embarcou com as duas filhas para os Estados Unidos e lhe deixou um bilhete: “só retornaremos quando você parar completamente de beber”. Conciso e claro, atingiu o radialista como um soco na cara. Leu novamente o bilhete, saiu e bebeu mais. Ao chegar a casa, completamente bêbado, foi direto para o sofá da sala, onde ficou até no dia seguinte pela manhã. Acordou com o pessoal da rádio, batendo as suas portas. Já eram 9:20 horas, e o programa estava no ar com uma gravação. 
Tinha de ir urgente para o trabalho e saiu com a mesma roupa amassada, cheirando à cachaça, da noite anterior. Só retornou à noite para casa, após ter tomado um banho na Rádio e ter mandado buscar, na Ducal, uma camisa, uma cueca e calças novas. 
Os diretores da rádio, que já sabiam que Vera e as filhas o haviam abandonado, intervieram e providenciaram uma internação para ele em um hospital, onde permaneceu por dois dias, para desintoxicação. 
As emoções e desencontros eram fortes demais para o radialista, e a rádio tomou as medidas necessárias, para levar o programa ao ar, sem a presença dele por alguns dias. 
Sem a família, começou a ficar apaixonado pelo seu cachorro, Medonho. 
Saía com ele pelas ruas, ia trabalhar com aquele cachorrão enorme, de cara sempre fechada e bravo, que impedia que qualquer pessoa se aproximasse. O rosnar do animal lembrava um trovão.
Num domingo, estando de folga, resolveu dar uma volta de carro pela cidade. Algemou Medonho em seu próprio braço e passou a visitar seus amigos de copo. Numa certa altura, resolveu mudar de bar e ir para um da Avenida São João. Convidou dois amigos para irem com ele, mas estes não puderam ir, pois, na hora de entrarem no carro Medonho virou um bicho. “Nada de intrusos” — diziam seu rosnar e seus dentes amedrontadores. Lá foram sós, dono e cachorro.
No trajeto para a Av. São João, bateu seu carro em outro, dirigido por uma senhorita belíssima. A moça ficou levemente escoriada e, vendo seu carro novinho amassado, partiu para Esmeraldino com a fúria dos elefantes. Vendo Medonho, retraiu-se contrafeita e passou a agredi-lo apenas verbalmente, mais insultando do que buscando uma solução prática para os problemas. Aí, começou a juntar gente. A Rádio Patrulha chegou e a moça foi até o telefone público, de onde chamou o amante, um deputado muito querido na cidade e com prestígio em várias esferas. Casado, não quis envolver-se diretamente, mas ligou para os manda-chuvas da polícia, do governador, da Força Pública e outras autoridades. O delegado foi até o local e tentou conversar com o infrator. Mas, cada vez que tentava falar, o cachorro dava uns latidos ensurdecedores e amedrontadores. Não sabendo como proceder, ordenou aos pobres soldados que tirassem o motorista do carro. Mas como realizar tal proeza, com o cachorro algemado nos braços do motorista? Não conseguiram. Chegou um sargento da Força Pública, mas Medonho não distinguia patentes e ficou ainda mais furioso. Uma senhora da Associação dos Defensores dos Animais aproximou-se para protestar contra as ameaças que os policiais faziam contra o animal. A situação ficou fora de controle. A amante do deputado queria indenização, reparos materiais e morais e soltava o jargão: 
- Vocês sabem com quem estão falando?
- Senhorita, agora não é hora para falar dessas coisas, vamos com calma — dizia o delegado conciliador. 
O Delegado percebia o perigo, uma vez que a esta altura já sabia que o motorista era o famoso radialista Esmeraldino.
Assim, resolveu pedir para que o motorista o acompanhasse até a delegacia. Mas, que nada. Esmeraldino não parecia saber o que estava fazendo e nem onde estava. 
A solução foi levar o carro guinchado até o pátio da delegacia e deixar o radialista e seu cachorro dentro dele até passar a carraspana. 
Ali na delegacia, dentro do carro, dormiu por aproximadamente 12 horas. Quando acordou, umas quarenta pessoas saudaram Esmeraldino. O cachorro lambeu sua testa. Aquele sorriu. Parecia estar curado. 
Levado para dentro da delegacia, com aquele cachorro enorme, preso por uma corrente e algemado ao seu braço, Esmeraldino quis saber quem tinha feito aquilo: “onde já se viu me amarrar desse jeito ao cachorro?”.
O delegado de plantão quis fazer a ocorrência. Mas, a essa altura, o dono da rádio e o deputado, que queria permanecer no anonimato, tinham feito um acordo para solucionar o caso. 
Esmeraldino precisou ir ao banheiro. E lá se foi, com Medonho. A privada era um cubículo, de modo que o radialista ficava sentado no vaso e o cachorrão, do lado de fora, de vigília, olhando para ele.
Em seguida, despediu-se do delegado, agradeceu a todos e foi almoçar. Mas como entrar no restaurante com o cachorro ? Esmeraldino havia perdido as chaves da algema. Precisaria encontrar um chaveiro para abri-la. Frente ao restaurante, chamou alguns conhecidos, e um deles conhecia um chaveiro que morava na Aclimação. Foi providenciado um táxi para ir buscá-lo. Enquanto aguardava, muita gente começou a circular em torno do famoso radialista e de seu cão. Jornais apareceram para fotografá-lo. Estavam ambos com fome, e alguém providenciou, junto ao restaurante, comida para ambos comerem ali mesmo na calçada do restaurante. O cachorro bebeu cerveja. Tal como o dono, estava viciado. Com a chegada do chaveiro, o assunto foi resolvido. 
Esmeraldino voltou, no dia seguinte, para o seu programa. O dono da rádio, para evitar possíveis problemas futuros, resolveu gravar o maior número possível de programas e internou o radialista no Instituto Bairral de Itapira.
Os jornais divulgaram o drama do radialista e a história com seu cachorro. 
Quando saiu do hospital, Esmeraldino resolveu mudar-se para os Estados Unidos, onde sua família o esperava, assegurada de seu restabelecimento. Lá fez novos tratamentos e curso de inglês. Algum tempo depois, surgia a notícia, entre seus amigos da Praça da Sé, que Esmeraldino estava fazendo grande sucesso com seu programa em Dallas, no Texas. Até exibiram uma revista com Esmeraldino falando no microfone ao lado de seu cachorro Medonho, que havia também sido contratado para latir, toda vez que seu dono mandasse.
O radialista parou de beber, mas seu cachorro, viciado em cerveja continuou e, por isso, recebeu o nome americano de Mr. Beer. 
Esmeraldino abria o seu programa assim: 
- E com vocês. Mr. Green.
Enquanto viveram, dono e cão, foram a alegria de milhares de lares americanos. 

ESTRIPULIAS DO REINALDÃO

 

ESTRIPULIAS DO REINALDÃO

Quando sorria, e isto era a todo instante, Reinaldo Celeste mostrava os dentes mais brancos que Deus colocou no rosto de um homem de cor.
Negrão, assim chamado pelos amigos, gostava de tocar pandeiros e fazia parte da turma de André Gonçalves que aprontava pelo menos uma seresta por semana. 
Reinaldo trabalhava em um banco, na rua Boa Vista. Começou como datilógrafo no serviço de contas correntes do Banco Nacional. Sua fama, como profissional da música, tinha lá suas vantagens, pois conseguia sempre algum dinheiro a mais no fim do mês. No banco, quando seus dedos cansavam, usava os cotovelos. E também conseguia datilografar com os dedos dos pés. Mas isto, depois do expediente. 
Seu colega de trabalho, Carlos Vicente, muito jovem, admirava Reinaldo por suas extraordinárias habilidades. 
Pandeirista famoso, apresentava-se em boates e inferninhos com a turma do André. Quebrava os galhos de todos os amigos e era muito querido por eles. Naquele início dos anos 60, São Paulo possuía cerca de 2,5 milhões de habitantes e não havia repartição pública ou jornal nos quais Reinaldo não tivesse algum amigo. 
Por essas qualidades, foi guindado, em pouco tempo, para chefe do Serviço de Contas Correntes. Como chefe, passou a ser mais sério, mas sem ser excessivamente exigente para com seus funcionários, pois tinha muita facilidade para conseguir que a turma trabalhasse. E, apesar da aparente seriedade, mantinha juntos aos colegas o seu próprio estilo.
Como sua atividade de músico estivesse sempre em evidência, Reinaldo começou a ficar cansado das noitadas e relaxar no banco. Chegava sempre atrasado e reclamava porque o banco não lhe pagava horas extras.
A gerência ficava na entrada da agência e, certo dia, o gerente o advertiu, na frente de alguns clientes. Ele não teve dúvidas. Pegou uma régua e deu duas reguadas na cabeça do gerente. E, calmamente, foi trabalhar. Poucos minutos depois, foi chamado pelo Departamento do Pessoal. Ficou feliz com a demissão, pois agora poderia dedicar-se à atividade de que ele mais gostava. Desejava ser músico e sentia-se imensamente feliz pela liberdade conquistada. 
O conjunto de André Gonçalves podia contar agora com o tempo integral do pandeirista. Seu amigo do peito, ex-companheiro de trabalho no Nacional, Carlos Vicente, pediu-lhe um grande favor. Queria que o conjunto fosse tocar nas bodas de prata de seus pais. Sim, poderia ajudar com alguns trocados. Eva, a recepcionista do banco iria passar uma lista entre os colegas e também ver se poderia converter em dinheiro alguns favores que ela fazia para vários clientes. A festa foi acertada. 
Mas onde moravam os pais? Em Perus, foram informados. A única condução viável era o trem. Então, foram de trem. Embarcaram às 19:00 horas de um sábado. Lá chegando, outra surpresa: a casa de Carlos era longe e só havia um meio de chegar até lá: a pé.
A festa foi de arromba. O dinheiro arrumado por Eva deu para tudo e ainda sobraram alguns trocados que o casal iria usar para arrumar o telhado, consertar o muro, comprar um fogão novo e um aparelho de televisão. 
O conjunto fez um sucesso enorme. Não havia se constituído para animar bailes, mas, com a cuba-libre livre (mistura de rum com coca-cola), o resultado foi fantástico. Reinou pura alegria o tempo todo. O baile acabou lá pelas três horas da manhã, e toca o conjunto caminhar até a estação. Nova surpresa. O primeiro trem só sairia às 7:00 horas da manhã. Reinaldo ficou fulo de raiva. Disse aos companheiros: “eu vou passear e ver se encontro uma saída”. 
Uns quinze minutos mais tarde, um furgão parou na porta da estação, e ao volante estava Reinaldo. 
- Subam rápido, turma! Vamos embora.
As mulheres foram com ele na cabine e os demais viajaram na carroceria, pendurados nos ganchos onde eram colocadas as peças de carne. 
E assim chegaram à Praça da Sé. 
Havia uma pizzaria aberta e Reinaldo estacionou o caminhão a uns cinqüenta metros de distância de sua entrada. Ele e as mulheres desceram da cabine e, da carroceria, saíram os artistas, todos meio amassados, grogues pelas bebidas e pelo cheiro de carne verde do furgão, sujos e esconjurando o dia em que aceitaram o convite para tocar naquele fim de mundo.
Entraram na pizzaria, e Manoel Fernando, um dos proprietários, foi logo dizendo: “a nossa casa já está fechando as portas, a menos que vocês nos façam o favor de animar o ambiente.”
Era o convite para a música. Quanto ao horário e à Polícia, fiquem certo, o proprietário da pizzaria já havia feito seus arranjos.
Lá pelas seis horas, a pizzaria estava lotada. Os músicos já não conseguiam mais tocar. Já tinham chegado embalados pela cuba-libre e, ali, regaram-se da cerveja e empacharam-se com a pizza do portuga. Já não podiam mais. André Gonçalves nem parava mais em pé. “Chega de patuscadas, por uma noite.” Despediram-se e saíram. 
Na calçada Negrão falou para a turma: “vamos nos divertir mais um pouco. Esperem”. 
Foi até um telefone público e ligou para a polícia, avisando que havia um caminhão suspeito na praça. 
Logo chegou um imenso aparato policial. A revolução de 64 estava no início, e a polícia queria mostrar eficiência e serviço. Negrão ficou ali, dando risada com a peça que havia pregado. Os demais foram saindo. Depois, sozinho, ligou para o açougue Três Estrelas, em Perus, avisando que o caminhão havia sido encontrado na Praça da Sé. E, calmamente, foi dormir.
 

FINANCISTA QUE CONFUNDIU A FRANÇA

FINANCISTA QUE CONFUNDIU A FRANÇA

Para Maurice Daudet, mais conhecido como Zezinho Dodé, tanto fazia se a guerra fria dividisse o mundo entre capitalistas e comunistas. Vivia acima dessas cogitações e também muito distante de outras realidades. 
Sua vida traçava uma linha perpendicular entre o viável e o cognoscível. Não gostava de linhas tortas na sua existência prática. Fora das comuns e eletrizantes personalidades de sua esfera, Zezinho Dodé mantinha sua vida de trabalho honesto e eficiente. 
Todos os dias, de segundas a sextas, trabalhava em um escritório de propaganda, onde desempenhava vários papéis. Era desenhista criativo, com traços rápidos e dinâmicos, redator de textos, sem grande comprometimento literário, datilógrafo e secretário do dono do negócio. 
Morava numa quitinete, junto ao Viaduto Dona Paulina, e trabalhava na rua Quintino Bocaiúva, pertinho da Praça da Sé. 
Aos sábados, Zezinho tirava pelo menos metade do dia para limpar o apartamento. Desde às 7:00 horas da manhã, já estava na faina da limpeza. Tirava o pó, lavava as roupas de cama e banho, esfregava o chão, limpava a cozinha e o banheiro. Gostava de tudo em perfeita ordem. Depois, almoçava, por volta das duas horas, tirava uma soneca e saía, ao redor das 18:30 horas. 
Nesse horário já não era a mesma pessoa. Não que tanta trabalheira o tenha esvaído. Agora, de chapéu azul e pena de ganso pintada de vermelho, camisa multicolorida, calça verde, sapatilhas amarelas, não se parecia jamais com aquele homem engravatado que todos os dias chegava ao escritório pontualmente, cumpria seus deveres e saía à noite, direto para a academia. 
Seu patrão, Álvaro Bordô, um ex-oficial de nossas Forças Armadas, agora reformado, tinha muitas atribulações. Além do escritório de propaganda, que prestava serviços para o governo e agências de publicidade, possuía outros negócios. Também dedicava-se à política de bastidores e vivia, portanto, naqueles meados dos anos 60, muito bem de finanças e com intensa vida social. Membro de um pequeno, mas vigoroso partido político, estava envolvido com reuniões partidárias, projetos e muitas nomeações. 
Um dia, porém, Álvaro Bordô teve de sair do país, a negócios. Deixou tudo nas mãos de seu fiel funcionário. Assim, Zezinho passou a controlar os negócios e os interesses políticos do patrão. 
Certo dia, chegou às suas mãos um documento confidencial do prefeito, no qual pedia para que Álvaro indicasse, em lista tríplice, um nome para a Secretaria Municipal de Finanças. 
Zezinho indicou dois nomes do partido do patrão e, para preencher vaga, assinalou seu próprio nome, apenas com o intuito de completar a tarefa. 
Não imaginava, no entanto, que, dias depois, seu nome aparecesse nos jornais como o novo Secretário de Finanças. 
Quem conhecia Zezinho Dodé, teve um chilique. 
Como pode o prefeito, um homem correto e de bem, nomear para a principal secretaria do município uma bichona como o Zezinho?
Aquilo foi demais. O prefeito não queria voltar atrás. Certamente, porque Álvaro Bordô havia feito essa indicação.
A posse de Zezinho foi festiva. Convidou todo mundo que ele conhecia e a Secretaria virou um pandemônio com tanta gente colorida, com lutadores de luta livre da academia, com desocupados da Praça da Sé, com as desencaminhadas da Praça Júlio de Mesquita, taxistas, choferes de gente rica de Higienópolis, onde Zezinho fazia ponto aos sábados à noite. E nenhum banqueiro, nenhum latifundiário de peso, nenhum representante da força industrial paulistana. Apenas uma meia dúzia de empresários, todos eles ligados às empresas de ônibus. Não havia também nenhum representante do poderoso sindicato das construtoras. Enfim, o recinto parecia um circo.
O Prefeito cumpriu suas obrigações oficiais e, por não poder alegar arrependimento, alegou estar doente e saiu logo.
Os jornais resolveram não perder tempo com assunto tão insípido e, assim, Zezinho tomou posse. 
Logo nos primeiros dias, porém, ao contrário do que muita gente supunha, Zezinho começou a mostrar seu lado que ninguém ali conhecia: sua capacidade de organização e de dedicação ao trabalho.
Mandou limpar o escritório de cabo a rabo, jogou muita papelada fora, exigiu das faxineiras limpeza meticulosa nos vidros, que há muito não viam a cara de um pano ou de água, trocou os móveis de seu escritório. Tudo limpo e novo, o lustre resplendia. 
Como precisassem com urgência de melhoria de tarifas e de outras acomodações financeiras, as empresas de ônibus mandaram seus representantes para falar com o novo secretário. 
Expuseram clara, ampla e detalhadamente suas necessidades e, sorrateiramente, falaram de propina. Neste exato ponto, apareceram, como se surgissem do nada, uns caras estranhos, com perucas coloridas, roupas diferentes, e Zezinho abandonou a comitiva e, com os novos visitantes, passou a falar sobre moda, sapatilhas, calcinhas pretas, soutiens, de tal forma que os empresários se sentiram banidos do local. 
Foram embora, sem quaisquer conclusões para suas reivindicações e propostas.
Tentaram, ainda, como manda o figurino, despedir-se formalmente do Secretário, mas nem isto conseguiram, pois este estava por demasiado entretido com outras coisas.
Os empresários marcaram hora e retornaram outro dia. 
Engordaram a conversa e, usando de sutilezas, passaram a falar sobre fantasias de carnaval, festas, roupas, mas Zezinho não dava sinais de querer abrir o jogo. 
Depois de várias tentativas, um dos empresários, sentindo que as negociações caminhavam para o fracasso, decidiu dizer ao Secretário que eles estavam planejando uma grande festa e que Zezinho seria o convidado de honra. 
Inexplicavelmente, o Secretário desconversou e deu por concluída a reunião. 
Mas, ao ficar sozinho no gabinete, viu uma mala embaixo da mesa de reuniões.
Chamou seus assessores e procurou saber de quem era aquela mala. Ninguém sabia. Resolveu abri-la e verificou que estava cheia de dinheiro. 
Ato contínuo, pegou a mala e a levou até o gabinete do prefeito. 
Ao ver tanto dinheiro, o prefeito perguntou: 
- Mas onde você achou isto?
Zezinho explicou que a mala apareceu depois da saída dos empresários das linhas de transportes e que , embora já tivesse telefonado para todos eles, não conseguira descobrir o dono. Ninguém havia assumido a propriedade.
Prefeito e Secretário resolveram, então, incorporar aquele dinheiro ao patrimônio municipal, sem dar a conhecer o doador. 
Zezinho não ficou muito tempo no cargo e o prefeito morreria logo após ter deixado o poder. 
Álvaro Bordô, de volta ao Brasil, ficou estupefato de ver a ousadia de seu funcionário. Quis puni-lo com demissão. Mas, ao tomar conhecimento do caso da mala, resolveu enaltecer o seu gesto com aumento de salário, compra de carro e mudança de apartamento. 
Quando o país vivia na penumbra da ditadura militar, Maurice Daudet teve sua história publicada num jornal francês. Tempos depois, o presidente de França, Charles de Gaulle, afirmou que o Brasil não era um país para ser levado a sério. 
Houve quem dissesse que o presidente francês estava se referindo à história do Zezinho.
 

GATO ESPIATÓRIO

GATO ESPIATÓRIO

Evaristo Cabello começou a freqüentar os debates na Praça da Sé, no início de 1958.
Não era preciso perguntar qual a sua preferência política, pois na lapela de seu paletó estava sempre pregada a vassourinha de ouro que simbolizava Jânio Quadros.
Chegava na Praça, ali pelas nove horas da manhã, almoçava por lá e só voltava para casa tarde da noite. 
Seu entrevero mais sério era com a turma dos comunistas que, naquela época, tinha verdadeira antipatia por Jânio. Mas Evaristo, simpático e diplomático, pagava almoços para os mais salientes intelectuais do PC.
Com o tempo foi demonstrando seus objetivos, ou seja, angariar na Praça adeptos para os planos políticos de Jânio. 
Em primeiro lugar, eleger para governador o candidato do movimento janista, Carvalho Pinto. Em seguida, lançar para a Presidência da República o próprio Jânio Quadros.
Como tudo o que acontecia na Praça da Sé tinha repercussão através das rádios e dos jornais, Evaristo buscava apresentar sempre fatos novos aos formadores de opinião.
Quando o movimento político começou a crescer, alugou um escritório, no qual as janelas principais davam para a Praça da Sé. Dali poderia acompanhar o movimento.
Contratou uma empregada que exercia simultaneamente as funções de faxineira e de cozinheira e, com esta, veio um gato, de sua estimação, a fim de acabar com os ratos que roíam tudo ao derredor. Os armários da pequena cozinha, os móveis da sala principal estavam roídos. 
A empregada disse a seu patrão que não se preocupasse com comida para o bichano, pois, com os ratos que ali moravam, o gato não precisaria de comida extra e, seguramente, teria um estoque que iria durar por muito tempo.
Logo após a chegada, o gato vivia sempre alerta. Depois, aos poucos, foi engordando, os pelos foram ficando lustrosos, e ele já não se importava muito com os ratos. Passou a dormir sobre a janela o dia inteiro. De vez em quando, abria os olhos, dava uma rápida espiadela na Praça e voltava a dormir.
Por isso, recebeu um nome: Gato Espiatório.
Evaristo passou a gostar do gato. Este fazia alguns agrados em seu patrão, passando-lhe o rabo e as costas nas pernas, e instigava Evaristo a retribuir, deitando-se de costas para receber carinhos na barriga.
A campanha para governador começou a pegar fogo. Nessa fase da vida política brasileira, era costume dos candidatos criarem slogans ou um símbolo para as suas campanhas. 
Ademar de Barros era o galo, que mandava no terreiro, porque o candidato de Jânio, a governador, havia adotado o pintinho como símbolo. Auro Moura de Andrade era o homem da peneira. Pretendia peneirar a bandalheira de Jânio e dos demais políticos. A Praça da Sé transformou-se no grande centro político de São Paulo.
E lá, na janela do escritório, o gato Espiatório dormia, coçava-se e ia, de quando em quando, espiando.
Quando a campanha tornou-se acesa, surgiu o Movimento Popular Jânio Quadros. Foi armada uma barraca e o escritório de Evaristo foi coberto com cartazes de Carvalho Pinto e Jânio Quadros. Um serviço de alto-falantes berrava o nome de Jânio, o de seu candidato e tocava músicas da campanha. 
Evaristo chegou um dia ao escritório todo esbaforido. Havia recebido a comunicação de que Jânio viria à Praça da Sé e iria permanecer, por alguns minutos, no escritório. Tudo teria de estar muito bem limpo e preparado. Enquanto os preparativos eram feitos, Espiatório espiava. 
No dia da chegada de Jânio, a praça apresentava movimento inusitado. 
Chegava gente de toda parte que se ia aglomerando na Praça.
Jânio falaria, da sacada do escritório, para a multidão e, em seguida, iria até o palanque, onde faria o discurso mais esperado do ano. 
Jânio chegou por volta das 18:00 horas e foi conduzido, por Evaristo, até seu escritório. 
Os alto-falantes enalteceram Jânio por seus feitos e méritos e profetizavam maiores façanhas para um futuro próximo.
Rojões, caramurus, bombas, foguetes foram lançados e suplantavam, intermitentemente, os sons dos alto-falantes e a grande celeuma da multidão.
Inesperadamente, um rojão explode bem na janela onde estava Espiatório. Assustado, perdeu o equilíbrio e caiu bem na frente de Jânio. Este, por sua vez, assustando-se também com a inesperada intromissão, deu um pulo para trás, pondo em guarda imediata seus seguranças e correligionários.
Foi só uma fração de minuto e, em seguida, todos desataram a rir. Só Jânio, ainda assustado, permaneceu sério.
Carvalho Pinto elegeu-se governador.
Em 1960 veio a campanha para presidente da república e Jânio elegeu-se por unanimidade.
Baseado na aura de sua meteórica carreira política, o povo esperava de Jânio uma nova era de honestidade e seriedade em âmbito nacional. Este, porém, governou por sete meses apenas e renunciou. Sua renúncia causou um grande abalo na Nação.
Muitos anos depois, quando Evaristo e alguns amigos estavam passando frente ao escritório, aquele olhou para cima e disse:
- A queda do Gato Espiatório foi um presságio para nós. Só Jânio percebeu isto. Onde já se viu um gato preto cair bem na frente do Governador? Aquilo foi um aviso ao qual nós não demos a devida atenção. 
O Gato Espiatório sumiu desde aquele dia. Mas ficou para sempre nas histórias dos amigos de Jânio. 
Depois desses acontecimentos, o economista Evaristo Cabello ocupou vários cargos na vida pública. Preparou projetos que ajudaram a transformar muitos setores da economia. 
É um profissional que prima pela racionalidade, mas, quanto ao gato preto, crê piamente que dá azar.

GRANDE CASAMENTO

GRANDE CASAMENTO

Simpático e discreto, Damião Góis da Silva trabalhava num dos sindicatos de trabalhadores, na periferia do centro de São Paulo. Dali, da rua Álvares Machado, bastava atravessar a praça João Mendes e ele alcançava o lugar em que mais gostava de ficar: a Praça da Sé. 
Para ele, e para outras milhares de pessoas que a freqüentavam diariamente, a praça constituía o centro nervoso do pensamento brasileiro. 
Damião ia à praça, para ouvir e discutir. Curtia debates e sua palavra, reticenciosa e firme, surgia no meio de acalorados debates. Quase sempre, botava um ponto final nas discussões. 
Com o tempo passou a ser um dos líderes sindicais mais requisitados de São Paulo.
O sindicalismo desse período, início dos anos 60, estava cindido em duas partes: os pelegos amarelos, desprezados pelo pessoal do movimento de esquerda, e os pelegos vermelhos, que seguiam, mais ou menos, a cartilha do PC. 
Chamorro, líder dos tecelões, destacava sempre que Damião era a fina flor dos representantes do capitalismo amarelo. Dizia que seu patrão estava em Washington.
Damião tinha muita facilidade de ampliar seu círculo de amizades. E, após algum tempo, aumentou consideravelmente seu grau de influência, principalmente nas altas esferas do sindicalismo paulista. 
Passou a freqüentar reuniões dos sindicatos dos patrões, com a finalidade de fazer acordos vantajosos para a categoria que representava, o que, para muitos sindicalistas, era uma atitude mortal. Mas, na visão dele, o que importava era colocar mais dinheiro no bolso dos associados de sua classe trabalhadora.
A política fervia nas praças, nas escolas, nos sindicatos, nas entidades de classes e nas cúpulas das grandes associações, tais como Fiesp, Associação Comercial, Federação do Comércio, Federação da Agricultura, Sindicato dos Bancos e outras entidades muito conhecidas. 
Para combater o que os patrões e os jornais de direita denominavam de “linha comunista”, foram angariados fundos que pudessem sustentar uma organização capaz de enfrentar a ameaça que vinha de cima, do topo do poder.
A Presidência da República, segundo essas associações, estava começando a ameaçar a democracia. 
João Goulart pretendia montar a República dos Sindicatos de Esquerda por meio de manobras já bem conhecidas do povo brasileiro, aprendidas quando Getúlio Vargas promulgou leis de proteção aos trabalhadores. Tudo indicava que João Goulart estava seguindo os mesmos trilhos do ex-ditador.
Trabalhava arduamente, incitando a assembléia à aprovação da lei do 13º salário, o que representava um verdadeiro horror para os patrões e para os sindicatos dirigidos pelos ditos pelegos amarelos. 
Foi na cúpula desse movimento que Damião Góis se destacou como angariador e distribuidor de fundos que pudessem articular os segmentos de vitais importâncias para a preservação da democracia. 
Naquela época difícil e conturbada da vida política, as empresas multinacionais receberam ordens de suas matrizes para ajudar, no que fosse possível e necessário, a campanha contra a onda vermelha que crescia assustadoramente no país.
Os fundos secretos para custear o movimento democrático receberam grande ajuda dessas empresas, através das diferenças de fluxos de câmbio. O mercado paralelo de câmbio, mais conhecido como o lado negro do capitalismo, organizou rapidamente um vasto esquema, com a ajuda de organizações do tipo IBAD e IPÊS, segundo os comunistas, para derrubar o presidente Goulart e acabar com as ameaças à democracia no Brasil.
Quando os militares derrubaram o presidente, Damião Góis surgiu como elemento de confiança dos novos líderes. Em pouco tempo, estava ao lado do governador.
Era pessoa de fala mansa, porém, de vontade férrea. O governador não tomava iniciativas na área sindical e trabalhista, sem antes ouvir seu jovem assessor e conselheiro. 
A vida, para Damião, estava no auge. Assim, orgulho e vaidade tomaram seu espírito e dominaram seu ego, levando-o a imaginar que poderia atingir posições impensadas até então. 
Inflado por bajuladores, Damião pensou ser possuidor de importância bem acima da imagem real que projetava.
Queria exibir a todos sua nova imagem e importância. Andava bem arrumado, de carro novo, mudou-se para um bom apartamento e, com tudo isso, não lhe foi difícil conseguir uma namorada das altas esferas.
Uma solteirona, para aquela época, com mais de trinta anos, preencheu seus requisitos. Dos primeiros encontros, para o noivado, foi um pulo. Aliás, no mesmo dia em que começou a freqüentar a casa dos pais da namorada, já ficou noivo. Em menos de um mês, marcou o casamento. 
Os pais da noiva queriam um casamento de arromba. Tal iniciativa vinha acomodar os anseios do jovem exibicionista. Tudo foi organizado cuidadosamente e toda a fina flor da política paulista recebeu convite para o pomposo casamento. Cerca de mil pessoas encheram a igreja. Muita gente ficou do lado de fora. 
Enfeites e mais enfeites cobriam o altar, os bancos, as vigas, as paredes. Realmente, um casamento para ficar na história.
Porém, no momento em que o padre perguntou se havia alguém no ambiente que pudesse .... ou deveria calar-se para sempre, uma jovem se destacou na multidão: 
- Eu posso! – disse aos berros, e completou – Esse pilantra ficou comigo, na minha cama, até às 10:00 horas da manhã. 
Vozerio ensurdecedor na igreja.
Pessoas tentaram acalmar a noiva, e o noivo passou a gritar, negando com veemência: 
- Prendam essa louca! Eu não a conheço, nunca a vi!
O padre acalmou o ambiente e começou a fazer perguntas para a moça: 
- A senhorita é casada com ele?
- Não, seu padre.
- Tem filhos com ele?
- Não, seu padre.
- Sabe se ele é casado?
- Não, seu padre
- Sendo assim – disse o padre, olhando para a multidão de convidados –, vamos prosseguir com a cerimônia.
Desmaiada, a garota foi retirada da igreja e levada para a sacristia.
O constrangimento foi enorme, mas o casamento terminou bem.
No domingo, na Praça da Sé, os assuntos giraram em torno do casamento de Damião. 
- Foi vingança, arranjada pela oposição – dizia Benedito Crespo, funcionário do Banespa.
- Que nada, aquele pilantra estava mesmo envolvido com a moça – retrucava outro. 
Após este acontecimento, Damião Góis foi perdendo interesse pela vida pública. Terminado seu estágio no palácio, com a mudança de governador, retirou-se para cuidar de sua vida particular. Sem os holofotes da carreira pública, passou a ter uma existência tranqüila. 
Mas, na Praça da Sé, muita gente continuou a jurar que o viu, várias vezes, com a moça que tentou impedir seu casamento. 

HEROÍNA SEM IDEAL

A HEROÍNA SEM IDEAL

Amábile Vicentini tinha tudo para não dar certo. Filha de italiana com japonês, herdou de seus pais características típicas das duas raças. Seus cabelos eram pretos, para quem os olhassem de frente, mas avermelhados, se observados de lado. Olhos amendoados e tez branca, boca fina, queixos avantajados. O estrabismo lhe deu um certo ar estranho. Não se sabia nunca se ela estava prestando atenção na conversa ou se vivia em outra esfera. Busto para a frente e bem salientes, dava a impressão de que iria abalroar alguém ou alguma coisa. Passos largos e firmes, parecia desfilar como os soldados de Hitler. Tinha um ombro meio caído, de tanto carregar sacolas, grandes mãos, parecendo destinadas a espalmar o mundo. Enfim, nela tudo parecia quixotesco.
Quando falava a uma criança, suas palavras pareciam uma pequena cachoeira suave e transparente. Se desafiada, era capaz de jogar tudo o que tinha nas mãos e partir para o ofensor com a fúria de um touro bravio. Tinha o costume de jogar pedras em rapazolas e mocinhas que mexiam com ela e, por causa desse procedimento, acabou por ganhar a fama de ser de má índole. De perto, nos estreitamentos das intimidades, revelava seu lado espiritual construtivo. 
Pois a esta mulher singular coube uma tarefa das mais espinhosas. No ardor da perseguição aos comunistas, recebeu a incumbência de distribuir, no centro de São Paulo, o jornal Voz Operária. Para os comunas, todos os jornais eram vendilhões da pátria e só o Voz Operária relatava a verdade. Seus artigos eram lidos, relidos, comentados em surdina, e o mesmo exemplar passava de mão em mão, por muitas mãos. Durante esses comentários, uma palavra falada, acima do tom necessário ao secreto, poderia comprometer. Perseguidos pela polícia, os comunas faziam reuniões secretas, muitas vezes fora de São Paulo, em sítios, fazendas ou praias, longe da perseguição.
Como Amábile atravessava o centro da cidade de São Paulo, diariamente, com sacolas nas mãos, há mais de vinte anos, ela foi escolhida para uma tarefa difícil para qualquer outra pessoa. Ela era amiga até dos delegados de polícia do centro e continuaria em sua rotina, isto faria com que ninguém desconfiasse dela. Foi assim que o PC incumbiu a nossa nipo-italiana de distribuir o jornal no centro da capital paulista, após informá-la de que todo cuidado teria de ser tomado para evitar que a polícia visse a distribuição, sem, contudo, explicar-lhe detalhes do porquê.
O jornal era impresso em gráficas clandestinas, ou em oficinas de ex-militantes comunistas que haviam se tornado empresários, mas que continuavam a ser simpatizantes com a causa. 
Se imprimir era relativamente fácil, principalmente porque o trabalho de impressão podia ser feito em lugares alternados, para não chamar a atenção, distribuir era extremamente difícil, porque o periódico tinha de penetrar na boca do inimigo. Distribuição necessitava de logística. Montar um esquema de Norte a Sul, de Leste a Oeste, para fazer o jornal chegar aos militantes mais distantes, exigia planejamento, audácia, coragem, rapidez e cautela.
O comando de combate aos comunistas pertencia a um delegado de polícia que havia feito uma carreira fulminante. Em apenas um ano ele passou de escrivão de quinta classe para a de primeira. No ano seguinte, passou de delegado de quinta para de primeira. Toda essa ascensão meteórica do Delegado Fleury foi obra do general Golbery do Couto e Silva, segundo os próprios delegados que o cercavam. 
Fleury, por isso, devia muitas obrigações ao general que havia providenciado suas promoções, como também devia um outro tanto aos empresários que o ajudavam, por terem ojeriza ao movimento de esquerda. 
Ao saber que o jornal chegava, com regularidade, às barbas do comando policial, Fleury fez tudo o que pôde para descobrir um meio de coibir a distribuição do jornal no centro da cidade de São Paulo, que lhe parecia até um insulto.
Como a melhor solução para exterminar a distribuição do jornal Voz Operária, seria acabar, de uma vez por toda, com a sua impressão, Fleury recebeu ordens do Comando Militar para efetivamente agir nesse sentido.
À sua disposição foi colocado o serviço de inteligência do Exército e as polícias civis e militares fizeram uma coligação para a empreitada. 
Corre daqui, pega de lá, o jornal continuava chegando.
Porque os comunas não dispunham da inteligência militar, adotaram um sistema simples: um carro preto chegava na rua Wenceslau Brás, o motorista abria a porta do carro e dona Amábile subia. Descia, logo em seguida, com duas sacolas de pano. Em menos de uma hora, duzentos jornais chegavam ao destino certo.
As medidas tomadas contra o movimento de esquerda foram rigorosas. Centenas de pessoas foram presas e milhares desapareceram. No auge da perseguição, o motorista informou à Dona Amábile que aquela seria a última vez. O jornal interromperia sua edição e, se voltasse um dia, ela seria avisada. Triste com a notícia, decidiu guardar dez exemplares. 
Pela madrugada colocou os exemplares nos pára-brisas dos veículos do Dops, um deles no do automóvel do delegado Fleury. 
Possesso, o Dr. Fleury determinou devassa total, mas a boa senhora já andava longe.
Por muitos anos continuou sua rotina diária de idas e vindas pelo centro, pela Praça da Sé. Quando houve o grande comício das Diretas, lá estava ela, embaixo do palanque. Aplaudia os líderes que estavam tentando sepultar, de uma vez por todas, a ditadura militar. Reconhecida por um dos motoristas que lhe entregava os jornais para distribuição, ela foi homenageada e elogiada. Pelo menos alguém a considerava como peça fundamental de um grande ideal. 
Mas, só aí, descobriram seu segredo maior. Analfabeta, não sabia que o jornal que havia distribuído por tanto tempo era comunista. Como aparecia sempre um homem barbudo em suas páginas, imaginou tratar-se de um jornal católico. E o homem barbudo, o santo de sua devoção, São Pedro. Mas, naquele momento de exaltação democrática, ninguém prestou muita atenção na sua versão. Os homens estavam por demais entretidos com outros assuntos. 
Tempos depois, ficou doente e descobriram que ela morava em uma favela, tinha sustentado, durante anos a fio, dois netos, órfãos de sua única filha. 
Amábile nunca pôde entender que havia feito tanto pelo ideal de tantos homens.

ITALIANO FUMAÇA
 

ITALIANO FUMAÇA
Logo às sete horas da manhã, um senhor de chapéu, com um enorme cachimbo, atravessava a Praça da Sé. Ia direto a um prédio de sete andares, onde tinha uma sapataria muito bem aparelhada. Era ali o seu ninho de trabalho. Distribuía seus “Buon giorno”, suas “Madre mia, che bella ragazza, você está hoje”, “porco cane, che cosa parla? não me conta!” e muitas outras expressões mescladas de italiano e português, sempre no mais alto espírito. Quando o cumprimentavam e perguntavam como estava, respondia aos amigos, invariavelmente, com um “bene” e reforçava: “muito bem, obrigado!”
Às doze horas, suspendia o trabalho, lavava as mãos e o rosto e saía para almoçar. Possuía uma vasta freguesia. Era exímio artesão. Quando entregava um calçado de couro de zugue, era certo que seu Rossi reunia alguns amigos e iam almoçar na Cantina do Marinheiro, no Brás, ou, então, em uma das outras cantinas que freqüentava, nas quais era sempre bem recebido. Parecia que fazia amigos em todas as partes. 
Sempre com aquele enorme cachimbo e chapéu, com abas arrebitadas, logo ganhou apelido: italiano fumaça. Divertia-se muito quando alguém o chamava assim. Sempre refinado, gostava de vinhos bons, comida boa e farta que só os italianos sabiam fazer. Gostava também de lembrar de alguns pratos e parecia saboreá-los quando os mencionava: “Arancine alla Siciliana”, “Ossibuchi alla Milanese”, Fettucine Putanesca” e enumerava uma série de maravilhas da cozinha italiana. Possuía uma família numerosa. Filhas e filhos bonitos. As filhas chamavam a atenção pelas posturas, pelos andares graciosos e pelos constantes sorrisos nos lábios. O velho orgulhava-se da família e divertia-se com ela e com os amigos. 
Numa sexta-feira, com o dinheiro entrando farto na sapataria, combinou, com dois amigos, irem a São Roque no domingo, até um sítio que ele conhecia, para comprar vinho. Deveriam sair cedo, para virem almoçar com suas famílias. Arrumaram 9 garrafões. 
De manhã, às cinco horas, encontraram-se frente ao Correio, no Anhangabaú. Dali, rumaram para São Roque.
Entretanto, quando deu duas horas da tarde, as famílias começaram a ficar apreensivas. Nenhuma notícia. Às cinco horas resolveram ir à Delegacia, para saber se tinha havido algum acidente na estrada. Ligaram para a delegacia de São Roque e não constava nada. Somente às 11:00 horas da noite, foram encontrados. Estavam todos molhados, mas não havia chovido. Nada contaram. Cansados, foram dormir.
Na segunda-feira, começaram a surgir as primeiras versões. No sítio tinham tomado tanto vinho que perderam a hora. Depois resolveram rumar para a cidade. Um deles rolou por uma ribanceira, quebrou os garrafões. Outro não sabia onde havia deixado os seus. O terceiro não se lembrava de ter levado garrafões para São Roque. 
Como chegaram muito tarde na estação ferroviária de São Roque, só puderam tomar o último trem para São Paulo. Dormiram nos vagões e só acordaram quando o pessoal da limpeza começou a lavar os vagões com um enorme esguicho. 
“Puta madre, é o dilúvio!”
Seu Rossi era assim mesmo: muito alegre e divertido. 
Um dia comunicou aos amigos que iria fechar a sapataria. Iria embora para a Itália, onde tinha recebido uma grande herança. Despediu-se dos amigos, isto é, “piano, piano”, como ele mesmo alertava, passou bem uns seis meses despedindo-se. Foi-se. 
Um ano se passou e eis o seu Rossi de volta.
- Não gostou da Itália? – perguntavam os amigos.
- “Che bella Italia! Che bella Italia!”. Mas, que nada! Prefiro a vida de trabalho duro do que a de vagabundo ricaço.
E voltou a trabalhar, como se não fosse uma pessoa afortunada. 
Quando já não podia mais enfrentar o batente, viúvo, foi morar com uma filha. 
E assim terminou seus dias como uma pessoa de bem com o mundo.

MARCO ZERO

MARCO ZERO
 

Contos e reportagens de uma época em que a Praça da Sé foi transformada em Universidade do Povo.
por
GERALDO GOMES GATTOLINI



“Quem manda no terreiro
É o galo!
É o galo e não é o pinto!”

E lá vinha o carro de som, com um enorme galo. Era a campanha de Ademar de Barros, o inimigo político número um de Jânio. Em 1955, assim que tomou posse do governo de São Paulo, Jânio ordenou uma devassa na vida de Ademar. Este teve de fugir de São Paulo, num avião monomotor que desceu em Cochabamba, na Bolívia, quase sem combustível. Da devassa de Jânio restou uma urna marajoara, fabricada na Ilha de Marajó. Jânio dizia que esta havia sido roubada de um museu. Mas nada ficou provado. Ademar voltou, mais tarde, para outras campanhas. Ele tinha certa projeção. Foi o homem que, quando governador, ressuscitou, dos pampas gaúchos, a figura legendária de Getúlio Vargas para a presidência, na campanha de 1954. Dizia também ter construído a Via Anchieta, a Via Anhangüera e o Hospital das Clínicas de São Paulo, o maior hospital da América Latina. 
O professor Carvalho Pinto, o candidato de Jânio, carregava a fama da austeridade, mas não era um político. Demonstrou, após ter sido eleito, capacidade com seu plano de ação. Foi a primeira vez que o estado de São Paulo teve um plano de ação coerente. Carvalho Pinto foi, depois, ministro da Fazenda. 
A guerra fria entre os Estados Unidos e União Soviética formavam o centro dos grandes debates nas questões internacionais. Na frente interna, o presidente JK construía Brasília, a estrada Belém—Brasília, implantava a indústria automobilística, a indústria naval e dedicava-se a outras realizações. Seu lema de governo era: 50 anos em 5. Procurava expandir otimismo para toda a nação, mas a rapidez do progresso trouxe forte desestruturação econômica. Aumentou significativamente o êxodo rural. Falava-se muito em roubo na administração federal. 
Os debates na Praça da Sé eram apaixonados. A livre manifestação, a total liberdade de imprensa, a multiplicidade de jornais, a participação dos estudantes, aliados à crescente urbanização, faziam da Praça o eixo das grandes manifestações políticas. 

“O pinto cresceu
O galo espantou
A vassoura varreu
E o Carvalho Pinto
Venceu.”

Era a musiquinha que o pessoal do Jânio havia mandado gravar para tocar na Praça, em comemoração à vitória do professor.
Após a vitória, os debates voltaram-se para um tema que vem acompanhando o Brasil há muitas décadas: a entrada do Brasil no FMI e a necessidade de sair dele.
Naquela época, o Governo Federal usava um sistema de câmbio múltiplo. O trigo, por exemplo, tinha um câmbio favorecido, para que o pãozinho tivesse sempre um preço estável, sem sofrer as influências das oscilações cambiais. As importações de máquinas para a indústria automobilística também estavam enquadradas no sistema de câmbio favorecido. No geral, o sistema de câmbio favorecia as importações, mas emperrava as exportações. O Governo vivia em crise cambial. O FMI queria que o presidente JK acabasse com esse sistema de câmbio, desvalorizasse a moeda, para aumentar a entrada de divisas. Exigia também o fim dos gastos excessivos e o equilíbrio das contas públicas. JK dizia que tais exigências iriam levar o país ao colapso. O FMI queria também que o governo parasse as obras de Brasília. JK jamais aceitaria tais exigências. Em 1959, da sacada do Palácio do Catete, tendo ao lado Luís Carlos Prestes, o líder comunista, JK rompeu com o FMI. 
O acontecimento foi comemorado festivamente em São Paulo. Passeata de estudantes, de operários e da turma do Partido Comunista Brasileiro saiu da Praça da Sé para uma volta até a Praça da República. Depois retornou para a Sé, onde houve um grande comício. Os líderes do PCB não comemoravam apenas o rompimento com o FMI, regozijavam-se, porque o Brasil estava rompendo com o imperialismo financeiro internacional.

Nova Era

Nova Era
Dois acontecimentos importantes assinalaram o ano de 1960: a mudança da capital federal para Brasília que, segundo o presidente JK, iria irradiar uma nova onda de progresso para o interior do Brasil, e as eleições para a sucessão presidencial. 
Os jornais e as revistas da época ainda discutiam se valeria a pena ou não a transferência do centro de decisões nacionais para um lugar tão distante dos grandes centros e que ainda precisava de grandes investimentos. Também o tema da sucessão adquiria conotações diversas. Chegou-se a aventar a possibilidade de prorrogação do mandato do presidente, tendo em vista o acentuado crescimento da economia, da abertura de novas oportunidades para o povo e, principalmente, do espaço que tinha adquirido o mercado de emprego e a renda da população. JK colocou um basta a essas especulações, ao dizer que a Constituição deveria ser respeitada. As eleições deveriam marcar, segundo ele, o fortalecimento das instituições e da democracia no Brasil. 
Na Praça da Sé, as músicas vindas dos alto-falantes assinalavam , porém, que havia algum sentido nas especulações de alguns jornalistas. 

“Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria.
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Companhia.” 
Era a música predileta de JK e que havia marcado o início de todas as suas campanhas. Portanto, era possível que, no íntimo, JK almejasse uma prorrogação de seu mandato. 
Mas a onda de moralização, de ética na política e da necessidade de apurações de gigantescos roubos, estimulados por grandes obras públicas, também levavam o povo a imaginar que, depois de um acentuado surto de progresso, havia necessidade de um presidente saneador. E este personagem político estava ali, fácil de ser encontrado. Era Jânio Quadros que, no governo de São Paulo, havia feito uma administração ética e também repleta de obras. 



“Varre, varre, vassourinha
Varre, varre a bandalheira
O povo está cansado
De viver dessa maneira.”

A campanha de Jânio já estava nas ruas. O Movimento Popular Jânio Quadros instalou seu comitê central na Sé. Dos escritórios centrais, partiam ordens e iniciativas para todos os bairros da cidade e também para o interior. 
Nas eleições de 1960, era possível o lançamento de candidatos a vice-presidente sem que estes estivessem vinculados ao candidato à presidência. Milton Campos foi lançado em Minas Gerais e João Goulart apareceu nas ruas centrais de São Paulo, para o lançamento de sua candidatura.
“Na hora de votar
Dona de casa vai jangar
É o Jango, é o Jango,
É o Jango Goulart
Prá vice-presidente
A nossa gente 
Vai votar
No João Goulart.” 


No dia 21 de abril, Brasília foi inaugurada. O Presidente Juscelino pediu a alguns amigos que fossem à solenidade vestidos de fraque e cartola, para mostrar, no exterior, que Brasília não ficava no meio do mato. 
A inauguração de Brasília emocionou a nação.
Gente de todos os lugares, que freqüentava a Praça todos os dias, tinha dúvidas a respeito da funcionalidade da nova capital, mas também enaltecia a coragem de um homem que conseguiu enfrentar a burocracia, os cariocas que mamavam nas tetas do governo, as forças conservadoras e que, com um pouco mais de três anos de obras, fez surgir, no cerrado goiano, uma capital moderna que assinalava o futuro com muitas promessas de mudanças.

“Bossa Nova
É mesmo ser presidente
Desta terra
Descoberta por Cabral
Para tanto
É preciso ser simplesmente
Simpático, humano, original.”

A música de Juca Chaves, estimulada pelo próprio Presidente JK, era tocada em todas as emissoras. 
A partir de julho, a campanha esquentou. No entanto, a candidatura do general Lot não decolava. O povo dizia que nem JK estava interessado nela. E também não havia como enfrentar o furacão Jânio Quadros. A vertente da moralidade de Jânio acabou prevalecendo. No entanto, a vitória de Jânio não foi total. Embora tenha sido eleito com a maior soma de votos obtida, até então, por um candidato a presidente, contrariando os prognósticos de muitos analistas políticos, seu candidato à vice perdeu para João Goulart. 
Após ter sido eleito, Jânio fez uma longa viagem, com parada obrigatória em Londres, para passear a vontade. 
Retornando ao Brasil, montou o seu ministério com as cores da UDN, partido de oposição, liderado por Carlos Lacerda, ferrenho opositor ao governo de Juscelino a quem considerava megalomaníaco e irresponsável. 
A ênfase dada por JK à industrialização e a acolhida ao capital estrangeiro tinham colocado o Brasil na vanguarda do desenvolvimento. A média de crescimento anual foi de 11 por cento. Mas a agricultura tinha sido colocada em segundo plano. JK dizia aos seus amigos que voltaria em 1965 e, então, seu plano de metas seria totalmente centrado na agropecuária. Destacava também que, agora que a Sudene já tinha os fundamentos básicos para o desenvolvimento auto-sustentável do Nordeste, começaria por um gigantesco plano de irrigação, a partir do Vale do São Francisco, atraindo a população que vivia nas terras áridas. Para o crescimento da agricultura tradicional, abriria novas estradas no centro oeste e descortinaria uma fronteira de produção de importância fundamental para o país. 
A dupla JQ-JG iria governar o Brasil. Os comunistas da Praça da Sé diziam que Jânio Quadros não iria agüentar o isolamento em Brasília. 
Na Sé, o povo vivia grandes momentos. Discutia política, ouvia historias e deixava que tudo fluísse ao sabor de uma existência alegre, divertida e repleta de acontecimentos memoráveis. 

ROUBO DAS BROAS

O ROUBO DAS BROAS

Garboso, vestia-se com perfeição. Pedro Aranha Ludovino era esbelto, elegante e foi eleito, por uma emissora de rádio, o homem mais bonito de São Paulo, em 1963. 
Ninguém sabia de sua origem. 
Fazia todos os dias um passeio pela região central da cidade, começando pela Rua Barão de Itapetininga. Percorria o Viaduto do Chá, a Rua Direita a Praça da Sé. Depois, dirigia-se para as Lojas Sears, um dos pontos mais chiques de São Paulo. 
Quando estava na rua Direita, Pedro gostava de passear pelas Lojas Americanas. E qual seria o interesse dele por essas lojas?
Não havia qualquer manifestação de intenção de compras. Passeava o dia todo em busca de conquistas fáceis. E, como as Lojas Americanas e as Sears faziam uma seleção rigorosa de suas atendentes e vendedoras, escolhendo as mais bonitas e charmosas, Pedro descobriu a nata da beleza disponível em São Paulo.
Namorador, vivia de conquista em conquista. Arrebentava corações femininos. Mas Pedro não gostava de seu nome. Assim, passou a desfilar nomes mais distintos para si. Para uma, dizia chamar-se Daniel, para outra, Luiz Otávio. Mário Sérgio, Tony Lee, Raymond Buarque, Franco Taylor, foram alguns dos nomes que saíram de seus lábios com a maior facilidade, para parceiras distintas. 
Marcando encontros alternados, conseguiu, por algum tempo, mentir para todas. Dizia ser estudante de Direito, porque não escondia uma certa inclinação para esta profissão.
Com histórias contadas, sem pé nem cabeça, tentava manter o seu harém flutuante, como se fosse uma pena que ele pudesse ir manobrando no ar. 
Enrolador, acabou sendo enrolado. É que Pedro não possuía inteligência suficiente para manobrar as muitas mentiras que ia contando. Acabou por confundir-se com seus próprios nomes falsos, apesar de sua agenda marcar sempre o nome da garota e o nome que ele havia usado com ela.
- Mas como ? Você me disse chamar-se Tony Lee!
- Você me disse chamar-se Raymond Buarque e agora me vem com Franco Taylor?
- Você jurou que se chamava Daniel!
Com essas enrolações, Pedro acabou por ser chamado de Pedro Miolo Mole. O apelido pegou logo. Quando aparecia nas Lojas Americanas ou Sears, todos logo diziam:
- Lá vem o Pedro Miolo Mole.
Depois dessa situação constrangedora, envolveu-se mais estreitamente com os freqüentadores da Praça da Sé, onde fez amizade com um repórter da Rádio Piratininga. De tanto freqüentar a rádio, conseguiu um emprego nela. Ajudava na discoteca. Em seguida, passou por várias emissoras, até tornar-se um repórter político. Ora encontrava-se na Câmara Municipal, outras tantas vezes na Assembléia Legislativa, no Palácio do Governo, na Prefeitura. 
Freqüentava recepções e possuía o costume de encher os bolsos com salgadinhos e doces. Era um horror.
Casou-se. Isto é, a menina apareceu grávida e o pai, um delegado de polícia, exigiu que ele cumprisse com suas obrigações. Em pouco tempo tinha três filhos. A mulher, muito ciumenta, ficava sempre de prontidão, aguardando o marido voltar para casa. Mas Pedro não se intimidava. Continuava conquistando, traindo, se escondendo, negaceando amor e negando fidelidades.
Fazia amizades com facilidade. Conhecia os principais políticos. Sem capacidade de discernir, solicitava dos políticos favores absurdos, tais como levar para casa a caixa de fósforos, que o político usara, para servir de souvenir. Os políticos gostavam desse tipo de bajulação e Pedro Miolo Mole continuava no seu próprio ritmo.
Como repórter político, passou a fazer plantões exclusivos no Palácio do Morumbi. 
Por ser tão bem apessoado e estar sempre alegre, em pouco tempo tornou-se muito conhecido pelos guardas, pelas atendentes, pelos chefes de gabinetes e pelos cozinheiros e “garçons”. Dominava o Palácio. Conhecia as reentrâncias do prédio.
Ante a ameaça do Brasil não poder importar trigo, o secretário da agricultura, Herbert Levy, ordenou aos seus assessores um estudo de alternativas para solucionar aquele drama que se avizinhava. O Brasil encontrava-se com as finanças abaladas, e poderiam faltar divisas para a importação do cereal. 
Alguns dias depois, um técnico apareceu com uma solução: fabricar broas de milho. 
Bastava apenas mudar os hábitos da população. A broa, segundo ele, era muito melhor do que qualquer produto feito com trigo.
O governador Abreu Sodré gostou da idéia e, assim, foram providenciadas milhares de broas para iniciar uma campanha junto à população. 
O pessoal de marketing convocou a imprensa. Pronto, ali parecia estar a solução. 
O governador pediu para que todas as pessoas presentes experimentassem as broas e obteve delas a aprovação unânime: uma delícia!
A idéia foi aplaudida entusiasticamente e Pedro Miolo Mole transmitia, do palácio, com a voz embargada pela emoção. E, dramatizando, dizia que o Brasil não iria mais passar fome. 
O governador ouvia a sua transmissão e, senhor das facilidades, Pedro pediu permissão ao governador para levar algumas broas para a rádio. Disse que o pessoal iria gostar.
Autorizado pelo governador, Pedro dirigiu-se à cozinha e disse ao cozinheiro que, por ordem do governador, iria levar as broas que haviam sobrado.
Surgiu um problema: Pedro lembrou-se de que estava sem carro. Mas, providencialmente, um colega estava ali com uma Kombi e, assim, encontrou imediata solução para ele.
Encheram a Kombi e Pedro deu ordens: “vamos embora, enquanto temos chance”.
E lá foi Pedro, com as broas do governador.
Quando o governador e seu secretário pediram mais broas, não havia uma sequer na cozinha, pois o distinto repórter havia levado todas.
O Governador e seus assessores ficaram fulos. “Que brincadeira é esta?”, insistia o governador junto aos assessores.
Ainda bem que na rádio, Pedro Miolo Mole contava com a cobertura do patrão, pois, durante meses, foi proibido de freqüentar o Morumbi. 
Pedro Miolo Mole ficou conhecido como o repórter que roubou as broas do governador.
Algum tempo depois, provavelmente para preservar a amizade com o repórter e a sua superioridade em relação à insignificância do fato, o ex-governador desmentia o acontecimento. Mas os assessores, o dono da Kombi e o pessoal da cozinha sabiam que o ex-governador estava apenas sendo gentil.

SERESTEIRO FANÁTICO 
 

SERESTEIRO FANÁTICO 
André Gonçalves da Cunha se autodenominava “O Seresteiro de JK”. Dava ênfase a tudo o que falava. Dizia que, no tempo de estudante, havia se encontrado com Juscelino Kubitschec, em Diamantina, numa noitada de serestas que o encantou para sempre. 
A partir desse encontro, passou a gostar de cantores de músicas românticas. Seus prediletos eram Carlos Galhardo, Orlando Silva, Vicente Celestino, Sylvio Caldas, Francisco Alves, Ataulfo Alves e muitos outros. Isto sem falar nas cantoras favoritas como Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Marlene, Isaurinha Garcia, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira e tantas outras. 
De tanto ouvir os seus cantores e cantoras prediletos, passou a aprender a tocar violão. Das reuniões em sua casa, com os amigos e amigas, ficaram famosas as noitadas ao estilo diamantino. Músicas, interceptadas por café com leite, bolinhos, bolos e tortas, caprichosamente feitos pela sua mãe, que muito se orgulhava do filho, pela vocação e escolha de repertório tão ao seu próprio gosto, produziam noites agradabilíssimas.
Depois de formado, foi contratado por uma empresa paulista de engenharia. Em São Paulo, passou a freqüentar as rodas de boemia e, em pouco tempo, a participar de eventos importantes. 
Em março de 1959, começou a freqüentar a Praça da Sé. 
Havia se transformado em admirador de JK, em verdade era bem mais do que um simples admirador. Em suas conversas, logo demonstrava que era um fanático entusiasta das ações de JK. Dizia que JK já havia entrado definitivamente para a história do Brasil como o presidente que impulsionou para a modernidade a economia brasileira. A construção de Brasília era apenas uma de suas metas. Falava entusiasticamente sobre a implantação das indústrias automobilística e naval. Destacava que, antes do findar do século vinte, veículos automotores, fabricados no Brasil, seriam exportados para grandes nações, inclusive Estados Unidos. Navios brasileiros singrariam todos os mares. Aviões, projetados por brasileiros e construídos em fábricas nacionais, estariam voando em todos os continentes. Dizia, ainda, que, ao invés da siderurgia nacional produzir apenas 1 milhão de toneladas de aço por ano, passaria a produzir 30 milhões. E, aí, desfiava um rosário de futuras grandes conquistas. O Nordeste seria uma região diferente, a região Sul seria totalmente integrada com a Sudeste e, a partir desta integração, o Brasil passaria a ser o país líder da América do Sul. Nossas Universidades promoveriam uma revolução na ciência e na tecnologia, e seus resultados implicariam em um enorme salto na área industrial. A agricultura, ainda sob o regime de monocultura, passaria por uma grande transformação. Necessariamente o café deixaria de ser o carro-chefe das exportações. 
Diante de tanta eloqüência, até os comunistas ficavam divididos. Estes pregavam que Juscelino estava vendido ao capital internacional e que teria de romper com o Fundo Monetário Internacional, para demonstrar ao mundo nossa soberania. 
André Gonçalves nem prestava atenção. Parecia sonhar com o Brasil distante, vibrante, soberano, com a Bossa Nova invadindo os continentes, com o futebol projetando a vibração de seu povo alegre, acolhedor, criativo. 
Quando da inauguração de Brasília, André Gonçalves entrou na cidade chorando, tamanha era sua emoção. Ficou no trajeto do presidente, apenas para saudá-lo, de longe. Passou a morar definitivamente na capital federal e a Praça da Sé perdeu o seu mais vibrante brasilianista. 
Todas suas predições se confirmaram, inclusive a última.
Quando JK faleceu, em 1976, num desastre de automóvel, na Via Dutra, André não agüentou. Tomou seu violão e cantou, num misto de alegria e tristeza, as músicas preferidas do presidente, uma depois da outra, uma depois da outra. Ali mesmo, no terraço de sua casa, despediu-se de Brasília, de sua família e de seus amigos, dizendo: “ainda hoje vou estar com ele”. 
À noite morreu, placidamente, como, aliás, morrem quase todos os seresteiros.

Z

 
 
UM BISPO MUITO ESPERTALHÃO

Entre os anos de 1963 e 64, os freqüentadores da Praça da Sé, assim como a opinião pública nacional, estavam divididos em três alas: a dos nacionalistas radicais, a dos nacionalistas sensatos e a dos liberais. Dentro de cada uma dessas alas existiam facções que não se entendiam, principalmente pela impossibilidade de traçarem uma linha que delimitasse com clareza seus possíveis campos de atuação. Por isso, às vezes, tinham a nítida impressão de que os inimigos não estavam nos campos opostos. E esta sensação provocava desentendimentos que alicerçavam discursos calorosos para expressar vãs paixões. Na ala dos neoliberais, entendia-se que a Igreja deveria ocupar uma posição de vanguarda. Mas a própria igreja estava dividida, tendo por extremos o TFP e os democratas avançados do Frei Josaphat.
Foi nesse clima de embate político que surgiu, na Praça da Sé, uma nova personagem.
A partir de sua primeira aparição, já a figura esguia de Dino Lillo levantou suspeitas nos radicais e simpatia geral nos homens de centro. 
O Cardeal de São Paulo, Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, procurava não se envolver a fundo na política partidária. Para uns, ele era um equilibrista. Para outros, um homem cuidadoso que, apesar das aparências, não se negava a uma ponta de conspiração contra o desastrado governo federal, cujos presidentes não tinham conseguido debelar a inflação, promover melhor distribuição de renda e, conseqüentemente, eliminar a crise econômica.
Dino Lillo aparecia todas as sextas-feiras para almoçar, no Restaurante do Sol, o seu prato predileto: bacalhau à Gomes de Sá.
Seu carro, um Odsmobile branco, com frisos vermelhos, parava frente à Caixa Econômica Federal. Ele atravessava quase toda a praça e chamava muita atenção para si, por ser bispo. Isto mesmo, um bispo com todas as vestimentas características do posto: roupa vermelha, com camisa roxa, sapatos pretos, anel de bispo, solidéu de bispo, andar de bispo. Tudo nele transparecia a aura católica. 
Logo que fez as primeiras amizades na Praça, perguntaram-lhe, por ser tão extrovertido e liberal, se era da Igreja Católica.
- Como não? – respondeu.
- E o que o senhor propõe para melhorar o mundo?
- Que os melhores cuidem dos piores.
- Mas como o senhor organizaria a sociedade?
- Cada um responderia, na esfera de sua atuação, em conformidade com suas próprias possibilidades.
- O que o senhor quer dizer com isto?
- Que as normas, incluindo as leis, têm de tratar com desigualdade os desiguais.
As respostas do bispo Dino Lillo granjearam imediata simpatia. 
E, para dar maior brilho à sua imagem, certo dia, após o almoço, subiu as escadarias da Catedral e desapareceu no interior dela. Muitos curiosos assistiam à majestosa evolução e os duvidosos viram desvanecerem-se todas suas dúvidas sobre a autenticidade do clérigo.
Era um bispo católico de vanguarda, bem pouco parecido com as eminências da igreja tradicional.
Começaram a surgir boatos e falava-se, inclusive, que havia vindo diretamente de Roma, com ordens expressas do Papa, para, oportunamente, ocupar o lugar do venerável Dom Carlos Carmelo. 
Começou a vir almoçar com dois padres, ricamente paramentados. Sempre bem penteados e com as barbas raspadas com rigor, demonstravam ter cuidado esmerado com as aparências. 
Depois de algum tempo, observando o comportamento deles, algumas pessoas começaram a desconfiar. 
Os radicais desprezavam acintosamente os representantes da igreja, os homens de centro julgavam a oportunidade ótima, com a troca dos bispos, para mudar o panorama político. Assim que ele tomasse posse, tudo poderia mudar. Até os portugueses, proprietários do restaurante, não cobravam mais as suas refeições e ainda lhes ofereciam, de graça, o raro vinho do Porto que, para os demais clientes, era vendido a peso de ouro.
Dino Lillo fazia de tudo para não se envolver em debates políticos, mas, às vezes, via-se compelido a responder algumas perguntas. Possuía muita facilidade para fazer citações bíblicas e, freqüentemente, falava sobre os santos mais evidentes da crendice brasileira, com impressionantes detalhes. Tinha veneração pelos santos heróis, por aqueles que haviam dado suas vidas à causa do cristianismo.
Dono de um porte atlético e supostamente de uma história interessante, narrava ter sido na juventude, boxeador, jogador de futebol, corredor olímpico e treinador de cavalos. Um pouco mais velho, foi ser locutor de rádio e corretor de anúncios, antes de ingressar para a Santa Igreja. Chegou a montar em Campinas um escritório imobiliário, mas não deu certo. 
Na realidade, Dino havia se casado com a irmã de um general, que nunca obtivera um único namorado na juventude, no Rio de Janeiro, onde passou a morar em uma casa confortável, com todas as despesas pagas. Mas, de repente, assim como havia aparecido na família do general, desapareceu. 
Sua esposa, que idolatrava aquela presença masculina inusitada em sua vida e que concentrava todas suas atenções naquele príncipe que os céus lhe haviam enviado, ficou desconsolada. O general fez tudo para encontrar o fujão e trazê-lo, de volta, para sua irmã que se referia ao marido como terno, dedicado, amoroso. Mas não obteve êxito. 
A esposa, inconformada, insistia que nem que tivesse de passar o resto da vida a procurá-lo, ela o faria. Esta já seria uma maneira de viver para ele, de amá-lo. E, assim, finalmente conseguiu encontrá-lo e descobrir que não poderiam ficar juntos. 
É que Dino, apesar do conforto material, da vida fácil às custas do irmão de sua mulher, não tinha vocação para ser o machão que sua esposa precisava. Desconversou, frente à insistência da esposa para que voltasse com ela, e esclareceu, sem muitos detalhes, que ele gostava de outras coisas que eram incompatíveis com a vida da família do general e de sua mulher. Ela retornou ao Rio desconsolada.
Aí encontramos Dino, já maduro e seguro, desfilando de Bispo pela Praça da Sé. 
Com as suas aparentes virtudes, isto é, inteligência, cultura, capacidade de oratória, o que estaria escondendo sobre o trajeto da vida civil comum para a rigorosa disciplina da Igreja?
Aos poucos, pega dali, puxa de lá, a face verdadeira de Dino Lillo começou a ser delineada. 
Ele era, efetivamente, um bispo católico. Possuía prerrogativas neste sentido. Chefiava uma diocese e era senhor absoluto de sua autoridade, em sua região. Sua igreja, porém, possuía algumas diferenças. Não obedecia ao Papa. Não ligava a mínima para alguns dos princípios da Igreja Católica Romana. É que Dino Lillo era bispo da Igreja Católica Brasileira e sua diocese compreendia três igrejas, a dele, onde morava, e outras duas, dos amigos que andavam vestidos de padre e vinham almoçar com ele na Praça da Sé. Combatiam o preconceito e celebravam casamentos entre desquitados, separados, viúvos e solteiros, sem exigir proclamas ou documentações desnecessárias à bênção do Senhor.
Sempre que inquirido sobre a validade de tais procedimentos, respondia:
- Se Deus une, no céu, por que não podemos unir na Terra?
Logo após o golpe militar de 64, Dino Lillo apareceu em um jornal. Estava sendo procurado pelo DOPS, para ser ouvido sobre suas relações com comunistas da Praça da Sé.
Em princípio, escondeu-se, mas, mais tarde, resolveu apelar. Telefonou para sua esposa, dizendo ter-se arrependido. Queria uma nova chance. A esposa tomou o primeiro avião que pôde, da ponte aérea, e veio encontrar-se com ele. 
Ao vê-lo, atirou-se como uma meninota nos braços do amado e entregou-se toda. Ele sabia que havia ganhado mais esta.
Ele necessitava e conseguiu a salvaguarda do cunhado general, para resolver os problemas de envolvimento político em São Paulo. 
A esposa não queria saber da nova profissão de Dino e ele retirou definitivamente a batina.
Assim, a Praça da Sé perdeu o seu Bispo. 
Um outro iria surgir, alguns anos depois, mas este com o respaldo do Papa. Dom Paulo Evaristo Arns passou a desfrutar, por méritos, do reconhecimento e gratidão de todo o povo brasileiro pela sua corajosa atuação à frente das causas dos perseguidos e dos pobres.

A RENÚNCIA DE JÂNIO
Jayme Martins, repórter do jornal Última Hora, disse que o Governo Jânio Quadros estava no fim, perante um grupo de Esquerdistas da Praça da Sé, no final de julho de 1961. 
- Em que você se baseia? — perguntaram-lhe. 
- Tenho informações, recebidas do vice-prefeito, Vladimir de Toledo Pizza, de que Jânio não ficará por mais de um mês no governo. Quando muito, permanecerá até o dia 25 de agosto. Vocês devem saber que Vladimir tem amplas ligações com a linha nacionalista da oficialidade do Exército e, portanto, sente-se seguro do que está falando.
A notícia espalhou-se rapidamente. 
No início do governo Jânio, o pessoal de esquerda o combatia tenazmente. Mas, depois que Jânio enviou a Missão João Dantas para a União Soviética e outros países do bloco socialista, condecorou Che Guevara e passou a pregar a autodeterminação dos povos, portanto, contra a invasão dos Estados Unidos a qualquer país do mundo, os esquerdistas mudaram de posicionamento em relação a ele. Assim, temiam, agora, a queda do presidente.
Nos jornais, nas rádios e na incipiente rede de televisão, o combate a Jânio vinha aumentando. Muitas pessoas consideravam a atitude de buscar relações nos países da Cortina de Ferro uma verdadeira discrepância dos princípios ocidentais. 
Jânio dizia que para o Brasil sair da situação de dependência dos Estados Unidos, seria necessário abrir novos mercados no exterior. Para ele, a solução para os problemas nacionais residia na moralização dos costumes públicos e na abertura do comércio exterior. 
Naquela época, a economia brasileira encontrava-se muito dependente do mercado americano, enquanto a Europa e o Japão, devido ao desastre da Segunda Grande Guerra, faziam grandes esforços para a necessária recuperação econômica.
O Brasil enfrentava um grande constrangimento cambial e não havia crédito externo que pudesse proporcionar ao Governo condições de manter uma administração sustentável. 
Além disso, agora que o Presidente acenava para uma ampla abertura externa, aparentemente sem preocupar-se com a guerra-fria, os órgãos de financiamentos americanos estavam fechados para o Brasil. 
Somando-se a esse panorama pouco favorável, o Presidente contava com a antipatia da maioria do Congresso Nacional que era dominada por forças conservadoras. 
Avaliando a situação com seus assessores e amigos, o Presidente Jânio afirmou que não via como realizar grandes reformas, sem fechar o Congresso. 
Para completar o quadro de pressão, Jânio também já não mais contava com a imprensa conservadora e com a cúpula da Igreja Católica, esta muito influente naquela época. 
A afirmativa de Vladimir Toledo Pizza a Jayme Martins tinha, portanto, o condão da fluência da conjuntura para uma situação de impasse político, cujo desfecho poderia ser a renúncia do Presidente.
Os jornais que haviam apoiado abertamente sua candidatura publicavam extensos editoriais para afirmar que o Presidente tinha se desviado do pensamento ocidental, para enveredar-se por um caminho de retorno impreciso e incerto.
O Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que havia apoiado a Candidatura de Jânio, estava agora na oposição. Com recursos disponibilizados por empresas norte americanas, tinha acesso direto à rádio, à televisão. Seus artigos, publicados no Jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, de sua propriedade, eram reproduzidos e publicados em todo o território nacional, por jornais menores. 
Foi nesse ambiente conturbado que entrou a Igreja, através do arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jayme Câmara, para colocar ainda um pouco mais de lenha na fogueira. Sua oposição ferrenha ao Projeto de Lei do Divórcio, que tramitava pela Câmara e havia sido elaborado pelo deputado Nelson Carneiro, induziu-o a uma participação ativa contra o Governo.
Conhecido nacionalmente, pelos católicos, e muito influente na comunidade como um todo, Dom Jayme inicia uma campanha para angariar fundos para um programa concreto de combate àquilo que ele denominava de “o perigo comunista”. Ele afirmava que o Presidente estava levando o Brasil para a órbita Soviética e isto poderia provocar uma guerra civil com grandes conseqüências internas e fortes conotações internacionais. 
Um grupo de pessoas foi convidado por Franco Montoro para ouvir o Presidente, na casa deste. O pessoal da Praça da Sé indicou cinco representantes para ouvir o que o Presidente tinha a dizer. Jânio afirmou, nesse encontro, que forças internacionais estavam manobrando para derrubá-lo, mas ele estava certo de poder contar com as Forças Armadas para defender a democracia. 
Ao retornarem à Praça da Sé, naquela noite de 28 de julho, estes representantes demonstravam real preocupação com o estado de ânimo do Presidente. Poucos dias depois, o Presidente fez um pronunciamento e desanuviou o ambiente.
Aparecendo e permanecendo por pouco tempo na Praça da Sé, o jornalista João Batista de Godoy Moreira, redator do Diário de São Paulo e assessor de imprensa da Fiesp, disse que membros das entidades de cúpula das classes produtoras de São Paulo estavam se reunindo, secretamente, para uma avaliação mais precisa da situação. Se houvesse a queda de Jânio, o sucessor, em conformidade com a constituição, seria o vice, João Goulart, que era visto como inimigo dos empresários. 
João Goulart tinha sua base de sustentação junto aos sindicatos, em São Paulo. Daí provinha a antipatia dos empresários pelo seu nome. 
A situação tinha a aparência de normalidade quando, no dia 23 de agosto, o governador Carlos Lacerda fez um violento pronunciamento contra Jânio. No dia 25, o Presidente renunciaria.
Para a Praça da Sé convergiam pessoas vindas de toda São Paulo. Todos queriam obter informações. Onde estaria Jânio? Tornou-se evidente que o Congresso Nacional foi convocado e, em pouco tempo, declarou vago o cargo de Presidente da República. Por essa ocasião Jânio já se achava em Cumbica, reunido com o Governador Carvalho Pinto. De nada adiantaram os apelos dos amigos para que o Presidente voltasse atrás.
Foram também inúteis os esforços, durante reunião que alguns senadores fizeram com o presidente do Congresso, Auro Soares de Moura Andrade, para controlar a situação. Em verdade, Auro e o Presidente haviam se desentendido em 1958, por questões ligadas à sucessão do governo de São Paulo e tudo indicava que o presidente do Congresso Nacional via ali uma oportunidade de vingança.
Partidos políticos, instituições, empresários e cidadãos comuns externavam, das mais variadas formas e pelos múltiplos canais de mídia disponíveis, seus sentimentos em relação àquilo que parecia ter sido uma decisão precipitada de nosso Presidente, mas que, sem dúvida, acarretaria graves conseqüências para o país.
Uma dessas vozes, a de Antônio Sampaio, estudante da Faculdade de Direito da São Francisco, militante não radical da esquerda comunista, analisava as questões políticas com um certo sentido pragmático. Dizia não ter ilusões e saber que o comunismo, como o conhecíamos até então, não tinha força galvanizadora. Não iria prosperar nos próximos cem anos, mas ganharia força, a partir do momento em que o povo tivesse acesso à educação e cultura. Ele, particularmente, estava satisfeito com as últimas atitudes de Jânio Quadros, principalmente com a abertura política para o mundo socialista. Com essas atitudes, Jânio contrariava os interesses americanos no Brasil e, por extensão, os privilégios das elites endinheiradas.
Sampaio dizia, ainda, que o Brasil só iria sair da situação de dependência e escravidão em que se encontrava quando se libertasse do jugo das forças conservadoras. Para isso, seria necessário formar um partido político com base nas forças autênticas do operariado. Para sua atuação pessoal dizia que, quando se formasse, iria montar escritório de advocacia no ABC e trabalharia exclusivamente para a classe operária. 
Muitos anos depois, já famoso por seu idealismo, iria trabalhar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e, ali, influir na formação do PT.
Quando Jânio renunciou, dizia aos seus amigos, da Praça da Sé, para prestarem muita atenção no futuro político, já que, em decorrência dos recentes acontecimentos, as forças de direita estavam se aglutinando nos bastidores e provocariam grandes alterações. A queda de Jânio, representava, para ele, apenas o prenúncio de grandes borrascas políticas. 

ENGANANDO O DELEGADO

Em 1966, o ambiente político estava mais calmo do que havia estado nos dois anos anteriores. Alguns líderes comunistas encontraram-se com seus camaradas em alguns pontos alternados da praça da Sé. Às vezes, reuniões secretas eram feitas dentro da Catedral. Cada companheiro ia chegando, ocupando um determinado banco, aguardando que os demais chegassem e se acomodassem, enquanto fingiam orar. Dirigiam-se a um determinado altar, continuavam a fingir que oravam, trocavam informações e debandavam-se nos intricados movimentos da Praça.
Em decorrência da opressão militar dos anos precedentes, a fim de receber informações e traçar novas diretrizes políticas para o futuro imediato, seria necessário a realização de um congresso com a participação dos líderes de todos os estados. Trazer de todas as remotas partes do Brasil os companheiros, com o intuito de restabelecerem a organização perdida, parecia ser necessário ao Partidão. Este era, contudo, um empreendimento árduo, se não um verdadeiro desafio. 
Prender os principais comunistas brasileiros em uma única tacada, seria a glória para o Delegado Fleury. E ele, certamente, estava atento. 
A ligeira calmaria que reinava no Brasil poderia ser simplesmente uma estratégia da Política de Repressão. 
Mesmo assim, Carlos Marighela, o mais procurado de todos eles, deu a palavra final: o Congresso se realizaria e, para isto, bastaria enganar o delegado.
Marcado o Congresso, os convidados começaram a chegar a São Paulo. Convencionou-se que cada um dos participantes só receberia as instruções quando chegassem a São Paulo e que, dali, seriam conduzidos por guias em pequenos grupos. Foi indicado um alcagüeta da polícia para passar informações falsas. Desta forma, a polícia foi informada de que Marighela estava na Bahia, para a realização de um Congresso do PC. 
No dia marcado, à medida que foram chegando, os convidados eram conduzidos em ônibus, carros, caminhões para São João da Boa Vista, de onde, após várias precauções, eram levados a uma fazenda, de propriedade de um capitalista simpatizante com as causas dos trabalhadores e com as do PC.
A sede da fazenda estava localizada numa colina que possibilitava ampla visão, dando, assim, condições para que os participantes do Congresso pudessem enxergar qualquer movimento suspeito à longa distância.
Os participantes começaram a chegar na fazenda na sexta-feira à noite em intervalos de quarenta minutos. Tinham de deixar os veículos afastados da sede da fazenda e de vir até ela a pé. 
Ao adentrarem a sede, receberam instruções severas concernentes à segurança de todos, pois ali se concentrava a força ativa do PC. Camaradas encontraram camaradas que não viam há muito e confraternizaram-se entusiasticamente. Demonstravam a mais genuína alegria. 
Um grande número de pessoas já havia chegado, o fluxo de chegada foi diminuindo, mas só Marighela não aparecia. Estava escondido em uma cabana, próxima à sede. 
O Congresso teve início às 8:00 horas de sábado e foi interrompido às 12:00, para o necessário churrasco. Às 14:00 horas retornaram aos debates. 
Para a organização de grupos de sentinelas, resolveram fazer um sorteio. 
Para guarnecer a porteira principal, no turno da meia noite, foram sorteados Marighela e Cid Tavares. Os companheiros protestaram, pois achavam que Marighela deveria ser poupado. Mas ele achou isto um insulto. Não queria privilégios. 
Com dois fuzis e uma metralhadora, foram fazer a rendição dos companheiros. 
Cid Tavares ainda contava, muitos anos depois, como foram aquelas horas com Marighela: “ele olhava para o céu, sorria para as estrelas: 
- Veja Cid, quanta harmonia no céu! As estrelas e os planetas em perfeita sincronia. Velhos e jovens, grandes e pequenas, vivendo o esplendor do momento. E nós aqui, na Terra, empunhando armas que podem matar nossos irmãos.
Refletia um pouco, sob os sons da noite no mato, e continuava:
- E o que nós queremos? Nada além de implantar na Terra essa harmonia do céu. Por que têm de haver tantas divergências aqui na Terra? Não poderia ser tudo diferente?
A paz reinava nos derredores, eu não sabia o que dizer, além de concordar, e ele, após perscrutar por várias vezes o infinito, continuava: 
- Olha Cid, o que o nosso partido quer é dar igualdade, fraternidade e o socialismo para todos. Acabar com os exércitos, extinguir a opressão, as polícias de todos os tipos, as armas. E com o dinheiro não gasto nessa corrida armamentista, eliminar a fome no mundo. 
Eu concordava com frases curtas. Às vezes uma única sílaba, às vezes, duas ou três. Depois, perguntei a Maringhela se ele não tinha medo de ser morto, já que era o homem mais procurado do país”.
Marighela respondeu: 
- Se for para ser morto pela causa dos miseráveis e dos trabalhadores, gostaria de ser pranteado como herói. Deixarei para eles uma semente que poderá germinar e, desta forma, minha morte não terá sido em vão.
Foi este o nosso principal diálogo, enquanto tiramos guarda.”
Durante o Congresso daquele domingo, Marighela pedia para que todos fossem confiantes, pois a causa do PC era Universal e que todos, no futuro, iram se glorificar. Salientava, contudo, que era preciso apressar a chegada desse dia. Ele não viria sem muita luta. 
No domingo as palestras e debates foram encerrados às 13:00 horas, para que todos pudessem retornar às suas casas. Marighela com três companheiros foram os últimos a abandonar a fazenda. Esperaram escurecer. 
Seguiram em um carro. Passaram pelo centro de São João da Boa Vista, por volta das 21:30 horas e seguiram, pela Anhangüera, com destino a São Paulo. Na altura de Americana, quatro policiais pararam o carro. Houve um grande susto. Segundos antes do carro parar, Marighela disse: “Adeus companheiros. Parece que estamos fritos”. Marighela estava sentado no banco traseiro, ao lado de Antônio Galdino que viria muitos anos depois, ser candidato à Vice-Governador na chapa de José Dirceu. Dentro do carro, todos, com exceção do motorista, haviam engatilhado seus revólveres. 
Os policiais se aproximaram e um deles dirigiu a palavra ao motorista: 
- Será que vocês podem ajudar a tirar um carro da ribanceira? Ele perdeu o controle, saiu da pista e há uma pessoa dentro dele. 
Todos se prontificaram, com exceção de Marighela que alegou ser cardíaco e não poder fazer força. Assim, ficou sozinho dentro do veículo, pois tinha medo de ser reconhecido.
Empurraram o carro, a pessoa foi socorrida e os viajantes continuaram viagem com os agradecimentos da polícia.
Já distantes do local, todos riam muito e se divertiam com a situação. 
- Senti que nascemos de novo — disse Marighela. 
Decidiram que seria melhor dormir em Jundiaí e lá se separariam. Assim fizeram. Marighela foi de trem para São Paulo, vestindo um macacão de mecânico da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
Dias depois soube-se que a polícia havia organizado um gigantesco aparato sobre a ponte Jaguaré, na Via Anhangüera, para prender Marighela. 
Quando perguntamos ao Cid Tavares, como o PC conseguiu realizar aquele congresso, ele responde simplesmente:
- Enganando o delegado.

DITÃO CHEIROSO

Ditão cheiroso andava sempre com duas sacolas pela Praça da Sé. Dentro delas, várias garrafas e litros. Ele chegava com vários engradados de madeira em uma perua velha. Começava bem cedo a sua trabalheira. Entrava e saía de todos os bares e restaurantes da praça e das imediações.
Ditão tinha um cheiro muito característico. Cheirava a essências estranhas que ninguém conseguia descobrir o que eram. 
Numa manhã de segunda-feira, os amigos de Ditão levaram um susto: a foto dele estava estampada nos dois matutinos populares, Última Hora e Notícias Populares. Tinha sido preso em flagrante, por falsificação de bebidas. 
Ali mesmo, na Praça, os amigos resolveram tentar ajudar e contrataram um advogado para tirá-lo da cadeia. Mas não teve jeito. Ditão já era reincidente e, agora, para piorar a situação foi pego vendendo uísque falsificado. Se fosse preso vendendo pinga falsificada, certamente seria solto na hora. Mas uísque? Bebida de rico e de classe média, isto a polícia e a justiça não podiam tolerar. 
Ditão foi condenado a passar alguns anos no Carandiru. 
Logo que chegou, os presos começaram a conhecer a sua história. Fabricante de bebidas finas, como ele mesmo se intitulava, havia tido azar. Agora, iria descansar. Comer e beber à custa do Estado. Dormir bem, tomar banho, jogar, contar histórias, ouvir anedotas, enfim, um vidão. Para ele, tão sacrificado retirante do Nordeste, até que não estava ruim. “Melhor do que ficar em minha terra”, dizia sempre.
Mas havia alguém de olho nele, na penitenciária. Era Zuim Barboza, o chefe de uma vasta rede de interesses. No pátio, pegou Ditão para conversar. 
— Olha aqui, Ditão, você pode ter tudo comigo, se for sincero. 
— Sinceridade é comigo mesmo.
— Bem, Ditão, me diga uma coisa, como você fabricava uísque?
— Fabricar uísque não é difícil. É manha. Mas eu fabricava outras bebidas também, como groselha, vermouth, conhaque e até perfumes. 
— Mas como você conseguia fazer?
— Era fácil. Eu tenho um fornecedor, o João, que trabalha numa fábrica de essências. Ele me arrumava tudo o que eu precisava.
— E ele pode ainda continuar a fazer isto?
— Pode. É só ter dinheiro para pagar.
— Então, Ditão, você vai continuar a ter muito trabalho.
— Como assim?
— Você vai fabricar bebidas, aqui mesmo.
— Mas como?
— Deixa isto comigo. Vou montar as telhas. Construir a rede, você tá ligado?
— Um pouco.
— No momento certo, você volta a trabalhar.
Uma semana depois, Ditão foi convocado para trabalhar de ajudante de cozinha.
Ali começava a nova fase na vida de Ditão Cheiroso. 
Zuim Barbosa era também o responsável pelo abastecimento e distribuição interna de comida. Tudo arranjado com a direção. 
— Ditão, agora você precisa me dizer onde mora esse fornecedor. Convoque sua mulher, para ela colaborar com as compras de essências para nós. Ela sabe onde mora o fornecedor, não sabe?
— Sabe sim. Ela já ajudava no negócio, antes de me prenderem. Deixa comigo.
— Você faz as listas, ela compra tudo direitinho e deixa lá na casa dela. Nós vamos lá buscar e trazemos para cá.
— E como será feito isto?
— Fácil. Entra tudo dentro dos latões de leite, de caixotes e sacos, tudo numa boa. 
— E onde vamos fazer as bebidas? Precisamos de vasilhames grandes. 
— Isto já temos de sobra. Caldeirões gigantes não faltam por aqui. Já requisitei mais dois.
— E quando começamos? 
— Quando as essências chegarem. 
— Agora, Ditão, é só fazer a lista. 
Ditão fez as listas, com as essências necessárias para a fabricação de vermouth, groselha e conhaque, e entregou ao Zuim.
Poucos dias depois, a cozinha do presídio passou a ser também uma fábrica de bebidas. 
Os elogios dos presos eram gerais. 
Além da distribuição interna havia também uma externa, tudo bem controlado.
Alguns anos depois, Ditão foi posto na rua. 
Livre, experiente, tinha agora novos planos. Iria fabricar as bebidas dentro da lei e da ordem. 
Quando estava preso, ganhava R$ 0,30 por litro vendido. Agora, desejava ganhar muito mais.
Arrumou dois sócios, ambos colegas da prisão, que também já estavam curtindo a liberdade e, assim, nasceu mais uma fábrica de bebidas, em São Paulo. 
O fornecimento para os bares e restaurantes da Praça da Sé e para o centro continuou por muito tempo. 
As essências que Ditão utilizava para fabricar as bebidas eram tão fortes que os cheiros impregnavam-se nele.
Um infarto tirou Ditão deste mundo. 
Morreu cedo, aos 48 anos, provavelmente intoxicado pela exposição excessiva às inúmeras essências que usava.
Essas essências eram tão fortes que, mesmo depois de morto, seus cheiros impregnavam o ambiente e incomodavam as pessoas que foram ao seu velório. 
Sua mulher continuou por algum tempo no ramo e, mais tarde, vendeu sua parte na fábrica para os outros dois sócios. Voltou para sua terra, no Ceará, podre de rica.

A ANÉSIA DO CAPITÃO

Todo mundo, no quartel, tinha o maior respeito pelo comandante, Capitão Barboza, assim conhecido por todos.
Depois de ter ficado viúvo, demonstrava uma certa melancolia. 
“A viuvez é assim mesmo”, diziam os soldados para confortá-lo.
Mas o capitão tinha outra coisa em mente. Não era a viuvez que pranteava. Agora, solteiro novamente, sonhava rever sua antiga namorada. “Uma flor, entre as mais belas flores. Uma Diva, a mais bela das Minas Gerais.”
Depois que os soldados ficaram sabendo, passaram a lhe perguntar:
— Quando o senhor vai para os sertões das Gerais?
— O que está esperando para correr atrás de sua Diva?
— Um dia, um dia eu tomo coragem.
Havia sempre sido muito cuidadoso com o corpo e não cansava de repetir a máxima de Platão “corpo são em mente sã...” e exaltava a necessidade de cuidados pessoais, de preservação das dádivas naturais. 
Aposentou-se e, num certo dia, arrumou suas coisas. Vestiu o melhor terno, o melhor sapato, tudo combinando, e voltou para o torrão natal. 
Não contou o motivo da viagem aos parentes. Dizia, simplesmente:
— Vim rever o meu povo. 
Anda daqui, anda de lá, sempre conversando e espreitando, até que soube onde morava a sua adorada Anésia.
Morava num sítio pras bandas da quebrada do Zeca Leite.
Tomou coragem. Ele que era tão valente para lidar com os bandidos de São Paulo. Por que não? Iria sim rever a sua amada.
E lá se foi, o intrépido comandante. 
Chegou, foi apeando do cavalo. Viu uma velhinha varrendo o quintal. Toda suja, cabelo sem vida, desgrenhado, sem dentes. 
Perguntou:
— A senhora pode me dizer onde mora a dona Anésia?
— Tô aqui, meu senhor, pra lhe servir.
O capitão teve um chilique. Onde buscar forças para tanta decepção?
Perdeu o controle, olhou por instantes atônito para aquela figura e, sem saber o que dizer, disse, simplesmente: 
— Obrigado. 
Subiu no cavalo e foi-se, sem olhar para trás. 
Voltou para São Paulo, arrumou um novo trabalho como chefe de segurança em uma empresa privada. 
Quando encontrava os velhos companheiros, e estes lhe perguntavam sobre seu antigo amor lá das Gerais, respondia:
— Ainda não pude ir até lá. Um dia, quem sabe?
Para sua filha contou a verdade:
— O passado é para ser lembrado, nunca para ser revivido.

CHUMBOS TROCADOS

Mister Carvalho era o protótipo da pessoa bem sucedida. 
Diretor de multinacional, com apenas 32 anos de idade, era bem formado, com inglês fluente e casado. 
Tudo nele recendia o perfume do sucesso. 
Era fechado, taciturno, soberbo, mantinha todo mundo à distância, no estilo britânico. 
Tão importante na empresa em que trabalhava, tinha apenas um casal de amigos. 
Jantavam juntos sempre às quintas-feiras. As crianças dos dois casais eram amigas. 
Mas, com o passar do tempo, foram aparecendo alguns sinais de preocupação no rosto do tão importante diretor. Suas maneiras, de recatadas, passaram a ser quase hostis.
As secretárias procuraram descobrir o que poderia estar acontecendo, mas dele nada transpirava. 
A única pista que parecia aflorar de tão compenetrado e eficiente executivo era o fato de que em todas as tardes de terças-feiras ele desaparecia. Não deixava telefones para contatos e nem chamava a empresa.
Estaria aí a chave do mistério, já que, de resto tudo parecia ser uma rotina altamente satisfatória?
Pensaram que, talvez, o problema estivesse relacionado com sua esposa. 
E, realmente, estava.
Certo dia o executivo ligou para sua mulher e pediu para que levasse os filhos para a casa da mãe dela. Ele tinha um assunto urgente e importante para discutir com ela.
Chegou a casa mais cedo do que o habitual e tentou, como era seu estilo, ser prático, claro e conciso. Não conseguiu. Balbuciou algumas palavras, mas eram desconexas, ininteligíveis. Tão fora do seu normal. Deu murros na parede, chorou. 
— Conte para mim o que o aflige, meu amor. Seja qual for o problema, eu saberei compreender.— dizia a mulher, tentando ajudar.
Tomou uma dose dupla de uísque, acalmou-se um pouco e resolveu enfrentar a mulher:
— Sabe querida, eu guardo um segredo há quatro anos. Mas já não agüento mais. É que sou amante de sua melhor amiga.
Sem pestanejar a mulher disse calmamente:
— Ah! Querido. Você me tirou um peso da consciência. É que eu sou amante de seu amigo há uns três anos.
Carvalho se indignou. Quase bateu na mulher. Como podia ela traí-lo com seu melhor amigo?
Como podia falar tão calmamente, enquanto ele se digladiava para encontrar uma forma de não magoá-la mais do que o necessário?
Mas, orgulhoso, de maneiras britânicas, engoliu o impacto, para pensar mais demoradamente sobre a situação.
Alguns dias passaram, até que ambos pudessem absorver as traições.
Conversaram, conversaram, inicialmente, em dois. Conversaram, posteriormente, com seus respectivos amantes e chegaram a um acordo: os homens mudariam de casa.
E assim foi feito.
Mas, obviamente, tal mudança, apesar de nosso herói ser pessoa reconhecidamente reservada, ficou conhecida de muitos.
Superior à mediocridade social, fingiu não ser atingido.
Fato é que, depois disto, Dr. Carvalho passou a ser mais humilde, deixou mesmo de ser o executivo de nariz empinado. Afinal, chumbos cruzados merecem respeito. 
Atualmente, após muitos anos, os dois casais voltaram a jantar juntos nas quintas-feiras, no Clube Inglês. 
É melhor amigo pra cá, amigão pra lá ...

JURINHO É COISA SAGRADA

Seu Polite andava bem devagar. Seus amigos diziam que era para não gastar os sapatos. 
Era considerado muito rico e também muito esperto.
Uns diziam que era Judeu, outros acrescentavam que não tinha pátria. 
A pátria dele é o dinheiro! — diziam.
Ele ria dessas gozações e dizia: 
— Vocês não sabem de nada.
Conhecido por ser rico, vivia de emprestar dinheiro.
Quando aparecia um pato, os juros eram mais altos. 
Quando o cliente não podia pagar, falava em voz chorosa: “Pelo menos paga os jurinhos. Jurinhos são coisas sagradas”.
Seu Polite era contra casa própria. Ele possuía muitas lojas comerciais. “Casa própria é um engodo. Sempre a gente precisa ir arrumando, consertando. Na casa de aluguel a gente não precisa fazer nada disso. Economiza. E, se tem algum vizinho ruim, a gente vai embora. Se a casa ameaça cair, a gente aluga outra”
E quando alguém lhe perguntava como tinha ganho a sua fortuna, desconversava.
Mas seus amigos mais íntimos diziam que ele havia posto fogo na loja da 25 de Março. 
Nas vésperas de Natal, mandou colocar um Papai Noel gigante na porta de entrada. No dia de Natal, provocou um curto-circuito. Incendiou o prédio todo.
Estoque já não tinha mais. Tinha seguro do estoque que já não existia. Havia vendido tudo à vista, a maior parte sem nota fiscal. 
Em seguida, apareceu com um escritório super chique na Rua Anchieta. Andar todo, carpetado. Dizia para os amigos: 
-- Não é meu. É do meu filho.
Muita gente vinha do exterior para fazer negócios. Algumas pessoas desconfiavam dos tipos dos clientes. 
Até que um dia, o escritório permaneceu fechado. Os jornais publicaram notícias de um grande golpe. O filho havia fugido.
Alguns anos depois, o velho voltou a andar pela Praça da Sé, rua da Boa Vista, Pátio do Colégio, sempre fazendo negócios de agiotagem e sempre repetindo:
“Jurinho é coisa sagrada. Eu não quero receber o principal agora, filho, vá pagando o jurinho. Você sabe, jurinho é coisa sagrada.

MANDINGA DA BRAVA

Seu Delmiro chegou de Portugal em 1955. 
Veio tentar a vida no Brasil. Em sua terra natal as coisas estavam difíceis.
Logo arranjou emprego com um alfaiate. O patrão atendia a freguesia, cortava, e Seu Delmiro costurava.
E assim foi vivendo, até que lhe surgiu a oportunidade de entrar nos negócios das pensões. 
Alugava casas grandes e depois transformava os cômodos em “vagas para rapazes ou moças”.
Foi ganhando dinheiro. Até começou a paquerar. 
Conheceu Marina, a namorada que passou a ser a luz de sua vida. 
Dizia a todo mundo que estava apaixonado. 
Num fim de tarde, recebeu Marina em sua sala. Seu Delmiro fechou a porta a chaves. Mas, de repente, começou um alvoroço. 
Saiu da sala aos tapas com o amor de sua vida, expulsando-o com sopapos e pontapés. 
Acorreram curiosos, a quem ele reclamava:
— A gaja me enganou. Não era mulher, era homem. 
Mais tarde, tentou paquerar uma mineirinha, mas esta já foi lhe dizendo que preferiria dormir com bichos a dormir com o portuga.
Sem alternativa, mandou vir a mulher e mais as cinco filhas lá de Portugal. 
No início, alojou a família em dois quartos. Um era o dormitório das meninas, o outro era o quarto do casal, a sala de refeições e a cozinha.
Alugou mais uma casa na rua Albuquerque Lins. Nesta passaram a ocupar a parte da frente e “no fundos” instalou 18 vagas. 
Esse novo negócio era para a esposa. Não metia o bedelho. Só fazia a exigência de que dali tinha de sair o dinheiro para sustentar a família.
E foi ampliando sua rede de pensões e de casas de aluguel.
Jamais abandonou o ramo de alfaiataria.
Aos amigos que lhe diziam ser ele unha de fome, respondia: “as pensões e o aluguel são o meu ganha pão.”
Antes de morrer, tornou-se proprietário de hotéis. Todos de curta permanência. Não queria mais saber de inquilinos. Com o passar do tempo iam fazendo amizades, querendo vantagens, dando calotes. Eram todos uns ingratos. 
Lidando com o giro rápido dos hotéis, não ficava conhecendo os inquilinos. Assim era melhor. 
Tentou voltar para Portugal, mas seu coração já era brasileiro. 
Mandou colocar este epitáfio em seu túmulo:
“Esta terra tem mandinga e das bravas. Me pegou para sempre”.

EVERINA, A EMPREGADA

Cansada dos atropelos do lar e das empregadas paulistas, Dona Marly pediu para que seu tio lhe mandasse uma empregada dos sertões das Alagoas. Requisitos básicos: ser limpa, conhecer bem os serviços domésticos e que não fosse muito bonita para não atiçar o marido. E mais: que não tivesse certos vícios, pois dona Marly detestava cigarros e não tolerava álcool e outros mais tão em voga com as empregadas de hoje.
Exigia, finalmente, que já tivesse o sexo gelado, para evitar transtornos insuportáveis. 
Católica fervorosa, Dona Marly transpirava virtudes. 
Tempos depois, num domingo, por volta da hora do almoço, tocaram a campainha. 
Era o porteiro acompanhado de uma moça com um saco na cabeça e cara de retirante.
A moça foi logo dizendo: 
- Sou Severina, aquela que a senhora encomendou para seu tio. 
Dona Marly logo sorriu e pensou: “ainda bem que chegou a empregada que pedi a Deus”.
- Entre, Severina. Venha cá que eu vou lhe mostrar o seu quarto. 
O marido de Dona Marly, para puxar prosa foi logo perguntando: 
- Gostou da viagem?
- Qual o que! Vim na boléia do caminhão, fazia muito catabio. 
Estranhando, o homem perguntou: 
- E o que é boléia, o que é catabio?
- O siô num sabe, não?
- Não, eu não sei. 
- Sei não, cumo explicá!
Assim, Severina começou a sua lida cotidiana em São Paulo. 
Longe de Severina a família se divertia e os filhos perguntavam: “onde a mãe foi buscar um tamanho disparate?”.
E as crianças contaram na escola, para os familiares o pitoresco daquela estranha criatura. Imitavam-na e repetiam o que ela dizia: “cadê a taubinha de passá roupa?”, “carece de trocá a lâmpida da cozinha”, “você vai mais ele?” e coisas assim. Todos riam. 
Severina não era aquela empregada com a qual Dona Marly havia sonhado, mas sabia fazer algumas coisas. Nem era tão estúpida, quanto a língua poderia sugerir. Tinha lá suas espertezas.
Quando Dona Marly ia sair, dizia a Severina para cuidar bem das crianças e dar-lhes o que pedissem. Severina respondia.
— Dexa pra mim que eu assunto eles, D. Marly. Pode dexá.
Dona Marly reclamava de algumas coisas, junto às amigas, mas sempre dizia: “pelo menos não tenho de aturar os namoros das empregadas. Isto já é uma qualidade.” 
Mas, tão logo adaptou-se à nova cidade e começou a sair, Severina já arrumou alguns fãs. Eram homens vindos de todos os lados e Severina dormia com qualquer um. 
Logo o condomínio virou um tumulto. Todo mundo comentava os namoros relâmpagos de Severina. 
— E agora, Dona Marly, o que fazer com a empregada que a senhora trouxe do Nordeste? — perguntavam as amigas e os familiares. 
— A culpa é do meu tio.— respondia contrafeita e querendo pôr um ponto final na conversa que tanto a incomodava.
Ligou para o tio em Maceió e deu-lhe uma bronca. Mas como devolver Severina?
A moça trabalhava direito e ela, uma autêntica cristã, não poderia prejudicá-la. 
Logo resolveu o problema. Pôs um anúncio no jornal oferecendo uma empregada que sabia fazer de tudo e agenciou, pessoalmente, Severina. 
Severina, quieta e submissa só observou tudo o que foi feito. Escutou as restrições que algumas patroas em perspectiva apresentaram, observou a maneira como dona Marly argumentava, insistindo nas qualidades da moça e nas desculpas esfarrapadas que justificavam a necessidade de mudança de emprego. 
A moça obteve um novo emprego e Dona Marly jurou que nunca mais falaria com o tio, nem confiaria em nordestinos. 
Agora faz o serviço de casa ajudada pelos demais membros da família.
O tempo passou. 
E Severina?
Ela diz que agora é dona de uma agência de empregadas domésticas. Todas vêm de Alagoas. 
Diz, ainda, que agora as empregadas não são escolhidas e são elas que escolhem. 
Severina, como o próprio nome vaticina, é severa com suas pupilas. Namorar no serviço, é a conta na hora. 
De vez em quando, visita Dona Marly. As duas ficaram amigas do peito. 
- Você se lembra, Severina, quando chegou a São Paulo? Parecia um bicho. 
- Suas rezas me ajudaram a mudar, quando vejo um homem interessado em mim, já mando ou buscar outra ou ir para os quintos dos infernos. 
E continua: 
- Meu negócio agora é lidar com mulher. 
Crente, fervorosa, Dona Marly pensa que Severina vai virar uma santa. 
Virou, na verdade, empresária. Era dona de um bordel. 

CHAGUINHA, O PIANISTA

Chaguinha Tosta, funcionário público municipal, tinha um público feminino invejável, na rua onde morava, no Tatuapé. 
Não que fosse bonito, mas era homem cumpridor de seus deveres. 
Era casado com Matilde, uma guapa loira descendente de alemães. 
Na Secretaria da Fazenda, atendia o público. Prestava informações sobre finanças e mostrava-se sempre atencioso.
Às 18:00 horas, nem mais um minuto, já estava com o pé na porta. Ia correndo para casa.
Assim passavam os seus dias. 
Até que Matilde ficou doente. Não vivia bem da cabeça. 
Chaguinha andava aborrecido e os amigos perguntavam:
— O que está acontecendo?
Chaguinha, inicialmente, desconversava. Mas, um dia contou: “sua mulher não queria mais ele como homem. Queria só como companheiro. O que ele iria fazer?”
Os amigos se reuniram. “Vamos dar um jeito”, propuseram.
Levaram-no para que se entrosasse com a vida noturna de São Paulo. 
Mas Matilde colocou um obstáculo: reuniões noturnas, só aos sábados.
Nesse dia, Matilde dava banho no marido, perfumava-o com essências que ela mandava trazer de Paris, passava suas camisas, gravatas e ternos com esmero raro.
Sapatos engraxados. E lá ia Chaguinha para as noitadas. Em princípio, com os amigos da repartição. Depois, ganhou liberdade, ia sozinho.
Matilde o aconselhava: “olhe meu filho. Cuidado com as mulheres. Veja se elas são limpas. Discrição é importante para você. Muita atenção ao andar pelas ruas.”
E lá ia Chaguinha, em busca de meios para afogar as suas necessidades. 
Depois de alguns anos, Matilde se arrependeu. Quis prender o marido novamente em casa. Passou a assediá-lo, mas agora Chaguinha era outro. Gostou daquela vida de boêmio. 
Fez um trato com a esposa. Poderia voltar a ser o marido de outrora, mas só de segundas a quartas-feiras. Ia ampliar sua vida noturna, pois, agora, além de boêmio, era um pianista famoso num inferninho que ficava lá pelas bandas do Pacaembu.
Deixou a repartição, pois precisava dormir o dia todo.
Para não morrer de tédio, Matilde arrumou um emprego. Ela agora passou a tocar violino com o meio marido, meio companheiro.

O HOMEM DOS CAVALINHOS

Depois de passar tantos apertos em sua vida profissional, Rafael Apostólico foi, aos poucos, mudando de atividade. 
A partir do momento em que começou a apostar em corridas de cavalos, nunca mais conseguiu largar o novo ofício. 
Freqüentava o Jóquei Clube de São Paulo. Conhecia os “garçons”, os porteiros, as cozinheiras, os jóqueis, os donos dos cavalos. 
Em sua alfaiataria quase não se trabalhava mais. Era gente entrando e saindo, o dia todo. Todo mundo com o cavalo na cabeça. 
O senhor Apostólico mantinha aquele ar de muito entendido: “hoje recebi uma informação da cocheira. Era certeza, o cavalo iria ganhar.”
Passou a ser banqueiro de corridas de cavalo, tantos eram os amigos que lhe telefonavam. 
E ele botava o dinheiro a rodo, para aumentar os ganhos.
“Os cavalinhos, são minha vida”, dizia. 
Não era casado, não tinha filhos. Só um irmão que, de vez em quando, aparecia.
Era discreto. Principalmente quando perdia.
Na sala ao lado, trabalhava um office-boy. Foi tomando simpatia pelo menino e, aos poucos, passou a gostar do garoto. 
Queria que ele estudasse. 
Mas como, se os pais eram pobres? Tinha outros irmãos. Não podiam arcar com os estudos.
Assim foi-se inteirando da situação do garoto.
Um dia, o homem dos cavalinhos decidiu: 
— Você vai estudar e eu pagarei pelos seus gastos.
Todos os dias, queria saber das lições. O que o professor tinha dado, o que o garoto havia aprendido. 
Passou a fazer o papel de pai e o menino correspondia.
Formou-se. 
Seu Rafael fez, ele mesmo, o terno para o rapaz. 
Depois de formado, ainda passou a dar dinheiro para o seu pupilo, para pagar as prestações de um terreno. 
Mandou construir uma casa de três quartos, tudo bem arrumado. 
Os negócios com os cavalos foram diminuindo. 
Um câncer na garganta lhe atazanou a vida até seus últimos momentos. 
Morreu cercado por amigos e pelo seu pupilo. 
Quando o irmão de Apostólico abriu um cofre, na alfaiataria, encontrou dentro dele um caderninho com anotações de devedores e muitas notas promissórias, cheques, promessas de pagamentos. Enviou tudo para um advogado cobrador.
Quase ninguém pagou. O único que pagou até o último vintém foi o ex-office-boy. 
Fez questão de não ficar devendo nada. Afinal, um benfeitor merece ser pago. 
Em seu túmulo aparece um cavaleiro andante. Seus amigos dizem que ele, agora, deve ser jóquei na pátria de São Pedro.

ROLOS E ENROLAÇÕES

Tudo o que era encrenca da brava, processos difíceis e demorados, desses que tramitam por anos pelas repartições, todas as enrolações enormes, dessas cujas informações essenciais estão todas num passado bem longínquo, caíam nas mãos do Dr. Riani. 
Esse advogado, especializado em testamentos e heranças, aceitava casos que se perdiam no tempo e no espaço, mas que podiam ser amparados.
Mas não se limitava a esperar que essas complicações chegassem até seu escritório na Praça da Sé. Agia efetivamente para obter clientela.
Com grande visão de marketing, contratou um corretor que buscava e trazia para seu escritório muitos desses negócios. Homem simpático, de sorriso largo, fala mansa de cristão devoto, esse agente freqüentava diversas igrejas, fazia amigos rapidamente e nelas conquistava seus novos possíveis clientes. 
Tinha por princípio que a dor dos herdeiros vinha a público antes das suas disputas. 
Certo dia, o corretor apareceu no escritório com uma família imensa. Seus membros eram herdeiros de uma vastidão de terras em Guarulhos. Mas o corretor foi logo dando seu palpite: 
— Dr. Riani, acho que o senhor não vai pegar. É muita enrolação. 
— Pode deixar comigo. Se é difícil, trabalharemos mais arduamente. Conheço os caminhos para resolver esses assuntos. 
E, assim, mais um processo entrava para a sua banca. 
Quando amigos lhe perguntavam por que aceitava esses casos complicados e difíceis, ele respondia: 
— Muitos desses casos são difíceis e demorados. Assim, eu vou ganhando um dinheirinho ao longo de muitos anos. E, depois, quando, finalmente, surge a solução, nenhum herdeiro tem condições de pagar por todas as custas. Aí, para resolver o problema, eu recebo parte das terras. Vou formando um patrimoniozinho para meus netos. 
Até que o Dr. Riani foi envelhecendo, envelhecendo e ficou caduco. 
Perguntava aos herdeiros de Guarulhos:
— Vocês conhecem Guarulhos? Aquilo não era nada, mas foi crescendo, crescendo e é hoje uma metrópole. Ah? Vocês têm negócios lá em Guarulhos?
Foi por essa ocasião que o corretor, que também já estava envelhecido e cansado, trouxe um novo e jovem advogado para o escritório, para ir se familiarizando com os negócios do Dr. Riani. 
O Dr. Riani faleceu, e o jovem advogado, em poucos anos, resolveu todas as questões pendentes. Alguns processos dormiam no Fórum há anos. 

OBERDÃ E JOÃO

No início dos anos 60, Capitão Oberdã era tido e havido como um dos homens que mais mandava na política de São Paulo. 
Com a fama correndo solta, Capitão era o presidente do Comercial Futebol Clube e também do Clube Comercial, cuja sede ficava na Praça Bevilácqua, quase ao lado do Tribunal de Justiça. 
O Comercial chegou a disputar a primeira divisão. Mas o Clube Comercial era, na realidade, um centro de carteado. Ali o jogo corria solto. 
No Pátio do Colégio, a dois passos da Praça Clóvis, funcionavam a Central de Polícia e o Pronto Socorro Municipal. 
Certa ocasião, um delegado metido a besta, “um carijó”, segundo o Capitão, marcou uma reunião com o seu pessoal. Havia recebido ordens para acabar com a jogatina. 
Deu batidas, fez ameaças, discutiu e se acalmou. Saiu dos domínios do Capitão Oberdã como candidato à deputado, com o compromisso de defender as cores da bandeira paulista.
As emissoras de rádio davam muita cobertura ao novo candidato e elogiavam suas qualidades de civilista de primeira linha.
A jogatina continuou. 
Diziam que o Capitão, de outra feita, já havia conseguido eleger até um senador.
Mas Oberdã viu-se compelido a mudar da Bevilácqua. Sabendo que o Presidente da Federação Paulista de Futebol, João Mendonça Falcão, famoso pelas suas gafes, tinha um escritório no Pátio do Colégio, mudou-se também para o mesmo prédio. Comprou o ponto de um advogado, só para estar ao lado da sala de João Mendonça. 
As reuniões para os carteados continuaram no lugar de origem.
No Pátio, mediante o uso de um estetoscópio especial, conseguia ouvir os arranjos que se faziam na sala ao lado.
No dias posteriores aos grandes jogos, o tesoureiro da federação ia contar o dinheiro da arrecadação no escritório do João e, só depois, ele era levado para a Federação.
Oberdã vivia na marcação por causa de seu próprio clube e, em função do futebol, com o tempo, os dois vizinhos, isto é, João e Oberdã, se aliavam, em um dia, para tornarem-se ferrenhos inimigos, no dia seguinte.
Arapa, um repórter do Última Hora, fazia gozações diárias com João Mendonça. Dizia que Mendonça não falava “corrimão”, mas sim “corre a mão”, não dizia “federação”, mas sim “fé em ação”, não pronunciava “futebol”, mas sim “futegolol”. Era um horror.
Oberdã, influente, pedia a seus amigos para que lessem esses comentários nas rádios, aumentando a divulgação do ridículo.
Quando veio a revolução de 64, João foi perseguido, o carteado condenado, interrompido, ou, pelo menos, levado aos subterrâneos, e Oberdã morreu, logo em seguida, de choque anafilático. 
João Mendonça retirou-se e foi viver em uma casa de campo na cidade de Jundiaí, onde, até pouco tempo atrás, vivia relembrando o passado, afirmando o quanto havia feito pelo futebol paulista e concluindo:
“A vida é uma bola. Você é chutado para todos os lados, e, quando envelhece, é colocado de lado”.

A GRANDE TRAPAÇA
Dr. Nascimento, herdeiro do escritório do Dr. Riani, não era mais aquele impetuoso e honesto jovem advogado. 
Certo dia, recebeu a visita de um fazendeiro, insatisfeito com um caso de herança de sua família. 
Sentia-se prejudicado com uma divisão de terras. Suas irmãs, que não eram do ramo, foram aquinhoadas com as melhores porções de terras, todas juntas a uma famosa rodovia. As terras que couberam a ele ficavam nos grotões da Mantiqueira. 
Assim, ele queria mudar o testamento. 
Procurou o Dr. Riani, mas este já havia falecido. 
Contou o caso para o Dr. Nascimento e insistiu muito numa solução. 
O jovem advogado ficou de pensar e disse que iria consultar uma amiga. 
Assim o fez, e a amiga lhe disse: “ Só há uma solução: roubar o livro do cartório, alterar, falsificar as assinaturas, e pronto!”
Mas ela queria uma fortuna para tal empreitada. 
O Dr. Nascimento acrescentou outro tanto de honorários e chamou o cliente.
Este concordou com os pagamentos, mas só pagaria depois do processo terminado. 
“Negativo!” — disse o advogado — “Para correr um risco destes, só com pagamento adiantado!”
A ambição do fazendeiro era tanta que ele resolveu concordar. 
A trabalheira toda iria durar mais de um ano. E, assim, a amiga começou a trabalhar na transcrição dos imóveis. 
Foi ajudada por uma pessoa do cartório e o livro ficou pronto. 
O fazendeiro veio do interior, e todos foram comemorar num restaurante do Brás. 
Isto tudo ocorreu numa sexta-feira. 
No domingo, o fazendeiro morreu na casa de uma das irmãs contra a qual vinha impetrando o passa-pernas. 
Luto medonho. Toda a família chorava no enterro. 
“Irmão igual a este, nunca mais!”
Dr. Nascimento e a amiga concordavam com os familiares e acrescentavam alguns elogios ao defunto.
Quando saíram do cemitério e entraram no carro, riram tanto, tanto, que chamaram a atenção de alguns transeuntes. 
— Essa morte me tirou um peso da consciência. Nunca ganhei um dinheiro tão fácil! Cliente tão bom. Só não pudemos acrescentar que ele era melhor morto, do que vivo!
— É, dizia a amiga, o grosso do trabalho ficou comigo. 
E foram embora felizes da vida com a morte do fazendeiro. 
O livro original voltou para o cartório. O falsificado foi queimado na baixada do Glicério.

FUGA PARA SÃO PAULO
Ariovaldo Magalhães, filho de tradicional família baiana, chegou a São Paulo com a vergonha estampada em seu rosto.
Morava na Bahia, a uns sessenta quilômetros da capital. 
Estudou um pouco, trabalhou outro tanto. 
Mas, aos vinte anos, fugiu de sua terra, intempestivamente.
Sua família ficou chocada. 
Numa tarde, chegou correndo em sua casa e disse para a sua mãe que, naquele instante, estava se mudando para a capital paulista. 
A mãe teve um choque com a atitude repentina do filho mais novo. 
Os vizinhos vieram ver. 
Ninguém conseguia atinar com o motivo da iniciativa do filho Ariovaldo. 
Arrumou suas tralhas. Colocou suas roupas num saco e saiu com pouco dinheiro: o suficiente para chegar à cidade mais próxima. 
E, de cidade em cidade, fazendo um servicinho aqui e outro acolá, chegou à sonhada capital dos paulistas. 
Levou oito meses nesse trajeto. Uma canseira. 
Em São Paulo, arrumou logo um encosto no Brás. 
E, fazendo um trabalho num dia, em outros, ficando parado, conseguiu arranjar um serviço fixo numa fábrica de chapéus. 
Ali aprendeu o serviço de chapeleiro. 
Casou-se com uma moça da Vila Ré.
Seus amigos caçoavam dele. Diziam que se casou já com um pé atrás. 
Baiano, como era conhecido, saiu do emprego. Montou um atelier para reformas de chapéus no centro de São Paulo: “Sempre sonhei com o centro de São Paulo. E, agora, olha eu aqui, ao lado da Praça mais famosa do Brasil. Êta Praça danada!”
Baiano ganhou dinheiro.
Comprou uma casa no bairro do Cangaíba, região da Penha. 
Um dia, recebeu um primo da Bahia. Baiano apresentou o parente a uns amigos. 
Resolveram tomar uma cervejada, em comemoração à visita. 
Baiano estava ávido por ter notícias dos parentes, de sua terra e de sua ex-noiva. Saboreou, até tarde da noite, as novidades. 
Mas, aí, os amigos queriam saber porque Baiano tinha abandonado sua terra natal, tão de repente.
E o primo contou: 
Baiano tinha umas intimidades com uma cabra. Quando Baiano saía pelos campos, a cabra já ia atrás. Conhecia o lugar certo do encontro. 
Mas, numa tarde, quando Baiano estava no bem-bom com a cabra, ouviu um barulho. Olhou para cima e ficou aturdido. Acima dele, estava a noiva. Por isso, fugiu para São Paulo. 
A cabra, de tantas saudades, morreu logo depois. 
Ele nunca mais voltou para a sua terra. 
Morria de vergonha, ao se recordar do passado. 

DELEGADO DURÃO

Designado para ser o Delegado-Chefe do centro de São Paulo, Dr. Carlos Roberto fez uma completa limpeza na malandragem. 
Pessoas, sem carteira assinada, iam direto para a cadeia. 
Depois das dez horas, os bares eram obrigados a fechar suas portas. 
Pessoalmente, o delegado percorria o centro à toda hora, para verificar se suas determinações estavam sendo cumpridas. 
Eram tão poucos os malandros e as pessoas desocupadas que a tarefa do delegado não era levada a sério. 
Durante o dia, o policiamento percorria o centro. Rádios-patrulhas ficavam estacionadas em lugares estratégicos. Rondas eram feitas a cada meia hora. 
A jurisdição do delegado ia até a estação do Brás e se estendia à Praça da Consolação, Bexiga, Av. Brigadeiro Luiz Antônio, Praças João Mendes e Clóvis. 
Em certa ocasião, ao passar pela rua do Gasômetro, a Rádio-Patrulha número 24 deparou com um grupo de cinco pessoas na frente de um bar. Deu ordem de prisão para eles. Mandou chamar um camburão. Os cinco protestaram. Eram jornalistas do jornal Notícias Populares. Tinham saído para tomar um cafezinho — diziam. 
Foram levados à presença do delegado. 
Mais uma vez, protestaram. 
— Quero ver a carteira de trabalho. 
Ninguém tinha. Disseram que estavam nos bolsos dos paletós, deixados na redação. 
Ligou para a redação, falou com o editor. Explicou a situação. 
— Doutor –disse o editor — essa eu quero ver. Eu vou até aí. 
Chegando lá, deu olhadela na cela e, realmente, eram seus funcionários. 
— Doutor, vamos combinar uma coisa. Eles, realmente, são meus funcionários. Mas esse grupo aí tem uma mania de, ao invés de ir para casa, ficar até de manhãzinha andando pelas ruas. Eles vão todas as madrugadas ao mercado do parque Dom Pedro e ficam vendo as mercadorias, os movimentos. Chamam àquilo de “o estômago de São Paulo”. Quero que eles fiquem presos até amanhã, para aprenderem a lição. 
— Então, vamos fazer o seguinte: eu chamo eles aqui e você diz que não conhece ninguém e que eles estão blefando.
E, assim, foi feito. O grupo veio, e o editor disse que aqueles não eram seus funcionários. Asseverou ainda:
— Pessoas mal arrumadas, barbas crescidas, sapatos furados na sola. Gente deste tipo não havia na redação do Notícias Populares. 
Os jornalistas protestaram. Em vão.
Foram levados novamente para a cela. 
Só foram liberados no dia seguinte, quando o chefe do pessoal foi levar as carteiras profissionais. 
A partir daí, sempre aparecia no jornal alguma notícia contra o delegado. E nunca mais parou. 
O delegado se aposentou e foi embora para o interior. 
Detestava jornalistas e escritores. 
E assim terminou a saga do delegado durão. 

HOMENAGENS MERECIDAS

Redator-chefe de um grande jornal da capital, recentemente formado em Direito, Dr. Antônio tinha agora uma carreira brilhante pela frente. 
Alegre, extrovertido, gostava de fazer discursos e homenagens a qualquer pessoa, particularmente para aqueles recentemente chegados à capital paulista. 
Deste modo, desinibia as pessoas e as integrava, rapidamente, ao seu grupo de amigos. 
Por isso, angariou um grande grupo de amigos e de admiradores.
De repente, ficou sério. É que tinha recebido uma carta de seu tio, informando que estava despachando seu filho, Canindé, para São Paulo. Pedia o apoio dele para que o primo tivesse condições de deslanchar na metrópole paulistana. 
— E agora? Colocar o primo na minha casa, vai me tirar a liberdade. Além do mais, mora uma pessoa comigo, e eu não tenho lugar para alojá-lo. 
Morava numa quitinete. 
E, nesse meio tempo de preocupações, aparece, em São Paulo, o primo Canindé. 
Ficou alojado na sala, junto com o companheiro. 
Em pouco tempo, Canindé, afiado em assuntos contábeis, conseguiu uma vaga numa empresa. 
Já estava há três meses empregado, e nada de falar em se mudar. 
Seis meses depois, Canindé ainda se mostrava acomodado. Nada de falar em mudança. 
Numa dessas andanças pela Praça da Sé, Dr. Antônio contou a um amigo as suas agruras com o primo. 
— Não posso pedir para ele se mudar. Vou acabar ofendendo meu tio. 
— Mas eu tenho uma solução. Vamos passar a homenageá-lo. 
E assim combinaram. 
Todas as noites ia alguém homenagear o Canindé. 
Numa noite, era uma dupla de repentistas. Numa outra, um poeta. Na semana seguinte, um sanfoneiro. E, assim, passaram pela quitinete violeiros, cantores, saxofonistas e uma legião de artistas. 
As folganças começavam, em geral, às 11 horas da noite e se prolongavam até de madrugada. 
Canindé foi visto numa tarde cambaleando de sono, no Viaduto do Chá. E dizia: “tenho que mudar logo. Não agüento mais tantas homenagens.”
Ao porteiro do prédio, afirmou que o Doutor era muito bom. Tantas homenagens, ele não merecia. Mas precisava mesmo era de descanso. O primo dormia até tarde, mas ele, às sete horas tinha de abrir o escritório. 
E, assim, Canindé arrumou uma vaga em uma pensão na Santa Cecília e foi embora. 
Na mesma noite, teve uma festa no restaurante Castelões, no Brás, em homenagem à mudança do Canindé, que ficou devendo obrigações ao primo por tantas homenagens. 

O DITO LOUCO

Ele não tinha hora e nem dia para chegar ou sair da Praça da Sé. 
Às vezes ficava dias e dias, passeando de um lado para outro. 
Dormia onde alguém lhe oferecesse pouso ou repouso.
Tinha uma moto grande de 1200 cilindradas. 
Era um rapaz meigo, sereno, desses que as mães adoram como filho e as sogras como genro, não fosse por um senão.
Dito Louco tinha um grande problema: em cima da moto era um perigo. 
Um dia chegou a entrar pela porta lateral da Catedral da Sé e descer pela porta da frente, numa velocidade estonteante.
Passou a ser chamado de Dito Louco
A polícia passou a persegui-lo. 
A ordem do Dr. Carlos Roberto, delegado do centro da capital, era prendê-lo. 
Dito Louco possuía um amigo. 
Moravam ambos no Tucuruvi. 
Ele entrava e saía de dentro de sua casa, passava pela sala, sempre com a moto ligada. 
Seu amigo era um tipo grandão que viajava na garupa da moto e sempre com um violão nas costas. 
Falavam que iria ser um grande cantor. 
Os pais já tinham perdido as esperanças com os dois. Curtiam a vida, cantavam, namoravam e pronto: nada mais!
Dito Louco entrou, certo dia, na central de polícia sem usar o silenciador. Foi um barulho infernal. Dr. Carlos Roberto saiu à porta, quis prendê-lo, mas o sagaz motoqueiro, num ímpeto, desceu pela rua General Carneiro, passou pelo parque Dom Pedro e, em pouco tempo, desapareceu. 
Foi dada ordem para que as rádios-patrulhas, na época, uns fuscas 1200, pintados, o perseguissem. Não conseguiram.
Aos poucos foi desaparecendo da Praça da Sé.
O tempo passou, Dito Louco começou a namorar uma estudante. Os pais dela tentaram tudo, para acabar com o namoro. Nada conseguiram.
Casaram-se. A jovem esposa realizou um milagre. 
Dito Louco, como só entendesse de motocicletas, montou uma oficina de consertos de motos. Passou, também, a revendê-las. 
Ganhou fortunas e tornou-se próspero empresário.
O amigo grandão, sempre com o violão nas costas, se transformou em cantor sertanejo e, depois, fez enorme sucesso, cantando baladas românticas. 
Dito Louco é hoje empresário de âmbito internacional. 
Seus amigos dizem que nunca o amor mudou tanto um homem. 

OS GOZADORES E ADONIRAN

Nos idos de 1959 e anos 60, funcionava em São Paulo o clube dos Gozadores Anônimos da Paulicéia Desvairada.
Era um grupo de pessoas de bem com a vida e com situação financeira definida, isto é, acima da média. 
Viviam de pregar peças em outras pessoas. 
Telefonavam passando trotes. Os preferidos eram os portugueses e os italianos. 
Mas, certo dia, resolveram mudar de foco. Colocaram em votação um grupo de artistas famosos. Aquele que fosse escolhido, sofreria uma devassa em sua vida. 
Finalmente, por não haver consenso para a votação, por indicação saiu Adoniran Barbosa, misto de cantor, compositor emérito e boêmio.
O grupo contratou um rapaz recentemente vindo do Nordeste que era metido a intelectual, poeta, orador, mas duro. 
Ofereceram para ele uma nota preta, para que trabalhasse por uma semana. 
Sua função seria fazer um amplo relatório sobre a vida do famoso artista que, na época, estava na crista da onda com o papel de Charutinho, no programa História das Malocas, de Oswaldo Moles, transmitido pela potente Rádio Record. 
E lá saiu Zé Pinto, atrás do Adoniran. 
No primeiro dia, foi a todos os lugares. 
No segundo, Adoniran desconfiou. Para onde ia, estava sempre aquele rapaz atrás dele. Será que seria um assaltante? Mas assaltar o quê? Ou, então, seria um facínora? Quem sabe? Por via das dúvidas, resolveu dar um trancapé no rapaz. E caiu em cima dele: 
-- Se você não me contar porque está me perseguindo, vou chamar a polícia!
Foi enérgico. 
Zé Pinto contou a história toda:
-- Se não fosse por dinheiro, do qual estou muito necessitado, não faria isso não.
Adoniran condoeu-se: 
-- Quando que você precisa entregar o relatório?
— Na sexta-feira, às vinte horas, no restaurante Castelões, no Brás. 
— Pois bem, esteja lá. Fique na porta me esperando.
E assim combinaram.
Adoniran preparou um relatório extenso: levantava-se às seis horas da manhã. Às sete já estava trabalhando. Ia à Rádio Record, depois visitava Pafunça na favela do Vergueiro. Passava na casa do Joca e do Mato Grosso. Todas as noites ia à casa de sua mãe, no bairro de Jaçanã. Avançava pela noite, cantando em boates, restaurantes. No outro dia cedo, já estava no Rio de Janeiro e em Volta Redonda. Pegava o avião das 12:00 horas. Ia à casa de Maria Rosa, na Vila Esperança, de Ignez e de Beatriz, na Vila Maria. Pegava o trem da Cantareira. Visitava, também, todos os dias, Dona Gioconda e Oliveira Penteado. Passava de madrugada, para dar um abraço no chefe das oficinas do Jornal Última Hora, no Vale do Anhangabaú. Ainda, de madrugada, passeava com seu cachorrinho pelas avenidas Ipiranga e São João. Às 17:00 horas ia à oficina gráfica de seu Gervásio, na Liberdade. Também passava na casa de Valdir e Laércio, na Casa Verde. Fazia gravações na Record, às quintas-feiras, em companhia de sua amiga Malvina. 
O relatório foi entregue a José Pinto, na porta do restaurante combinado, por uma velhota. 
Esta entrou no restaurante e ficou sentada a uma mesa, num canto. 
Ali saboreou a leitura de seu relatório. Os gozadores riram muito. 
Mas, depois de tantos risos, um deles falou: 
— É surpreendente! Este homem é mais dinâmico do que o corisco. Praticamente não lhe sobra nenhuma hora para dormir. 
Depois de pagarem ao Zé Pinto, a velhota se aproximou da mesa. 
— Posso me sentar? 
E foi tirando a peruca e as roupas. 
Só então os Gozadores viram que se tratava de Adoniran. Os gozadores, sentiram-se gozados. 
Mas Adoniran, homem do mundo e da noite, foi logo quebrando o clima de constrangimento e começou a brincar com todos eles e a cantarolar, atendendo aos pedidos.
Aí a festa pegou fogo. 
No relatório, Adoniran visitou todos os personagens de suas maravilhosas músicas. 

ABAIXO O VERMELHO

Naldo chegou a São Paulo em 1963, para visitar seus amigos e parentes. 
Percorreu muitos bares e restaurantes do centro da cidade. 
Gostou tanto da cidade que não queria ir mais embora. 
Foi conhecer a orla santista e esteve um fim de semana em Guarujá. 
Foi a Campinas. Na entrada da cidade, queria saber por que estavam voltando para São Paulo. 
Disse aos parentes e amigos que, se tivesse condições de arrumar um emprego, não voltaria mais para a sua cidade natal, no interior do Nordeste, região freqüentemente castigada pelas secas. 
Queria ficar. 
Os amigos se mobilizaram para encontrar uma colocação. 
Um deles disse que, depois de insistir muito com um diretor da Cosipa, em Cubatão, havia conseguido uma vaga de bombeiro. O trabalho era simples. Bastava o treinamento de uma semana, e pronto. Logo estaria apto para o serviço. O trabalho de retaguarda no corpo de Bombeiros caía como uma luva. O salário de quatro salários-mínimos também preenchia as expectativas de Naldo. 
Uma pensãozinha em Santos, e tudo estaria resolvido. 
Assim foi arranjado o emprego. 
As comemorações duraram vários dias. Sucederam-se jantares, rodadas de chope, músicas, poesias. Tudo como manda o figurino dos boêmios. 
Mas, quando foi tomar posse, voltou atrás. Não queria mais o emprego. 
Mas como? — perguntavam os amigos — Você não queria tanto ficar em São Paulo? — e completavam — Olha que não é fácil arranjar um emprego desse tipo! Refeições, médicos, dentistas e uniformes.
É aí que morava o perigo.
Naldo disse que estava tudo bem, mas perguntava:
— Vocês repararam que o uniforme é vermelho?
— E o que que tem?, perguntou um deles.
— Vermelho eu não uso. Essa cor, na minha terra, é de boiola. Os meus amigos vão saber e vão dizer que em São Paulo eu virei o disco, que tomei gosto por outra coisa.
— Coisa ridícula, Naldo. Vermelho é uma cor como qualquer outra. 
— Pra vocês. Pra mim, é cor de boiola. 
Não, definitivamente, ele não queria aquele emprego.
Voltou para a sua terra, onde passou grande parte de sua vida contando as suas peripécias pelas terras paulistas. 
— Aquilo não é terra de gente. Imaginem que ninguém dorme à noite. É carro prá tudo que tem lado. Tudo doido. Imaginem que, pra gente arranjar emprego, precisa usar roupa vermelha.

UM CACHORRINHO MUITO VIVO

Seu Nenê morava nas imediações da Praça da Sé. Todas as manhãs, ali pelas sete horas, atravessava a famosa Praça e ia à padaria na Praça Clóvis.
Tinha um cachorrinho, o Rex, preto e branco, espertíssimo. 
Não gostava dos sinos da catedral. Sofria muito também quando havia bandas de músicas e fanfarras em exibições. 
Nesses dias, não saía para passear. 
Com o tempo, aprendeu a cruzar os semáforos. Chegava até o meio-fio, olhava para o semáforo. Se estivesse verde, atravessava, amarelo, esperava. Quando estava vermelho, empinava a cabeça e ficava olhando fixamente para a luz. 
Começou a ter fãs. Muita gente ficava observando o cachorrinho e seu dono. Na padaria, ganhava do dono alguma guloseima. Gostava muito de doce.
Depois voltava carregando um embrulhinho. E vinha empinado, como se estivesse em um desfile militar. 
Rex um dia fugiu. Foi visto pelas bandas do parque Dom Pedro. Depois, desapareceu por um mês. 
Alguém disse ter visto o Rex no Trem da Central que vinha de Mogi das Cruzes para São Paulo. 
Tudo indicava que ele havia sido roubado.
Na volta, estava magro, meio esfolado e com feridas no pescoço.
Restabelecido, voltou a acompanhar seu dono. 
Mais algum tempo e ia até a Praça da República visitar uma cadelinha. Ficaram amigos. 
Subia em elevador, como gente. Só faltava falar. 
Aprendeu a andar na garupa de uma moto. O motoqueiro fazia malabarismos. 
Certo dia, o motoqueiro estendeu um cabo de um lado ao outro da Praça da Sé e andou com sua moto sobre ele. Na garupa estava o Rex, muito orgulhoso por sua garbosa exibição.
A vida do cachorrinho foi comentada por um jornal de São Paulo.
Morreu no dia 31 de março de 1964, na mesma data em que rebentou a revolução dos militares. Tinha exatamente dez anos. 
Nunca se soube, em São Paulo, de outro cão que tenha aprendido os sinais do semáforo. 
Rex, talvez, tenha sido o único. E o mais interessante de tudo é que nunca ninguém o ensinou. 

UMA LIÇÃO NA CAVALARIA

Com a Revolução Militar de 1964, a maioria da estudantada ficou revoltada. As medidas de exceções, decretadas pelo governo federal, levaram os estudantes aos protestos. E estes eram reprimidos.
Resolveram, então, fazer uma grande passeata. Sairiam da Praça da República. Assinalaram o roteiro. Iriam até a Praça da Sé, passando pelo Viaduto do Chá.
Os militares concentraram a cavalaria na Praça Clóvis. 
A grande massa de estudantes começou a se mobilizar em direção à Sé.
Como a concentração da cavalaria estava situada ali ao lado, ficou evidente que os militares atacariam os estudantes na Praça da Sé. Nesta, fizeram um grande comício de protesto.
Inicialmente, a cavalaria se postou nas esquinas. Em seguida, fechou a Praça. Tudo indicava que iria ocorrer um grande número de prisões. Temia-se pelas sortes dos estudantes. Havia um clima de tormenta no ar. Qualquer movimento em falso poderia gerar um confronto difícil de ser controlado. 
Quando a cavalaria começou a dar sinais de que iria atacar, os estudantes espalharam bolinhas de gude pela praça. Cinqüenta estudantes começaram a tirar de sacolas e de bolsas escolares milhares de bolinhas. Fizeram isto no meio da multidão, para que o comando da polícia não desconfiasse. Quando houve o comando de ataque, a estudantada esvaziou a praça e a cavalaria entrou firme. Aí ocorreu um verdadeiro desastre para os soldados. Os cavalos começaram a vacilar, a tremer, a cair, derrubando os soldados no chão.
O povo aplaudia os estudantes. 
A cavalaria era vaiada e os espectadores participavam ativamente com comentários: “aquele caiu, aquele outro não vai agüentar. O sargentão levou a pior. Olha o cavalo saindo em desimbestada”.
O ataque da cavalaria foi um completo fracasso.
A massa estudantil começou a se movimentar em direção à avenida Liberdade. Subiu a Domingos de Moraes, sempre cantando. Virou no Paraíso e entrou pela Paulista. 
Ali, houve nova tentativa de confronto. Uma nova força de cavalaria estava a postos. Mas as bolinhas de gude voltaram a causar problemas. Os militares desistiram e os estudantes se divertiram muito. 
Depois deste acontecimento, os militares começaram a se preparar melhor.
Infiltraram militares no comando do movimento estudantil. 
Mesmo assim, em 1968, os estudantes voltaram a enfrentar a cavalaria.
Mas os tempos negros da ditadura desenvolveram outras táticas de repressão e os estudantes passaram a utilizar outros esquemas que, juntos, resultaram no endurecimento do regime militar. 

O BEATO

Tinha jeito de beato. Andava como um beato. Possuía atitudes de beato. E, integralmente, era um beato. 
Prof. Valmir era devoto de São Paulo, a quem ele considerava o maior de todos os seguidores de Cristo. 
Todos os dias ia à missa. 
Instalou seu escritório ao lado da Catedral, para estar mais perto do seu santo do coração. 
Freqüentemente, podia ser visto na igreja, sentado, olhando para o altar, para a nave do templo, como se estivesse no céu.
Mas tinha um viés, que ele dizia ser a ruína de sua vida. 
Adorava mulheres. 
Era muito bem casado com a filha única de um grande político. Homem de letras, fazendeiro, criador de gado, produtor de café, proprietário de casas e apartamentos. 
Sua esposa, professora muito conceituada em São Paulo.
Dizia que adorava sua mulher. Para ele, inigualável. 
O que o traía, era sua veneração pelas mulheres. 
E ali mesmo, na catedral, encontrou um meio de atraí-las. Seu método era muito simples. Andava com os bolsos cheios de santinhos. Em sua pasta existia um bloco de contratos de compra e venda, papéis em branco e santinhos de todos os nomes. 
Ele entrava na catedral e procurava sentar no banco, onde alguma mulher solitária estivesse sentada. Ali, ficava espreitando, ajoelhava-se, fazia sua oração e, em seguida, oferecia um santinho para a escolhida. Se a pessoa lhe retribuísse com um sorriso, pronto, estava armado o seu ataque. 
Jamais permanecia com alguém de forma permanente. Depois de uma conquista, partia para outra. Seu lema era: nada, além de três encontros. 
Outra paixão era a poesia. Além das suas, que cultuava com muito amor, declamava poemas românticos com acentuado toque de genialidade. Dava ênfase às palavras certas, para encantar a ouvinte. 
Seu escritório imobiliário tinha muitos amigos, mas poucos clientes. 
Sua esposa dizia, aos amigos, que ele era o marido ideal. Não trazia muito dinheiro para casa. Mas para quê? Ela trabalhava e iria herdar uma fortuna. 
Prof. Valmir vivia também de olho na saúde do sogro.
— Um dia ele morre e eu vou ficar muito rico, mas muito rico mesmo.
Coitado, morreu antes, sentado num banco da catedral. 
Para alguns, morreu santificado pela sua dedicação a São Paulo.
Para os mais íntimos, sua morte foi conseqüência dos sortilégios que usava para conquistar as mulheres. 
Em seu enterro compareceram muitas devotas que leram no jornal o anúncio de sua morte. Todas amigas do peito do velho professor. 

CAMELÔ ENTUSIASMADO

Ele nunca conseguiu fazer curso algum. O máximo a que chegou foi tirar o diploma de primeiro grau e, isto, com muito esforço da professora e piedade do diretor. 
Adelino, portanto, não sabia fazer nada. 
Casou-se. Os amigos o ajudaram e a família também. Mas, para sustentar a casa e a esposa que ele adorava, teve de sair à cata de trabalho.
O único que não exigia grande esforço físico era o de vendedor. Gostou. Entusiasmou-se.
Chegou à conclusão de que poderia ganhar muito dinheiro vendendo bugigangas na rua. Passou a ser camelô. Qualquer pequeno objeto que aparecesse, ele vendia. 
Com algum tempo de traquejo nas compras, montou uma rede de vinte vendedores ambulantes. Pente, relógio, pulseira, rádio de pilha, carteira, óculos, lanterna, tudo era vendido. 
Resolveu diversificar. Introduziu, na linha de vendas, pasta de dente e escova. Fez um pedido tão grande que abarrotou seu depósito. Teve de alugar um armazém, só para armazenar as pastas e as escovas de dente.
E, aí, lançou seus vendedores. Não era fácil. Montou uma equipe de propagandistas, outra de animadores. Assim, um grupo de homens andava pelo centro da cidade com cartazes nas frentes e nas costas. Os animadores chegavam junto aos camelôs, quando havia um certo número de prováveis compradores, e passavam a exaltar a qualidade dos produtos. 
Mas, pouco adiantou. Dia e noite, Adelino pensava em como fazer escoar as pastas e as escovas. Visitou as farmácias. Ofereceu descontos. Colocou vendedores em frente ao Carandiru. Dois vendedores percorriam os trens da Central. Outros dois, os trens da Sorocabana. Até no Aeroporto de Congonhas, apareceram vendedores. Tanto esforço chamou a atenção dos fabricantes, uma multinacional cheia de cuidados. 
Depois de várias reuniões, a empresa resolveu adiar o prazo de pagamento e parcelou-o convenientemente para que Adelino pudesse desfazer-se do estoque com maior tranqüilidade. 
E, assim, Adelino foi vendendo aquela maldita compra, feita em má hora, quando o exu cabeça de bagre estava por perto.
Quando ameaçava chuva, Adelino desovava o estoque de guarda-chuvas. 
Véspera de jogo do Corinthians contra o Palmeiras, era a vez dos rádios a pilha, chaveiros, bonés, com emblemas do Timão.
Perto das férias, descia relógios e, no verão, era a vez dos óculos de sol. 
Adelino ganhou muito dinheiro. 
Comprou uma bela casa nos Jardins, construiu um belo sítio em Mairiporã. 
Pagava os fornecedores em dinheiro e também não aceitava cheques. 
Cartões de crédito não existiam.
Como ele, os vendedores prosperavam. 
Contudo, nas reuniões com o seu pessoal, ele sempre dizia: 
— Vocês querem me arruinar?
Já, para os fornecedores, o papo era outro, bem diferente:
— Tenho a melhor equipe de vendas de São Paulo.
Seus maiores inimigos eram os fiscais e para driblá-los, providenciava a emissão de algumas notas fiscais, dizendo: “só para agradar os marditos do fisco”.
Depois, montou uma rede de lojas. 
Com a morte dos dois filhos, perdeu a vontade de ganhar dinheiro. Ficou só com uma lojinha na Praça da Sé, para ir vivendo. 
Consta na história dos velhos camelôs de São Paulo que, certa vez, ao distribuir as mercadorias aos vendedores, a polícia chegou. 
Para o delegado disse:
— Pois é, doutor, a gente achou essas mercadorias aí na Praça da Sé, e a gente tava juntando para levar ao senhor para que o senhor pudesse buscar o verdadeiro dono.

PROFESSOR DE LITERATURA

Formado pela Universidade de São Paulo, professor Lúcio era muito querido pelos alunos do Curso Dom Bosco. 
Quando dava aulas, lembrava-se de fatos pitorescos acontecidos com os grandes mestres da nossa literatura. Os alunos se divertiam. As risadas eram ouvidas na rua São Bento e na Praça do Patriarca. 
Porém, nem tudo era sorrisos na vida do professor. 
Bebia muito e, com o passar do tempo, já não conseguia subir as escadarias da escola. 
Numa manhã, logo às 8:00 horas, foi levado à Delegacia Central. Ficou lá para restabelecer-se, até, pelo menos, conseguir ficar em pé. 
Uma escrivã condoeu-se da vida de seu ex-professor e resolveu interná-lo em um hospital psiquiátrico. 
Lá ficou por vários meses, até desintoxicar-se. 
Quando melhorou, quis trabalhar. Não agüentava mais ficar parado. 
Os médicos queriam que ele desse aulas para os próprios internos ou, então, para os funcionários.
— Não. Eu quero trabalhar como encanador, minha primeira profissão. Pode ser que, como professor, eu venha a ter uma recaída. 
Como o hospital estava reformando uma casa que ficava bem no meio do imenso terreno, ficou tudo resolvido.
Moraria fora do prédio central do hospital. Ficaria mais fácil para ele trabalhar. Arrumou dois ajudantes e mudou-se. 
Pegou firme no batente. 
Mas, com os dias decorrendo, os monitores notaram que os três passaram a ter dificuldades para acordar pela manhã. 
Freqüentemente, um deles saía para fazer compras na cidade e vinha sempre com um cano de seis metros de comprimento. E todos os canos eram grossos, de 50, 75 ou 100 milímetros de diâmetro. 
Começaram também a fazer muita algazarra e rirem acima do normal. 
Os monitores desconfiaram. Havia alguma coisa errada. 
Descobriram, então, que os três trabalhadores estavam trazendo bebida alcoólica para dentro do hospital. 
Mas como?
Havia a vigilância na portaria e era impossível o acesso.
A bebida entrava dentro dos canos e o mentor da façanha era o Prof. Lúcio.
Ficou mais alguns meses internado.
De volta a São Paulo, considerado curado, passou a namorar a escrivã, uma mulher grandalhona, com cabelo entopetado. Casaram-se. Ela era brava com os bandidos e, agora, com o marido. 
Professor Lúcio trocou a pinga pela cerveja, que tomava, com a esposa, só nos fins de semana. 
Para os novos amigos, que não o conheceram na época da pingaiada, dizia com a maior cara de pau: 
— A pior raça que Deus colocou no mundo foi o bêbado. Tenho horror a esse tipo de gente.
Professor Lúcio nunca se aposentou. Deu aula até o último suspiro. 
Morreu em sala de aula, quando ensinava aos alunos o estilo de um grande poeta que, quando era ainda moço, com um copo na mão e uma garrafa embaixo do braço, fugiu deste mundo para morar na terra de Baco.

O HOMEM DOS SANTOS
Jorge de Castro era um homem alto, de pouca conversa, que estava sempre correndo de um lado para outro.
Possuía uma loja que ocupava todo o primeiro andar de um prédio. 
Recebia e despachava mercadorias o dia todo e contava com uma vasta freguesia. 
Vendia para todo o Brasil e remetia mercadorias também para alguns países da América do Sul. 
Sua loja era especializada em vendas de santos e artigos para a igreja católica. Havia tudo na loja dele. Muitos dos artigos eram importados da Itália e da Alemanha. 
Jorge era sempre educado e cortês com os fregueses e freguesas. Porém só atendia o público quando era impossível delegar a missão para sua dedicada empregada, Maria da Conceição. 
Nos anos 50 e 60, os católicos formavam quase cem por cento da população. Havia muito fervor nas devoções, fato que, para o Sr. Jorge, era de muita importância para a prosperidade de seu negócio. 
Trabalhava de segundas a quintas-feiras em período integral, mas, nas sextas, às 12:00 horas, sumia, dizendo que ia para o Guarujá.
Conhecia a vida dos santos de cor e, quando percebia que o cliente tinha uma determinada devoção, caprichava mais nas citações e detalhes. Não raro os clientes choravam com as narrações do solícito comerciante. Emocionados, acabavam comprando mais. 
Roupas de padres e paramentos para batizados, crismas, casamentos, missas de sétimo dia, mitras, solidéus e muitos outros artigos eram confeccionados nas oficinas da loja que, para tanto, mantinha várias costureiras, num azáfama que tentava ajustar a alta produção aos negócios crescentes.
Seu Jorge era um ótimo patrão, mas muito exigente em qualidade e produção. 
Havia, porém, um lado obscuro na vida do empresário. 
Um dia apareceu um judeu procurando pelo Sr. Malter Chisman. Ninguém o conhecia. 
De repente, apareceu na porta o Sr. Jorge, e o velhinho que o procurava o reconheceu imediatamente. Encheu-o de beijos e abraços. 
Descobriu-se que o Sr. Jorge era o Venerável de uma Loja Maçônica e judeu da velha cepa de Israel.
O acontecimento marcou a vida do seu Jorge. 
Pouco depois resolveu vender a loja para a sua empregada mais velha. Iria receber em módicas prestações mensais, durante muitos anos. E o grande estoque seria suficiente para vários anos de negócios.
Posteriormente começaram a surgir comentários e versões sobre a sua vida.
Pertencia a um grupo que vivia de explorar católicos, padres e bispos. A vingança era o lucro.
O conhecimento sobre as vidas dos santos era autêntico, mas usado com o único objetivo de aliciar a clientela.
Assim afirmava seu Dóri, velho empregado da loja. 
Mas também não faltaram os agradecimentos de padres e irmãs de caridade pelas dádivas recebidas pelas atenções do vivaz comerciante.

NOVA PASSEATA

Corria o ano de 1968. Os estudantes aborrecidos com a ditadura militar, que havia exilado dezenas de pessoas, incluindo professores, resolveram fazer uma nova passeata de protesto. 
Os órgãos militares foram alertados: a qualquer momento poderiam ocorrer movimentos hostis dos estudantes contra o governo.
O comando militar havia espalhado oficiais no meio da estudantada e, assim, acreditava que seria fácil conhecer o dia, a hora, o momento certo de abortar qualquer movimento. 
Os jornais chegaram a divulgar a passeata, sem se referirem ao dia e hora do evento, pois os estudantes davam notícias propositadamente desencontradas.
Quando sentiram que haviam cansado o sistema de repressão, resolveram, de um momento para outro, dar início ao movimento de protesto. 
Divulgaram que a passeata iria se concentrar no largo São Francisco, em frente à Faculdade de Direito, de tradições vitoriosas em defesa da democracia e das liberdades públicas. 
As forças policiais foram concentradas nas ruas de acesso ao largo São Francisco. 
Os estudantes pareciam estar indo para a boca do tigre, ou seja, do delegado Fleury.
Mas, de repente, desviaram-se da rota e foram em direção ao Largo São Bento.
Os policiais foram mobilizados para lá. Mas os estudantes desceram a ladeira Porto Geral, entraram na conturbada rua Vinte e Cinco de Março, subiram a ladeira General Carneiro, entraram pela XV de Novembro e, direto, na Praça da Sé. Os policiais ficaram aturdidos. Os comandantes perderam a iniciativa. 
De repente, um enterro apareceu, em direção à catedral. O caixão vinha no meio de um grupo. Os Policiais que haviam sido reunidos às pressas, deram autorização para o cortejo fúnebre passar. Um surdo batia forte. 
No mesmo instante em que o cortejo alcançava a Praça da Sé, a cavalaria surgia do outro lado.
O cortejo seguiu em direção à catedral. Frente a esta, parou. O caixão foi colocado no chão. Duas pessoas abriram o caixão e dentro dele puderam ser vistas milhares de bolinhas de gude, para afugentar o perigo da cavalaria. 
A essa altura, surgia na praça um contingente policial. Um brucutu espalhava água. Policiais a pé, caíam ao pisarem nas bolinhas que haviam sido arremessadas ao solo.
A cavalaria ficou à distância e o caixão foi recolhido. 
Estudantes corriam e o tumulto generalizou-se. 
À noite, os garis encheram os carrinhos com milhares de bolinhas de gude, pedaços de pau, sapatos, bonés, pedras e garrafas. 
Muitos estudantes continuavam pelas ruas e, de madrugada, era ainda possível ouvir: 
“Ia, ia, ia .......viva a nossa brava cavalaria”
Era a gozação dos estudantes. 
A censura proibiu a divulgação completa do noticiário. 
Alguns estudantes foram presos.
Na delegacia, disseram ao delegado que não estavam fazendo nada de mal. 
— Vocês estavam fazendo gozações com a nossa cavalaria!
— Puro engano, doutor, nós fazíamos homenagens aos bravos soldados que vieram combater os comunistas. 
Por falta de provas, foram soltos. 
Eram os diretores do movimento.

O GRANDE TERRORISTA

Aos sábados, a partir das 20:00 horas, Raymundo Peregrino Silveira, chegava à Rua Direita, esquina com a XV de Novembro, em São Paulo, e ali ficava esperando os amigos para a grande reunião. 
Inicialmente, partiam para inflamadas discussões sobre os temas em destaques da semana e, em seguida, percorriam os caminhos que os conduziam à posição unânime sobre os problemas internacionais, ou seja, a de que a causa das grandes desgraças era o sistema de repartição de trabalho e de oportunidades. Clamavam por uma revolução que pudesse acabar com a espoliação do homem pelo homem. 
Nas semanas que se seguiam, retornavam, compulsivamente, ao mesmo tema e com semelhante posicionamento, enfatizando a espoliação interna e as perdas dos países pobres nas transações internacionais.
E assim iam nutrindo e magnificando a raiva contra o sistema, na mesma proporção que se conscientizavam de suas impotências para a reversão de tal situação. 
Após as calorosas discussões, iam jantar na Cantina Balila, na rua do Gasômetro, onde tinham sempre um lugar reservado. De lá, saíam só pela madrugada, para irem a um barzinho na Avenida São João. No bar, bebiam, conversavam, já sob os efeitos do cansaço e do álcool, e, por volta das 6:00 horas debandavam-se. A maioria retornava às suas casas, mas dois ou três deles permaneciam no centro, para irem à reunião no Centro de Oratória Rui Barbosa, que funcionava na sede da União Brasileira dos Escritores e que teria início às 9:00 horas.
Por ser tão pronta a escalada de revolta em sua mente, quanto mordazes as verbalizações que expunham suas idéias, Raymundo Peregrino Silveira levava a pecha de terrorista, por todos os lugares por onde passava. Esse grau de “quase demência” fazia com que seus amigos o considerassem um revolucionário nato, um líder autêntico, pronto para liderar um grande movimento. 
Pregava abertamente a necessidade de revolução, aproveitando-se da liberdade de pensamento e expressão que predominava no início da década de 60. Certa noite, disse aos seus companheiros que deveriam pensar seriamente no ideário da revolução chinesa, visando tomar o poder pela força. Sem sombra de dúvidas, a revolução teria de ser desencadeada pela união de um pequeno grupo que, logo em seguida, agregaria adeptos vindos de todas as partes.
Com a mente incendiada pelo radicalismo, chegou a elaborar, inclusive, planos de guerra. Seus amigos passaram a reunir materiais bélicos que possibilitassem ataques e explosões em série e Raymundo sugeria que todos os centros vitais de São Paulo e da Baixada Santista deveriam ser destruídos em uma única noite.
Por questões de segurança, ao invés de usarem seus nomes próprios, os componentes do grupo passaram a usar uma sigla individual. Cada um possuía um apelido revolucionário. 
Raymundo Silveira era o “Mental”
O dia 29 de março de 1964 seria o grande dia da mudança. Havia alguma coisa no ar, e ele queria antecipar-se ao movimento conservador que, no seu entender, estava preparando uma contra-revolução. 
Mas a sua revolução não saiu. Seus membros, estariam presos? Teriam sido assassinados?
Passaram-se vinte anos e, aos poucos, os amigos foram se reencontrando. A revolução estava em seus estertores. Mas Raymundo e a camarada Elvira não apareciam. 
Numa tarde de dezembro de 1985, Raymundo Silveira foi visto na rua 7 de Abril com uma porção de livros embaixo do braço. Dedicava-se, agora, à venda de livros técnicos. O amigo que o encontrou quis saber o que havia acontecido com ele, mas Raymundo recusou-se a dar quaisquer explicações. Disse apenas que morava, agora, pelas bandas do aeroporto.
A notícia do reaparecimento do camarada reacendeu uma prolongada curiosidade: saber o que havia ocorrido com Raymundo e com Elvira.
Organizaram um churrasco e convidaram Raymundo. Qual não foi a surpresa do grupo, quando Raymundo apresentou a esposa: a camarada Elvira, tida como morta. 
As conversas iniciais foram cautelosas, para não melindrar. Mas, depois de várias rodadas de chope, a língua mais solta, os amigos queriam saber a verdade. Raymundo permaneceu calado, mas sua esposa, soltou a língua e rasgou o verbo: 
“Bem, já era hora da gente contar a verdade. Tínhamos, todos, combinado uma senha, não é verdade? Se um faltasse, no dia do ataque, talvez tivesse sido preso e isto seria um sinal de que os militares poderiam ter descoberto alguma coisa, através de torturas. E, assim, poderiam chegar facilmente até todos nós.”
— E daí? O que ocorreu? – perguntou um dos amigos.
“Bem, eu e Raymundo tínhamos um caso. Brigamos, ficamos separados. Mas, na tarde de 28 de março, resolvemos nos reconciliar. Fomos dormir juntos e, para não perder hora, colocamos dois despertadores no quarto. Mas, que nada, amamo-nos tanto e por tanto tempo que acabamos por dormir pesadamente. Parece que nossos corpos falaram mais alto do que nossas fantasias revolucionárias e, assim, não ouvimos os despertadores e perdemos hora. E lá ficamos, amando-nos um pouco mais, um pouco mais. Finalmente, por via das dúvidas, no dia 31 de março, logo quando começaram a surgir notícias sobre movimentação de tropas, fugimos para o interior. Ficamos meses trabalhando em uma fazenda, como simples camponeses. Sabíamos que o cerco estava se fechando, pois o dono da fazenda era um militante do PC que nos trazia informações. Descobrimos, logo em seguida, um professor que lá se achava, em condições similares à nossa, e fizemos amizade com ele. Numa noite, o professor recebeu uma visita de um amigo que lá foi para informá-lo de que tudo já estava providenciado para retirá-lo da fazenda. Iriam retirar o professor com um pequeno avião que o levaria até o Chile. Como com o professor iria apenas o piloto e o avião possuía lugares de sobra, embarcamos com eles. Quando o avião já estava sobre o Rio Grande do Sul, começou a ter problemas, e tivemos de fazer uma aterrissagem forçada, na base da aeronáutica. Um mecânico da aeronáutica ajudou a fazer um pequeno reparo de vazamento no tanque de combustível e, em seguida, voamos diretamente para o Chile. Quando o governo Allende começou a ter problemas com os militares, fomos para o México, onde Raymundo passou a ser vendedor de livros técnicos. Hoje é um especialista no assunto. Seus clientes são preferencialmente funcionários de multinacionais ou técnicos de empresas estatais.”
— E agora, o que vocês fazem? – insistiu o amigo.
— Bem, agora que o capitalismo nos fez uma abençoada lavagem cerebral, temos no México uma empresa distribuidora de livros e estamos em São Paulo para instalar uma filial. Depois vamos instalar uma outra em Buenos Aires. 

MEIO FIDUCIÁRIO
Alto, magro, cabelos negros ao estilo argentino, sempre de terno, Frezolino Cunha era uma figura muito conhecida, na Praça da Sé, entre 1958 e 64. 
Não ficava parado, andava sempre de um lado para outro. Ia a pé, até a Praça da República, pelo menos umas cinco vezes por dia. 
Diziam que ele era membro do Partido Comunista e que, com mais cinco companheiros, havia criado o Centro de Debates da Praça da Sé, para divulgar a doutrina comunista, de forma sorrateira e velada, entre os freqüentadores da praça, principalmente para estudantes.
Nem sempre os debates corriam a favor do PC. De vez em quando, infiltrava-se um estudante de direita, um católico conservador. E o debate, quando ameaçava generalizar-se, contava com a participação ativa de Frezolino que, com braços fortes, abria espaço entre a multidão e postava-se bem de cara com o discutidor. Aparecendo a oportunidade, dizia: 
— Estou vendo que você é muito inteligente. Mas me diga uma coisa (e mostrava uma nota de um cruzeiro), o que é isto?
— É um cruzeiro – respondia o interlocutor.
— Nada disso. Isto se chama meio fiduciário. Você não entende nada! — falava em bom som e ia saindo. 
Era a deixa, para os membros do Partido Comunista debandarem. 
E o discutidor novato, sem experiência de campo, ficava conversando por mais um pouco de tempo com algumas pessoas. Em seguida, por falta de público, ia embora. Logo depois, os membros do PC voltavam a assumir suas posições na praça e recomeçavam as operações do Centro de Debates.
Meio Fiduciário — era este o seu apelido junto aos membros do partidão — sumiu por uns seis meses. Disseram que ele tinha ido à Cuba, depois, para a União Soviética. Na realidade, tinha sido retirado, estrategicamente, pelo PC de São Paulo, para montar outros centros de debates em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. No Rio, não conseguiu sucesso algum. Dizia que o Rio de Janeiro era uma cidade atípica. O carioca estava muito interessado em praia, sexo e samba. Era uma cidade com as costas voltadas para o interior e aberta para o mar. Ali, idéias de esquerda não iriam prosperar.
Quando, em São Paulo, os debates começaram a esquentar e a direita passou a fazer passeatas pelo centro da cidade, Meio Fiduciário chamou seus amigos e profetizou: “fiquem tranqüilos. Chegou a hora de tomarmos o poder. Está tudo pronto para o grande golpe na direita. O exército está unido em torno do presidente Goulart e a Marinha está conosco. Só não temos certeza sobre as posições da Aeronáutica que é um reduto da direita.”
Tão logo estourou a Revolução de 64, os militares acabaram com o Centro de Debates da Sé. 
Estranhamente, Meio Fiduciário continuou a circular tranqüilamente. Muito de seus amigos sumiram e apenas um ou outro aparecia para tomar um cafezinho. Falavam, entre poucos, em grande traição. Meio Fiduciário tornou-se suspeito de pertencer ao esquema da direita, mas nunca ninguém pôde comprovar tal envolvimento.
Foi visto, pela última vez, em Brasília, trabalhando para o Governo Militar, e, quando lhe perguntavam se conhecia bem São Paulo, dizia, do alto de sua esperteza: “nunca estive lá!”

O AMOR POR JUDITHE 
Judithe trabalhava como caixa num pequeno supermercado na Praça da Sé. No ano de 1961, completou 19 anos. Havia vindo, pouco tempo atrás, do interior, juntamente com a família. 
O pai, seu Pedro, era jardineiro em uma Mansão, pelos lados de Santo Amaro. A irmã mais velha, operadora de máquina Olivetti em um banco na rua XV de Novembro. O irmão caçula, empacotador em uma loja. A mãe ficava em casa, cuidando da família e de dois netos que eram filhos da irmã mais velha, separada do marido.
Quando veio do interior, Judithe parecia mesmo uma caipirinha. Vestidos fora de moda, fala caipira, sapatos velhos. Mas, aos poucos, foi-se ajeitando. Em pouco tempo, com a ajuda da irmã, passou a vestir-se melhor, até com bom gosto. Aprumou seu modo de andar, começou a falar melhor e, duas vezes por semana, fazia o cabelo. 
O português, dono do supermercado, longe da vigilante esposa, fazia as maiores mesuras a ela. Sua voz velada, nessas ocasiões, contrastava com a sonoridade da de quando comandava o seu negócio no dia a dia. 
Como na entrada do supermercado havia um balcão com café, pão com manteiga, leite achocolatado, a freguesia era imensa. Desta forma, Judithe passava o dia todo atolada de serviço. 
Começaram a surgir os fãs anônimos, aquelas pessoas que amam sem fazer qualquer declaração. O charme da moça chamou a atenção de muitos homens. A freguesia do português aumentava. Com o tempo ela passou a ter cinco enamorados que todos os dias se reuniam no supermercado para ver Judithe.
Perguntavam, ao se encontrarem: 
— Você já foi ver Judithe hoje? Como está? Que vestido está usando? E o cabelo? 
Pelo menos duas vezes por dia, os cinco fãs se reuniam para tomar o café, o leite, o pão com manteiga, o chocolate, dar uma prosa com o português e sua mulher, para comprar alguma coisa para casa e, assim, passar pelo caixa para pagar e, sorrateiramente, sentir os dedos e a mãozinha macia de Judithe.
De tanto interesse pela moça, passaram à paixão. Começaram a se interessar pela sua vida particular. Cada dia um deles era escalado para acompanhar os retornos de Judithe para sua casa. Desta forma, sua vida foi sendo levantada. Já sabiam quantas pessoas moravam no apartamento da rua Lavapés, conheciam também a casa onde seu pai trabalhava como jardineiro, na distante Santo Amaro. Pagaram para um funcionário da Comgás fingir um conserto do gás no apartamento e, por ele, souberam que a família tinha vindo do interior, onde, segundo o zelador do prédio havia tido um grande aborrecimento.
Não contentes com isto, os cinco amantes platônicos de Judithe passaram a freqüentar a estância balneária. E ali completaram o levantamento sobre a vida da família. Descobriram que Judithe havia sido estuprada por um parente quando tinha quinze anos.
Passaram a ter muita pena da moça e um ódio desmedido pelo tio deflorador. Diziam que, um dia, ela teria sua vingança. O tio receberia em dobro o mal que tanto causara.
Naquele início dos anos 60, as pessoas levavam muito a sério esse negócio de virgindade. A pobre Judithe, criada sob esses princípios, sentia-se desgraçada. Em seu íntimo, imaginava que nunca mais poderia casar-se, ter uma vida normal. Com essa culpa, pesando-lhe constantemente na intimidade, recusava propostas de namoro, rasgava bilhetes, não aceitava convites para almoços ou jantares.
Do amor platônico que tinham por ela, surgiram, entre os cinco amigos, considerações sobre o que fariam se uma filha deles, pois eram todos casados, uma irmã, uma parenta sofresse tamanha violência. Estas considerações inflamaram-se até se tornarem um poderoso desejo de desforra. O tio tinha de pagar por tamanha insensatez, por tamanho mal. 
Após algum tempo, combinaram uma vingança. 
Foram para o interior, a cidade onde morava o tio, e fizeram um mapa com a rotina diária do tio. Dois deles acharam que ele deveria levar uma surra, três queriam partir para o extermínio. A tese da surra foi vencedora. Combinaram que, após a sessão de cinema, quando o tio estivesse retornando de moto para casa, fariam com que parasse, seqüestrariam o velhote, levariam-no até um matagal, onde fariam a tão esperada vingança.
Esperaram. Esperaram. O tio não vinha com a moto. O que teria ocorrido? 
Voltaram para o hotel, sem que a vingança houvesse se consumado. 
No dia seguinte retornaram a São Paulo, logo no primeiro ônibus. 
Na terça-feira, voltaram à rotina de suas vidas. Foram ao supermercado. Lá não encontraram Judithe. Perguntaram pelo português, que não estava. A esposa? Também não se encontrava.
Um deles foi ao banco e perguntou pela irmã. Também não tinha vindo trabalhar. Foram até o apartamento da Lavapés e lá também não havia ninguém e nem obtiveram nenhuma notícia. O que teria acontecido?
Na quarta feira, vieram os esclarecimentos. Judithe voltou ao trabalho.
— Sentimos muito a sua falta. O que aconteceu? —perguntaram os amigos, rodeando a moça.
— Um tio meu morreu num acidente de moto, ao sair do cinema. Numa curva, perdeu a direção e caiu numa ribanceira. Não sei como pôde ter acontecido tal desastre, ele era exímio motoqueiro. E dos olhos da moça, saíam algumas pérolas de lágrimas. 
A partir desse dia, a moça passou por grandes transformações. Começou a freqüentar bailes, almoçar com amigos, ir ao cinema. Divertia-se. Só não passava noites fora. Casou-se, depois dos trinta anos, quando o tabu da virgindade começou a ser sepultado pelas novelas. Os padrinhos foram os cinco amigos e suas respectivas esposas e, a partir de então, ela passou a fazer parte do círculo de amizade deles e de suas famílias. 
Feliz com tudo o que conquistara por causa de seu passado, dizia ter tido um tio que fizera muito bem à sua vida. 

MUITAS VIAGENS E UM TROTE
Se as circunstâncias difíceis obrigaram o sr. Hideo Tanigushi a sair do Japão logo depois da Segunda Guerra, outro tipo de circunstâncias estava obrigando-o a trabalhar tenazmente em São Paulo. Eram os filhos que agora precisavam de sua ajuda para os estudos. A filha mais velha, Sumiko, era o seu braço direito no laboratório fotográfico. Seu Hideo fez um enorme esforço para aprender o idioma português. Como técnico em laboratório fotográfico no Japão, ele havia desenvolvido métodos especiais de fotografias, retoques técnicos perfeitos, cópias fotográficas de alta qualidade. Numa cidade que crescia velozmente e absorvia profissionais de todos os tipos e origem, ele não teve dificuldades para arranjar trabalho. Cinco anos depois de sua chegada ao Brasil, o laboratório fotográfico possuía bons clientes, entre os quais uma agencia de publicidade em expansão, que exigia dele muita dedicação.
Ao seu lado, Sumiko, aos quinze anos, aprendia com o pai a arte da fotografia profissional. Passava a maior parte de seu tempo no laboratório. Ás vezes saia para entregar um serviço, mas voltava logo. Assim pai e filha viviam num azafama diário digno da raça japonesa. Quando a filha terminou o curso ginasial, o pai quis que ela fosse fazer o curso de química num famoso colégio de São Paulo. Dizia que ela ia descobrir um mundo novo e com as possibilidades abertas pela expansão da economia paulista, sem dúvida teria um futuro promissor. Sumiko não era daquelas japonezinhas baixinhas, pernas gordinhas, sempre recatadas, fingindo ter vergonha a todo instante. Fugindo da estirpe de biótipo nipônico daquela época, era magra, esbelta, andar de gazela, cabelos compridos, olhos negros penetrantes, sorriso cativante. Seu Hideo tinha grande orgulho da filha pródiga. Em sua casa, as duas irmãs fugiam um pouco da magia racial de Sumiko. E os dois irmãos possuíam o protótipo do japonês normal.
Trabalhando e estudando com afinco, boa aluna e amiga fraternal de todas as colegas, foi fácil para ela ampliar seu circulo de amizades. Logo no primeiro mês reuniu a classe e propôs que nos próximos três anos todos os alunos e alunas deveriam se unir para a formatura. Parecia longe, mas o tempo passaria logo. A partir dai, começou a trabalhar para a formatura. Seus bailes ficaram famosos. Saíram do pequeno circulo do colégio. Começaram a atrair estudantes de faculdades, de outros colégios e do Caetano de Campos, que naquele tempo funcionava na praça da República. Bira, um paraibano de Campina Grande, tomou a frente do movimento. O lucro crescia acima das previsões.No terceiro ano, os alunos remanescentes da turma inicial faziam planos audaciosos. Depois de muitas tentativas, chegaram à conclusão de que não deveriam fazer uma formatura festiva. Estavam cheios de bailes. Fariam a colação de grau normal, com discursos e homenagens, e dias depois iriam fazer uma grande viagem. O objetivo não era conhecer o Brasil somente. O principal seria visitar todas as industrias de base do Brasil. Naqueles idos de 1961, o tema principal nas discussões mais avançadas do pensamento nacional centrava-se na construção de um parque industrial que fosse o esteio da modernidade.
A idéia dos estudantes era ir direto ao Rio de Janeiro, visitar duas industrias, a usina de Volta Redonda e a Companhia Nacional de Álcalis. Duas oportunidades excelentes para ver de perto a fabricação do aço e de produtos químicos de base. Depois seguiriam para o Nordeste. A volta seria por terra, visitando os lugares pitorescos e as industrias e usinas mais importantes.
No dia 28 de janeiro de 1962 partiram da estação rodoviária de São Paulo. Apenas um pequeno incidente na partida. Um dos estudantes veio avisar que não iria com o grupo. Seu pai tinha tido um enfarte. Bira teve então uma iniciativa. Convidou amigo para ocupar a vaga. Mas quanto preciso pagar? Nada, bastaria levar algum dinheiro,o suficiente para comprar alguma coisa extra. O resto era dinheiro do grupo. O amigo ficou de pensar. E como encontraria o grupo? Bira deu o endereço. Era um hotel que ficava na rua Mauá no Rio de Janeiro. Ele deveria estar lá até quarta-feira à noite, pois na quinta deveriam embarcar para o Recife pelo primeiro avião do Correio Aéreo Nacional.
O amigo de Bira teve sorte. Logo na segunda-feira arrumou o. dinheiro. Na terça à noite embarcou para o Rio e foi direto para o hotel. Chegou, apresentou-se na portaria, falou com o porteiro que ia se unir a um grupo de estudantes de São Paulo. O porteiro estranhou. Não havia nenhum grupo. O rapaz disse então que mesmo assim ia ficar ã noite. O porteiro perguntou. Mas a noite inteira? Sim, a noite inteira e talvez ate outro dia.
À noite, o amigo do Bira não conseguia dormir. O hotel era muito estranho mesmo. Muita gente entrando e saindo. Excesso de barulho no corredor. E muitos gemidos. Gritos profundos. Levantou-se. Abriu a janela. Muito ingênuo, imaginou que ao lado funcionasse um pronto socorro. Excessivamente religioso, ajoelhou-se. Rezou para as pessoas que ele julgava doentes. Pensou que fosse um hospital. Quem sabe? Tantos gemidos, gritos profundos, lamentos, e no meio dessas manifestações também surgiam vozes abafadas, uis, ais, que davam dó. O amigo de Bira só dormiu lá pelas quatro da manha.
No outro dia acordou depois das 8 horas. Foi tomar café na esquina. Estranhou novamente. O hotel não servia nenhum tipo de refeições. O porteiro diurno perguntou se ele ia ficar mais um tempo no hotel. Talvez até amanhã, respondeu. O que deu motivo para uma espécie de gozação.
- Puxa, o senhor esta gostando mesmo do hotel.
Nem tanto, mas eu tenho que esperar meus amigos.
Depois das 11 horas, o hotel voltou a ter grande movimento. Mulheres seminuas andavam pelos corredores. Outras saiam para a calçada. Uma delas veio conversar com ele.
- Você é daqui do Rio ?
- Não sou de São Paulo.
E não quer passar um tempinho comigo ?
Agradeço sua gentileza, mas eu tenho que esperar os amigos. Puxa, eles já deviam ter vindo me buscar. Eles marcaram encontro comigo aqui neste hotel. 
- Só pode ser brincadeira. Aqui neste hotel ?
É, aqui mesmo.
A moça sentiu pena do rapaz.
- Eu vou ajudá-lo a encontrar seus amigos. Espere um pouquinho.
Subiu, trocou de roupa, e foi com ele até um posto telefônico. Comprou fichas e passou a telefonar para vários hotéis. Deixou recado em todos.
Olhe, agora é se esperar. Enquanto isso vamos tomar uma cerveja no boteco ali em frente. Você paga.
Me diga uma coisa. O hospital fica atrás do hotel ?
- Que hospital, aqui não tem nada disso. O hospital fica muito longe daqui.
E o pronto socorro ?
- Também não fica por aqui não.
Ai o rapaz ficou encabulado mesmo. Passou as mãos pelos cabelos. Tomou mais um gole de cerveja.
- Sabe, esta noite eu vi muita gente gemendo. Até fiz orações para essa gente sofredora.
- Escuta aqui, meu amor, aqui não tem doente não. Acontece que você veio para a zona do meretrício. Esse hotel ai ë de viração total. Seus amigos passaram um trote em você. De graças a Deus por você não ter sofrido nenhuma agressão, ninguém lhe roubou nada. Você tem que sair daqui urgente. Ê melhor arrumar suas tralhas e cair fora. Me dê ai algum dinheiro pelo tempo que eu perdi com você. Desolado, o amigo de Bira voltou para o hotel. Arrumou suas malas, pagou o hotel e saiu para a rua. Puxa, que sorte, encontrou os amigos logo ali numa esquina. Foi gozação total. 
- A gente já ia te buscar.
No dia seguinte ,quinta-feira foram para Volta Redonda, depois embarcaram num DC-3, da Segunda Guerra, em direção a Recife. Lá visitaram a fabrica de cimento em Nassau,e a Fosforita Olinda. Uma semana depois embarcaram para Paulo Afonso,onde visitaram a famosa usina de São Francisco. De lá saíram direto para Salvador. Depois de vários passeios, foram conhecer a Refinaria Landulpho Alves,e a prospecção de petróleo. Dez dias depois saíram em direção a Governador Valadares em Minas Gerais. Todas as estradas eram de terra batida. De Governador rumaram para Belo Horizonte. Depois para Coronel Fabriciano, onde visitaram a Acesita, depois a Usiminas. Em seguida voltaram para o Rio para fazer a visita a Companhia Nacional de Álcalis em Cabo Frio. Os estudantes ainda ficaram mais uns dias passeando pelas praias do Rio e visitaram todos os pontos turísticos, inclusive a ilha de Paquetá.
Na volta tinham muitas histórias para contar. O amigo do Bira levou uma maquina fotográfica Rolleyflex. Tirou muitas fotos. Vendeu-as para dois jornais. Ganhou um dinheiro extra. Um general solicitou cópias para a Escola Superior de Guerra. Ganhou mais algum. Bira disse que os amigos haviam feito um rateio do dinheiro que sobrou e para pagar a brincadeira do hotel de viração, havia mais algum dinheiro para ele.
O intruso estudante foi homenageado na praça da Sé pelas histórias que contou. Finalmente alguém podia falar de cátedra sobre o que o Brasil tinha de mais importante, as suas indústrias de base. Efetivamente, o Brasil caminhava no rumo certo.
Com o passar dos anos, as fotos tiradas pelo estudante intruso se transformaram em painéis, posters, cartazes, cópias fotográficas gigantes que emolduraram as paredes da Federação das Indústrias e do Senai.
Ele ganhou muito dinheiro com tanto serviço. Na sua imaginação permaneceu as multicoloridas paisagens, as fabricas e as usinas, mas a que mais ficou em sua memória foi à permanência por dois dias num prostíbulo e imaginando muita gente doente em volta.

O ILUMINADO
Quando Gualter Brasiliense começou a freqüentar a Praça da Sé, tinha aproximadamente 25 anos. Não era de esquerda como desejavam os comunistas. Também não possuía nenhum ranço conservador. Algo em torno dele era inusitado. Às vezes, parecia que o brilho de sua inteligência era tão intenso que ofuscava os demais. Ele possuía uma personalidade quase enigmática, mas quando começava a falar demonstrava uma profundidade que poucas pessoas possuíam.
A vida de Seu Gualter, como também era conhecido, era tranqüila. Possuía esposa e duas filhas e morava perto da estação da Luz. Quando ele começava a contar sua vida em São Paulo, estimulava em todos admiração e simpatia. Seu Gualter dizia que até cinco anos atrás, ele era analfabeto. Seu primeiro emprego em São Paulo era de empacotador da Folha de São Paulo. Naquele tempo, os jornais saiam da impressora e tinha que ser empacotados para o envio as bancas e ao interior. Ele dizia que provavelmente esse emprego o levou a gostar das letras. Esse despertar para as letras foi tão intenso, que em apenas cinco anos ele fez o curso de alfabetização de adultos, o madureza ginasial e o madureza colegial. Depois, fez o cursinho para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco e foi aprovado. Quando terminou o madureza ginasial prestou conciso no Tribunal de Alçada, onde trabalhou por quase um ano. Depois fez o concurso para fiscal de rendas da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, um dos empregos mais cobiçados do Estado, uma vez que o fiscal tinha participação nas multas. Alguns ganharam fortunas em pouco tempo. No concurso para a Secretaria da Fazenda, Gualter passou em um dos primeiros lugares. Mesmo com sua vida agitada, tinha tempo para bater papo na praça e assim ia esclarecendo as pessoas e formando amigos.
Conservava a humildade e a paciência para dialogar, sem elevar o tom de sua voz. Muita gente não acreditava em sua historia pessoal, mas ele tinha o dom de convencer as pessoas. Seu Roque Trevisan dizia que ele era uma pessoa iluminada. Que toda a sua formação veio de outra encarnação e aqui apenas recordou o que já sabia ao contrario de outros mortais que tinham que fazer a travessia da vida com esforço e muita disciplina.
Quando questionado sobre as alternativas políticas que o Brasil deveria seguir, ele dizia que não havia alternativas. Existia um só caminho: a liberdade e a construção da pátria dentro do primado do direito e da ordem. Tais palavras chegaram a enfurecer muitos comunistas, que destacavam que isso era conservador. Seu Gualter retrucava destacando que o próprio dinamismo do trabalho se constituía no fio condutor que levaria o Brasil a se transformar. As demandas sociais gerariam pressões sobre o mundo político. E se o Brasil mantivesse a democracia, os caminhos seriam abertos naturalmente para a construção de uma sociedade mais humana. E sobre a reforma agrária, bandeira tão enaltecida pela esquerda? Também dizia que o dinamismo econômico faria a reforma agrária, mas advertia. Se houvesse nos próximos anos, e isso ele dizia em 1960 uma ditadura, então, mesmo que houvesse crescimento econômico, a tendência seria inversa. Haveria concentração de renda e as pressões sociais não teriam força para mudar o quadro político. Deste modo, o Brasil evoluiria na economia, mas ficaria atrasado nas reformas.
Os comunistas radicais achavam essa idéias meio estapafúrdias. Eles só viam um caminho, qual seja, a revolução, tal como tinha acontecido na Rússia, na China e agora em Cuba.
Mas quem pode afirmar que essas revoluções serão permanentes ? Quem pode afirmar se no curso de suas trajetórias, elas não mudarão de rumo?
- Elas vieram para ficar, Seu Gualter.
Eu acho que não. E vou dizer porque penso assim. A economia desses três países não passou pela fase do capitalismo. Esses paises estão querendo dar um salto, mas sem base. A evolução se faz em ciclos. O ideal seria que tivéssemos já o socialismo, mas acredito que vamos ter surpresas no futuro. Quem viver verá.
Seu Gualter, Fidel Castro disse para nós aqui na praça da Sé, no dia 6 de maio de 1959, e disso eu nunca me esqueço, que a revolução cubana vai acabar com os privilégios.
- Eu até acredito — disse ele — que Fidel possa ter dito isso. Mas Cuba só poderá manter o seu regime mediante o uso da força militar. E isso para mim não é regime. É coerção. Um regime precisa ter a participação livre da sociedade.
Mas a democracia, Seu Gualter, é o pior dos regimes.
Mas não criamos ate agora algo melhor do que a liberdade. Essa liberdade esta na raiz da formação do povo brasileiro. Socialismo com liberdade, eis ai a porta estreita por onde deveremos passar.
- Isso vai demorar muito?
- Talvez daqui uns cento e cinqüenta anos. — dizia Seu Gualter.
Seus interlocutores sacudiam a cabeça e diziam.
- Coitado, é mesmo um iluminado, mas muito fora da nossa realidade. A revolução armada tem que ser feita já. E o nosso quartel general em São Paulo vai ser aqui na praça da Sé.
Alguns anos depois, uma outra revolução afastou os comunistas da praça da Sé. E no ano de 2004, o que se via por ali eram pregadores religiosos, vendedores de quinquilharias, e os debates que tanto enalteciam o espírito de liberdade dos paulistas foi varrido para debaixo dos túmulos. Nem parece que existiram pessoas que tanto primaram pelo debate do conhecimento e das idéias.
Pode-se mesmo afirmar que a praça da Sé era uma universidade em fronteiras,onde o povo se reunia para debater idéias e não para tirar diplomas.
QUEBRA DE HEGEMONIA
Aos sábados, precisamente as 20 horas, começava na praça uma pregação algo inusitado naquele tempo. O pregador, muito jovem, descendente de africanos, tinha grande fluência. Os comunistas começaram a gostar dele e compareciam ate o local de sua pregação, que ficava ao lado do marco zero. Uma noite, alguns comunistas resolveram desafiar o jovem pregador. De que religião você é?
- Bem, eu não sou de nenhuma religião. Eu estou tentando ser espírita.
E espiritismo não é religião?
Não, não é. É uma doutrina que engloba a ciência, a filosofia e a religião. 
Francisco Silva, homem do povo, vestia-se como tal. Mas nas suas argumentações demonstrava sólido conhecimento. E assim os comunistas não conseguiam abrir uma brecha positiva no debate.
- Mas, Francisco, você delirante — dizia Vanderlei, um dos comunas mais radicais. Você tem profissão ?
Francisco ria, olhava de lado, e dizia:
Se eu falar a minha profissão, você não acredita.
E o que você faz ?
Eu sou engenheiro eletrônico.
Os comunas não acreditavam. Os católicos conservadores, também achavam tal afirmação um acinte. Onde já se viu um engenheiro falando de religião na praça?
- Pois é, meus amigos, a vida tem surpresas — falava Francisco.
Um dos comunas dizia que Deus não existia. Se o espírito existisse, ele já teria enxergado. Francisco ria novamente, e dizia.
Amigo, venha cá, não preciso ver para a coisa existir. Vou te dar alguns indicativos. Você já viu a energia elétrica? Ela esta passando por esses fios ai - e apontava para os postes, e ninguém vê. Olha, neste exato momento, estão passando por nós milhares de imagens da televisão, sons das emissoras de rádios, e a gente não vê e nem ouve. É preciso ter um aparelho sintonizado para que a gente possa enxergar as imagens e os sons.
Francisco deixava os comunas estonteados com tanta argumentação sólida. Aos poucos, os comunas foram deixando Francisco de lado. Eles estavam mais interessados em revolução do que em ouvir certas verdades.
Francisco demonstrava também grandes conhecimentos sobre a história da praça da Sé. “Aqui sempre teve o espírito da liberdade. Vocês vejam, em 1639 houve aqui uma grande disputa política e religiosa. Fazendeiros queriam escravizar os índios. Os padres jesuítas eram contra. Assim surgiu uma grande disputa, que culminou com a expulsão dos padres da igreja do Pateo do Colégio. Alguns padres foram presos o porto de São Vicente e levados embora. Outros seguiram a pé ou de barco ate Assuncion, no Paraguai. Uma parte do povo, cerca de 32 brasileiros e portugueses, mais 250 índios, fugiram para o sertão de Jundiaí. Lá fundaram uma vila, que depois veio a ser a cidade de Jundiaí. Foi a primeira rebelião contra a opressão dos poderosos registrada na praça da Sé. Depois vieram outras, como o grande movimento pela libertação de Portugal. Aqui houve concentração da população em 1822 para comemorar a independência. Depois foram as lutas populares para a consolidação da província. A libertação dos escravos teve aqui discursos memoráveis, a seguir as manifestações sobre a instalação da República. Depois surgiram as manifestações sobre a aposentadoria em 1906 e 1907. E os comícios de 1924, 1929, 1930, 1932 e a instauração da democracia em 1945 e 1946. Outras tantas virão — dizia Francisco porque esta praça tem a vocação das lutas pela liberdade econômica, como também a religiosa e a política.
Francisco gostava mesmo era de pregar a doutrina kardecista, destacando certa vez para os comunistas que houve em 1857 um encontro entre Karl Marx, o ideólogo do comunismo e Allan Kardec. Este teria dito a Marx que a ideologia do comunismo seria vitoriosa a curto prazo. A sua doutrina iria demorar muito mais, porém, seria vitoriosa a longo prazo, mas o comunismo teria vida curta.
Pouco tempo depois Francisco desaparecia da praça.
- Fiz a minha parte. Eu queria quebrar a hegemonia da praça, aberta a apenas a uma religião, a católica, agora as portas estão abertas para todas as demais religiões.
Francisco trabalhava numa fabrica de televisores. Nas horas vagas consertava aparelhos eletrônicos nos porões de sua casa para entregar um serviço, mas voltava logo. 
OS SOBRINHOS DO SEU ADIB
Quando Seu Adib resolveu alçar vôos mais elevados no ramo dos negócios, escreveu para seu irmão que mandasse os seus sobrinhos para são Paulo. Os três chegaram num dia qualquer de março de 1962. Os momentos felizes da Praça da Sé estavam sendo sepultados, mas eles nem siquer suspeitavam de que iriam tomar parte numa historia de grande impacto. Assim que chegaram, Seu Adib os avisou que eles iriam tomar conta de seu antigo negocio de compra e venda de ouro. Mas teriam que aprender imediatamente o português. Já tinha contratado um mestre, um tal de professor Arlindo, que durante três meses iria ensinar a língua falada no Brasil. Depois de três meses os rapazes já estavam quase dominando o português. Assim assumiram rapidamente os negócios do tio.
Mandaram confeccionar um painel para pendurar na janela, onde se lia alguma coisa como Bekaouro e outros negócios. Quase toda semana, um ou outro sobrinho viajava. Todo mundo no prédio comentava que eles faziam contrabando grosso de ouro e pedras preciosas. Mas ninguém se incomodava com as atividades dos sobrinhos do Seu Adib. Eram corteses, joviais, contrariando em muito a tradição dos comerciantes libaneses da época, que eram antipáticos e irritadiços.
Freqüentavam a catedral da Sé. Sabia-se então que eram libaneses católicos e tinham ojeriza aos mulçumanos. Eram sentimentais até demais. Choravam com facilidade. Uma pessoa que estivesse em dificuldades, receberia de imediato o abraço dos irmãos, porém jamais abriam a carteira para dar dinheiro. Os comunistas diziam que eles eram como o Papa. Diante de uma tragédia só mandava bênçãos.
Naquele ano de 1962 três acontecimentos marcaram a Praça da Sé. A vitória da Seleção Brasileira de Futebol no Chile. Um imenso painel de madeira armado bem em frente catedral dava os jogos, os resultados e as vitórias do time canarinho eram freneticamente comemoradas por uma imensa torcida que lotava a praça. Passada a Copa, chegou a vez do movimento pelas eleições gerais para governador. O mandato do eficiente Carvalho Pinto estava chegando ao fim. Jânio Quadros, o renunciante, curtia o ostracismo. Ademar de Barros, que tinha sido interventor em São Paulo em 1937, depois governador em 1947, estava de volta com suas músicas, seus comícios hilariantes e outros candidatos do seu partido, o PSP, odiado pela turma do Jânio. O terceiro acontecimento seria algo para ser esquecido. A policia paulista era formada pela Guarda Civil, que policiava a região à esquerda do rio Tietê, e pela Força Pública, que guarnecia os bairros e as vilas que ficavam à direita do rio. Pois bem, numa batida de rotina, dois membros da Guarda Civil foram bater no escritório dos libaneses. Pelo buraco da fechadura, notaram que eram policiais que queriam entrar no escritório. Não se soube jamais qual teria sido o drama. De repente, os irmãos começaram a gritar pela janela. Pediam socorro. Logo se formou uma multidão. De dentro, os guardas forçavam a porta. Intimidavam seus ocupantes. Apavorados, os irmãos começaram a jogar pelas janelas tudo o que havia dentro do escritório. Cadeiras, quadros, sofás, tapetes, armário do banheiro, cadeiras, enfim, tudo o que estava à mão. A gritaria lá embaixo era infernal. O povo saia nas janelas dos prédios. Dois carros Radio Patrulha apareceram. Mais soldados subiram. E a porta continuava fechada. Depois de duas horas, o velho Tio Adib foi chamado. Só ai os sobrinhos abriram a porta. Todos foram para a Delegacia. Lá o delegado perguntou qual o motivo de tanta confusão. E só então os guardas disseram que foram para lá para comprar um par de alianças para um colega que ia ficar noivo. O delegado dispensou a todos, mas pediu para o Seu Adib tomar cuidado com seus sobrinhos."São uns doidos" — disse o delegado. — Que nada seu doutor. Eles estão traumatizados por causa das mulheres brasileiras.
Na praça todo mundo dizia que eles eram da CIA. Depois sumiram. Nunca mais apareceram
O GRANDE ADVOGADO
Culto, inteligente, bem falante, formado em direito pela São Francisco, Dr. Lima tinha uma famosa banca de advogado no centro de São Paulo. 
De dia, usava ternos impecáveis, camisa super alinhada, bem passada, gravata esmeradamente bem cuidada. Usava na lapela do paletó um emblema. Circulava pelo Fórum da Praça João Mendes com desenvoltura. Era amigo dos juizes, das atendentes, do pessoal do cartório, dos oficiais de Justiça. Enfim, um relacionamento perfeito com o pessoal da Justiça.
Ganhava bem. Seu pai, empresário bem sucedido, tinha grandes loteamentos.
Das 11 da manhã ás 19 horas, era o Dr. Lima.
Depois, tirava a gravata, jogava de lado o terno, e passava a se vestir de qualquer jeito.
E a partir daí caia na farra. 
Seus amigos da noite eram aquelas pessoas abandonadas que viviam na praça da Sé e imediações. Nos anos 60, a praça da Sé era também o centro político de São Paulo.
Ficava nos pequenos bares, circulava nas regiões mais perigosas.
Tinha dois escritórios. Um para atender a elite, bonito, bem decorado, acolhedor. Outro para os deserdados da fortuna. Ali mantinha um advogado dedicado aos decaídos da noite. 
Dr. Lima era solteirão. Aos 40 anos tinha o viço da mocidade. Sempre corado, cabelos cortados no melhor cabeleireiro.
À noite de boné, podia ser visto também na rua Timbiras e imediações, onde rolava o dinheiro difícil Das mulheres de vida fácil. Aquilo era o seu mundo. Mas de vez em quando sumia.
Ia passar férias com alguma beldade da alta sociedade em qualquer lugar do mundo. Foi visto em Paris, Londres, Nova Iorque inúmeras vezes.
Fins de semana curtia o apartamento do Guarujá. 
Tinha um mordomo fiel. Todas as noites, às 3 horas, marcava encontro com ele em cinco lugares distintos. A essas horas da madrugada já estava bêbado. Em geral, abraçado num poste. O mordomo o encontrava sempre. 
Mas um dia o Dr. Lima sumiu.
Ninguém tinha noticias. 
Onde estaria o famoso homem da noite?
Será que havia tirado férias?
O mordomo se desesperava, ia a todos os lugares prisões, necrotério, IML, hospitais e nada.
Até que os amigos foram recebendo noticias esparsas. 
Havia se casado. Mandou fechar os escritórios, vendeu os apartamentos.
Descobriu-se depois que havia um motivo a mais. Estava apaixonado. E queria viver o resto de seus dias nos braços dessa paixão.
Não durou muito e veio a infausta noticia.
O famoso causídico, grande orador, havia morrido.
Causa: a paixão por uma reles cafetina da rua Timbiras.
No cemitério há sempre a visita de alguém. Ricos e pobres se encontram e fazem muitas homenagens a alguém que é muito caro em suas lembranças. 
Adeus, Dr. Lima.
Até breve, ele respondeu em carta que mandou seu secretario enviar pelo correio um ano depois de sua morte. 
Sempre foi indiferente aos partidos, aos políticos, às religiões e aos ateus.
Para ele se existiu um verdadeiro comunista no Brasil: Castro Alves, o poeta da liberdade.
O HOMEM DO CARTAZ
Para um estrangeiro que chegasse a São Paulo no final da década de 50, não era difícil conseguir emprego ou abrir algum negocio próprio. O desenvolvimento econômico acelerado, as migrações internas e a liberdade individual davam as pessoas condições de rápida ascensão social. Bastava falar um pouco o português, trabalhar ou estabelecer um negócio próprio e as portas do sucesso já se abriam. Ninguém perguntava sobre diplomas, curso no exterior, formação escolar. Ao indivíduo só era exigido uma qualidade. Sabia trabalhar? Isso já era o suficiente.
Seu Adib veio do Líbano em 1957 à procura de oportunidades. Não tinha amigos, não falava a língua local. No inicio morou numa pensão barata na rua da Assembléia. Aprendeu com gente das mais diversas origens a arranhar o português. Naquele tempo, ate mesmo os brasileiros não conseguiam dominar totalmente a língua portuguesa. São Paulo estava repleto de gente do interior, que tinha dificuldades de falar a língua pátria. Trocavam o l por r em todas as palavras. Alto era arto. Alcides era trocada por Arcides. Os nordestinos chamavam São Paulo de Sun Pola. E no meio dessa confusão, existiam os libaneses, sírios, portugueses, japoneses, turcos, judeus, alemães e tantas outras línguas que Seu Adib pouco tempo depois já era uma pessoa comum.
Comerciante em sua terra natal, Seu Adib foi conhecendo aos poucos a colônia libanesa. Aconselhado a montar um negócio próprio, resolveu trabalhar com ouro. Possuía um pouco de dinheiro. Alugou um escritório na Praça da Sê e ali colocou na janela uma placa. "Compro e vendo ouro". Alguns meses depois e ele já estava trabalhando também com dólar, libra, marco alemão, francos, pesos e outras moedas. Possuía três salas. O recepcionista, homem forte, ficava na primeira sala, Na segunda instalou-se seu Adib. A terceira sala, transformou em quarto. Ali ele dormia. Conseguiu chave do prédio com o zelador e assim saia e entrava a qualquer hora do dia e da noite. Os proprietários do prédio viviam na França. E o zelador tomava conta de tudo. Seu Adib comia qualquer coisa ali pelos restaurantes e lanchonetes da Praça. Não se metia em política. Estava ali só para ganhar dinheiro.
Quando veio o golpe militar de 1964, lamentou a ausência de várias pessoas. Chegou a emprestar dinheiro para um rapaz que precisava fugir de São Paulo. Depois a situação foi se amainando e o rapaz apareceu para pagá-lo. Mas em 1965, o Governo resolveu tomar medidas drásticas contra o que os militares chamavam de cambio negro do dólar. Esse rapaz avisou Seu Adib para desaparecer por uns tempos. Seu Adib na mesma hora resolveu o problema. Mudou-se para um escritório do outro lado da Praça. Mandou um pintor fazer uma placa para deixar um aviso no antigo escritório. Pegou do bolso um papel e mandou o pintor fazer a placa com urgência. Logo que leu o papel, o pintor achou estranho.
— Tem certeza, Seu Adib, que é isso mesmo que o senhor quer escrever? 
— Seim, faça isso mesmo, menino.
E assim o cartaz foi feito e pendurado na porta de seu escritório. Nele estava escrito:
"Minjastes fora do vazo; por que não minjastes dentro?
O vazo estava fora de esquadro ou seu periquito fora de centro?"
Quatro dias depois desses acontecimentos, a policia invadiu prédio a procura do escritório de um estrangeiro que fazia negócios no cambio negro. Estranharam aquele cartaz. Arrombaram a porta. Só restavam moveis velhos. Seu Adib fazia questão de demonstrar que era um homem pobre.
O cartaz foi levado para a Delegacia. Lá os policiais riram muito, mas um deles achou que havia uma mensagem estranha. Podia ser uma mensagem em código. Mas o assunto foi deixado de lado, porque o Governo estava preparando novas e importantes modificações no mercado de capitais e havia coisas mais urgentes para a Policia resolver.
Pouco tempo depois Seu Adib voltou a tranqüilidade dos negócios. Sobre o cartaz disse que tomou nota nuns dizeres que estava atrás de um caminhão. Na hora de mandar fazer o cartaz trocou as bolas. Mas na Praça da Sé, o acontecimento andou de boca em boca. Para os esquerdistas, Seu Adib havia confundido a policia. Outras versões do cartaz já haviam surgido, mas como as nuvens cinzentas da política estavam envolvendo o País, o assunto foi sendo deixado de lado. Alguns meses depois, Seu Adib desaparecia da Praça. Era agora prospero banqueiro, dava opiniões aos ministros militares e até jantava com generais.
Os desacertos de 64
Nos primeiros dias de abril de 1964, a Praça da Sé perdeu seu frenético movimento político. Maoístas, comunistas, esquerdistas do centro, conservadores e ultra-conservadores foram presos indiscriminadamente. 
Sem orientação de inteligência, o DOPS, a Força Pública, a Polícia e a Guarda Civil, juntamente com efetivos das Forças Armadas, começaram a prender, de maneira atabalhoada. Até membros do partido de ultra-direita, a UDN – União Democrática Nacional –, foram presos, sumariamente, sem direito à defesa. Advogados democratas fizeram grande esforço para reverter a situação. 
Apelos enviados às autoridades não tinham acolhida. Mais uma vez, a sombra da ditadura, com seu manto sinistro, descia sobre São Paulo e o país. 
Logicamente, numa situação de exceção, surgem os aproveitadores e aquela ocasião não foi diferente. Assim, advogados espertalhões, aproveitando-se de suas amizades, constituíram bancas, com a única finalidade de extorquir dinheiro das famílias dos presos. Muito cobravam, pouco podiam fazer. 
Ali, na Praça da Sé, um pequeno escritório, de um advogado pobre, se transformou em tábua de salvação para muitos. Íntegro, idealista, o Dr. João da Cunha corria, de um lado para outro, para libertar os inocentes. 
Todos, no entender dele, pois, no regime ditatorial, quando os direitos do cidadão estão suspensos, não há nenhum culpado. Percorrendo as delegacias, falando com o pessoal do DOPS, pedindo ajuda à Maçonaria que, historicamente, nessas ocasiões, sempre desempenhou um papel relevante, o Dr. João conseguiu libertar diversos presos políticos. Não pedia dinheiro. Pedia paciência e muitas orações, pelos presos e pelo Brasil. Se a família tivesse condições financeiras, poderia acertar depois. Muitos dos beneficiados com sua ajuda, jamais voltaram ao seu escritório. 
Sem a presença dos esquerdistas, a TFP – Tradição, Família e Propriedade – aproveitou a chance para fazer seus desfiles de estandartes. Seus membros cantavam hinos e ensaiavam grandes demonstrações. Viceralmente eram contra a reforma agrária e manifestavam claramente suas idéias conservadoras. 
Uma emissora de televisão e diversas de rádio, juntamente com dois jornais, deram início ao movimento “Ouro para o Bem do Brasil”. Diziam que o objetivo da campanha era pagar a dívida externa brasileira. Os Diários e Emissoras Associados nunca publicaram balancete pormenorizado desse movimento, razão pela qual tornaram-se suspeitos. 
A Revolução de 64, que começou com o iluminado ideal de restauração democrática, estava mudando de curso e mergulhou, algum tempo depois, na penumbra do Ato Institucional nº 5 que acabou com as garantias e liberdades individuais. 
No meio dessa opressão, uma voz ponderada, amiga e solidária surgiu. Reunido com seus amigos do PC, Roque Trevisan, que havia sido deputado em 1946 e muitas vezes preso pela Polícia Política da ditadura de Vargas, disse: “agora vocês terão de cair na clandestinidade ou sair do país. Eu já passei por isso e sei que a perseguição será pesada.” Após estas palavras, toda a ala da esquerda realmente desapareceu. Muitos de seus componentes viajaram para o exterior, outros caminharam em direção ao grande interior brasileiro, onde adquiriram, para usarem temporariamente, identidades falsas. Procuraram o refúgio dos campos e foram trabalhar longe do barulho e das perseguições das grandes metrópoles. 
Outros, porém, resolveram ficar e tentar a resistência. Um deles, Carlos Marighela, declarado líder comunista de linha radical, iria organizar uma espécie de linha de frente. Promoveu reuniões, viajou clandestinamente por vários estados. Ele conhecia as lideranças do PC nos lugares mais remotos. Pediu firmeza. Falou com os estudantes. Treinou militantes em escolas públicas e privadas.
De fala mansa e calma, apresentava a dialética em voz compassada. No seu currículo constavam viagens para muitos países, entre os quais destacavam-se Chile, Uruguai, Argentina, Colômbia, México, Cuba e as nações da Cortina de Ferro. Sua argumentação derrubava mitos. Seu único defeito é que olhava o mundo pelo prisma soviético. Seguindo esta linha de pensamento, não conseguiu prever que a Revolução de 64 vinha para permanecer por muitos anos no poder. 
General Brito, homem da Cavalaria, agora aposentado das lides dos quartéis, falava, nos bares e restaurantes da Praça da Sé: “vocês vão ter de agüentar por uns quinze anos o tacão do verde oliva”.
Querendo demonstrar ser bem informado, destacava ainda: “o presidente que aí está , o General Castelo Branco, é um autêntico idealista. Ele quer promover eleições em 1967. Não vai conseguir. O Exército não vai permitir.” E, realmente, na saída de Castelo, que tentou por diversas vezes as vias democráticas, veio outro General, Costa e Silva, que tinha a fama de burrão. Mas era só fama. Durante seu tempo, foi o mais brilhante aluno da Academia Militar. 
Quando assumiu o poder já estava com a saúde abalada e acabou por morrer durante o período de gestão. O vazio do poder foi ocupado pelos generais denominados falcões. Foram eles os responsáveis pelo AI-5 e por outras iniciativas não condizentes com a via democrática. A resistência de Carlos Lamarca, que abandonou o quartel, após ter roubado caminhões de munições para dar início à revolução tão sonhada por Carlos Marighela, causou acentuado constrangimento nos meios militares. 
Deslocando-se para o Vale do Ribeira, Lamarca organizou uma frente guerrilheira para enfrentar batalhões do Exército. Recrutas foram levados para o Vale e saíram de lá amedrontados com o poder de fogo dos guerrilheiros. Amordaçados, os jornais não podiam divulgar nada. Jornalistas que tentaram furar o bloqueio foram ameaçados e, muitos deles, perderam os empregos.
Boatos não faltaram. Sem a informação livre e espontânea, apareceram muitos boatos de mortes de soldados no Vale do Ribeira. As ondas da boataria destacavam que Lamarca usava estratégias que tinha aprendido no exército americano e com guerrilheiros cubanos. 
De outra parte, a igreja conservadora continuava com suas missas e pregações contra o comunismo. Mas havia resistência. Alguns frades não concordavam com essa orientação e, sob a inspiração do Frei Josaphat, foi fortalecido o posicionamento do Jornal do Brasil que, com urgência, tratou de dar uma linha de coerência ao pensamento católico e influir nas decisões políticas. 
A luta árdua desse pequeno grupo de padres foi tenazmente combatida pelo aparato militar. Grupos de pessoas, descontentes com a evolução dos acontecimentos, começaram a formar, em suas próprias casas, unidades básicas dos descontentes. 
Houve um exaustivo debate entre essas unidades e seus componentes chegaram ao consenso de que a resistência armada seria um erro. 
Se ameaçados, os militares, com apoio dos Estados Unidos, se armariam ainda mais e a perseguição tenderia a aumentar de intensidade. A linha democrática precisaria ser inconteste. O pequeno grupo de dissidentes resolveu traçar uma estratégia, ou seja, três pessoas foram designadas para agirem de formas práticas e possibilitarem a conquista de espaços na imprensa, na igreja católica e entre os estudantes. 
As pessoas começaram a agir dentro de suas esferas e, aos poucos, foram ampliando seus relacionamentos e disseminando a convicção de que, se a luta iria durar quinze anos, como afirmavam os militares, a resistência teria de começar naquele momento.
Foi nesse meio desarticulado que surgiu uma grande surpresa que, vindo do movimento musical, explodiu como uma bomba: Geraldo Vandré, com sua música “Para Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, lança uma esperança geral. Le Monde, na França, comentou a música, afirmando que ela poderia tornar-se uma nova Marselhesa, mas não chegou a prognosticar se ela, sozinha, conseguiria fazer uma nova revolução. Nos quartéis, os militares exigiram perseguição aos músicos que estavam tentando dilapidar o movimento de 64.
Como fora, muitas vezes, perseguido pelas ruas de São Paulo, pela antiga Polícia Política, o ex-deputado Roque Trevisan continuava a ensinar aos mais novos militantes que, antes de serem presos ou mesmo durante o ato de prisão, deveriam gritar: “Eu sou o fulano de tal. Estou sendo preso.” Com tal atitude, a polícia se amedrontaria com a possibilidade de reconhecimento, e não castigaria o preso excessivamente. 
Roque dizia também que o grande erro do comunismo no Brasil foi ter estimulado a luta armada. Com sua índole pacífica, o povo brasileiro jamais iria embarcar em uma aventura guerrilheira. Bastava ver os exemplos do passado: golpistas e revolucionários puderam chegar ao poder, mas nunca tiveram assentos permanentes. Combatendo a índole guerreira de muitos militantes, Roque dizia, ainda, que, depois de muito meditar, havia chegado à conclusão de que o comunismo só iria governar o mundo quando fosse extinto o militarismo e a educação de massa atingisse toda a população. 
Frisava, ainda, que o socialismo soviético estava ameaçado, devido à vaidade de seus dirigentes e ao exclusivismo de oportunidades dadas aos membros do Partido. Ao dizer essas palavras, naqueles anos difíceis, para qualquer movimento de oposição, o velho Roque Trevisan estava sendo profético. 
Sempre calmo, falava que Marx desejava que o comunismo fosse implantado na Alemanha, não por ser sua terra natal, mas sim devido à índole do povo alemão que, acostumado à disciplina e à organização, daria conteúdo indiscutível às reformas de base, abrindo espaço para o socialismo e, no futuro, para o comunismo. 
A Rússia, contudo, era um estado atormentado desde os tempos dos czares. O povo russo não estava preparado para o regime socialista. Roque dizia que, ao fomentar o militarismo, o governo soviético estava, na realidade, tirando recursos da população. 
Colocando o povo às margens das conquistas da ciência e da tecnologia, do conforto e da saúde, tudo poderia ruir.
Seu engajamento, nessa resistência, tinha por único objetivo ajudar os neófitos à não sofrerem tanto quanto ele sofreu. Dizia, ainda: “o comunismo deve absorver a idéia do Deus universal.” Os radicais não gostavam dessas preleções e, com a idéia fixa de tomarem o poder pela força, foram avante.
Os moderados partiram para a resistência democrática. Outros esperaram pelos acontecimentos. Foram chamados de covardes e medrosos, mas, no momento em que o processo da Revolução de 64 começou a dar sinais de enfraquecimento, estavam eles na linha de frente, organizando a retomada do poder pela avenida ampla da democracia. 

A MARCHA
Naqueles idos de março de 1964, o Brasil vivia freneticamente da política e fluía como que por simbiose as grandes contradições da sociedade. O presidente João Goulart sentiu que estava perdendo o poder resolveu fazer o Comício do Dia 13 no Rio de Janeiro. Pregou abertamente a necessidade de reformas urgentes, entre as quais a reforma agrária e a reforma urbana. Nos discursos paralelos, falou-se que somente no Rio de Janeiro existiam 300 mil residências fechadas, algumas da quais de magnatas que nem moravam no País. E que, do dia para a noite, podia-se fazer a reforma urbana com os favelados invadindo essas residências e nela morarem gostosamente.
Já a reforma agrária, partiria das margens das rodovias, isto é, todas as terras agricultáveis às margens das rodovias federais seriam desapropriadas e doadas para o povo.
Com essas ameaças de desapropriações, as forças conservadoras se uniram mais: Proprietários de grandes redes de comunicações sentiram a necessidade de se organizarem. Fizeram diversas reuniões. As forças capitalistas colocaram-se na posição de legítimos defensores da democracia. “Contra os desmandos do presidente, um desvairado, vamos defender a nossa democracia”. No Senado, o líder do governo destacava que se o congresso não aprovar as reformas de base, ele perderia a identidade nacional.
Na praça da Sé, o povo debatia essas idéias. Era patente que havia uma divisão social muito seria. O Governo estava perdendo rapidamente as rédeas da política econômica. A inflação havia chegado em 1963 ao absurdo de 75%. No ano de 1962, atingiu 50%, e para 1964 esperava-se 140%, um verdadeiro caos para uma economia frágil e que vivia basicamente da exportação de café.
Um pequeno comício foi marcado para o dia 16 na praça da Sé. Eram os comunistas que iriam tentar aglutinar seus agentes. Eles foram unânimes."Devemos nos unir em torno do presidente da república para defender as grandes reformas". Mas ali uma voz mais sabida se ergueu. “Irmãos, a reação esta em marcha. Estou sabendo que vem aí um grande movimento para derrubar o presidente, as nossas reformas e os nossos direitos. Vamos reagir”.
Poucos dias depois surgiu na praça da Sé uma multidão. Era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Os comunistas achavam que esse movimento das forças conservadoras de São Paulo não deveria reunir mais do que umas 10 mil pessoas. Contudo, quando a Marcha saiu da Praça da República em direção à Sé, as rádios já diziam: "são aproximadamente 500 mil pessoas". Posteriormente, o Comando da Força Pública anunciava um total de 200 mil.
João Batista, repórter e assessor de imprensa da Fiesp, chegou ao seu trabalho no Viaduto Dona Paulina, sede das entidades de cúpula da indústria paulista, e disse ao seu chefe, Frederico Machado, que se fossem presos os capitalistas que lideravam o movimento, pelo menos metade do PIB paulista iria ficar atrás das grades. A noticia estourou como bomba nos corredores da Fiesp. Ninguém esperava que o movimento reunisse tanta gente. Humberto Dantas, secretário geral da Fiesp, disse que agora o presidente da República estaria perdido. "Sua cassação não passara de alguns dias". Dantas havia se esforçado para manter a Fiesp longe do movimento da política partidária, embora seus membros agissem nos bastidores. "Se o Exército colocar seus efetivos e seus equipamentos nas ruas, o presidente vai cair sozinho". Dantas tinha razão. O movimento começou no dia 31 de março e no dia 2 de abril, estava liquidado.
Na praça da Sé, os comunistas falavam ainda em grande reação. "Não vamos deixar o presidente Goulart sozinho". Mas o presidente já não estava no comando. O poder estava fluindo em outra direção. As forças conservadoras viviam agora numa grande euforia. A Igreja Católica estava contente. O bispo havia dito que “escorraçamos o comunismo para bem longe de nossa pátria”. As forças conservadoras queriam manter seus bens e seus privilégios.
O Brasil ingressava numa nova ditadura. Orgulhosos de suas vitórias, generais desfilavam com suas fardas e seus galardões. Eram bajulados pela Igreja e pelos conservadores. Muitos deles passaram a ocupar cargos de diretoria em algumas dezenas de multinacionais. Mesmo que não tivessem nenhuma propensão para os negócios, estavam agora dando palpites em tudo e decidindo a vida de muitas organizações. E algumas delas foram á falência por ouvirem esses palpites.
Os comunistas, acuados, aguardavam de agora em diante uma oportunidade para derrotar a ditadura. Levaram 21 anos para alcançarem seus objetivos.
PRIMEIRO DE MAIO E IBIÚNA
Ary Mosquera, esquerdista da linha chinesa do Partido Comunista, vivia correndo de um lado para outro da praça da Sé naqueles dias da segunda quinzena de abril de 1968. Seus amigos estavam distantes da praça com receio de que fossem feitos prisioneiros. Quem conhecia Ary já sabia que ele estava tramando alguma coisa.
O governador, Abreu Sodré, considerado por seus amigos como legitimo democrata, mas excessivamente conservador pelos esquerdistas, havia anunciado que iria fazer o comício do primeiro de maio na praça da Sé. Perguntado se tinha receio de alguma arruaça por parte dos comunistas, disse que iria manter, se necessário, um diálogo aberto e franco com eles. O melhor local para esse diálogo seria a praça da Sé. “Queremos demonstrar que a democracia tem suporte para todas as correntes e opiniões. Os democratas não têm medo dos totalitários”.
O sistema de segurança vigente na época alertou o governador sobre a possibilidade de acontecer um confronto sério com os comunistas. Mas o governador fincou pé: "não tenho medo. Eles é que devem ter medo da democracia". E assim o governador marcou as comemorações do primeiro de maio na praça da Sé, ordenando, inclusive, relaxamento do sistema de segurança.
Ary Mosquera sabia de todos esses andamentos políticos. Foi alertado também pelos amigos para que evitasse um confronto com o governador. “Deus me livre — disse ele — de entrar numa dessas. O governador é livre para fazer as comemorações do primeiro de maio. O Dia do Trabalho é sagrado”. Porém, nos bastidores, Ary trabalhava firmemente para uma grande manifestação política contra aquele que, para ele, era o líder dos lacaios de Washington.
O governador apareceu na praça da Sé no horário habitual. Bandas de Musica, estudantes, guardas de honra, políticos, lideres sindicais e uma massa bem aglomerada no centro da praça pareciam indicar que tudo ia correr normalmente. No entanto, de vez em quando surgiam do meio da multidão alguns protestos, que eram abafados em seguida pelo som dos alto-falantes. Quando o governador começou a fazer seu discurso, os comunistas partiram para a contestação. As tentativas para acalmar a massa esquerdista não surtiram resultados. O governador foi ficando irritado. E de repente surgiu aquilo que as pessoas sensatas mais temiam. O confronto tomou vulto e o governador foi cercado por seguranças. Os comunistas partiram em direção ao palanque. Soldados tentaram desviá-los, mas eram poucos. Amigos do governador também buscaram resguardá-lo. A massa começou a se enfurecer. A ordem dada por Ary era essa mesma. Sufocar o governador. Os seguranças agiram rapidamente e se refugiaram na catedral. As portas foram fechadas. Feito o cerco da igreja, na tentativa de encontrar alguma porta aberta, os asseclas de Ary resolveram entrar em debandada. Assim, o primeiro de maio de 1968 foi comemorado na praça da Sé.
Anos depois, um repórter encontrou Ary passeando pela praça mais famosa de São Paulo. Ele, placidamente, apontava para a igreja. Se eu, naquela época, conhecesse melhor o governador, não teria feito o que fiz. Ele salvou a vida de Geraldo Vandré e de outros amigos de esquerda, escondendo-os dentro do Palácio do Morumby. Nenhum governador, segundo Ary, fez o que Sodré fez. "Na fase mais aguda do regime militar, o governador fez um gesto grandioso, que precisa passar para a história".
Ary também se envolveu no famoso congresso de Ibiúna, onde foram presos cerca de 920 estudantes, muitos deles militantes da esquerda radical. O congresso dos estudantes tinha o dedo de Marighela. A policia sabia todos os detalhes da realização deste grande evento, dia, hora, participantes. Fechou o cerco em Ibiúna e prendeu todo mundo. Ary contou algum tempo depois que o PC queria a prisão de todo mundo para que a imprensa mundial tomasse conhecimento e divulgasse o que estava acontecendo no Brasil. Os estudantes, presos, cantavam abertamente a canção Caminhando, de Geraldo Vandré, que na versão original chamava-se Pra não Dizer que não Falei das Flores.
O governador Abreu Sodré lamentava os acontecimentos. Ele, que fora ferido na testa por uma pedrada no famoso comício do Dia do Trabalho na praça da Sé, dizia que tinha ódio do comunismo, mas amava os comunistas. Teve a oportunidade de provar que falava isso com convicção.

 

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