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UM BISPO MUITO ESPERTALHÃO
Entre os anos de 1963 e 64, os freqüentadores da Praça da Sé, assim como a
opinião pública nacional, estavam divididos em três alas: a dos nacionalistas
radicais, a dos nacionalistas sensatos e a dos liberais. Dentro de cada uma
dessas alas existiam facções que não se entendiam, principalmente pela
impossibilidade de traçarem uma linha que delimitasse com clareza seus
possíveis campos de atuação. Por isso, às vezes, tinham a nítida impressão de
que os inimigos não estavam nos campos opostos. E esta sensação provocava
desentendimentos que alicerçavam discursos calorosos para expressar vãs
paixões. Na ala dos neoliberais, entendia-se que a Igreja deveria ocupar uma
posição de vanguarda. Mas a própria igreja estava dividida, tendo por
extremos o TFP e os democratas avançados do Frei Josaphat.
Foi nesse clima de embate político que surgiu, na Praça da Sé, uma nova
personagem.
A partir de sua primeira aparição, já a figura esguia de Dino Lillo levantou
suspeitas nos radicais e simpatia geral nos homens de centro.
O Cardeal de São Paulo, Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, procurava não se
envolver a fundo na política partidária. Para uns, ele era um equilibrista.
Para outros, um homem cuidadoso que, apesar das aparências, não se negava a
uma ponta de conspiração contra o desastrado governo federal, cujos
presidentes não tinham conseguido debelar a inflação, promover melhor
distribuição de renda e, conseqüentemente, eliminar a crise econômica.
Dino Lillo aparecia todas as sextas-feiras para almoçar, no Restaurante do
Sol, o seu prato predileto: bacalhau à Gomes de Sá.
Seu carro, um Odsmobile branco, com frisos vermelhos, parava frente à Caixa
Econômica Federal. Ele atravessava quase toda a praça e chamava muita atenção
para si, por ser bispo. Isto mesmo, um bispo com todas as vestimentas
características do posto: roupa vermelha, com camisa roxa, sapatos pretos,
anel de bispo, solidéu de bispo, andar de bispo. Tudo nele transparecia a
aura católica.
Logo que fez as primeiras amizades na Praça, perguntaram-lhe, por ser tão
extrovertido e liberal, se era da Igreja Católica.
- Como não? – respondeu.
- E o que o senhor propõe para melhorar o mundo?
- Que os melhores cuidem dos piores.
- Mas como o senhor organizaria a sociedade?
- Cada um responderia, na esfera de sua atuação, em conformidade com suas
próprias possibilidades.
- O que o senhor quer dizer com isto?
- Que as normas, incluindo as leis, têm de tratar com desigualdade os
desiguais.
As respostas do bispo Dino Lillo granjearam imediata simpatia.
E, para dar maior brilho à sua imagem, certo dia, após o almoço, subiu as
escadarias da Catedral e desapareceu no interior dela. Muitos curiosos
assistiam à majestosa evolução e os duvidosos viram desvanecerem-se todas
suas dúvidas sobre a autenticidade do clérigo.
Era um bispo católico de vanguarda, bem pouco parecido com as eminências da
igreja tradicional.
Começaram a surgir boatos e falava-se, inclusive, que havia vindo diretamente
de Roma, com ordens expressas do Papa, para, oportunamente, ocupar o lugar do
venerável Dom Carlos Carmelo.
Começou a vir almoçar com dois padres, ricamente paramentados. Sempre bem
penteados e com as barbas raspadas com rigor, demonstravam ter cuidado
esmerado com as aparências.
Depois de algum tempo, observando o comportamento deles, algumas pessoas
começaram a desconfiar.
Os radicais desprezavam acintosamente os representantes da igreja, os homens
de centro julgavam a oportunidade ótima, com a troca dos bispos, para mudar o
panorama político. Assim que ele tomasse posse, tudo poderia mudar. Até os
portugueses, proprietários do restaurante, não cobravam mais as suas
refeições e ainda lhes ofereciam, de graça, o raro vinho do Porto que, para
os demais clientes, era vendido a peso de ouro.
Dino Lillo fazia de tudo para não se envolver em debates políticos, mas, às
vezes, via-se compelido a responder algumas perguntas. Possuía muita
facilidade para fazer citações bíblicas e, freqüentemente, falava sobre os
santos mais evidentes da crendice brasileira, com impressionantes detalhes.
Tinha veneração pelos santos heróis, por aqueles que haviam dado suas vidas à
causa do cristianismo.
Dono de um porte atlético e supostamente de uma história interessante,
narrava ter sido na juventude, boxeador, jogador de futebol, corredor
olímpico e treinador de cavalos. Um pouco mais velho, foi ser locutor de
rádio e corretor de anúncios, antes de ingressar para a Santa Igreja. Chegou
a montar em Campinas um escritório imobiliário, mas não deu certo.
Na realidade, Dino havia se casado com a irmã de um general, que nunca
obtivera um único namorado na juventude, no Rio de Janeiro, onde passou a
morar em uma casa confortável, com todas as despesas pagas. Mas, de repente,
assim como havia aparecido na família do general, desapareceu.
Sua esposa, que idolatrava aquela presença masculina inusitada em sua vida e
que concentrava todas suas atenções naquele príncipe que os céus lhe haviam
enviado, ficou desconsolada. O general fez tudo para encontrar o fujão e
trazê-lo, de volta, para sua irmã que se referia ao marido como terno,
dedicado, amoroso. Mas não obteve êxito.
A esposa, inconformada, insistia que nem que tivesse de passar o resto da
vida a procurá-lo, ela o faria. Esta já seria uma maneira de viver para ele,
de amá-lo. E, assim, finalmente conseguiu encontrá-lo e descobrir que não
poderiam ficar juntos.
É que Dino, apesar do conforto material, da vida fácil às custas do irmão de
sua mulher, não tinha vocação para ser o machão que sua esposa precisava.
Desconversou, frente à insistência da esposa para que voltasse com ela, e
esclareceu, sem muitos detalhes, que ele gostava de outras coisas que eram
incompatíveis com a vida da família do general e de sua mulher. Ela retornou
ao Rio desconsolada.
Aí encontramos Dino, já maduro e seguro, desfilando de Bispo pela Praça da
Sé.
Com as suas aparentes virtudes, isto é, inteligência, cultura, capacidade de
oratória, o que estaria escondendo sobre o trajeto da vida civil comum para a
rigorosa disciplina da Igreja?
Aos poucos, pega dali, puxa de lá, a face verdadeira de Dino Lillo começou a
ser delineada.
Ele era, efetivamente, um bispo católico. Possuía prerrogativas neste
sentido. Chefiava uma diocese e era senhor absoluto de sua autoridade, em sua
região. Sua igreja, porém, possuía algumas diferenças. Não obedecia ao Papa.
Não ligava a mínima para alguns dos princípios da Igreja Católica Romana. É
que Dino Lillo era bispo da Igreja Católica Brasileira e sua diocese
compreendia três igrejas, a dele, onde morava, e outras duas, dos amigos que
andavam vestidos de padre e vinham almoçar com ele na Praça da Sé. Combatiam
o preconceito e celebravam casamentos entre desquitados, separados, viúvos e
solteiros, sem exigir proclamas ou documentações desnecessárias à bênção do
Senhor.
Sempre que inquirido sobre a validade de tais procedimentos, respondia:
- Se Deus une, no céu, por que não podemos unir na Terra?
Logo após o golpe militar de 64, Dino Lillo apareceu em um jornal. Estava
sendo procurado pelo DOPS, para ser ouvido sobre suas relações com comunistas
da Praça da Sé.
Em princípio, escondeu-se, mas, mais tarde, resolveu apelar. Telefonou para
sua esposa, dizendo ter-se arrependido. Queria uma nova chance. A esposa
tomou o primeiro avião que pôde, da ponte aérea, e veio encontrar-se com
ele.
Ao vê-lo, atirou-se como uma meninota nos braços do amado e entregou-se toda.
Ele sabia que havia ganhado mais esta.
Ele necessitava e conseguiu a salvaguarda do cunhado general, para resolver
os problemas de envolvimento político em São Paulo.
A esposa não queria saber da nova profissão de Dino e ele retirou
definitivamente a batina.
Assim, a Praça da Sé perdeu o seu Bispo.
Um outro iria surgir, alguns anos depois, mas este com o respaldo do Papa.
Dom Paulo Evaristo Arns passou a desfrutar, por méritos, do reconhecimento e
gratidão de todo o povo brasileiro pela sua corajosa atuação à frente das
causas dos perseguidos e dos pobres.
A RENÚNCIA DE JÂNIO
Jayme Martins, repórter do jornal Última Hora, disse que o Governo Jânio
Quadros estava no fim, perante um grupo de Esquerdistas da Praça da Sé, no
final de julho de 1961.
- Em que você se baseia? — perguntaram-lhe.
- Tenho informações, recebidas do vice-prefeito, Vladimir de Toledo Pizza, de
que Jânio não ficará por mais de um mês no governo. Quando muito, permanecerá
até o dia 25 de agosto. Vocês devem saber que Vladimir tem amplas ligações
com a linha nacionalista da oficialidade do Exército e, portanto, sente-se
seguro do que está falando.
A notícia espalhou-se rapidamente.
No início do governo Jânio, o pessoal de esquerda o combatia tenazmente. Mas,
depois que Jânio enviou a Missão João Dantas para a União Soviética e outros
países do bloco socialista, condecorou Che Guevara e passou a pregar a
autodeterminação dos povos, portanto, contra a invasão dos Estados Unidos a
qualquer país do mundo, os esquerdistas mudaram de posicionamento em relação
a ele. Assim, temiam, agora, a queda do presidente.
Nos jornais, nas rádios e na incipiente rede de televisão, o combate a Jânio
vinha aumentando. Muitas pessoas consideravam a atitude de buscar relações
nos países da Cortina de Ferro uma verdadeira discrepância dos princípios
ocidentais.
Jânio dizia que para o Brasil sair da situação de dependência dos Estados
Unidos, seria necessário abrir novos mercados no exterior. Para ele, a
solução para os problemas nacionais residia na moralização dos costumes
públicos e na abertura do comércio exterior.
Naquela época, a economia brasileira encontrava-se muito dependente do
mercado americano, enquanto a Europa e o Japão, devido ao desastre da Segunda
Grande Guerra, faziam grandes esforços para a necessária recuperação
econômica.
O Brasil enfrentava um grande constrangimento cambial e não havia crédito
externo que pudesse proporcionar ao Governo condições de manter uma
administração sustentável.
Além disso, agora que o Presidente acenava para uma ampla abertura externa,
aparentemente sem preocupar-se com a guerra-fria, os órgãos de financiamentos
americanos estavam fechados para o Brasil.
Somando-se a esse panorama pouco favorável, o Presidente contava com a antipatia
da maioria do Congresso Nacional que era dominada por forças
conservadoras.
Avaliando a situação com seus assessores e amigos, o Presidente Jânio afirmou
que não via como realizar grandes reformas, sem fechar o Congresso.
Para completar o quadro de pressão, Jânio também já não mais contava com a
imprensa conservadora e com a cúpula da Igreja Católica, esta muito influente
naquela época.
A afirmativa de Vladimir Toledo Pizza a Jayme Martins tinha, portanto, o
condão da fluência da conjuntura para uma situação de impasse político, cujo
desfecho poderia ser a renúncia do Presidente.
Os jornais que haviam apoiado abertamente sua candidatura publicavam extensos
editoriais para afirmar que o Presidente tinha se desviado do pensamento
ocidental, para enveredar-se por um caminho de retorno impreciso e incerto.
O Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que havia apoiado a Candidatura de
Jânio, estava agora na oposição. Com recursos disponibilizados por empresas
norte americanas, tinha acesso direto à rádio, à televisão. Seus artigos,
publicados no Jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, de sua
propriedade, eram reproduzidos e publicados em todo o território nacional,
por jornais menores.
Foi nesse ambiente conturbado que entrou a Igreja, através do arcebispo do
Rio de Janeiro, Dom Jayme Câmara, para colocar ainda um pouco mais de lenha
na fogueira. Sua oposição ferrenha ao Projeto de Lei do Divórcio, que
tramitava pela Câmara e havia sido elaborado pelo deputado Nelson Carneiro,
induziu-o a uma participação ativa contra o Governo.
Conhecido nacionalmente, pelos católicos, e muito influente na comunidade
como um todo, Dom Jayme inicia uma campanha para angariar fundos para um
programa concreto de combate àquilo que ele denominava de “o perigo comunista”.
Ele afirmava que o Presidente estava levando o Brasil para a órbita Soviética
e isto poderia provocar uma guerra civil com grandes conseqüências internas e
fortes conotações internacionais.
Um grupo de pessoas foi convidado por Franco Montoro para ouvir o Presidente,
na casa deste. O pessoal da Praça da Sé indicou cinco representantes para
ouvir o que o Presidente tinha a dizer. Jânio afirmou, nesse encontro, que
forças internacionais estavam manobrando para derrubá-lo, mas ele estava
certo de poder contar com as Forças Armadas para defender a democracia.
Ao retornarem à Praça da Sé, naquela noite de 28 de julho, estes
representantes demonstravam real preocupação com o estado de ânimo do
Presidente. Poucos dias depois, o Presidente fez um pronunciamento e
desanuviou o ambiente.
Aparecendo e permanecendo por pouco tempo na Praça da Sé, o jornalista João
Batista de Godoy Moreira, redator do Diário de São Paulo e assessor de
imprensa da Fiesp, disse que membros das entidades de cúpula das classes
produtoras de São Paulo estavam se reunindo, secretamente, para uma avaliação
mais precisa da situação. Se houvesse a queda de Jânio, o sucessor, em
conformidade com a constituição, seria o vice, João Goulart, que era visto
como inimigo dos empresários.
João Goulart tinha sua base de sustentação junto aos sindicatos, em São
Paulo. Daí provinha a antipatia dos empresários pelo seu nome.
A situação tinha a aparência de normalidade quando, no dia 23 de agosto, o
governador Carlos Lacerda fez um violento pronunciamento contra Jânio. No dia
25, o Presidente renunciaria.
Para a Praça da Sé convergiam pessoas vindas de toda São Paulo. Todos queriam
obter informações. Onde estaria Jânio? Tornou-se evidente que o Congresso
Nacional foi convocado e, em pouco tempo, declarou vago o cargo de Presidente
da República. Por essa ocasião Jânio já se achava em Cumbica, reunido com o
Governador Carvalho Pinto. De nada adiantaram os apelos dos amigos para que o
Presidente voltasse atrás.
Foram também inúteis os esforços, durante reunião que alguns senadores
fizeram com o presidente do Congresso, Auro Soares de Moura Andrade, para
controlar a situação. Em verdade, Auro e o Presidente haviam se desentendido
em 1958, por questões ligadas à sucessão do governo de São Paulo e tudo
indicava que o presidente do Congresso Nacional via ali uma oportunidade de
vingança.
Partidos políticos, instituições, empresários e cidadãos comuns externavam,
das mais variadas formas e pelos múltiplos canais de mídia disponíveis, seus
sentimentos em relação àquilo que parecia ter sido uma decisão precipitada de
nosso Presidente, mas que, sem dúvida, acarretaria graves conseqüências para
o país.
Uma dessas vozes, a de Antônio Sampaio, estudante da Faculdade de Direito da
São Francisco, militante não radical da esquerda comunista, analisava as
questões políticas com um certo sentido pragmático. Dizia não ter ilusões e
saber que o comunismo, como o conhecíamos até então, não tinha força
galvanizadora. Não iria prosperar nos próximos cem anos, mas ganharia força,
a partir do momento em que o povo tivesse acesso à educação e cultura. Ele,
particularmente, estava satisfeito com as últimas atitudes de Jânio Quadros,
principalmente com a abertura política para o mundo socialista. Com essas
atitudes, Jânio contrariava os interesses americanos no Brasil e, por
extensão, os privilégios das elites endinheiradas.
Sampaio dizia, ainda, que o Brasil só iria sair da situação de dependência e
escravidão em que se encontrava quando se libertasse do jugo das forças
conservadoras. Para isso, seria necessário formar um partido político com
base nas forças autênticas do operariado. Para sua atuação pessoal dizia que,
quando se formasse, iria montar escritório de advocacia no ABC e trabalharia
exclusivamente para a classe operária.
Muitos anos depois, já famoso por seu idealismo, iria trabalhar no Sindicato
dos Metalúrgicos do ABC e, ali, influir na formação do PT.
Quando Jânio renunciou, dizia aos seus amigos, da Praça da Sé, para prestarem
muita atenção no futuro político, já que, em decorrência dos recentes
acontecimentos, as forças de direita estavam se aglutinando nos bastidores e
provocariam grandes alterações. A queda de Jânio, representava, para ele,
apenas o prenúncio de grandes borrascas políticas.
ENGANANDO O DELEGADO
Em 1966, o ambiente político estava mais calmo do que havia estado nos dois
anos anteriores. Alguns líderes comunistas encontraram-se com seus camaradas
em alguns pontos alternados da praça da Sé. Às vezes, reuniões secretas eram
feitas dentro da Catedral. Cada companheiro ia chegando, ocupando um
determinado banco, aguardando que os demais chegassem e se acomodassem,
enquanto fingiam orar. Dirigiam-se a um determinado altar, continuavam a
fingir que oravam, trocavam informações e debandavam-se nos intricados movimentos
da Praça.
Em decorrência da opressão militar dos anos precedentes, a fim de receber
informações e traçar novas diretrizes políticas para o futuro imediato, seria
necessário a realização de um congresso com a participação dos líderes de
todos os estados. Trazer de todas as remotas partes do Brasil os
companheiros, com o intuito de restabelecerem a organização perdida, parecia
ser necessário ao Partidão. Este era, contudo, um empreendimento árduo, se
não um verdadeiro desafio.
Prender os principais comunistas brasileiros em uma única tacada, seria a
glória para o Delegado Fleury. E ele, certamente, estava atento.
A ligeira calmaria que reinava no Brasil poderia ser simplesmente uma
estratégia da Política de Repressão.
Mesmo assim, Carlos Marighela, o mais procurado de todos eles, deu a palavra
final: o Congresso se realizaria e, para isto, bastaria enganar o delegado.
Marcado o Congresso, os convidados começaram a chegar a São Paulo.
Convencionou-se que cada um dos participantes só receberia as instruções
quando chegassem a São Paulo e que, dali, seriam conduzidos por guias em
pequenos grupos. Foi indicado um alcagüeta da polícia para passar informações
falsas. Desta forma, a polícia foi informada de que Marighela estava na
Bahia, para a realização de um Congresso do PC.
No dia marcado, à medida que foram chegando, os convidados eram conduzidos em
ônibus, carros, caminhões para São João da Boa Vista, de onde, após várias
precauções, eram levados a uma fazenda, de propriedade de um capitalista
simpatizante com as causas dos trabalhadores e com as do PC.
A sede da fazenda estava localizada numa colina que possibilitava ampla
visão, dando, assim, condições para que os participantes do Congresso
pudessem enxergar qualquer movimento suspeito à longa distância.
Os participantes começaram a chegar na fazenda na sexta-feira à noite em
intervalos de quarenta minutos. Tinham de deixar os veículos afastados da
sede da fazenda e de vir até ela a pé.
Ao adentrarem a sede, receberam instruções severas concernentes à segurança
de todos, pois ali se concentrava a força ativa do PC. Camaradas encontraram
camaradas que não viam há muito e confraternizaram-se entusiasticamente.
Demonstravam a mais genuína alegria.
Um grande número de pessoas já havia chegado, o fluxo de chegada foi
diminuindo, mas só Marighela não aparecia. Estava escondido em uma cabana,
próxima à sede.
O Congresso teve início às 8:00 horas de sábado e foi interrompido às 12:00,
para o necessário churrasco. Às 14:00 horas retornaram aos debates.
Para a organização de grupos de sentinelas, resolveram fazer um
sorteio.
Para guarnecer a porteira principal, no turno da meia noite, foram sorteados
Marighela e Cid Tavares. Os companheiros protestaram, pois achavam que
Marighela deveria ser poupado. Mas ele achou isto um insulto. Não queria
privilégios.
Com dois fuzis e uma metralhadora, foram fazer a rendição dos
companheiros.
Cid Tavares ainda contava, muitos anos depois, como foram aquelas horas com
Marighela: “ele olhava para o céu, sorria para as estrelas:
- Veja Cid, quanta harmonia no céu! As estrelas e os planetas em perfeita
sincronia. Velhos e jovens, grandes e pequenas, vivendo o esplendor do
momento. E nós aqui, na Terra, empunhando armas que podem matar nossos
irmãos.
Refletia um pouco, sob os sons da noite no mato, e continuava:
- E o que nós queremos? Nada além de implantar na Terra essa harmonia do céu.
Por que têm de haver tantas divergências aqui na Terra? Não poderia ser tudo
diferente?
A paz reinava nos derredores, eu não sabia o que dizer, além de concordar, e
ele, após perscrutar por várias vezes o infinito, continuava:
- Olha Cid, o que o nosso partido quer é dar igualdade, fraternidade e o
socialismo para todos. Acabar com os exércitos, extinguir a opressão, as
polícias de todos os tipos, as armas. E com o dinheiro não gasto nessa
corrida armamentista, eliminar a fome no mundo.
Eu concordava com frases curtas. Às vezes uma única sílaba, às vezes, duas ou
três. Depois, perguntei a Maringhela se ele não tinha medo de ser morto, já
que era o homem mais procurado do país”.
Marighela respondeu:
- Se for para ser morto pela causa dos miseráveis e dos trabalhadores,
gostaria de ser pranteado como herói. Deixarei para eles uma semente que
poderá germinar e, desta forma, minha morte não terá sido em vão.
Foi este o nosso principal diálogo, enquanto tiramos guarda.”
Durante o Congresso daquele domingo, Marighela pedia para que todos fossem
confiantes, pois a causa do PC era Universal e que todos, no futuro, iram se
glorificar. Salientava, contudo, que era preciso apressar a chegada desse
dia. Ele não viria sem muita luta.
No domingo as palestras e debates foram encerrados às 13:00 horas, para que
todos pudessem retornar às suas casas. Marighela com três companheiros foram
os últimos a abandonar a fazenda. Esperaram escurecer.
Seguiram em um carro. Passaram pelo centro de São João da Boa Vista, por
volta das 21:30 horas e seguiram, pela Anhangüera, com destino a São Paulo.
Na altura de Americana, quatro policiais pararam o carro. Houve um grande
susto. Segundos antes do carro parar, Marighela disse: “Adeus companheiros.
Parece que estamos fritos”. Marighela estava sentado no banco traseiro, ao
lado de Antônio Galdino que viria muitos anos depois, ser candidato à
Vice-Governador na chapa de José Dirceu. Dentro do carro, todos, com exceção
do motorista, haviam engatilhado seus revólveres.
Os policiais se aproximaram e um deles dirigiu a palavra ao motorista:
- Será que vocês podem ajudar a tirar um carro da ribanceira? Ele perdeu o
controle, saiu da pista e há uma pessoa dentro dele.
Todos se prontificaram, com exceção de Marighela que alegou ser cardíaco e
não poder fazer força. Assim, ficou sozinho dentro do veículo, pois tinha
medo de ser reconhecido.
Empurraram o carro, a pessoa foi socorrida e os viajantes continuaram viagem
com os agradecimentos da polícia.
Já distantes do local, todos riam muito e se divertiam com a situação.
- Senti que nascemos de novo — disse Marighela.
Decidiram que seria melhor dormir em Jundiaí e lá se separariam. Assim fizeram.
Marighela foi de trem para São Paulo, vestindo um macacão de mecânico da
Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
Dias depois soube-se que a polícia havia organizado um gigantesco aparato
sobre a ponte Jaguaré, na Via Anhangüera, para prender Marighela.
Quando perguntamos ao Cid Tavares, como o PC conseguiu realizar aquele
congresso, ele responde simplesmente:
- Enganando o delegado.
DITÃO CHEIROSO
Ditão cheiroso andava sempre com duas sacolas pela Praça da Sé. Dentro delas,
várias garrafas e litros. Ele chegava com vários engradados de madeira em uma
perua velha. Começava bem cedo a sua trabalheira. Entrava e saía de todos os
bares e restaurantes da praça e das imediações.
Ditão tinha um cheiro muito característico. Cheirava a essências estranhas
que ninguém conseguia descobrir o que eram.
Numa manhã de segunda-feira, os amigos de Ditão levaram um susto: a foto dele
estava estampada nos dois matutinos populares, Última Hora e Notícias
Populares. Tinha sido preso em flagrante, por falsificação de bebidas.
Ali mesmo, na Praça, os amigos resolveram tentar ajudar e contrataram um
advogado para tirá-lo da cadeia. Mas não teve jeito. Ditão já era reincidente
e, agora, para piorar a situação foi pego vendendo uísque falsificado. Se
fosse preso vendendo pinga falsificada, certamente seria solto na hora. Mas
uísque? Bebida de rico e de classe média, isto a polícia e a justiça não
podiam tolerar.
Ditão foi condenado a passar alguns anos no Carandiru.
Logo que chegou, os presos começaram a conhecer a sua história. Fabricante de
bebidas finas, como ele mesmo se intitulava, havia tido azar. Agora, iria
descansar. Comer e beber à custa do Estado. Dormir bem, tomar banho, jogar,
contar histórias, ouvir anedotas, enfim, um vidão. Para ele, tão sacrificado
retirante do Nordeste, até que não estava ruim. “Melhor do que ficar em minha
terra”, dizia sempre.
Mas havia alguém de olho nele, na penitenciária. Era Zuim Barboza, o chefe de
uma vasta rede de interesses. No pátio, pegou Ditão para conversar.
— Olha aqui, Ditão, você pode ter tudo comigo, se for sincero.
— Sinceridade é comigo mesmo.
— Bem, Ditão, me diga uma coisa, como você fabricava uísque?
— Fabricar uísque não é difícil. É manha. Mas eu fabricava outras bebidas
também, como groselha, vermouth, conhaque e até perfumes.
— Mas como você conseguia fazer?
— Era fácil. Eu tenho um fornecedor, o João, que trabalha numa fábrica de
essências. Ele me arrumava tudo o que eu precisava.
— E ele pode ainda continuar a fazer isto?
— Pode. É só ter dinheiro para pagar.
— Então, Ditão, você vai continuar a ter muito trabalho.
— Como assim?
— Você vai fabricar bebidas, aqui mesmo.
— Mas como?
— Deixa isto comigo. Vou montar as telhas. Construir a rede, você tá ligado?
— Um pouco.
— No momento certo, você volta a trabalhar.
Uma semana depois, Ditão foi convocado para trabalhar de ajudante de cozinha.
Ali começava a nova fase na vida de Ditão Cheiroso.
Zuim Barbosa era também o responsável pelo abastecimento e distribuição
interna de comida. Tudo arranjado com a direção.
— Ditão, agora você precisa me dizer onde mora esse fornecedor. Convoque sua
mulher, para ela colaborar com as compras de essências para nós. Ela sabe
onde mora o fornecedor, não sabe?
— Sabe sim. Ela já ajudava no negócio, antes de me prenderem. Deixa comigo.
— Você faz as listas, ela compra tudo direitinho e deixa lá na casa dela. Nós
vamos lá buscar e trazemos para cá.
— E como será feito isto?
— Fácil. Entra tudo dentro dos latões de leite, de caixotes e sacos, tudo
numa boa.
— E onde vamos fazer as bebidas? Precisamos de vasilhames grandes.
— Isto já temos de sobra. Caldeirões gigantes não faltam por aqui. Já
requisitei mais dois.
— E quando começamos?
— Quando as essências chegarem.
— Agora, Ditão, é só fazer a lista.
Ditão fez as listas, com as essências necessárias para a fabricação de
vermouth, groselha e conhaque, e entregou ao Zuim.
Poucos dias depois, a cozinha do presídio passou a ser também uma fábrica de
bebidas.
Os elogios dos presos eram gerais.
Além da distribuição interna havia também uma externa, tudo bem controlado.
Alguns anos depois, Ditão foi posto na rua.
Livre, experiente, tinha agora novos planos. Iria fabricar as bebidas dentro
da lei e da ordem.
Quando estava preso, ganhava R$ 0,30 por litro vendido. Agora, desejava
ganhar muito mais.
Arrumou dois sócios, ambos colegas da prisão, que também já estavam curtindo
a liberdade e, assim, nasceu mais uma fábrica de bebidas, em São Paulo.
O fornecimento para os bares e restaurantes da Praça da Sé e para o centro
continuou por muito tempo.
As essências que Ditão utilizava para fabricar as bebidas eram tão fortes que
os cheiros impregnavam-se nele.
Um infarto tirou Ditão deste mundo.
Morreu cedo, aos 48 anos, provavelmente intoxicado pela exposição excessiva
às inúmeras essências que usava.
Essas essências eram tão fortes que, mesmo depois de morto, seus cheiros
impregnavam o ambiente e incomodavam as pessoas que foram ao seu
velório.
Sua mulher continuou por algum tempo no ramo e, mais tarde, vendeu sua parte
na fábrica para os outros dois sócios. Voltou para sua terra, no Ceará, podre
de rica.
A ANÉSIA DO CAPITÃO
Todo mundo, no quartel, tinha o maior respeito pelo comandante, Capitão
Barboza, assim conhecido por todos.
Depois de ter ficado viúvo, demonstrava uma certa melancolia.
“A viuvez é assim mesmo”, diziam os soldados para confortá-lo.
Mas o capitão tinha outra coisa em mente. Não era a viuvez que pranteava.
Agora, solteiro novamente, sonhava rever sua antiga namorada. “Uma flor,
entre as mais belas flores. Uma Diva, a mais bela das Minas Gerais.”
Depois que os soldados ficaram sabendo, passaram a lhe perguntar:
— Quando o senhor vai para os sertões das Gerais?
— O que está esperando para correr atrás de sua Diva?
— Um dia, um dia eu tomo coragem.
Havia sempre sido muito cuidadoso com o corpo e não cansava de repetir a
máxima de Platão “corpo são em mente sã...” e exaltava a necessidade de
cuidados pessoais, de preservação das dádivas naturais.
Aposentou-se e, num certo dia, arrumou suas coisas. Vestiu o melhor terno, o
melhor sapato, tudo combinando, e voltou para o torrão natal.
Não contou o motivo da viagem aos parentes. Dizia, simplesmente:
— Vim rever o meu povo.
Anda daqui, anda de lá, sempre conversando e espreitando, até que soube onde
morava a sua adorada Anésia.
Morava num sítio pras bandas da quebrada do Zeca Leite.
Tomou coragem. Ele que era tão valente para lidar com os bandidos de São
Paulo. Por que não? Iria sim rever a sua amada.
E lá se foi, o intrépido comandante.
Chegou, foi apeando do cavalo. Viu uma velhinha varrendo o quintal. Toda
suja, cabelo sem vida, desgrenhado, sem dentes.
Perguntou:
— A senhora pode me dizer onde mora a dona Anésia?
— Tô aqui, meu senhor, pra lhe servir.
O capitão teve um chilique. Onde buscar forças para tanta decepção?
Perdeu o controle, olhou por instantes atônito para aquela figura e, sem
saber o que dizer, disse, simplesmente:
— Obrigado.
Subiu no cavalo e foi-se, sem olhar para trás.
Voltou para São Paulo, arrumou um novo trabalho como chefe de segurança em
uma empresa privada.
Quando encontrava os velhos companheiros, e estes lhe perguntavam sobre seu
antigo amor lá das Gerais, respondia:
— Ainda não pude ir até lá. Um dia, quem sabe?
Para sua filha contou a verdade:
— O passado é para ser lembrado, nunca para ser revivido.
CHUMBOS TROCADOS
Mister Carvalho era o protótipo da pessoa bem sucedida.
Diretor de multinacional, com apenas 32 anos de idade, era bem formado, com
inglês fluente e casado.
Tudo nele recendia o perfume do sucesso.
Era fechado, taciturno, soberbo, mantinha todo mundo à distância, no estilo
britânico.
Tão importante na empresa em que trabalhava, tinha apenas um casal de
amigos.
Jantavam juntos sempre às quintas-feiras. As crianças dos dois casais eram
amigas.
Mas, com o passar do tempo, foram aparecendo alguns sinais de preocupação no
rosto do tão importante diretor. Suas maneiras, de recatadas, passaram a ser
quase hostis.
As secretárias procuraram descobrir o que poderia estar acontecendo, mas dele
nada transpirava.
A única pista que parecia aflorar de tão compenetrado e eficiente executivo
era o fato de que em todas as tardes de terças-feiras ele desaparecia. Não
deixava telefones para contatos e nem chamava a empresa.
Estaria aí a chave do mistério, já que, de resto tudo parecia ser uma rotina
altamente satisfatória?
Pensaram que, talvez, o problema estivesse relacionado com sua esposa.
E, realmente, estava.
Certo dia o executivo ligou para sua mulher e pediu para que levasse os
filhos para a casa da mãe dela. Ele tinha um assunto urgente e importante
para discutir com ela.
Chegou a casa mais cedo do que o habitual e tentou, como era seu estilo, ser
prático, claro e conciso. Não conseguiu. Balbuciou algumas palavras, mas eram
desconexas, ininteligíveis. Tão fora do seu normal. Deu murros na parede,
chorou.
— Conte para mim o que o aflige, meu amor. Seja qual for o problema, eu
saberei compreender.— dizia a mulher, tentando ajudar.
Tomou uma dose dupla de uísque, acalmou-se um pouco e resolveu enfrentar a
mulher:
— Sabe querida, eu guardo um segredo há quatro anos. Mas já não agüento mais.
É que sou amante de sua melhor amiga.
Sem pestanejar a mulher disse calmamente:
— Ah! Querido. Você me tirou um peso da consciência. É que eu sou amante de
seu amigo há uns três anos.
Carvalho se indignou. Quase bateu na mulher. Como podia ela traí-lo com seu
melhor amigo?
Como podia falar tão calmamente, enquanto ele se digladiava para encontrar
uma forma de não magoá-la mais do que o necessário?
Mas, orgulhoso, de maneiras britânicas, engoliu o impacto, para pensar mais
demoradamente sobre a situação.
Alguns dias passaram, até que ambos pudessem absorver as traições.
Conversaram, conversaram, inicialmente, em dois. Conversaram, posteriormente,
com seus respectivos amantes e chegaram a um acordo: os homens mudariam de
casa.
E assim foi feito.
Mas, obviamente, tal mudança, apesar de nosso herói ser pessoa
reconhecidamente reservada, ficou conhecida de muitos.
Superior à mediocridade social, fingiu não ser atingido.
Fato é que, depois disto, Dr. Carvalho passou a ser mais humilde, deixou
mesmo de ser o executivo de nariz empinado. Afinal, chumbos cruzados merecem
respeito.
Atualmente, após muitos anos, os dois casais voltaram a jantar juntos nas
quintas-feiras, no Clube Inglês.
É melhor amigo pra cá, amigão pra lá ...
JURINHO É COISA SAGRADA
Seu Polite andava bem devagar. Seus amigos diziam que era para não gastar os
sapatos.
Era considerado muito rico e também muito esperto.
Uns diziam que era Judeu, outros acrescentavam que não tinha pátria.
A pátria dele é o dinheiro! — diziam.
Ele ria dessas gozações e dizia:
— Vocês não sabem de nada.
Conhecido por ser rico, vivia de emprestar dinheiro.
Quando aparecia um pato, os juros eram mais altos.
Quando o cliente não podia pagar, falava em voz chorosa: “Pelo menos paga os
jurinhos. Jurinhos são coisas sagradas”.
Seu Polite era contra casa própria. Ele possuía muitas lojas comerciais.
“Casa própria é um engodo. Sempre a gente precisa ir arrumando, consertando.
Na casa de aluguel a gente não precisa fazer nada disso. Economiza. E, se tem
algum vizinho ruim, a gente vai embora. Se a casa ameaça cair, a gente aluga
outra”
E quando alguém lhe perguntava como tinha ganho a sua fortuna, desconversava.
Mas seus amigos mais íntimos diziam que ele havia posto fogo na loja da 25 de
Março.
Nas vésperas de Natal, mandou colocar um Papai Noel gigante na porta de
entrada. No dia de Natal, provocou um curto-circuito. Incendiou o prédio
todo.
Estoque já não tinha mais. Tinha seguro do estoque que já não existia. Havia
vendido tudo à vista, a maior parte sem nota fiscal.
Em seguida, apareceu com um escritório super chique na Rua Anchieta. Andar
todo, carpetado. Dizia para os amigos:
-- Não é meu. É do meu filho.
Muita gente vinha do exterior para fazer negócios. Algumas pessoas desconfiavam
dos tipos dos clientes.
Até que um dia, o escritório permaneceu fechado. Os jornais publicaram
notícias de um grande golpe. O filho havia fugido.
Alguns anos depois, o velho voltou a andar pela Praça da Sé, rua da Boa
Vista, Pátio do Colégio, sempre fazendo negócios de agiotagem e sempre
repetindo:
“Jurinho é coisa sagrada. Eu não quero receber o principal agora, filho, vá
pagando o jurinho. Você sabe, jurinho é coisa sagrada.
MANDINGA DA BRAVA
Seu Delmiro chegou de Portugal em 1955.
Veio tentar a vida no Brasil. Em sua terra natal as coisas estavam difíceis.
Logo arranjou emprego com um alfaiate. O patrão atendia a freguesia, cortava,
e Seu Delmiro costurava.
E assim foi vivendo, até que lhe surgiu a oportunidade de entrar nos negócios
das pensões.
Alugava casas grandes e depois transformava os cômodos em “vagas para rapazes
ou moças”.
Foi ganhando dinheiro. Até começou a paquerar.
Conheceu Marina, a namorada que passou a ser a luz de sua vida.
Dizia a todo mundo que estava apaixonado.
Num fim de tarde, recebeu Marina em sua sala. Seu Delmiro fechou a porta a
chaves. Mas, de repente, começou um alvoroço.
Saiu da sala aos tapas com o amor de sua vida, expulsando-o com sopapos e
pontapés.
Acorreram curiosos, a quem ele reclamava:
— A gaja me enganou. Não era mulher, era homem.
Mais tarde, tentou paquerar uma mineirinha, mas esta já foi lhe dizendo que
preferiria dormir com bichos a dormir com o portuga.
Sem alternativa, mandou vir a mulher e mais as cinco filhas lá de
Portugal.
No início, alojou a família em dois quartos. Um era o dormitório das meninas,
o outro era o quarto do casal, a sala de refeições e a cozinha.
Alugou mais uma casa na rua Albuquerque Lins. Nesta passaram a ocupar a parte
da frente e “no fundos” instalou 18 vagas.
Esse novo negócio era para a esposa. Não metia o bedelho. Só fazia a
exigência de que dali tinha de sair o dinheiro para sustentar a família.
E foi ampliando sua rede de pensões e de casas de aluguel.
Jamais abandonou o ramo de alfaiataria.
Aos amigos que lhe diziam ser ele unha de fome, respondia: “as pensões e o
aluguel são o meu ganha pão.”
Antes de morrer, tornou-se proprietário de hotéis. Todos de curta
permanência. Não queria mais saber de inquilinos. Com o passar do tempo iam
fazendo amizades, querendo vantagens, dando calotes. Eram todos uns
ingratos.
Lidando com o giro rápido dos hotéis, não ficava conhecendo os inquilinos.
Assim era melhor.
Tentou voltar para Portugal, mas seu coração já era brasileiro.
Mandou colocar este epitáfio em seu túmulo:
“Esta terra tem mandinga e das bravas. Me pegou para sempre”.
EVERINA, A EMPREGADA
Cansada dos atropelos do lar e das empregadas paulistas, Dona Marly pediu
para que seu tio lhe mandasse uma empregada dos sertões das Alagoas.
Requisitos básicos: ser limpa, conhecer bem os serviços domésticos e que não
fosse muito bonita para não atiçar o marido. E mais: que não tivesse certos
vícios, pois dona Marly detestava cigarros e não tolerava álcool e outros
mais tão em voga com as empregadas de hoje.
Exigia, finalmente, que já tivesse o sexo gelado, para evitar transtornos
insuportáveis.
Católica fervorosa, Dona Marly transpirava virtudes.
Tempos depois, num domingo, por volta da hora do almoço, tocaram a
campainha.
Era o porteiro acompanhado de uma moça com um saco na cabeça e cara de
retirante.
A moça foi logo dizendo:
- Sou Severina, aquela que a senhora encomendou para seu tio.
Dona Marly logo sorriu e pensou: “ainda bem que chegou a empregada que pedi a
Deus”.
- Entre, Severina. Venha cá que eu vou lhe mostrar o seu quarto.
O marido de Dona Marly, para puxar prosa foi logo perguntando:
- Gostou da viagem?
- Qual o que! Vim na boléia do caminhão, fazia muito catabio.
Estranhando, o homem perguntou:
- E o que é boléia, o que é catabio?
- O siô num sabe, não?
- Não, eu não sei.
- Sei não, cumo explicá!
Assim, Severina começou a sua lida cotidiana em São Paulo.
Longe de Severina a família se divertia e os filhos perguntavam: “onde a mãe
foi buscar um tamanho disparate?”.
E as crianças contaram na escola, para os familiares o pitoresco daquela
estranha criatura. Imitavam-na e repetiam o que ela dizia: “cadê a taubinha
de passá roupa?”, “carece de trocá a lâmpida da cozinha”, “você vai mais
ele?” e coisas assim. Todos riam.
Severina não era aquela empregada com a qual Dona Marly havia sonhado, mas
sabia fazer algumas coisas. Nem era tão estúpida, quanto a língua poderia
sugerir. Tinha lá suas espertezas.
Quando Dona Marly ia sair, dizia a Severina para cuidar bem das crianças e
dar-lhes o que pedissem. Severina respondia.
— Dexa pra mim que eu assunto eles, D. Marly. Pode dexá.
Dona Marly reclamava de algumas coisas, junto às amigas, mas sempre dizia:
“pelo menos não tenho de aturar os namoros das empregadas. Isto já é uma
qualidade.”
Mas, tão logo adaptou-se à nova cidade e começou a sair, Severina já arrumou
alguns fãs. Eram homens vindos de todos os lados e Severina dormia com
qualquer um.
Logo o condomínio virou um tumulto. Todo mundo comentava os namoros
relâmpagos de Severina.
— E agora, Dona Marly, o que fazer com a empregada que a senhora trouxe do
Nordeste? — perguntavam as amigas e os familiares.
— A culpa é do meu tio.— respondia contrafeita e querendo pôr um ponto final
na conversa que tanto a incomodava.
Ligou para o tio em Maceió e deu-lhe uma bronca. Mas como devolver Severina?
A moça trabalhava direito e ela, uma autêntica cristã, não poderia
prejudicá-la.
Logo resolveu o problema. Pôs um anúncio no jornal oferecendo uma empregada
que sabia fazer de tudo e agenciou, pessoalmente, Severina.
Severina, quieta e submissa só observou tudo o que foi feito. Escutou as
restrições que algumas patroas em perspectiva apresentaram, observou a
maneira como dona Marly argumentava, insistindo nas qualidades da moça e nas
desculpas esfarrapadas que justificavam a necessidade de mudança de
emprego.
A moça obteve um novo emprego e Dona Marly jurou que nunca mais falaria com o
tio, nem confiaria em nordestinos.
Agora faz o serviço de casa ajudada pelos demais membros da família.
O tempo passou.
E Severina?
Ela diz que agora é dona de uma agência de empregadas domésticas. Todas vêm
de Alagoas.
Diz, ainda, que agora as empregadas não são escolhidas e são elas que
escolhem.
Severina, como o próprio nome vaticina, é severa com suas pupilas. Namorar no
serviço, é a conta na hora.
De vez em quando, visita Dona Marly. As duas ficaram amigas do peito.
- Você se lembra, Severina, quando chegou a São Paulo? Parecia um
bicho.
- Suas rezas me ajudaram a mudar, quando vejo um homem interessado em mim, já
mando ou buscar outra ou ir para os quintos dos infernos.
E continua:
- Meu negócio agora é lidar com mulher.
Crente, fervorosa, Dona Marly pensa que Severina vai virar uma santa.
Virou, na verdade, empresária. Era dona de um bordel.
CHAGUINHA, O PIANISTA
Chaguinha Tosta, funcionário público municipal, tinha um público feminino
invejável, na rua onde morava, no Tatuapé.
Não que fosse bonito, mas era homem cumpridor de seus deveres.
Era casado com Matilde, uma guapa loira descendente de alemães.
Na Secretaria da Fazenda, atendia o público. Prestava informações sobre
finanças e mostrava-se sempre atencioso.
Às 18:00 horas, nem mais um minuto, já estava com o pé na porta. Ia correndo
para casa.
Assim passavam os seus dias.
Até que Matilde ficou doente. Não vivia bem da cabeça.
Chaguinha andava aborrecido e os amigos perguntavam:
— O que está acontecendo?
Chaguinha, inicialmente, desconversava. Mas, um dia contou: “sua mulher não
queria mais ele como homem. Queria só como companheiro. O que ele iria
fazer?”
Os amigos se reuniram. “Vamos dar um jeito”, propuseram.
Levaram-no para que se entrosasse com a vida noturna de São Paulo.
Mas Matilde colocou um obstáculo: reuniões noturnas, só aos sábados.
Nesse dia, Matilde dava banho no marido, perfumava-o com essências que ela
mandava trazer de Paris, passava suas camisas, gravatas e ternos com esmero
raro.
Sapatos engraxados. E lá ia Chaguinha para as noitadas. Em princípio, com os
amigos da repartição. Depois, ganhou liberdade, ia sozinho.
Matilde o aconselhava: “olhe meu filho. Cuidado com as mulheres. Veja se elas
são limpas. Discrição é importante para você. Muita atenção ao andar pelas
ruas.”
E lá ia Chaguinha, em busca de meios para afogar as suas necessidades.
Depois de alguns anos, Matilde se arrependeu. Quis prender o marido novamente
em casa. Passou a assediá-lo, mas agora Chaguinha era outro. Gostou daquela
vida de boêmio.
Fez um trato com a esposa. Poderia voltar a ser o marido de outrora, mas só
de segundas a quartas-feiras. Ia ampliar sua vida noturna, pois, agora, além
de boêmio, era um pianista famoso num inferninho que ficava lá pelas bandas
do Pacaembu.
Deixou a repartição, pois precisava dormir o dia todo.
Para não morrer de tédio, Matilde arrumou um emprego. Ela agora passou a
tocar violino com o meio marido, meio companheiro.
O HOMEM DOS CAVALINHOS
Depois de passar tantos apertos em sua vida profissional, Rafael Apostólico
foi, aos poucos, mudando de atividade.
A partir do momento em que começou a apostar em corridas de cavalos, nunca
mais conseguiu largar o novo ofício.
Freqüentava o Jóquei Clube de São Paulo. Conhecia os “garçons”, os porteiros,
as cozinheiras, os jóqueis, os donos dos cavalos.
Em sua alfaiataria quase não se trabalhava mais. Era gente entrando e saindo,
o dia todo. Todo mundo com o cavalo na cabeça.
O senhor Apostólico mantinha aquele ar de muito entendido: “hoje recebi uma
informação da cocheira. Era certeza, o cavalo iria ganhar.”
Passou a ser banqueiro de corridas de cavalo, tantos eram os amigos que lhe
telefonavam.
E ele botava o dinheiro a rodo, para aumentar os ganhos.
“Os cavalinhos, são minha vida”, dizia.
Não era casado, não tinha filhos. Só um irmão que, de vez em quando,
aparecia.
Era discreto. Principalmente quando perdia.
Na sala ao lado, trabalhava um office-boy. Foi tomando simpatia pelo menino
e, aos poucos, passou a gostar do garoto.
Queria que ele estudasse.
Mas como, se os pais eram pobres? Tinha outros irmãos. Não podiam arcar com
os estudos.
Assim foi-se inteirando da situação do garoto.
Um dia, o homem dos cavalinhos decidiu:
— Você vai estudar e eu pagarei pelos seus gastos.
Todos os dias, queria saber das lições. O que o professor tinha dado, o que o
garoto havia aprendido.
Passou a fazer o papel de pai e o menino correspondia.
Formou-se.
Seu Rafael fez, ele mesmo, o terno para o rapaz.
Depois de formado, ainda passou a dar dinheiro para o seu pupilo, para pagar
as prestações de um terreno.
Mandou construir uma casa de três quartos, tudo bem arrumado.
Os negócios com os cavalos foram diminuindo.
Um câncer na garganta lhe atazanou a vida até seus últimos momentos.
Morreu cercado por amigos e pelo seu pupilo.
Quando o irmão de Apostólico abriu um cofre, na alfaiataria, encontrou dentro
dele um caderninho com anotações de devedores e muitas notas promissórias,
cheques, promessas de pagamentos. Enviou tudo para um advogado cobrador.
Quase ninguém pagou. O único que pagou até o último vintém foi o
ex-office-boy.
Fez questão de não ficar devendo nada. Afinal, um benfeitor merece ser
pago.
Em seu túmulo aparece um cavaleiro andante. Seus amigos dizem que ele, agora,
deve ser jóquei na pátria de São Pedro.
ROLOS E ENROLAÇÕES
Tudo o que era encrenca da brava, processos difíceis e demorados, desses que
tramitam por anos pelas repartições, todas as enrolações enormes, dessas
cujas informações essenciais estão todas num passado bem longínquo, caíam nas
mãos do Dr. Riani.
Esse advogado, especializado em testamentos e heranças, aceitava casos que se
perdiam no tempo e no espaço, mas que podiam ser amparados.
Mas não se limitava a esperar que essas complicações chegassem até seu
escritório na Praça da Sé. Agia efetivamente para obter clientela.
Com grande visão de marketing, contratou um corretor que buscava e trazia
para seu escritório muitos desses negócios. Homem simpático, de sorriso
largo, fala mansa de cristão devoto, esse agente freqüentava diversas
igrejas, fazia amigos rapidamente e nelas conquistava seus novos possíveis
clientes.
Tinha por princípio que a dor dos herdeiros vinha a público antes das suas disputas.
Certo dia, o corretor apareceu no escritório com uma família imensa. Seus
membros eram herdeiros de uma vastidão de terras em Guarulhos. Mas o corretor
foi logo dando seu palpite:
— Dr. Riani, acho que o senhor não vai pegar. É muita enrolação.
— Pode deixar comigo. Se é difícil, trabalharemos mais arduamente. Conheço os
caminhos para resolver esses assuntos.
E, assim, mais um processo entrava para a sua banca.
Quando amigos lhe perguntavam por que aceitava esses casos complicados e
difíceis, ele respondia:
— Muitos desses casos são difíceis e demorados. Assim, eu vou ganhando um
dinheirinho ao longo de muitos anos. E, depois, quando, finalmente, surge a
solução, nenhum herdeiro tem condições de pagar por todas as custas. Aí, para
resolver o problema, eu recebo parte das terras. Vou formando um
patrimoniozinho para meus netos.
Até que o Dr. Riani foi envelhecendo, envelhecendo e ficou caduco.
Perguntava aos herdeiros de Guarulhos:
— Vocês conhecem Guarulhos? Aquilo não era nada, mas foi crescendo, crescendo
e é hoje uma metrópole. Ah? Vocês têm negócios lá em Guarulhos?
Foi por essa ocasião que o corretor, que também já estava envelhecido e
cansado, trouxe um novo e jovem advogado para o escritório, para ir se
familiarizando com os negócios do Dr. Riani.
O Dr. Riani faleceu, e o jovem advogado, em poucos anos, resolveu todas as
questões pendentes. Alguns processos dormiam no Fórum há anos.
OBERDÃ E JOÃO
No início dos anos 60, Capitão Oberdã era tido e havido como um dos homens
que mais mandava na política de São Paulo.
Com a fama correndo solta, Capitão era o presidente do Comercial Futebol
Clube e também do Clube Comercial, cuja sede ficava na Praça Bevilácqua,
quase ao lado do Tribunal de Justiça.
O Comercial chegou a disputar a primeira divisão. Mas o Clube Comercial era,
na realidade, um centro de carteado. Ali o jogo corria solto.
No Pátio do Colégio, a dois passos da Praça Clóvis, funcionavam a Central de
Polícia e o Pronto Socorro Municipal.
Certa ocasião, um delegado metido a besta, “um carijó”, segundo o Capitão,
marcou uma reunião com o seu pessoal. Havia recebido ordens para acabar com a
jogatina.
Deu batidas, fez ameaças, discutiu e se acalmou. Saiu dos domínios do Capitão
Oberdã como candidato à deputado, com o compromisso de defender as cores da
bandeira paulista.
As emissoras de rádio davam muita cobertura ao novo candidato e elogiavam
suas qualidades de civilista de primeira linha.
A jogatina continuou.
Diziam que o Capitão, de outra feita, já havia conseguido eleger até um
senador.
Mas Oberdã viu-se compelido a mudar da Bevilácqua. Sabendo que o Presidente
da Federação Paulista de Futebol, João Mendonça Falcão, famoso pelas suas
gafes, tinha um escritório no Pátio do Colégio, mudou-se também para o mesmo
prédio. Comprou o ponto de um advogado, só para estar ao lado da sala de João
Mendonça.
As reuniões para os carteados continuaram no lugar de origem.
No Pátio, mediante o uso de um estetoscópio especial, conseguia ouvir os
arranjos que se faziam na sala ao lado.
No dias posteriores aos grandes jogos, o tesoureiro da federação ia contar o
dinheiro da arrecadação no escritório do João e, só depois, ele era levado
para a Federação.
Oberdã vivia na marcação por causa de seu próprio clube e, em função do
futebol, com o tempo, os dois vizinhos, isto é, João e Oberdã, se aliavam, em
um dia, para tornarem-se ferrenhos inimigos, no dia seguinte.
Arapa, um repórter do Última Hora, fazia gozações diárias com João Mendonça.
Dizia que Mendonça não falava “corrimão”, mas sim “corre a mão”, não dizia
“federação”, mas sim “fé em ação”, não pronunciava “futebol”, mas sim
“futegolol”. Era um horror.
Oberdã, influente, pedia a seus amigos para que lessem esses comentários nas
rádios, aumentando a divulgação do ridículo.
Quando veio a revolução de 64, João foi perseguido, o carteado condenado,
interrompido, ou, pelo menos, levado aos subterrâneos, e Oberdã morreu, logo
em seguida, de choque anafilático.
João Mendonça retirou-se e foi viver em uma casa de campo na cidade de
Jundiaí, onde, até pouco tempo atrás, vivia relembrando o passado, afirmando
o quanto havia feito pelo futebol paulista e concluindo:
“A vida é uma bola. Você é chutado para todos os lados, e, quando envelhece,
é colocado de lado”.
A GRANDE TRAPAÇA
Dr. Nascimento, herdeiro do escritório do Dr. Riani, não era mais aquele
impetuoso e honesto jovem advogado.
Certo dia, recebeu a visita de um fazendeiro, insatisfeito com um caso de
herança de sua família.
Sentia-se prejudicado com uma divisão de terras. Suas irmãs, que não eram do
ramo, foram aquinhoadas com as melhores porções de terras, todas juntas a uma
famosa rodovia. As terras que couberam a ele ficavam nos grotões da
Mantiqueira.
Assim, ele queria mudar o testamento.
Procurou o Dr. Riani, mas este já havia falecido.
Contou o caso para o Dr. Nascimento e insistiu muito numa solução.
O jovem advogado ficou de pensar e disse que iria consultar uma amiga.
Assim o fez, e a amiga lhe disse: “ Só há uma solução: roubar o livro do
cartório, alterar, falsificar as assinaturas, e pronto!”
Mas ela queria uma fortuna para tal empreitada.
O Dr. Nascimento acrescentou outro tanto de honorários e chamou o cliente.
Este concordou com os pagamentos, mas só pagaria depois do processo
terminado.
“Negativo!” — disse o advogado — “Para correr um risco destes, só com
pagamento adiantado!”
A ambição do fazendeiro era tanta que ele resolveu concordar.
A trabalheira toda iria durar mais de um ano. E, assim, a amiga começou a
trabalhar na transcrição dos imóveis.
Foi ajudada por uma pessoa do cartório e o livro ficou pronto.
O fazendeiro veio do interior, e todos foram comemorar num restaurante do
Brás.
Isto tudo ocorreu numa sexta-feira.
No domingo, o fazendeiro morreu na casa de uma das irmãs contra a qual vinha
impetrando o passa-pernas.
Luto medonho. Toda a família chorava no enterro.
“Irmão igual a este, nunca mais!”
Dr. Nascimento e a amiga concordavam com os familiares e acrescentavam alguns
elogios ao defunto.
Quando saíram do cemitério e entraram no carro, riram tanto, tanto, que chamaram
a atenção de alguns transeuntes.
— Essa morte me tirou um peso da consciência. Nunca ganhei um dinheiro tão
fácil! Cliente tão bom. Só não pudemos acrescentar que ele era melhor morto,
do que vivo!
— É, dizia a amiga, o grosso do trabalho ficou comigo.
E foram embora felizes da vida com a morte do fazendeiro.
O livro original voltou para o cartório. O falsificado foi queimado na
baixada do Glicério.
FUGA PARA SÃO PAULO
Ariovaldo Magalhães, filho de tradicional família baiana, chegou a São Paulo com
a vergonha estampada em seu rosto.
Morava na Bahia, a uns sessenta quilômetros da capital.
Estudou um pouco, trabalhou outro tanto.
Mas, aos vinte anos, fugiu de sua terra, intempestivamente.
Sua família ficou chocada.
Numa tarde, chegou correndo em sua casa e disse para a sua mãe que, naquele
instante, estava se mudando para a capital paulista.
A mãe teve um choque com a atitude repentina do filho mais novo.
Os vizinhos vieram ver.
Ninguém conseguia atinar com o motivo da iniciativa do filho Ariovaldo.
Arrumou suas tralhas. Colocou suas roupas num saco e saiu com pouco dinheiro:
o suficiente para chegar à cidade mais próxima.
E, de cidade em cidade, fazendo um servicinho aqui e outro acolá, chegou à
sonhada capital dos paulistas.
Levou oito meses nesse trajeto. Uma canseira.
Em São Paulo, arrumou logo um encosto no Brás.
E, fazendo um trabalho num dia, em outros, ficando parado, conseguiu arranjar
um serviço fixo numa fábrica de chapéus.
Ali aprendeu o serviço de chapeleiro.
Casou-se com uma moça da Vila Ré.
Seus amigos caçoavam dele. Diziam que se casou já com um pé atrás.
Baiano, como era conhecido, saiu do emprego. Montou um atelier para reformas
de chapéus no centro de São Paulo: “Sempre sonhei com o centro de São Paulo.
E, agora, olha eu aqui, ao lado da Praça mais famosa do Brasil. Êta Praça
danada!”
Baiano ganhou dinheiro.
Comprou uma casa no bairro do Cangaíba, região da Penha.
Um dia, recebeu um primo da Bahia. Baiano apresentou o parente a uns
amigos.
Resolveram tomar uma cervejada, em comemoração à visita.
Baiano estava ávido por ter notícias dos parentes, de sua terra e de sua
ex-noiva. Saboreou, até tarde da noite, as novidades.
Mas, aí, os amigos queriam saber porque Baiano tinha abandonado sua terra
natal, tão de repente.
E o primo contou:
Baiano tinha umas intimidades com uma cabra. Quando Baiano saía pelos campos,
a cabra já ia atrás. Conhecia o lugar certo do encontro.
Mas, numa tarde, quando Baiano estava no bem-bom com a cabra, ouviu um
barulho. Olhou para cima e ficou aturdido. Acima dele, estava a noiva. Por
isso, fugiu para São Paulo.
A cabra, de tantas saudades, morreu logo depois.
Ele nunca mais voltou para a sua terra.
Morria de vergonha, ao se recordar do passado.
DELEGADO DURÃO
Designado para ser o Delegado-Chefe do centro de São Paulo, Dr. Carlos
Roberto fez uma completa limpeza na malandragem.
Pessoas, sem carteira assinada, iam direto para a cadeia.
Depois das dez horas, os bares eram obrigados a fechar suas portas.
Pessoalmente, o delegado percorria o centro à toda hora, para verificar se
suas determinações estavam sendo cumpridas.
Eram tão poucos os malandros e as pessoas desocupadas que a tarefa do
delegado não era levada a sério.
Durante o dia, o policiamento percorria o centro. Rádios-patrulhas ficavam
estacionadas em lugares estratégicos. Rondas eram feitas a cada meia
hora.
A jurisdição do delegado ia até a estação do Brás e se estendia à Praça da
Consolação, Bexiga, Av. Brigadeiro Luiz Antônio, Praças João Mendes e
Clóvis.
Em certa ocasião, ao passar pela rua do Gasômetro, a Rádio-Patrulha número 24
deparou com um grupo de cinco pessoas na frente de um bar. Deu ordem de
prisão para eles. Mandou chamar um camburão. Os cinco protestaram. Eram
jornalistas do jornal Notícias Populares. Tinham saído para tomar um
cafezinho — diziam.
Foram levados à presença do delegado.
Mais uma vez, protestaram.
— Quero ver a carteira de trabalho.
Ninguém tinha. Disseram que estavam nos bolsos dos paletós, deixados na
redação.
Ligou para a redação, falou com o editor. Explicou a situação.
— Doutor –disse o editor — essa eu quero ver. Eu vou até aí.
Chegando lá, deu olhadela na cela e, realmente, eram seus funcionários.
— Doutor, vamos combinar uma coisa. Eles, realmente, são meus funcionários.
Mas esse grupo aí tem uma mania de, ao invés de ir para casa, ficar até de
manhãzinha andando pelas ruas. Eles vão todas as madrugadas ao mercado do
parque Dom Pedro e ficam vendo as mercadorias, os movimentos. Chamam àquilo
de “o estômago de São Paulo”. Quero que eles fiquem presos até amanhã, para
aprenderem a lição.
— Então, vamos fazer o seguinte: eu chamo eles aqui e você diz que não
conhece ninguém e que eles estão blefando.
E, assim, foi feito. O grupo veio, e o editor disse que aqueles não eram seus
funcionários. Asseverou ainda:
— Pessoas mal arrumadas, barbas crescidas, sapatos furados na sola. Gente
deste tipo não havia na redação do Notícias Populares.
Os jornalistas protestaram. Em vão.
Foram levados novamente para a cela.
Só foram liberados no dia seguinte, quando o chefe do pessoal foi levar as
carteiras profissionais.
A partir daí, sempre aparecia no jornal alguma notícia contra o delegado. E
nunca mais parou.
O delegado se aposentou e foi embora para o interior.
Detestava jornalistas e escritores.
E assim terminou a saga do delegado durão.
HOMENAGENS MERECIDAS
Redator-chefe de um grande jornal da capital, recentemente formado em
Direito, Dr. Antônio tinha agora uma carreira brilhante pela frente.
Alegre, extrovertido, gostava de fazer discursos e homenagens a qualquer
pessoa, particularmente para aqueles recentemente chegados à capital
paulista.
Deste modo, desinibia as pessoas e as integrava, rapidamente, ao seu grupo de
amigos.
Por isso, angariou um grande grupo de amigos e de admiradores.
De repente, ficou sério. É que tinha recebido uma carta de seu tio,
informando que estava despachando seu filho, Canindé, para São Paulo. Pedia o
apoio dele para que o primo tivesse condições de deslanchar na metrópole
paulistana.
— E agora? Colocar o primo na minha casa, vai me tirar a liberdade. Além do
mais, mora uma pessoa comigo, e eu não tenho lugar para alojá-lo.
Morava numa quitinete.
E, nesse meio tempo de preocupações, aparece, em São Paulo, o primo
Canindé.
Ficou alojado na sala, junto com o companheiro.
Em pouco tempo, Canindé, afiado em assuntos contábeis, conseguiu uma vaga
numa empresa.
Já estava há três meses empregado, e nada de falar em se mudar.
Seis meses depois, Canindé ainda se mostrava acomodado. Nada de falar em
mudança.
Numa dessas andanças pela Praça da Sé, Dr. Antônio contou a um amigo as suas
agruras com o primo.
— Não posso pedir para ele se mudar. Vou acabar ofendendo meu tio.
— Mas eu tenho uma solução. Vamos passar a homenageá-lo.
E assim combinaram.
Todas as noites ia alguém homenagear o Canindé.
Numa noite, era uma dupla de repentistas. Numa outra, um poeta. Na semana
seguinte, um sanfoneiro. E, assim, passaram pela quitinete violeiros,
cantores, saxofonistas e uma legião de artistas.
As folganças começavam, em geral, às 11 horas da noite e se prolongavam até
de madrugada.
Canindé foi visto numa tarde cambaleando de sono, no Viaduto do Chá. E dizia:
“tenho que mudar logo. Não agüento mais tantas homenagens.”
Ao porteiro do prédio, afirmou que o Doutor era muito bom. Tantas homenagens,
ele não merecia. Mas precisava mesmo era de descanso. O primo dormia até
tarde, mas ele, às sete horas tinha de abrir o escritório.
E, assim, Canindé arrumou uma vaga em uma pensão na Santa Cecília e foi
embora.
Na mesma noite, teve uma festa no restaurante Castelões, no Brás, em
homenagem à mudança do Canindé, que ficou devendo obrigações ao primo por
tantas homenagens.
O DITO LOUCO
Ele não tinha hora e nem dia para chegar ou sair da Praça da Sé.
Às vezes ficava dias e dias, passeando de um lado para outro.
Dormia onde alguém lhe oferecesse pouso ou repouso.
Tinha uma moto grande de 1200 cilindradas.
Era um rapaz meigo, sereno, desses que as mães adoram como filho e as sogras
como genro, não fosse por um senão.
Dito Louco tinha um grande problema: em cima da moto era um perigo.
Um dia chegou a entrar pela porta lateral da Catedral da Sé e descer pela
porta da frente, numa velocidade estonteante.
Passou a ser chamado de Dito Louco
A polícia passou a persegui-lo.
A ordem do Dr. Carlos Roberto, delegado do centro da capital, era
prendê-lo.
Dito Louco possuía um amigo.
Moravam ambos no Tucuruvi.
Ele entrava e saía de dentro de sua casa, passava pela sala, sempre com a
moto ligada.
Seu amigo era um tipo grandão que viajava na garupa da moto e sempre com um
violão nas costas.
Falavam que iria ser um grande cantor.
Os pais já tinham perdido as esperanças com os dois. Curtiam a vida,
cantavam, namoravam e pronto: nada mais!
Dito Louco entrou, certo dia, na central de polícia sem usar o silenciador.
Foi um barulho infernal. Dr. Carlos Roberto saiu à porta, quis prendê-lo, mas
o sagaz motoqueiro, num ímpeto, desceu pela rua General Carneiro, passou pelo
parque Dom Pedro e, em pouco tempo, desapareceu.
Foi dada ordem para que as rádios-patrulhas, na época, uns fuscas 1200,
pintados, o perseguissem. Não conseguiram.
Aos poucos foi desaparecendo da Praça da Sé.
O tempo passou, Dito Louco começou a namorar uma estudante. Os pais dela
tentaram tudo, para acabar com o namoro. Nada conseguiram.
Casaram-se. A jovem esposa realizou um milagre.
Dito Louco, como só entendesse de motocicletas, montou uma oficina de
consertos de motos. Passou, também, a revendê-las.
Ganhou fortunas e tornou-se próspero empresário.
O amigo grandão, sempre com o violão nas costas, se transformou em cantor
sertanejo e, depois, fez enorme sucesso, cantando baladas românticas.
Dito Louco é hoje empresário de âmbito internacional.
Seus amigos dizem que nunca o amor mudou tanto um homem.
OS GOZADORES E ADONIRAN
Nos idos de 1959 e anos 60, funcionava em São Paulo o clube dos Gozadores
Anônimos da Paulicéia Desvairada.
Era um grupo de pessoas de bem com a vida e com situação financeira definida,
isto é, acima da média.
Viviam de pregar peças em outras pessoas.
Telefonavam passando trotes. Os preferidos eram os portugueses e os
italianos.
Mas, certo dia, resolveram mudar de foco. Colocaram em votação um grupo de
artistas famosos. Aquele que fosse escolhido, sofreria uma devassa em sua
vida.
Finalmente, por não haver consenso para a votação, por indicação saiu
Adoniran Barbosa, misto de cantor, compositor emérito e boêmio.
O grupo contratou um rapaz recentemente vindo do Nordeste que era metido a
intelectual, poeta, orador, mas duro.
Ofereceram para ele uma nota preta, para que trabalhasse por uma
semana.
Sua função seria fazer um amplo relatório sobre a vida do famoso artista que,
na época, estava na crista da onda com o papel de Charutinho, no programa
História das Malocas, de Oswaldo Moles, transmitido pela potente Rádio
Record.
E lá saiu Zé Pinto, atrás do Adoniran.
No primeiro dia, foi a todos os lugares.
No segundo, Adoniran desconfiou. Para onde ia, estava sempre aquele rapaz
atrás dele. Será que seria um assaltante? Mas assaltar o quê? Ou, então,
seria um facínora? Quem sabe? Por via das dúvidas, resolveu dar um trancapé
no rapaz. E caiu em cima dele:
-- Se você não me contar porque está me perseguindo, vou chamar a polícia!
Foi enérgico.
Zé Pinto contou a história toda:
-- Se não fosse por dinheiro, do qual estou muito necessitado, não faria isso
não.
Adoniran condoeu-se:
-- Quando que você precisa entregar o relatório?
— Na sexta-feira, às vinte horas, no restaurante Castelões, no Brás.
— Pois bem, esteja lá. Fique na porta me esperando.
E assim combinaram.
Adoniran preparou um relatório extenso: levantava-se às seis horas da manhã.
Às sete já estava trabalhando. Ia à Rádio Record, depois visitava Pafunça na
favela do Vergueiro. Passava na casa do Joca e do Mato Grosso. Todas as
noites ia à casa de sua mãe, no bairro de Jaçanã. Avançava pela noite,
cantando em boates, restaurantes. No outro dia cedo, já estava no Rio de
Janeiro e em Volta Redonda. Pegava o avião das 12:00 horas. Ia à casa de
Maria Rosa, na Vila Esperança, de Ignez e de Beatriz, na Vila Maria. Pegava o
trem da Cantareira. Visitava, também, todos os dias, Dona Gioconda e Oliveira
Penteado. Passava de madrugada, para dar um abraço no chefe das oficinas do
Jornal Última Hora, no Vale do Anhangabaú. Ainda, de madrugada, passeava com
seu cachorrinho pelas avenidas Ipiranga e São João. Às 17:00 horas ia à
oficina gráfica de seu Gervásio, na Liberdade. Também passava na casa de
Valdir e Laércio, na Casa Verde. Fazia gravações na Record, às
quintas-feiras, em companhia de sua amiga Malvina.
O relatório foi entregue a José Pinto, na porta do restaurante combinado, por
uma velhota.
Esta entrou no restaurante e ficou sentada a uma mesa, num canto.
Ali saboreou a leitura de seu relatório. Os gozadores riram muito.
Mas, depois de tantos risos, um deles falou:
— É surpreendente! Este homem é mais dinâmico do que o corisco. Praticamente
não lhe sobra nenhuma hora para dormir.
Depois de pagarem ao Zé Pinto, a velhota se aproximou da mesa.
— Posso me sentar?
E foi tirando a peruca e as roupas.
Só então os Gozadores viram que se tratava de Adoniran. Os gozadores,
sentiram-se gozados.
Mas Adoniran, homem do mundo e da noite, foi logo quebrando o clima de
constrangimento e começou a brincar com todos eles e a cantarolar, atendendo
aos pedidos.
Aí a festa pegou fogo.
No relatório, Adoniran visitou todos os personagens de suas maravilhosas
músicas.
ABAIXO O VERMELHO
Naldo chegou a São Paulo em 1963, para visitar seus amigos e parentes.
Percorreu muitos bares e restaurantes do centro da cidade.
Gostou tanto da cidade que não queria ir mais embora.
Foi conhecer a orla santista e esteve um fim de semana em Guarujá.
Foi a Campinas. Na entrada da cidade, queria saber por que estavam voltando
para São Paulo.
Disse aos parentes e amigos que, se tivesse condições de arrumar um emprego,
não voltaria mais para a sua cidade natal, no interior do Nordeste, região
freqüentemente castigada pelas secas.
Queria ficar.
Os amigos se mobilizaram para encontrar uma colocação.
Um deles disse que, depois de insistir muito com um diretor da Cosipa, em
Cubatão, havia conseguido uma vaga de bombeiro. O trabalho era simples.
Bastava o treinamento de uma semana, e pronto. Logo estaria apto para o
serviço. O trabalho de retaguarda no corpo de Bombeiros caía como uma luva. O
salário de quatro salários-mínimos também preenchia as expectativas de
Naldo.
Uma pensãozinha em Santos, e tudo estaria resolvido.
Assim foi arranjado o emprego.
As comemorações duraram vários dias. Sucederam-se jantares, rodadas de chope,
músicas, poesias. Tudo como manda o figurino dos boêmios.
Mas, quando foi tomar posse, voltou atrás. Não queria mais o emprego.
Mas como? — perguntavam os amigos — Você não queria tanto ficar em São Paulo?
— e completavam — Olha que não é fácil arranjar um emprego desse tipo!
Refeições, médicos, dentistas e uniformes.
É aí que morava o perigo.
Naldo disse que estava tudo bem, mas perguntava:
— Vocês repararam que o uniforme é vermelho?
— E o que que tem?, perguntou um deles.
— Vermelho eu não uso. Essa cor, na minha terra, é de boiola. Os meus amigos
vão saber e vão dizer que em São Paulo eu virei o disco, que tomei gosto por
outra coisa.
— Coisa ridícula, Naldo. Vermelho é uma cor como qualquer outra.
— Pra vocês. Pra mim, é cor de boiola.
Não, definitivamente, ele não queria aquele emprego.
Voltou para a sua terra, onde passou grande parte de sua vida contando as
suas peripécias pelas terras paulistas.
— Aquilo não é terra de gente. Imaginem que ninguém dorme à noite. É carro
prá tudo que tem lado. Tudo doido. Imaginem que, pra gente arranjar emprego,
precisa usar roupa vermelha.
UM CACHORRINHO MUITO VIVO
Seu Nenê morava nas imediações da Praça da Sé. Todas as manhãs, ali pelas
sete horas, atravessava a famosa Praça e ia à padaria na Praça Clóvis.
Tinha um cachorrinho, o Rex, preto e branco, espertíssimo.
Não gostava dos sinos da catedral. Sofria muito também quando havia bandas de
músicas e fanfarras em exibições.
Nesses dias, não saía para passear.
Com o tempo, aprendeu a cruzar os semáforos. Chegava até o meio-fio, olhava
para o semáforo. Se estivesse verde, atravessava, amarelo, esperava. Quando
estava vermelho, empinava a cabeça e ficava olhando fixamente para a
luz.
Começou a ter fãs. Muita gente ficava observando o cachorrinho e seu dono. Na
padaria, ganhava do dono alguma guloseima. Gostava muito de doce.
Depois voltava carregando um embrulhinho. E vinha empinado, como se estivesse
em um desfile militar.
Rex um dia fugiu. Foi visto pelas bandas do parque Dom Pedro. Depois,
desapareceu por um mês.
Alguém disse ter visto o Rex no Trem da Central que vinha de Mogi das Cruzes
para São Paulo.
Tudo indicava que ele havia sido roubado.
Na volta, estava magro, meio esfolado e com feridas no pescoço.
Restabelecido, voltou a acompanhar seu dono.
Mais algum tempo e ia até a Praça da República visitar uma cadelinha. Ficaram
amigos.
Subia em elevador, como gente. Só faltava falar.
Aprendeu a andar na garupa de uma moto. O motoqueiro fazia
malabarismos.
Certo dia, o motoqueiro estendeu um cabo de um lado ao outro da Praça da Sé e
andou com sua moto sobre ele. Na garupa estava o Rex, muito orgulhoso por sua
garbosa exibição.
A vida do cachorrinho foi comentada por um jornal de São Paulo.
Morreu no dia 31 de março de 1964, na mesma data em que rebentou a revolução
dos militares. Tinha exatamente dez anos.
Nunca se soube, em São Paulo, de outro cão que tenha aprendido os sinais do
semáforo.
Rex, talvez, tenha sido o único. E o mais interessante de tudo é que nunca
ninguém o ensinou.
UMA LIÇÃO NA CAVALARIA
Com a Revolução Militar de 1964, a maioria da estudantada ficou revoltada. As
medidas de exceções, decretadas pelo governo federal, levaram os estudantes
aos protestos. E estes eram reprimidos.
Resolveram, então, fazer uma grande passeata. Sairiam da Praça da República.
Assinalaram o roteiro. Iriam até a Praça da Sé, passando pelo Viaduto do Chá.
Os militares concentraram a cavalaria na Praça Clóvis.
A grande massa de estudantes começou a se mobilizar em direção à Sé.
Como a concentração da cavalaria estava situada ali ao lado, ficou evidente
que os militares atacariam os estudantes na Praça da Sé. Nesta, fizeram um
grande comício de protesto.
Inicialmente, a cavalaria se postou nas esquinas. Em seguida, fechou a Praça.
Tudo indicava que iria ocorrer um grande número de prisões. Temia-se pelas
sortes dos estudantes. Havia um clima de tormenta no ar. Qualquer movimento
em falso poderia gerar um confronto difícil de ser controlado.
Quando a cavalaria começou a dar sinais de que iria atacar, os estudantes
espalharam bolinhas de gude pela praça. Cinqüenta estudantes começaram a
tirar de sacolas e de bolsas escolares milhares de bolinhas. Fizeram isto no
meio da multidão, para que o comando da polícia não desconfiasse. Quando
houve o comando de ataque, a estudantada esvaziou a praça e a cavalaria
entrou firme. Aí ocorreu um verdadeiro desastre para os soldados. Os cavalos
começaram a vacilar, a tremer, a cair, derrubando os soldados no chão.
O povo aplaudia os estudantes.
A cavalaria era vaiada e os espectadores participavam ativamente com
comentários: “aquele caiu, aquele outro não vai agüentar. O sargentão levou a
pior. Olha o cavalo saindo em desimbestada”.
O ataque da cavalaria foi um completo fracasso.
A massa estudantil começou a se movimentar em direção à avenida Liberdade.
Subiu a Domingos de Moraes, sempre cantando. Virou no Paraíso e entrou pela
Paulista.
Ali, houve nova tentativa de confronto. Uma nova força de cavalaria estava a
postos. Mas as bolinhas de gude voltaram a causar problemas. Os militares
desistiram e os estudantes se divertiram muito.
Depois deste acontecimento, os militares começaram a se preparar melhor.
Infiltraram militares no comando do movimento estudantil.
Mesmo assim, em 1968, os estudantes voltaram a enfrentar a cavalaria.
Mas os tempos negros da ditadura desenvolveram outras táticas de repressão e
os estudantes passaram a utilizar outros esquemas que, juntos, resultaram no
endurecimento do regime militar.
O BEATO
Tinha jeito de beato. Andava como um beato. Possuía atitudes de beato. E,
integralmente, era um beato.
Prof. Valmir era devoto de São Paulo, a quem ele considerava o maior de todos
os seguidores de Cristo.
Todos os dias ia à missa.
Instalou seu escritório ao lado da Catedral, para estar mais perto do seu
santo do coração.
Freqüentemente, podia ser visto na igreja, sentado, olhando para o altar,
para a nave do templo, como se estivesse no céu.
Mas tinha um viés, que ele dizia ser a ruína de sua vida.
Adorava mulheres.
Era muito bem casado com a filha única de um grande político. Homem de
letras, fazendeiro, criador de gado, produtor de café, proprietário de casas
e apartamentos.
Sua esposa, professora muito conceituada em São Paulo.
Dizia que adorava sua mulher. Para ele, inigualável.
O que o traía, era sua veneração pelas mulheres.
E ali mesmo, na catedral, encontrou um meio de atraí-las. Seu método era
muito simples. Andava com os bolsos cheios de santinhos. Em sua pasta existia
um bloco de contratos de compra e venda, papéis em branco e santinhos de
todos os nomes.
Ele entrava na catedral e procurava sentar no banco, onde alguma mulher
solitária estivesse sentada. Ali, ficava espreitando, ajoelhava-se, fazia sua
oração e, em seguida, oferecia um santinho para a escolhida. Se a pessoa lhe
retribuísse com um sorriso, pronto, estava armado o seu ataque.
Jamais permanecia com alguém de forma permanente. Depois de uma conquista,
partia para outra. Seu lema era: nada, além de três encontros.
Outra paixão era a poesia. Além das suas, que cultuava com muito amor,
declamava poemas românticos com acentuado toque de genialidade. Dava ênfase
às palavras certas, para encantar a ouvinte.
Seu escritório imobiliário tinha muitos amigos, mas poucos clientes.
Sua esposa dizia, aos amigos, que ele era o marido ideal. Não trazia muito dinheiro
para casa. Mas para quê? Ela trabalhava e iria herdar uma fortuna.
Prof. Valmir vivia também de olho na saúde do sogro.
— Um dia ele morre e eu vou ficar muito rico, mas muito rico mesmo.
Coitado, morreu antes, sentado num banco da catedral.
Para alguns, morreu santificado pela sua dedicação a São Paulo.
Para os mais íntimos, sua morte foi conseqüência dos sortilégios que usava
para conquistar as mulheres.
Em seu enterro compareceram muitas devotas que leram no jornal o anúncio de
sua morte. Todas amigas do peito do velho professor.
CAMELÔ ENTUSIASMADO
Ele nunca conseguiu fazer curso algum. O máximo a que chegou foi tirar o
diploma de primeiro grau e, isto, com muito esforço da professora e piedade
do diretor.
Adelino, portanto, não sabia fazer nada.
Casou-se. Os amigos o ajudaram e a família também. Mas, para sustentar a casa
e a esposa que ele adorava, teve de sair à cata de trabalho.
O único que não exigia grande esforço físico era o de vendedor. Gostou.
Entusiasmou-se.
Chegou à conclusão de que poderia ganhar muito dinheiro vendendo bugigangas
na rua. Passou a ser camelô. Qualquer pequeno objeto que aparecesse, ele
vendia.
Com algum tempo de traquejo nas compras, montou uma rede de vinte vendedores
ambulantes. Pente, relógio, pulseira, rádio de pilha, carteira, óculos,
lanterna, tudo era vendido.
Resolveu diversificar. Introduziu, na linha de vendas, pasta de dente e
escova. Fez um pedido tão grande que abarrotou seu depósito. Teve de alugar
um armazém, só para armazenar as pastas e as escovas de dente.
E, aí, lançou seus vendedores. Não era fácil. Montou uma equipe de
propagandistas, outra de animadores. Assim, um grupo de homens andava pelo
centro da cidade com cartazes nas frentes e nas costas. Os animadores
chegavam junto aos camelôs, quando havia um certo número de prováveis
compradores, e passavam a exaltar a qualidade dos produtos.
Mas, pouco adiantou. Dia e noite, Adelino pensava em como fazer escoar as
pastas e as escovas. Visitou as farmácias. Ofereceu descontos. Colocou
vendedores em frente ao Carandiru. Dois vendedores percorriam os trens da
Central. Outros dois, os trens da Sorocabana. Até no Aeroporto de Congonhas,
apareceram vendedores. Tanto esforço chamou a atenção dos fabricantes, uma
multinacional cheia de cuidados.
Depois de várias reuniões, a empresa resolveu adiar o prazo de pagamento e
parcelou-o convenientemente para que Adelino pudesse desfazer-se do estoque
com maior tranqüilidade.
E, assim, Adelino foi vendendo aquela maldita compra, feita em má hora,
quando o exu cabeça de bagre estava por perto.
Quando ameaçava chuva, Adelino desovava o estoque de guarda-chuvas.
Véspera de jogo do Corinthians contra o Palmeiras, era a vez dos rádios a
pilha, chaveiros, bonés, com emblemas do Timão.
Perto das férias, descia relógios e, no verão, era a vez dos óculos de
sol.
Adelino ganhou muito dinheiro.
Comprou uma bela casa nos Jardins, construiu um belo sítio em
Mairiporã.
Pagava os fornecedores em dinheiro e também não aceitava cheques.
Cartões de crédito não existiam.
Como ele, os vendedores prosperavam.
Contudo, nas reuniões com o seu pessoal, ele sempre dizia:
— Vocês querem me arruinar?
Já, para os fornecedores, o papo era outro, bem diferente:
— Tenho a melhor equipe de vendas de São Paulo.
Seus maiores inimigos eram os fiscais e para driblá-los, providenciava a
emissão de algumas notas fiscais, dizendo: “só para agradar os marditos do
fisco”.
Depois, montou uma rede de lojas.
Com a morte dos dois filhos, perdeu a vontade de ganhar dinheiro. Ficou só
com uma lojinha na Praça da Sé, para ir vivendo.
Consta na história dos velhos camelôs de São Paulo que, certa vez, ao
distribuir as mercadorias aos vendedores, a polícia chegou.
Para o delegado disse:
— Pois é, doutor, a gente achou essas mercadorias aí na Praça da Sé, e a
gente tava juntando para levar ao senhor para que o senhor pudesse buscar o
verdadeiro dono.
PROFESSOR DE LITERATURA
Formado pela Universidade de São Paulo, professor Lúcio era muito querido
pelos alunos do Curso Dom Bosco.
Quando dava aulas, lembrava-se de fatos pitorescos acontecidos com os grandes
mestres da nossa literatura. Os alunos se divertiam. As risadas eram ouvidas
na rua São Bento e na Praça do Patriarca.
Porém, nem tudo era sorrisos na vida do professor.
Bebia muito e, com o passar do tempo, já não conseguia subir as escadarias da
escola.
Numa manhã, logo às 8:00 horas, foi levado à Delegacia Central. Ficou lá para
restabelecer-se, até, pelo menos, conseguir ficar em pé.
Uma escrivã condoeu-se da vida de seu ex-professor e resolveu interná-lo em
um hospital psiquiátrico.
Lá ficou por vários meses, até desintoxicar-se.
Quando melhorou, quis trabalhar. Não agüentava mais ficar parado.
Os médicos queriam que ele desse aulas para os próprios internos ou, então,
para os funcionários.
— Não. Eu quero trabalhar como encanador, minha primeira profissão. Pode ser
que, como professor, eu venha a ter uma recaída.
Como o hospital estava reformando uma casa que ficava bem no meio do imenso
terreno, ficou tudo resolvido.
Moraria fora do prédio central do hospital. Ficaria mais fácil para ele
trabalhar. Arrumou dois ajudantes e mudou-se.
Pegou firme no batente.
Mas, com os dias decorrendo, os monitores notaram que os três passaram a ter
dificuldades para acordar pela manhã.
Freqüentemente, um deles saía para fazer compras na cidade e vinha sempre com
um cano de seis metros de comprimento. E todos os canos eram grossos, de 50,
75 ou 100 milímetros de diâmetro.
Começaram também a fazer muita algazarra e rirem acima do normal.
Os monitores desconfiaram. Havia alguma coisa errada.
Descobriram, então, que os três trabalhadores estavam trazendo bebida
alcoólica para dentro do hospital.
Mas como?
Havia a vigilância na portaria e era impossível o acesso.
A bebida entrava dentro dos canos e o mentor da façanha era o Prof. Lúcio.
Ficou mais alguns meses internado.
De volta a São Paulo, considerado curado, passou a namorar a escrivã, uma
mulher grandalhona, com cabelo entopetado. Casaram-se. Ela era brava com os
bandidos e, agora, com o marido.
Professor Lúcio trocou a pinga pela cerveja, que tomava, com a esposa, só nos
fins de semana.
Para os novos amigos, que não o conheceram na época da pingaiada, dizia com a
maior cara de pau:
— A pior raça que Deus colocou no mundo foi o bêbado. Tenho horror a esse
tipo de gente.
Professor Lúcio nunca se aposentou. Deu aula até o último suspiro.
Morreu em sala de aula, quando ensinava aos alunos o estilo de um grande
poeta que, quando era ainda moço, com um copo na mão e uma garrafa embaixo do
braço, fugiu deste mundo para morar na terra de Baco.
O HOMEM DOS SANTOS
Jorge de Castro era um homem alto, de pouca conversa, que estava sempre
correndo de um lado para outro.
Possuía uma loja que ocupava todo o primeiro andar de um prédio.
Recebia e despachava mercadorias o dia todo e contava com uma vasta
freguesia.
Vendia para todo o Brasil e remetia mercadorias também para alguns países da
América do Sul.
Sua loja era especializada em vendas de santos e artigos para a igreja
católica. Havia tudo na loja dele. Muitos dos artigos eram importados da
Itália e da Alemanha.
Jorge era sempre educado e cortês com os fregueses e freguesas. Porém só
atendia o público quando era impossível delegar a missão para sua dedicada
empregada, Maria da Conceição.
Nos anos 50 e 60, os católicos formavam quase cem por cento da população.
Havia muito fervor nas devoções, fato que, para o Sr. Jorge, era de muita
importância para a prosperidade de seu negócio.
Trabalhava de segundas a quintas-feiras em período integral, mas, nas sextas,
às 12:00 horas, sumia, dizendo que ia para o Guarujá.
Conhecia a vida dos santos de cor e, quando percebia que o cliente tinha uma
determinada devoção, caprichava mais nas citações e detalhes. Não raro os
clientes choravam com as narrações do solícito comerciante. Emocionados,
acabavam comprando mais.
Roupas de padres e paramentos para batizados, crismas, casamentos, missas de
sétimo dia, mitras, solidéus e muitos outros artigos eram confeccionados nas
oficinas da loja que, para tanto, mantinha várias costureiras, num azáfama
que tentava ajustar a alta produção aos negócios crescentes.
Seu Jorge era um ótimo patrão, mas muito exigente em qualidade e
produção.
Havia, porém, um lado obscuro na vida do empresário.
Um dia apareceu um judeu procurando pelo Sr. Malter Chisman. Ninguém o
conhecia.
De repente, apareceu na porta o Sr. Jorge, e o velhinho que o procurava o
reconheceu imediatamente. Encheu-o de beijos e abraços.
Descobriu-se que o Sr. Jorge era o Venerável de uma Loja Maçônica e judeu da
velha cepa de Israel.
O acontecimento marcou a vida do seu Jorge.
Pouco depois resolveu vender a loja para a sua empregada mais velha. Iria
receber em módicas prestações mensais, durante muitos anos. E o grande
estoque seria suficiente para vários anos de negócios.
Posteriormente começaram a surgir comentários e versões sobre a sua vida.
Pertencia a um grupo que vivia de explorar católicos, padres e bispos. A
vingança era o lucro.
O conhecimento sobre as vidas dos santos era autêntico, mas usado com o único
objetivo de aliciar a clientela.
Assim afirmava seu Dóri, velho empregado da loja.
Mas também não faltaram os agradecimentos de padres e irmãs de caridade pelas
dádivas recebidas pelas atenções do vivaz comerciante.
NOVA PASSEATA
Corria o ano de 1968. Os estudantes aborrecidos com a ditadura militar, que
havia exilado dezenas de pessoas, incluindo professores, resolveram fazer uma
nova passeata de protesto.
Os órgãos militares foram alertados: a qualquer momento poderiam ocorrer
movimentos hostis dos estudantes contra o governo.
O comando militar havia espalhado oficiais no meio da estudantada e, assim,
acreditava que seria fácil conhecer o dia, a hora, o momento certo de abortar
qualquer movimento.
Os jornais chegaram a divulgar a passeata, sem se referirem ao dia e hora do
evento, pois os estudantes davam notícias propositadamente desencontradas.
Quando sentiram que haviam cansado o sistema de repressão, resolveram, de um
momento para outro, dar início ao movimento de protesto.
Divulgaram que a passeata iria se concentrar no largo São Francisco, em
frente à Faculdade de Direito, de tradições vitoriosas em defesa da
democracia e das liberdades públicas.
As forças policiais foram concentradas nas ruas de acesso ao largo São
Francisco.
Os estudantes pareciam estar indo para a boca do tigre, ou seja, do delegado
Fleury.
Mas, de repente, desviaram-se da rota e foram em direção ao Largo São Bento.
Os policiais foram mobilizados para lá. Mas os estudantes desceram a ladeira
Porto Geral, entraram na conturbada rua Vinte e Cinco de Março, subiram a
ladeira General Carneiro, entraram pela XV de Novembro e, direto, na Praça da
Sé. Os policiais ficaram aturdidos. Os comandantes perderam a
iniciativa.
De repente, um enterro apareceu, em direção à catedral. O caixão vinha no meio
de um grupo. Os Policiais que haviam sido reunidos às pressas, deram
autorização para o cortejo fúnebre passar. Um surdo batia forte.
No mesmo instante em que o cortejo alcançava a Praça da Sé, a cavalaria
surgia do outro lado.
O cortejo seguiu em direção à catedral. Frente a esta, parou. O caixão foi
colocado no chão. Duas pessoas abriram o caixão e dentro dele puderam ser
vistas milhares de bolinhas de gude, para afugentar o perigo da
cavalaria.
A essa altura, surgia na praça um contingente policial. Um brucutu espalhava
água. Policiais a pé, caíam ao pisarem nas bolinhas que haviam sido
arremessadas ao solo.
A cavalaria ficou à distância e o caixão foi recolhido.
Estudantes corriam e o tumulto generalizou-se.
À noite, os garis encheram os carrinhos com milhares de bolinhas de gude,
pedaços de pau, sapatos, bonés, pedras e garrafas.
Muitos estudantes continuavam pelas ruas e, de madrugada, era ainda possível
ouvir:
“Ia, ia, ia .......viva a nossa brava cavalaria”
Era a gozação dos estudantes.
A censura proibiu a divulgação completa do noticiário.
Alguns estudantes foram presos.
Na delegacia, disseram ao delegado que não estavam fazendo nada de mal.
— Vocês estavam fazendo gozações com a nossa cavalaria!
— Puro engano, doutor, nós fazíamos homenagens aos bravos soldados que vieram
combater os comunistas.
Por falta de provas, foram soltos.
Eram os diretores do movimento.
O GRANDE TERRORISTA
Aos sábados, a partir das 20:00 horas, Raymundo Peregrino Silveira, chegava à
Rua Direita, esquina com a XV de Novembro, em São Paulo, e ali ficava
esperando os amigos para a grande reunião.
Inicialmente, partiam para inflamadas discussões sobre os temas em destaques
da semana e, em seguida, percorriam os caminhos que os conduziam à posição
unânime sobre os problemas internacionais, ou seja, a de que a causa das
grandes desgraças era o sistema de repartição de trabalho e de oportunidades.
Clamavam por uma revolução que pudesse acabar com a espoliação do homem pelo
homem.
Nas semanas que se seguiam, retornavam, compulsivamente, ao mesmo tema e com
semelhante posicionamento, enfatizando a espoliação interna e as perdas dos
países pobres nas transações internacionais.
E assim iam nutrindo e magnificando a raiva contra o sistema, na mesma
proporção que se conscientizavam de suas impotências para a reversão de tal
situação.
Após as calorosas discussões, iam jantar na Cantina Balila, na rua do
Gasômetro, onde tinham sempre um lugar reservado. De lá, saíam só pela
madrugada, para irem a um barzinho na Avenida São João. No bar, bebiam,
conversavam, já sob os efeitos do cansaço e do álcool, e, por volta das 6:00
horas debandavam-se. A maioria retornava às suas casas, mas dois ou três
deles permaneciam no centro, para irem à reunião no Centro de Oratória Rui
Barbosa, que funcionava na sede da União Brasileira dos Escritores e que
teria início às 9:00 horas.
Por ser tão pronta a escalada de revolta em sua mente, quanto mordazes as
verbalizações que expunham suas idéias, Raymundo Peregrino Silveira levava a
pecha de terrorista, por todos os lugares por onde passava. Esse grau de
“quase demência” fazia com que seus amigos o considerassem um revolucionário
nato, um líder autêntico, pronto para liderar um grande movimento.
Pregava abertamente a necessidade de revolução, aproveitando-se da liberdade
de pensamento e expressão que predominava no início da década de 60. Certa
noite, disse aos seus companheiros que deveriam pensar seriamente no ideário
da revolução chinesa, visando tomar o poder pela força. Sem sombra de
dúvidas, a revolução teria de ser desencadeada pela união de um pequeno grupo
que, logo em seguida, agregaria adeptos vindos de todas as partes.
Com a mente incendiada pelo radicalismo, chegou a elaborar, inclusive, planos
de guerra. Seus amigos passaram a reunir materiais bélicos que
possibilitassem ataques e explosões em série e Raymundo sugeria que todos os
centros vitais de São Paulo e da Baixada Santista deveriam ser destruídos em
uma única noite.
Por questões de segurança, ao invés de usarem seus nomes próprios, os
componentes do grupo passaram a usar uma sigla individual. Cada um possuía um
apelido revolucionário.
Raymundo Silveira era o “Mental”
O dia 29 de março de 1964 seria o grande dia da mudança. Havia alguma coisa
no ar, e ele queria antecipar-se ao movimento conservador que, no seu
entender, estava preparando uma contra-revolução.
Mas a sua revolução não saiu. Seus membros, estariam presos? Teriam sido
assassinados?
Passaram-se vinte anos e, aos poucos, os amigos foram se reencontrando. A
revolução estava em seus estertores. Mas Raymundo e a camarada Elvira não
apareciam.
Numa tarde de dezembro de 1985, Raymundo Silveira foi visto na rua 7 de Abril
com uma porção de livros embaixo do braço. Dedicava-se, agora, à venda de
livros técnicos. O amigo que o encontrou quis saber o que havia acontecido
com ele, mas Raymundo recusou-se a dar quaisquer explicações. Disse apenas
que morava, agora, pelas bandas do aeroporto.
A notícia do reaparecimento do camarada reacendeu uma prolongada curiosidade:
saber o que havia ocorrido com Raymundo e com Elvira.
Organizaram um churrasco e convidaram Raymundo. Qual não foi a surpresa do
grupo, quando Raymundo apresentou a esposa: a camarada Elvira, tida como
morta.
As conversas iniciais foram cautelosas, para não melindrar. Mas, depois de
várias rodadas de chope, a língua mais solta, os amigos queriam saber a
verdade. Raymundo permaneceu calado, mas sua esposa, soltou a língua e rasgou
o verbo:
“Bem, já era hora da gente contar a verdade. Tínhamos, todos, combinado uma
senha, não é verdade? Se um faltasse, no dia do ataque, talvez tivesse sido
preso e isto seria um sinal de que os militares poderiam ter descoberto
alguma coisa, através de torturas. E, assim, poderiam chegar facilmente até
todos nós.”
— E daí? O que ocorreu? – perguntou um dos amigos.
“Bem, eu e Raymundo tínhamos um caso. Brigamos, ficamos separados. Mas, na
tarde de 28 de março, resolvemos nos reconciliar. Fomos dormir juntos e, para
não perder hora, colocamos dois despertadores no quarto. Mas, que nada, amamo-nos
tanto e por tanto tempo que acabamos por dormir pesadamente. Parece que
nossos corpos falaram mais alto do que nossas fantasias revolucionárias e,
assim, não ouvimos os despertadores e perdemos hora. E lá ficamos, amando-nos
um pouco mais, um pouco mais. Finalmente, por via das dúvidas, no dia 31 de
março, logo quando começaram a surgir notícias sobre movimentação de tropas,
fugimos para o interior. Ficamos meses trabalhando em uma fazenda, como
simples camponeses. Sabíamos que o cerco estava se fechando, pois o dono da
fazenda era um militante do PC que nos trazia informações. Descobrimos, logo
em seguida, um professor que lá se achava, em condições similares à nossa, e
fizemos amizade com ele. Numa noite, o professor recebeu uma visita de um
amigo que lá foi para informá-lo de que tudo já estava providenciado para
retirá-lo da fazenda. Iriam retirar o professor com um pequeno avião que o
levaria até o Chile. Como com o professor iria apenas o piloto e o avião
possuía lugares de sobra, embarcamos com eles. Quando o avião já estava sobre
o Rio Grande do Sul, começou a ter problemas, e tivemos de fazer uma
aterrissagem forçada, na base da aeronáutica. Um mecânico da aeronáutica
ajudou a fazer um pequeno reparo de vazamento no tanque de combustível e, em
seguida, voamos diretamente para o Chile. Quando o governo Allende começou a
ter problemas com os militares, fomos para o México, onde Raymundo passou a
ser vendedor de livros técnicos. Hoje é um especialista no assunto. Seus
clientes são preferencialmente funcionários de multinacionais ou técnicos de
empresas estatais.”
— E agora, o que vocês fazem? – insistiu o amigo.
— Bem, agora que o capitalismo nos fez uma abençoada lavagem cerebral, temos
no México uma empresa distribuidora de livros e estamos em São Paulo para
instalar uma filial. Depois vamos instalar uma outra em Buenos Aires.
MEIO FIDUCIÁRIO
Alto, magro, cabelos negros ao estilo argentino, sempre de terno, Frezolino
Cunha era uma figura muito conhecida, na Praça da Sé, entre 1958 e 64.
Não ficava parado, andava sempre de um lado para outro. Ia a pé, até a Praça
da República, pelo menos umas cinco vezes por dia.
Diziam que ele era membro do Partido Comunista e que, com mais cinco
companheiros, havia criado o Centro de Debates da Praça da Sé, para divulgar
a doutrina comunista, de forma sorrateira e velada, entre os freqüentadores
da praça, principalmente para estudantes.
Nem sempre os debates corriam a favor do PC. De vez em quando, infiltrava-se
um estudante de direita, um católico conservador. E o debate, quando ameaçava
generalizar-se, contava com a participação ativa de Frezolino que, com braços
fortes, abria espaço entre a multidão e postava-se bem de cara com o
discutidor. Aparecendo a oportunidade, dizia:
— Estou vendo que você é muito inteligente. Mas me diga uma coisa (e mostrava
uma nota de um cruzeiro), o que é isto?
— É um cruzeiro – respondia o interlocutor.
— Nada disso. Isto se chama meio fiduciário. Você não entende nada! — falava
em bom som e ia saindo.
Era a deixa, para os membros do Partido Comunista debandarem.
E o discutidor novato, sem experiência de campo, ficava conversando por mais
um pouco de tempo com algumas pessoas. Em seguida, por falta de público, ia
embora. Logo depois, os membros do PC voltavam a assumir suas posições na
praça e recomeçavam as operações do Centro de Debates.
Meio Fiduciário — era este o seu apelido junto aos membros do partidão —
sumiu por uns seis meses. Disseram que ele tinha ido à Cuba, depois, para a
União Soviética. Na realidade, tinha sido retirado, estrategicamente, pelo PC
de São Paulo, para montar outros centros de debates em Porto Alegre e no Rio
de Janeiro. No Rio, não conseguiu sucesso algum. Dizia que o Rio de Janeiro
era uma cidade atípica. O carioca estava muito interessado em praia, sexo e
samba. Era uma cidade com as costas voltadas para o interior e aberta para o
mar. Ali, idéias de esquerda não iriam prosperar.
Quando, em São Paulo, os debates começaram a esquentar e a direita passou a
fazer passeatas pelo centro da cidade, Meio Fiduciário chamou seus amigos e
profetizou: “fiquem tranqüilos. Chegou a hora de tomarmos o poder. Está tudo
pronto para o grande golpe na direita. O exército está unido em torno do
presidente Goulart e a Marinha está conosco. Só não temos certeza sobre as posições
da Aeronáutica que é um reduto da direita.”
Tão logo estourou a Revolução de 64, os militares acabaram com o Centro de
Debates da Sé.
Estranhamente, Meio Fiduciário continuou a circular tranqüilamente. Muito de
seus amigos sumiram e apenas um ou outro aparecia para tomar um cafezinho.
Falavam, entre poucos, em grande traição. Meio Fiduciário tornou-se suspeito
de pertencer ao esquema da direita, mas nunca ninguém pôde comprovar tal
envolvimento.
Foi visto, pela última vez, em Brasília, trabalhando para o Governo Militar,
e, quando lhe perguntavam se conhecia bem São Paulo, dizia, do alto de sua
esperteza: “nunca estive lá!”
O AMOR POR JUDITHE
Judithe trabalhava como caixa num pequeno supermercado na Praça da Sé. No ano
de 1961, completou 19 anos. Havia vindo, pouco tempo atrás, do interior,
juntamente com a família.
O pai, seu Pedro, era jardineiro em uma Mansão, pelos lados de Santo Amaro. A
irmã mais velha, operadora de máquina Olivetti em um banco na rua XV de
Novembro. O irmão caçula, empacotador em uma loja. A mãe ficava em casa,
cuidando da família e de dois netos que eram filhos da irmã mais velha,
separada do marido.
Quando veio do interior, Judithe parecia mesmo uma caipirinha. Vestidos fora
de moda, fala caipira, sapatos velhos. Mas, aos poucos, foi-se ajeitando. Em
pouco tempo, com a ajuda da irmã, passou a vestir-se melhor, até com bom
gosto. Aprumou seu modo de andar, começou a falar melhor e, duas vezes por
semana, fazia o cabelo.
O português, dono do supermercado, longe da vigilante esposa, fazia as
maiores mesuras a ela. Sua voz velada, nessas ocasiões, contrastava com a
sonoridade da de quando comandava o seu negócio no dia a dia.
Como na entrada do supermercado havia um balcão com café, pão com manteiga,
leite achocolatado, a freguesia era imensa. Desta forma, Judithe passava o
dia todo atolada de serviço.
Começaram a surgir os fãs anônimos, aquelas pessoas que amam sem fazer
qualquer declaração. O charme da moça chamou a atenção de muitos homens. A
freguesia do português aumentava. Com o tempo ela passou a ter cinco
enamorados que todos os dias se reuniam no supermercado para ver Judithe.
Perguntavam, ao se encontrarem:
— Você já foi ver Judithe hoje? Como está? Que vestido está usando? E o
cabelo?
Pelo menos duas vezes por dia, os cinco fãs se reuniam para tomar o café, o
leite, o pão com manteiga, o chocolate, dar uma prosa com o português e sua
mulher, para comprar alguma coisa para casa e, assim, passar pelo caixa para
pagar e, sorrateiramente, sentir os dedos e a mãozinha macia de Judithe.
De tanto interesse pela moça, passaram à paixão. Começaram a se interessar
pela sua vida particular. Cada dia um deles era escalado para acompanhar os
retornos de Judithe para sua casa. Desta forma, sua vida foi sendo levantada.
Já sabiam quantas pessoas moravam no apartamento da rua Lavapés, conheciam
também a casa onde seu pai trabalhava como jardineiro, na distante Santo
Amaro. Pagaram para um funcionário da Comgás fingir um conserto do gás no
apartamento e, por ele, souberam que a família tinha vindo do interior, onde,
segundo o zelador do prédio havia tido um grande aborrecimento.
Não contentes com isto, os cinco amantes platônicos de Judithe passaram a
freqüentar a estância balneária. E ali completaram o levantamento sobre a
vida da família. Descobriram que Judithe havia sido estuprada por um parente
quando tinha quinze anos.
Passaram a ter muita pena da moça e um ódio desmedido pelo tio deflorador.
Diziam que, um dia, ela teria sua vingança. O tio receberia em dobro o mal
que tanto causara.
Naquele início dos anos 60, as pessoas levavam muito a sério esse negócio de
virgindade. A pobre Judithe, criada sob esses princípios, sentia-se
desgraçada. Em seu íntimo, imaginava que nunca mais poderia casar-se, ter uma
vida normal. Com essa culpa, pesando-lhe constantemente na intimidade,
recusava propostas de namoro, rasgava bilhetes, não aceitava convites para
almoços ou jantares.
Do amor platônico que tinham por ela, surgiram, entre os cinco amigos,
considerações sobre o que fariam se uma filha deles, pois eram todos casados,
uma irmã, uma parenta sofresse tamanha violência. Estas considerações
inflamaram-se até se tornarem um poderoso desejo de desforra. O tio tinha de
pagar por tamanha insensatez, por tamanho mal.
Após algum tempo, combinaram uma vingança.
Foram para o interior, a cidade onde morava o tio, e fizeram um mapa com a
rotina diária do tio. Dois deles acharam que ele deveria levar uma surra,
três queriam partir para o extermínio. A tese da surra foi vencedora.
Combinaram que, após a sessão de cinema, quando o tio estivesse retornando de
moto para casa, fariam com que parasse, seqüestrariam o velhote, levariam-no
até um matagal, onde fariam a tão esperada vingança.
Esperaram. Esperaram. O tio não vinha com a moto. O que teria ocorrido?
Voltaram para o hotel, sem que a vingança houvesse se consumado.
No dia seguinte retornaram a São Paulo, logo no primeiro ônibus.
Na terça-feira, voltaram à rotina de suas vidas. Foram ao supermercado. Lá
não encontraram Judithe. Perguntaram pelo português, que não estava. A
esposa? Também não se encontrava.
Um deles foi ao banco e perguntou pela irmã. Também não tinha vindo
trabalhar. Foram até o apartamento da Lavapés e lá também não havia ninguém e
nem obtiveram nenhuma notícia. O que teria acontecido?
Na quarta feira, vieram os esclarecimentos. Judithe voltou ao trabalho.
— Sentimos muito a sua falta. O que aconteceu? —perguntaram os amigos,
rodeando a moça.
— Um tio meu morreu num acidente de moto, ao sair do cinema. Numa curva,
perdeu a direção e caiu numa ribanceira. Não sei como pôde ter acontecido tal
desastre, ele era exímio motoqueiro. E dos olhos da moça, saíam algumas
pérolas de lágrimas.
A partir desse dia, a moça passou por grandes transformações. Começou a
freqüentar bailes, almoçar com amigos, ir ao cinema. Divertia-se. Só não
passava noites fora. Casou-se, depois dos trinta anos, quando o tabu da
virgindade começou a ser sepultado pelas novelas. Os padrinhos foram os cinco
amigos e suas respectivas esposas e, a partir de então, ela passou a fazer
parte do círculo de amizade deles e de suas famílias.
Feliz com tudo o que conquistara por causa de seu passado, dizia ter tido um
tio que fizera muito bem à sua vida.
MUITAS VIAGENS E UM TROTE
Se as circunstâncias difíceis obrigaram o sr. Hideo Tanigushi a sair do Japão
logo depois da Segunda Guerra, outro tipo de circunstâncias estava
obrigando-o a trabalhar tenazmente em São Paulo. Eram os filhos que agora
precisavam de sua ajuda para os estudos. A filha mais velha, Sumiko, era o
seu braço direito no laboratório fotográfico. Seu Hideo fez um enorme esforço
para aprender o idioma português. Como técnico em laboratório fotográfico no
Japão, ele havia desenvolvido métodos especiais de fotografias, retoques
técnicos perfeitos, cópias fotográficas de alta qualidade. Numa cidade que
crescia velozmente e absorvia profissionais de todos os tipos e origem, ele
não teve dificuldades para arranjar trabalho. Cinco anos depois de sua
chegada ao Brasil, o laboratório fotográfico possuía bons clientes, entre os
quais uma agencia de publicidade em expansão, que exigia dele muita
dedicação.
Ao seu lado, Sumiko, aos quinze anos, aprendia com o pai a arte da fotografia
profissional. Passava a maior parte de seu tempo no laboratório. Ás vezes
saia para entregar um serviço, mas voltava logo. Assim pai e filha viviam num
azafama diário digno da raça japonesa. Quando a filha terminou o curso
ginasial, o pai quis que ela fosse fazer o curso de química num famoso
colégio de São Paulo. Dizia que ela ia descobrir um mundo novo e com as
possibilidades abertas pela expansão da economia paulista, sem dúvida teria
um futuro promissor. Sumiko não era daquelas japonezinhas baixinhas, pernas
gordinhas, sempre recatadas, fingindo ter vergonha a todo instante. Fugindo
da estirpe de biótipo nipônico daquela época, era magra, esbelta, andar de
gazela, cabelos compridos, olhos negros penetrantes, sorriso cativante. Seu
Hideo tinha grande orgulho da filha pródiga. Em sua casa, as duas irmãs
fugiam um pouco da magia racial de Sumiko. E os dois irmãos possuíam o
protótipo do japonês normal.
Trabalhando e estudando com afinco, boa aluna e amiga fraternal de todas as
colegas, foi fácil para ela ampliar seu circulo de amizades. Logo no primeiro
mês reuniu a classe e propôs que nos próximos três anos todos os alunos e
alunas deveriam se unir para a formatura. Parecia longe, mas o tempo passaria
logo. A partir dai, começou a trabalhar para a formatura. Seus bailes ficaram
famosos. Saíram do pequeno circulo do colégio. Começaram a atrair estudantes
de faculdades, de outros colégios e do Caetano de Campos, que naquele tempo
funcionava na praça da República. Bira, um paraibano de Campina Grande, tomou
a frente do movimento. O lucro crescia acima das previsões.No terceiro ano,
os alunos remanescentes da turma inicial faziam planos audaciosos. Depois de
muitas tentativas, chegaram à conclusão de que não deveriam fazer uma
formatura festiva. Estavam cheios de bailes. Fariam a colação de grau normal,
com discursos e homenagens, e dias depois iriam fazer uma grande viagem. O
objetivo não era conhecer o Brasil somente. O principal seria visitar todas
as industrias de base do Brasil. Naqueles idos de 1961, o tema principal nas
discussões mais avançadas do pensamento nacional centrava-se na construção de
um parque industrial que fosse o esteio da modernidade.
A idéia dos estudantes era ir direto ao Rio de Janeiro, visitar duas
industrias, a usina de Volta Redonda e a Companhia Nacional de Álcalis. Duas
oportunidades excelentes para ver de perto a fabricação do aço e de produtos
químicos de base. Depois seguiriam para o Nordeste. A volta seria por terra,
visitando os lugares pitorescos e as industrias e usinas mais importantes.
No dia 28 de janeiro de 1962 partiram da estação rodoviária de São Paulo.
Apenas um pequeno incidente na partida. Um dos estudantes veio avisar que não
iria com o grupo. Seu pai tinha tido um enfarte. Bira teve então uma
iniciativa. Convidou amigo para ocupar a vaga. Mas quanto preciso pagar?
Nada, bastaria levar algum dinheiro,o suficiente para comprar alguma coisa
extra. O resto era dinheiro do grupo. O amigo ficou de pensar. E como
encontraria o grupo? Bira deu o endereço. Era um hotel que ficava na rua Mauá
no Rio de Janeiro. Ele deveria estar lá até quarta-feira à noite, pois na
quinta deveriam embarcar para o Recife pelo primeiro avião do Correio Aéreo
Nacional.
O amigo de Bira teve sorte. Logo na segunda-feira arrumou o. dinheiro. Na
terça à noite embarcou para o Rio e foi direto para o hotel. Chegou,
apresentou-se na portaria, falou com o porteiro que ia se unir a um grupo de
estudantes de São Paulo. O porteiro estranhou. Não havia nenhum grupo. O
rapaz disse então que mesmo assim ia ficar ã noite. O porteiro perguntou. Mas
a noite inteira? Sim, a noite inteira e talvez ate outro dia.
À noite, o amigo do Bira não conseguia dormir. O hotel era muito estranho
mesmo. Muita gente entrando e saindo. Excesso de barulho no corredor. E
muitos gemidos. Gritos profundos. Levantou-se. Abriu a janela. Muito ingênuo,
imaginou que ao lado funcionasse um pronto socorro. Excessivamente religioso,
ajoelhou-se. Rezou para as pessoas que ele julgava doentes. Pensou que fosse
um hospital. Quem sabe? Tantos gemidos, gritos profundos, lamentos, e no meio
dessas manifestações também surgiam vozes abafadas, uis, ais, que davam dó. O
amigo de Bira só dormiu lá pelas quatro da manha.
No outro dia acordou depois das 8 horas. Foi tomar café na esquina. Estranhou
novamente. O hotel não servia nenhum tipo de refeições. O porteiro diurno
perguntou se ele ia ficar mais um tempo no hotel. Talvez até amanhã,
respondeu. O que deu motivo para uma espécie de gozação.
- Puxa, o senhor esta gostando mesmo do hotel.
Nem tanto, mas eu tenho que esperar meus amigos.
Depois das 11 horas, o hotel voltou a ter grande movimento. Mulheres seminuas
andavam pelos corredores. Outras saiam para a calçada. Uma delas veio
conversar com ele.
- Você é daqui do Rio ?
- Não sou de São Paulo.
E não quer passar um tempinho comigo ?
Agradeço sua gentileza, mas eu tenho que esperar os amigos. Puxa, eles já
deviam ter vindo me buscar. Eles marcaram encontro comigo aqui neste
hotel.
- Só pode ser brincadeira. Aqui neste hotel ?
É, aqui mesmo.
A moça sentiu pena do rapaz.
- Eu vou ajudá-lo a encontrar seus amigos. Espere um pouquinho.
Subiu, trocou de roupa, e foi com ele até um posto telefônico. Comprou fichas
e passou a telefonar para vários hotéis. Deixou recado em todos.
Olhe, agora é se esperar. Enquanto isso vamos tomar uma cerveja no boteco ali
em frente. Você paga.
Me diga uma coisa. O hospital fica atrás do hotel ?
- Que hospital, aqui não tem nada disso. O hospital fica muito longe daqui.
E o pronto socorro ?
- Também não fica por aqui não.
Ai o rapaz ficou encabulado mesmo. Passou as mãos pelos cabelos. Tomou mais
um gole de cerveja.
- Sabe, esta noite eu vi muita gente gemendo. Até fiz orações para essa gente
sofredora.
- Escuta aqui, meu amor, aqui não tem doente não. Acontece que você veio para
a zona do meretrício. Esse hotel ai ë de viração total. Seus amigos passaram
um trote em você. De graças a Deus por você não ter sofrido nenhuma agressão,
ninguém lhe roubou nada. Você tem que sair daqui urgente. Ê melhor arrumar
suas tralhas e cair fora. Me dê ai algum dinheiro pelo tempo que eu perdi com
você. Desolado, o amigo de Bira voltou para o hotel. Arrumou suas malas,
pagou o hotel e saiu para a rua. Puxa, que sorte, encontrou os amigos logo
ali numa esquina. Foi gozação total.
- A gente já ia te buscar.
No dia seguinte ,quinta-feira foram para Volta Redonda, depois embarcaram num
DC-3, da Segunda Guerra, em direção a Recife. Lá visitaram a fabrica de
cimento em Nassau,e a Fosforita Olinda. Uma semana depois embarcaram para
Paulo Afonso,onde visitaram a famosa usina de São Francisco. De lá saíram
direto para Salvador. Depois de vários passeios, foram conhecer a Refinaria
Landulpho Alves,e a prospecção de petróleo. Dez dias depois saíram em direção
a Governador Valadares em Minas Gerais. Todas as estradas eram de terra
batida. De Governador rumaram para Belo Horizonte. Depois para Coronel Fabriciano,
onde visitaram a Acesita, depois a Usiminas. Em seguida voltaram para o Rio
para fazer a visita a Companhia Nacional de Álcalis em Cabo Frio. Os
estudantes ainda ficaram mais uns dias passeando pelas praias do Rio e
visitaram todos os pontos turísticos, inclusive a ilha de Paquetá.
Na volta tinham muitas histórias para contar. O amigo do Bira levou uma
maquina fotográfica Rolleyflex. Tirou muitas fotos. Vendeu-as para dois
jornais. Ganhou um dinheiro extra. Um general solicitou cópias para a Escola
Superior de Guerra. Ganhou mais algum. Bira disse que os amigos haviam feito
um rateio do dinheiro que sobrou e para pagar a brincadeira do hotel de
viração, havia mais algum dinheiro para ele.
O intruso estudante foi homenageado na praça da Sé pelas histórias que
contou. Finalmente alguém podia falar de cátedra sobre o que o Brasil tinha
de mais importante, as suas indústrias de base. Efetivamente, o Brasil
caminhava no rumo certo.
Com o passar dos anos, as fotos tiradas pelo estudante intruso se transformaram
em painéis, posters, cartazes, cópias fotográficas gigantes que emolduraram
as paredes da Federação das Indústrias e do Senai.
Ele ganhou muito dinheiro com tanto serviço. Na sua imaginação permaneceu as
multicoloridas paisagens, as fabricas e as usinas, mas a que mais ficou em
sua memória foi à permanência por dois dias num prostíbulo e imaginando muita
gente doente em volta.
O ILUMINADO
Quando Gualter Brasiliense começou a freqüentar a Praça da Sé, tinha
aproximadamente 25 anos. Não era de esquerda como desejavam os comunistas.
Também não possuía nenhum ranço conservador. Algo em torno dele era
inusitado. Às vezes, parecia que o brilho de sua inteligência era tão intenso
que ofuscava os demais. Ele possuía uma personalidade quase enigmática, mas
quando começava a falar demonstrava uma profundidade que poucas pessoas
possuíam.
A vida de Seu Gualter, como também era conhecido, era tranqüila. Possuía
esposa e duas filhas e morava perto da estação da Luz. Quando ele começava a
contar sua vida em São Paulo, estimulava em todos admiração e simpatia. Seu
Gualter dizia que até cinco anos atrás, ele era analfabeto. Seu primeiro
emprego em São Paulo era de empacotador da Folha de São Paulo. Naquele tempo,
os jornais saiam da impressora e tinha que ser empacotados para o envio as
bancas e ao interior. Ele dizia que provavelmente esse emprego o levou a
gostar das letras. Esse despertar para as letras foi tão intenso, que em
apenas cinco anos ele fez o curso de alfabetização de adultos, o madureza
ginasial e o madureza colegial. Depois, fez o cursinho para a Faculdade de
Direito do Largo São Francisco e foi aprovado. Quando terminou o madureza
ginasial prestou conciso no Tribunal de Alçada, onde trabalhou por quase um
ano. Depois fez o concurso para fiscal de rendas da Secretaria da Fazenda do
Estado de São Paulo, um dos empregos mais cobiçados do Estado, uma vez que o
fiscal tinha participação nas multas. Alguns ganharam fortunas em pouco
tempo. No concurso para a Secretaria da Fazenda, Gualter passou em um dos
primeiros lugares. Mesmo com sua vida agitada, tinha tempo para bater papo na
praça e assim ia esclarecendo as pessoas e formando amigos.
Conservava a humildade e a paciência para dialogar, sem elevar o tom de sua
voz. Muita gente não acreditava em sua historia pessoal, mas ele tinha o dom
de convencer as pessoas. Seu Roque Trevisan dizia que ele era uma pessoa
iluminada. Que toda a sua formação veio de outra encarnação e aqui apenas
recordou o que já sabia ao contrario de outros mortais que tinham que fazer a
travessia da vida com esforço e muita disciplina.
Quando questionado sobre as alternativas políticas que o Brasil deveria
seguir, ele dizia que não havia alternativas. Existia um só caminho: a
liberdade e a construção da pátria dentro do primado do direito e da ordem.
Tais palavras chegaram a enfurecer muitos comunistas, que destacavam que isso
era conservador. Seu Gualter retrucava destacando que o próprio dinamismo do
trabalho se constituía no fio condutor que levaria o Brasil a se transformar.
As demandas sociais gerariam pressões sobre o mundo político. E se o Brasil
mantivesse a democracia, os caminhos seriam abertos naturalmente para a
construção de uma sociedade mais humana. E sobre a reforma agrária, bandeira
tão enaltecida pela esquerda? Também dizia que o dinamismo econômico faria a
reforma agrária, mas advertia. Se houvesse nos próximos anos, e isso ele
dizia em 1960 uma ditadura, então, mesmo que houvesse crescimento econômico,
a tendência seria inversa. Haveria concentração de renda e as pressões sociais
não teriam força para mudar o quadro político. Deste modo, o Brasil evoluiria
na economia, mas ficaria atrasado nas reformas.
Os comunistas radicais achavam essa idéias meio estapafúrdias. Eles só viam
um caminho, qual seja, a revolução, tal como tinha acontecido na Rússia, na
China e agora em Cuba.
Mas quem pode afirmar que essas revoluções serão permanentes ? Quem pode
afirmar se no curso de suas trajetórias, elas não mudarão de rumo?
- Elas vieram para ficar, Seu Gualter.
Eu acho que não. E vou dizer porque penso assim. A economia desses três
países não passou pela fase do capitalismo. Esses paises estão querendo dar
um salto, mas sem base. A evolução se faz em ciclos. O ideal seria que
tivéssemos já o socialismo, mas acredito que vamos ter surpresas no futuro.
Quem viver verá.
Seu Gualter, Fidel Castro disse para nós aqui na praça da Sé, no dia 6 de
maio de 1959, e disso eu nunca me esqueço, que a revolução cubana vai acabar
com os privilégios.
- Eu até acredito — disse ele — que Fidel possa ter dito isso. Mas Cuba só
poderá manter o seu regime mediante o uso da força militar. E isso para mim
não é regime. É coerção. Um regime precisa ter a participação livre da
sociedade.
Mas a democracia, Seu Gualter, é o pior dos regimes.
Mas não criamos ate agora algo melhor do que a liberdade. Essa liberdade esta
na raiz da formação do povo brasileiro. Socialismo com liberdade, eis ai a
porta estreita por onde deveremos passar.
- Isso vai demorar muito?
- Talvez daqui uns cento e cinqüenta anos. — dizia Seu Gualter.
Seus interlocutores sacudiam a cabeça e diziam.
- Coitado, é mesmo um iluminado, mas muito fora da nossa realidade. A
revolução armada tem que ser feita já. E o nosso quartel general em São Paulo
vai ser aqui na praça da Sé.
Alguns anos depois, uma outra revolução afastou os comunistas da praça da Sé.
E no ano de 2004, o que se via por ali eram pregadores religiosos, vendedores
de quinquilharias, e os debates que tanto enalteciam o espírito de liberdade
dos paulistas foi varrido para debaixo dos túmulos. Nem parece que existiram
pessoas que tanto primaram pelo debate do conhecimento e das idéias.
Pode-se mesmo afirmar que a praça da Sé era uma universidade em
fronteiras,onde o povo se reunia para debater idéias e não para tirar
diplomas.
QUEBRA DE HEGEMONIA
Aos sábados, precisamente as 20 horas, começava na praça uma pregação algo
inusitado naquele tempo. O pregador, muito jovem, descendente de africanos,
tinha grande fluência. Os comunistas começaram a gostar dele e compareciam
ate o local de sua pregação, que ficava ao lado do marco zero. Uma noite,
alguns comunistas resolveram desafiar o jovem pregador. De que religião você
é?
- Bem, eu não sou de nenhuma religião. Eu estou tentando ser espírita.
E espiritismo não é religião?
Não, não é. É uma doutrina que engloba a ciência, a filosofia e a
religião.
Francisco Silva, homem do povo, vestia-se como tal. Mas nas suas
argumentações demonstrava sólido conhecimento. E assim os comunistas não
conseguiam abrir uma brecha positiva no debate.
- Mas, Francisco, você delirante — dizia Vanderlei, um dos comunas mais
radicais. Você tem profissão ?
Francisco ria, olhava de lado, e dizia:
Se eu falar a minha profissão, você não acredita.
E o que você faz ?
Eu sou engenheiro eletrônico.
Os comunas não acreditavam. Os católicos conservadores, também achavam tal
afirmação um acinte. Onde já se viu um engenheiro falando de religião na
praça?
- Pois é, meus amigos, a vida tem surpresas — falava Francisco.
Um dos comunas dizia que Deus não existia. Se o espírito existisse, ele já
teria enxergado. Francisco ria novamente, e dizia.
Amigo, venha cá, não preciso ver para a coisa existir. Vou te dar alguns
indicativos. Você já viu a energia elétrica? Ela esta passando por esses fios
ai - e apontava para os postes, e ninguém vê. Olha, neste exato momento,
estão passando por nós milhares de imagens da televisão, sons das emissoras
de rádios, e a gente não vê e nem ouve. É preciso ter um aparelho sintonizado
para que a gente possa enxergar as imagens e os sons.
Francisco deixava os comunas estonteados com tanta argumentação sólida. Aos
poucos, os comunas foram deixando Francisco de lado. Eles estavam mais
interessados em revolução do que em ouvir certas verdades.
Francisco demonstrava também grandes conhecimentos sobre a história da praça
da Sé. “Aqui sempre teve o espírito da liberdade. Vocês vejam, em 1639 houve
aqui uma grande disputa política e religiosa. Fazendeiros queriam escravizar
os índios. Os padres jesuítas eram contra. Assim surgiu uma grande disputa,
que culminou com a expulsão dos padres da igreja do Pateo do Colégio. Alguns
padres foram presos o porto de São Vicente e levados embora. Outros seguiram
a pé ou de barco ate Assuncion, no Paraguai. Uma parte do povo, cerca de 32
brasileiros e portugueses, mais 250 índios, fugiram para o sertão de Jundiaí.
Lá fundaram uma vila, que depois veio a ser a cidade de Jundiaí. Foi a
primeira rebelião contra a opressão dos poderosos registrada na praça da Sé.
Depois vieram outras, como o grande movimento pela libertação de Portugal.
Aqui houve concentração da população em 1822 para comemorar a independência.
Depois foram as lutas populares para a consolidação da província. A
libertação dos escravos teve aqui discursos memoráveis, a seguir as
manifestações sobre a instalação da República. Depois surgiram as
manifestações sobre a aposentadoria em 1906 e 1907. E os comícios de 1924,
1929, 1930, 1932 e a instauração da democracia em 1945 e 1946. Outras tantas
virão — dizia Francisco porque esta praça tem a vocação das lutas pela
liberdade econômica, como também a religiosa e a política.
Francisco gostava mesmo era de pregar a doutrina kardecista, destacando certa
vez para os comunistas que houve em 1857 um encontro entre Karl Marx, o
ideólogo do comunismo e Allan Kardec. Este teria dito a Marx que a ideologia
do comunismo seria vitoriosa a curto prazo. A sua doutrina iria demorar muito
mais, porém, seria vitoriosa a longo prazo, mas o comunismo teria vida curta.
Pouco tempo depois Francisco desaparecia da praça.
- Fiz a minha parte. Eu queria quebrar a hegemonia da praça, aberta a apenas
a uma religião, a católica, agora as portas estão abertas para todas as
demais religiões.
Francisco trabalhava numa fabrica de televisores. Nas horas vagas consertava
aparelhos eletrônicos nos porões de sua casa para entregar um serviço, mas
voltava logo.
OS SOBRINHOS DO SEU ADIB
Quando Seu Adib resolveu alçar vôos mais elevados no ramo dos negócios,
escreveu para seu irmão que mandasse os seus sobrinhos para são Paulo. Os
três chegaram num dia qualquer de março de 1962. Os momentos felizes da Praça
da Sé estavam sendo sepultados, mas eles nem siquer suspeitavam de que iriam
tomar parte numa historia de grande impacto. Assim que chegaram, Seu Adib os
avisou que eles iriam tomar conta de seu antigo negocio de compra e venda de
ouro. Mas teriam que aprender imediatamente o português. Já tinha contratado
um mestre, um tal de professor Arlindo, que durante três meses iria ensinar a
língua falada no Brasil. Depois de três meses os rapazes já estavam quase
dominando o português. Assim assumiram rapidamente os negócios do tio.
Mandaram confeccionar um painel para pendurar na janela, onde se lia alguma
coisa como Bekaouro e outros negócios. Quase toda semana, um ou outro
sobrinho viajava. Todo mundo no prédio comentava que eles faziam contrabando
grosso de ouro e pedras preciosas. Mas ninguém se incomodava com as
atividades dos sobrinhos do Seu Adib. Eram corteses, joviais, contrariando em
muito a tradição dos comerciantes libaneses da época, que eram antipáticos e
irritadiços.
Freqüentavam a catedral da Sé. Sabia-se então que eram libaneses católicos e
tinham ojeriza aos mulçumanos. Eram sentimentais até demais. Choravam com
facilidade. Uma pessoa que estivesse em dificuldades, receberia de imediato o
abraço dos irmãos, porém jamais abriam a carteira para dar dinheiro. Os
comunistas diziam que eles eram como o Papa. Diante de uma tragédia só
mandava bênçãos.
Naquele ano de 1962 três acontecimentos marcaram a Praça da Sé. A vitória da
Seleção Brasileira de Futebol no Chile. Um imenso painel de madeira armado
bem em frente catedral dava os jogos, os resultados e as vitórias do time
canarinho eram freneticamente comemoradas por uma imensa torcida que lotava a
praça. Passada a Copa, chegou a vez do movimento pelas eleições gerais para
governador. O mandato do eficiente Carvalho Pinto estava chegando ao fim.
Jânio Quadros, o renunciante, curtia o ostracismo. Ademar de Barros, que
tinha sido interventor em São Paulo em 1937, depois governador em 1947,
estava de volta com suas músicas, seus comícios hilariantes e outros
candidatos do seu partido, o PSP, odiado pela turma do Jânio. O terceiro
acontecimento seria algo para ser esquecido. A policia paulista era formada
pela Guarda Civil, que policiava a região à esquerda do rio Tietê, e pela
Força Pública, que guarnecia os bairros e as vilas que ficavam à direita do
rio. Pois bem, numa batida de rotina, dois membros da Guarda Civil foram
bater no escritório dos libaneses. Pelo buraco da fechadura, notaram que eram
policiais que queriam entrar no escritório. Não se soube jamais qual teria
sido o drama. De repente, os irmãos começaram a gritar pela janela. Pediam
socorro. Logo se formou uma multidão. De dentro, os guardas forçavam a porta.
Intimidavam seus ocupantes. Apavorados, os irmãos começaram a jogar pelas
janelas tudo o que havia dentro do escritório. Cadeiras, quadros, sofás,
tapetes, armário do banheiro, cadeiras, enfim, tudo o que estava à mão. A
gritaria lá embaixo era infernal. O povo saia nas janelas dos prédios. Dois
carros Radio Patrulha apareceram. Mais soldados subiram. E a porta continuava
fechada. Depois de duas horas, o velho Tio Adib foi chamado. Só ai os
sobrinhos abriram a porta. Todos foram para a Delegacia. Lá o delegado
perguntou qual o motivo de tanta confusão. E só então os guardas disseram que
foram para lá para comprar um par de alianças para um colega que ia ficar
noivo. O delegado dispensou a todos, mas pediu para o Seu Adib tomar cuidado
com seus sobrinhos."São uns doidos" — disse o delegado. — Que nada
seu doutor. Eles estão traumatizados por causa das mulheres brasileiras.
Na praça todo mundo dizia que eles eram da CIA. Depois sumiram. Nunca mais
apareceram
O GRANDE ADVOGADO
Culto, inteligente, bem falante, formado em direito pela São Francisco, Dr.
Lima tinha uma famosa banca de advogado no centro de São Paulo.
De dia, usava ternos impecáveis, camisa super alinhada, bem passada, gravata
esmeradamente bem cuidada. Usava na lapela do paletó um emblema. Circulava
pelo Fórum da Praça João Mendes com desenvoltura. Era amigo dos juizes, das
atendentes, do pessoal do cartório, dos oficiais de Justiça. Enfim, um
relacionamento perfeito com o pessoal da Justiça.
Ganhava bem. Seu pai, empresário bem sucedido, tinha grandes loteamentos.
Das 11 da manhã ás 19 horas, era o Dr. Lima.
Depois, tirava a gravata, jogava de lado o terno, e passava a se vestir de
qualquer jeito.
E a partir daí caia na farra.
Seus amigos da noite eram aquelas pessoas abandonadas que viviam na praça da
Sé e imediações. Nos anos 60, a praça da Sé era também o centro político de
São Paulo.
Ficava nos pequenos bares, circulava nas regiões mais perigosas.
Tinha dois escritórios. Um para atender a elite, bonito, bem decorado,
acolhedor. Outro para os deserdados da fortuna. Ali mantinha um advogado
dedicado aos decaídos da noite.
Dr. Lima era solteirão. Aos 40 anos tinha o viço da mocidade. Sempre corado,
cabelos cortados no melhor cabeleireiro.
À noite de boné, podia ser visto também na rua Timbiras e imediações, onde
rolava o dinheiro difícil Das mulheres de vida fácil. Aquilo era o seu mundo.
Mas de vez em quando sumia.
Ia passar férias com alguma beldade da alta sociedade em qualquer lugar do
mundo. Foi visto em Paris, Londres, Nova Iorque inúmeras vezes.
Fins de semana curtia o apartamento do Guarujá.
Tinha um mordomo fiel. Todas as noites, às 3 horas, marcava encontro com ele
em cinco lugares distintos. A essas horas da madrugada já estava bêbado. Em
geral, abraçado num poste. O mordomo o encontrava sempre.
Mas um dia o Dr. Lima sumiu.
Ninguém tinha noticias.
Onde estaria o famoso homem da noite?
Será que havia tirado férias?
O mordomo se desesperava, ia a todos os lugares prisões, necrotério, IML,
hospitais e nada.
Até que os amigos foram recebendo noticias esparsas.
Havia se casado. Mandou fechar os escritórios, vendeu os apartamentos.
Descobriu-se depois que havia um motivo a mais. Estava apaixonado. E queria
viver o resto de seus dias nos braços dessa paixão.
Não durou muito e veio a infausta noticia.
O famoso causídico, grande orador, havia morrido.
Causa: a paixão por uma reles cafetina da rua Timbiras.
No cemitério há sempre a visita de alguém. Ricos e pobres se encontram e
fazem muitas homenagens a alguém que é muito caro em suas lembranças.
Adeus, Dr. Lima.
Até breve, ele respondeu em carta que mandou seu secretario enviar pelo
correio um ano depois de sua morte.
Sempre foi indiferente aos partidos, aos políticos, às religiões e aos ateus.
Para ele se existiu um verdadeiro comunista no Brasil: Castro Alves, o poeta
da liberdade.
O HOMEM DO CARTAZ
Para um estrangeiro que chegasse a São Paulo no final da década de 50, não
era difícil conseguir emprego ou abrir algum negocio próprio. O
desenvolvimento econômico acelerado, as migrações internas e a liberdade
individual davam as pessoas condições de rápida ascensão social. Bastava
falar um pouco o português, trabalhar ou estabelecer um negócio próprio e as
portas do sucesso já se abriam. Ninguém perguntava sobre diplomas, curso no
exterior, formação escolar. Ao indivíduo só era exigido uma qualidade. Sabia
trabalhar? Isso já era o suficiente.
Seu Adib veio do Líbano em 1957 à procura de oportunidades. Não tinha amigos,
não falava a língua local. No inicio morou numa pensão barata na rua da
Assembléia. Aprendeu com gente das mais diversas origens a arranhar o
português. Naquele tempo, ate mesmo os brasileiros não conseguiam dominar
totalmente a língua portuguesa. São Paulo estava repleto de gente do
interior, que tinha dificuldades de falar a língua pátria. Trocavam o l por r
em todas as palavras. Alto era arto. Alcides era trocada por Arcides. Os
nordestinos chamavam São Paulo de Sun Pola. E no meio dessa confusão,
existiam os libaneses, sírios, portugueses, japoneses, turcos, judeus,
alemães e tantas outras línguas que Seu Adib pouco tempo depois já era uma
pessoa comum.
Comerciante em sua terra natal, Seu Adib foi conhecendo aos poucos a colônia
libanesa. Aconselhado a montar um negócio próprio, resolveu trabalhar com
ouro. Possuía um pouco de dinheiro. Alugou um escritório na Praça da Sê e ali
colocou na janela uma placa. "Compro e vendo ouro". Alguns meses
depois e ele já estava trabalhando também com dólar, libra, marco alemão,
francos, pesos e outras moedas. Possuía três salas. O recepcionista, homem
forte, ficava na primeira sala, Na segunda instalou-se seu Adib. A terceira
sala, transformou em quarto. Ali ele dormia. Conseguiu chave do prédio com o
zelador e assim saia e entrava a qualquer hora do dia e da noite. Os
proprietários do prédio viviam na França. E o zelador tomava conta de tudo.
Seu Adib comia qualquer coisa ali pelos restaurantes e lanchonetes da Praça.
Não se metia em política. Estava ali só para ganhar dinheiro.
Quando veio o golpe militar de 1964, lamentou a ausência de várias pessoas.
Chegou a emprestar dinheiro para um rapaz que precisava fugir de São Paulo.
Depois a situação foi se amainando e o rapaz apareceu para pagá-lo. Mas em
1965, o Governo resolveu tomar medidas drásticas contra o que os militares
chamavam de cambio negro do dólar. Esse rapaz avisou Seu Adib para desaparecer
por uns tempos. Seu Adib na mesma hora resolveu o problema. Mudou-se para um
escritório do outro lado da Praça. Mandou um pintor fazer uma placa para
deixar um aviso no antigo escritório. Pegou do bolso um papel e mandou o
pintor fazer a placa com urgência. Logo que leu o papel, o pintor achou
estranho.
— Tem certeza, Seu Adib, que é isso mesmo que o senhor quer escrever?
— Seim, faça isso mesmo, menino.
E assim o cartaz foi feito e pendurado na porta de seu escritório. Nele
estava escrito:
"Minjastes fora do vazo; por que não minjastes dentro?
O vazo estava fora de esquadro ou seu periquito fora de centro?"
Quatro dias depois desses acontecimentos, a policia invadiu prédio a procura
do escritório de um estrangeiro que fazia negócios no cambio negro. Estranharam
aquele cartaz. Arrombaram a porta. Só restavam moveis velhos. Seu Adib fazia
questão de demonstrar que era um homem pobre.
O cartaz foi levado para a Delegacia. Lá os policiais riram muito, mas um
deles achou que havia uma mensagem estranha. Podia ser uma mensagem em
código. Mas o assunto foi deixado de lado, porque o Governo estava preparando
novas e importantes modificações no mercado de capitais e havia coisas mais
urgentes para a Policia resolver.
Pouco tempo depois Seu Adib voltou a tranqüilidade dos negócios. Sobre o
cartaz disse que tomou nota nuns dizeres que estava atrás de um caminhão. Na
hora de mandar fazer o cartaz trocou as bolas. Mas na Praça da Sé, o
acontecimento andou de boca em boca. Para os esquerdistas, Seu Adib havia
confundido a policia. Outras versões do cartaz já haviam surgido, mas como as
nuvens cinzentas da política estavam envolvendo o País, o assunto foi sendo
deixado de lado. Alguns meses depois, Seu Adib desaparecia da Praça. Era
agora prospero banqueiro, dava opiniões aos ministros militares e até jantava
com generais.
Os desacertos de 64
Nos primeiros dias de abril de 1964, a Praça da Sé perdeu seu frenético
movimento político. Maoístas, comunistas, esquerdistas do centro,
conservadores e ultra-conservadores foram presos indiscriminadamente.
Sem orientação de inteligência, o DOPS, a Força Pública, a Polícia e a Guarda
Civil, juntamente com efetivos das Forças Armadas, começaram a prender, de
maneira atabalhoada. Até membros do partido de ultra-direita, a UDN – União
Democrática Nacional –, foram presos, sumariamente, sem direito à defesa.
Advogados democratas fizeram grande esforço para reverter a situação.
Apelos enviados às autoridades não tinham acolhida. Mais uma vez, a sombra da
ditadura, com seu manto sinistro, descia sobre São Paulo e o país.
Logicamente, numa situação de exceção, surgem os aproveitadores e aquela
ocasião não foi diferente. Assim, advogados espertalhões, aproveitando-se de
suas amizades, constituíram bancas, com a única finalidade de extorquir dinheiro
das famílias dos presos. Muito cobravam, pouco podiam fazer.
Ali, na Praça da Sé, um pequeno escritório, de um advogado pobre, se
transformou em tábua de salvação para muitos. Íntegro, idealista, o Dr. João
da Cunha corria, de um lado para outro, para libertar os inocentes.
Todos, no entender dele, pois, no regime ditatorial, quando os direitos do
cidadão estão suspensos, não há nenhum culpado. Percorrendo as delegacias,
falando com o pessoal do DOPS, pedindo ajuda à Maçonaria que, historicamente,
nessas ocasiões, sempre desempenhou um papel relevante, o Dr. João conseguiu
libertar diversos presos políticos. Não pedia dinheiro. Pedia paciência e
muitas orações, pelos presos e pelo Brasil. Se a família tivesse condições
financeiras, poderia acertar depois. Muitos dos beneficiados com sua ajuda,
jamais voltaram ao seu escritório.
Sem a presença dos esquerdistas, a TFP – Tradição, Família e Propriedade –
aproveitou a chance para fazer seus desfiles de estandartes. Seus membros
cantavam hinos e ensaiavam grandes demonstrações. Viceralmente eram contra a
reforma agrária e manifestavam claramente suas idéias conservadoras.
Uma emissora de televisão e diversas de rádio, juntamente com dois jornais,
deram início ao movimento “Ouro para o Bem do Brasil”. Diziam que o objetivo
da campanha era pagar a dívida externa brasileira. Os Diários e Emissoras
Associados nunca publicaram balancete pormenorizado desse movimento, razão
pela qual tornaram-se suspeitos.
A Revolução de 64, que começou com o iluminado ideal de restauração
democrática, estava mudando de curso e mergulhou, algum tempo depois, na
penumbra do Ato Institucional nº 5 que acabou com as garantias e liberdades
individuais.
No meio dessa opressão, uma voz ponderada, amiga e solidária surgiu. Reunido
com seus amigos do PC, Roque Trevisan, que havia sido deputado em 1946 e
muitas vezes preso pela Polícia Política da ditadura de Vargas, disse: “agora
vocês terão de cair na clandestinidade ou sair do país. Eu já passei por isso
e sei que a perseguição será pesada.” Após estas palavras, toda a ala da
esquerda realmente desapareceu. Muitos de seus componentes viajaram para o
exterior, outros caminharam em direção ao grande interior brasileiro, onde
adquiriram, para usarem temporariamente, identidades falsas. Procuraram o
refúgio dos campos e foram trabalhar longe do barulho e das perseguições das
grandes metrópoles.
Outros, porém, resolveram ficar e tentar a resistência. Um deles, Carlos
Marighela, declarado líder comunista de linha radical, iria organizar uma
espécie de linha de frente. Promoveu reuniões, viajou clandestinamente por
vários estados. Ele conhecia as lideranças do PC nos lugares mais remotos.
Pediu firmeza. Falou com os estudantes. Treinou militantes em escolas
públicas e privadas.
De fala mansa e calma, apresentava a dialética em voz compassada. No seu
currículo constavam viagens para muitos países, entre os quais destacavam-se
Chile, Uruguai, Argentina, Colômbia, México, Cuba e as nações da Cortina de
Ferro. Sua argumentação derrubava mitos. Seu único defeito é que olhava o
mundo pelo prisma soviético. Seguindo esta linha de pensamento, não conseguiu
prever que a Revolução de 64 vinha para permanecer por muitos anos no
poder.
General Brito, homem da Cavalaria, agora aposentado das lides dos quartéis,
falava, nos bares e restaurantes da Praça da Sé: “vocês vão ter de agüentar
por uns quinze anos o tacão do verde oliva”.
Querendo demonstrar ser bem informado, destacava ainda: “o presidente que aí
está , o General Castelo Branco, é um autêntico idealista. Ele quer promover
eleições em 1967. Não vai conseguir. O Exército não vai permitir.” E,
realmente, na saída de Castelo, que tentou por diversas vezes as vias
democráticas, veio outro General, Costa e Silva, que tinha a fama de burrão.
Mas era só fama. Durante seu tempo, foi o mais brilhante aluno da Academia
Militar.
Quando assumiu o poder já estava com a saúde abalada e acabou por morrer
durante o período de gestão. O vazio do poder foi ocupado pelos generais
denominados falcões. Foram eles os responsáveis pelo AI-5 e por outras
iniciativas não condizentes com a via democrática. A resistência de Carlos
Lamarca, que abandonou o quartel, após ter roubado caminhões de munições para
dar início à revolução tão sonhada por Carlos Marighela, causou acentuado
constrangimento nos meios militares.
Deslocando-se para o Vale do Ribeira, Lamarca organizou uma frente
guerrilheira para enfrentar batalhões do Exército. Recrutas foram levados
para o Vale e saíram de lá amedrontados com o poder de fogo dos guerrilheiros.
Amordaçados, os jornais não podiam divulgar nada. Jornalistas que tentaram
furar o bloqueio foram ameaçados e, muitos deles, perderam os empregos.
Boatos não faltaram. Sem a informação livre e espontânea, apareceram muitos
boatos de mortes de soldados no Vale do Ribeira. As ondas da boataria
destacavam que Lamarca usava estratégias que tinha aprendido no exército
americano e com guerrilheiros cubanos.
De outra parte, a igreja conservadora continuava com suas missas e pregações
contra o comunismo. Mas havia resistência. Alguns frades não concordavam com
essa orientação e, sob a inspiração do Frei Josaphat, foi fortalecido o
posicionamento do Jornal do Brasil que, com urgência, tratou de dar uma linha
de coerência ao pensamento católico e influir nas decisões políticas.
A luta árdua desse pequeno grupo de padres foi tenazmente combatida pelo
aparato militar. Grupos de pessoas, descontentes com a evolução dos
acontecimentos, começaram a formar, em suas próprias casas, unidades básicas
dos descontentes.
Houve um exaustivo debate entre essas unidades e seus componentes chegaram ao
consenso de que a resistência armada seria um erro.
Se ameaçados, os militares, com apoio dos Estados Unidos, se armariam ainda
mais e a perseguição tenderia a aumentar de intensidade. A linha democrática
precisaria ser inconteste. O pequeno grupo de dissidentes resolveu traçar uma
estratégia, ou seja, três pessoas foram designadas para agirem de formas
práticas e possibilitarem a conquista de espaços na imprensa, na igreja católica
e entre os estudantes.
As pessoas começaram a agir dentro de suas esferas e, aos poucos, foram
ampliando seus relacionamentos e disseminando a convicção de que, se a luta
iria durar quinze anos, como afirmavam os militares, a resistência teria de
começar naquele momento.
Foi nesse meio desarticulado que surgiu uma grande surpresa que, vindo do
movimento musical, explodiu como uma bomba: Geraldo Vandré, com sua música
“Para Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, lança uma esperança geral. Le
Monde, na França, comentou a música, afirmando que ela poderia tornar-se uma
nova Marselhesa, mas não chegou a prognosticar se ela, sozinha, conseguiria
fazer uma nova revolução. Nos quartéis, os militares exigiram perseguição aos
músicos que estavam tentando dilapidar o movimento de 64.
Como fora, muitas vezes, perseguido pelas ruas de São Paulo, pela antiga
Polícia Política, o ex-deputado Roque Trevisan continuava a ensinar aos mais
novos militantes que, antes de serem presos ou mesmo durante o ato de prisão,
deveriam gritar: “Eu sou o fulano de tal. Estou sendo preso.” Com tal
atitude, a polícia se amedrontaria com a possibilidade de reconhecimento, e
não castigaria o preso excessivamente.
Roque dizia também que o grande erro do comunismo no Brasil foi ter
estimulado a luta armada. Com sua índole pacífica, o povo brasileiro jamais
iria embarcar em uma aventura guerrilheira. Bastava ver os exemplos do
passado: golpistas e revolucionários puderam chegar ao poder, mas nunca
tiveram assentos permanentes. Combatendo a índole guerreira de muitos
militantes, Roque dizia, ainda, que, depois de muito meditar, havia chegado à
conclusão de que o comunismo só iria governar o mundo quando fosse extinto o
militarismo e a educação de massa atingisse toda a população.
Frisava, ainda, que o socialismo soviético estava ameaçado, devido à vaidade
de seus dirigentes e ao exclusivismo de oportunidades dadas aos membros do
Partido. Ao dizer essas palavras, naqueles anos difíceis, para qualquer
movimento de oposição, o velho Roque Trevisan estava sendo profético.
Sempre calmo, falava que Marx desejava que o comunismo fosse implantado na
Alemanha, não por ser sua terra natal, mas sim devido à índole do povo alemão
que, acostumado à disciplina e à organização, daria conteúdo indiscutível às
reformas de base, abrindo espaço para o socialismo e, no futuro, para o
comunismo.
A Rússia, contudo, era um estado atormentado desde os tempos dos czares. O
povo russo não estava preparado para o regime socialista. Roque dizia que, ao
fomentar o militarismo, o governo soviético estava, na realidade, tirando
recursos da população.
Colocando o povo às margens das conquistas da ciência e da tecnologia, do
conforto e da saúde, tudo poderia ruir.
Seu engajamento, nessa resistência, tinha por único objetivo ajudar os
neófitos à não sofrerem tanto quanto ele sofreu. Dizia, ainda: “o comunismo
deve absorver a idéia do Deus universal.” Os radicais não gostavam dessas
preleções e, com a idéia fixa de tomarem o poder pela força, foram avante.
Os moderados partiram para a resistência democrática. Outros esperaram pelos
acontecimentos. Foram chamados de covardes e medrosos, mas, no momento em que
o processo da Revolução de 64 começou a dar sinais de enfraquecimento,
estavam eles na linha de frente, organizando a retomada do poder pela avenida
ampla da democracia.
A MARCHA
Naqueles idos de março de 1964, o Brasil vivia freneticamente da política e
fluía como que por simbiose as grandes contradições da sociedade. O
presidente João Goulart sentiu que estava perdendo o poder resolveu fazer o
Comício do Dia 13 no Rio de Janeiro. Pregou abertamente a necessidade de
reformas urgentes, entre as quais a reforma agrária e a reforma urbana. Nos
discursos paralelos, falou-se que somente no Rio de Janeiro existiam 300 mil
residências fechadas, algumas da quais de magnatas que nem moravam no País. E
que, do dia para a noite, podia-se fazer a reforma urbana com os favelados
invadindo essas residências e nela morarem gostosamente.
Já a reforma agrária, partiria das margens das rodovias, isto é, todas as
terras agricultáveis às margens das rodovias federais seriam desapropriadas e
doadas para o povo.
Com essas ameaças de desapropriações, as forças conservadoras se uniram mais:
Proprietários de grandes redes de comunicações sentiram a necessidade de se
organizarem. Fizeram diversas reuniões. As forças capitalistas colocaram-se
na posição de legítimos defensores da democracia. “Contra os desmandos do
presidente, um desvairado, vamos defender a nossa democracia”. No Senado, o
líder do governo destacava que se o congresso não aprovar as reformas de
base, ele perderia a identidade nacional.
Na praça da Sé, o povo debatia essas idéias. Era patente que havia uma
divisão social muito seria. O Governo estava perdendo rapidamente as rédeas
da política econômica. A inflação havia chegado em 1963 ao absurdo de 75%. No
ano de 1962, atingiu 50%, e para 1964 esperava-se 140%, um verdadeiro caos
para uma economia frágil e que vivia basicamente da exportação de café.
Um pequeno comício foi marcado para o dia 16 na praça da Sé. Eram os
comunistas que iriam tentar aglutinar seus agentes. Eles foram
unânimes."Devemos nos unir em torno do presidente da república para
defender as grandes reformas". Mas ali uma voz mais sabida se ergueu.
“Irmãos, a reação esta em marcha. Estou sabendo que vem aí um grande
movimento para derrubar o presidente, as nossas reformas e os nossos
direitos. Vamos reagir”.
Poucos dias depois surgiu na praça da Sé uma multidão. Era a Marcha da
Família com Deus pela Liberdade. Os comunistas achavam que esse movimento das
forças conservadoras de São Paulo não deveria reunir mais do que umas 10 mil
pessoas. Contudo, quando a Marcha saiu da Praça da República em direção à Sé,
as rádios já diziam: "são aproximadamente 500 mil pessoas". Posteriormente,
o Comando da Força Pública anunciava um total de 200 mil.
João Batista, repórter e assessor de imprensa da Fiesp, chegou ao seu
trabalho no Viaduto Dona Paulina, sede das entidades de cúpula da indústria
paulista, e disse ao seu chefe, Frederico Machado, que se fossem presos os
capitalistas que lideravam o movimento, pelo menos metade do PIB paulista
iria ficar atrás das grades. A noticia estourou como bomba nos corredores da
Fiesp. Ninguém esperava que o movimento reunisse tanta gente. Humberto
Dantas, secretário geral da Fiesp, disse que agora o presidente da República
estaria perdido. "Sua cassação não passara de alguns dias". Dantas
havia se esforçado para manter a Fiesp longe do movimento da política
partidária, embora seus membros agissem nos bastidores. "Se o Exército
colocar seus efetivos e seus equipamentos nas ruas, o presidente vai cair
sozinho". Dantas tinha razão. O movimento começou no dia 31 de março e
no dia 2 de abril, estava liquidado.
Na praça da Sé, os comunistas falavam ainda em grande reação. "Não vamos
deixar o presidente Goulart sozinho". Mas o presidente já não estava no
comando. O poder estava fluindo em outra direção. As forças conservadoras
viviam agora numa grande euforia. A Igreja Católica estava contente. O bispo
havia dito que “escorraçamos o comunismo para bem longe de nossa pátria”. As
forças conservadoras queriam manter seus bens e seus privilégios.
O Brasil ingressava numa nova ditadura. Orgulhosos de suas vitórias, generais
desfilavam com suas fardas e seus galardões. Eram bajulados pela Igreja e
pelos conservadores. Muitos deles passaram a ocupar cargos de diretoria em
algumas dezenas de multinacionais. Mesmo que não tivessem nenhuma propensão
para os negócios, estavam agora dando palpites em tudo e decidindo a vida de
muitas organizações. E algumas delas foram á falência por ouvirem esses
palpites.
Os comunistas, acuados, aguardavam de agora em diante uma oportunidade para
derrotar a ditadura. Levaram 21 anos para alcançarem seus objetivos.
PRIMEIRO DE MAIO E IBIÚNA
Ary Mosquera, esquerdista da linha chinesa do Partido Comunista, vivia
correndo de um lado para outro da praça da Sé naqueles dias da segunda
quinzena de abril de 1968. Seus amigos estavam distantes da praça com receio
de que fossem feitos prisioneiros. Quem conhecia Ary já sabia que ele estava
tramando alguma coisa.
O governador, Abreu Sodré, considerado por seus amigos como legitimo
democrata, mas excessivamente conservador pelos esquerdistas, havia anunciado
que iria fazer o comício do primeiro de maio na praça da Sé. Perguntado se
tinha receio de alguma arruaça por parte dos comunistas, disse que iria
manter, se necessário, um diálogo aberto e franco com eles. O melhor local
para esse diálogo seria a praça da Sé. “Queremos demonstrar que a democracia
tem suporte para todas as correntes e opiniões. Os democratas não têm medo
dos totalitários”.
O sistema de segurança vigente na época alertou o governador sobre a
possibilidade de acontecer um confronto sério com os comunistas. Mas o
governador fincou pé: "não tenho medo. Eles é que devem ter medo da
democracia". E assim o governador marcou as comemorações do primeiro de
maio na praça da Sé, ordenando, inclusive, relaxamento do sistema de
segurança.
Ary Mosquera sabia de todos esses andamentos políticos. Foi alertado também
pelos amigos para que evitasse um confronto com o governador. “Deus me livre
— disse ele — de entrar numa dessas. O governador é livre para fazer as
comemorações do primeiro de maio. O Dia do Trabalho é sagrado”. Porém, nos
bastidores, Ary trabalhava firmemente para uma grande manifestação política
contra aquele que, para ele, era o líder dos lacaios de Washington.
O governador apareceu na praça da Sé no horário habitual. Bandas de Musica,
estudantes, guardas de honra, políticos, lideres sindicais e uma massa bem
aglomerada no centro da praça pareciam indicar que tudo ia correr
normalmente. No entanto, de vez em quando surgiam do meio da multidão alguns
protestos, que eram abafados em seguida pelo som dos alto-falantes. Quando o
governador começou a fazer seu discurso, os comunistas partiram para a
contestação. As tentativas para acalmar a massa esquerdista não surtiram
resultados. O governador foi ficando irritado. E de repente surgiu aquilo que
as pessoas sensatas mais temiam. O confronto tomou vulto e o governador foi
cercado por seguranças. Os comunistas partiram em direção ao palanque.
Soldados tentaram desviá-los, mas eram poucos. Amigos do governador também
buscaram resguardá-lo. A massa começou a se enfurecer. A ordem dada por Ary
era essa mesma. Sufocar o governador. Os seguranças agiram rapidamente e se
refugiaram na catedral. As portas foram fechadas. Feito o cerco da igreja, na
tentativa de encontrar alguma porta aberta, os asseclas de Ary resolveram
entrar em debandada. Assim, o primeiro de maio de 1968 foi comemorado na
praça da Sé.
Anos depois, um repórter encontrou Ary passeando pela praça mais famosa de
São Paulo. Ele, placidamente, apontava para a igreja. Se eu, naquela época,
conhecesse melhor o governador, não teria feito o que fiz. Ele salvou a vida
de Geraldo Vandré e de outros amigos de esquerda, escondendo-os dentro do
Palácio do Morumby. Nenhum governador, segundo Ary, fez o que Sodré fez.
"Na fase mais aguda do regime militar, o governador fez um gesto
grandioso, que precisa passar para a história".
Ary também se envolveu no famoso congresso de Ibiúna, onde foram presos cerca
de 920 estudantes, muitos deles militantes da esquerda radical. O congresso
dos estudantes tinha o dedo de Marighela. A policia sabia todos os detalhes
da realização deste grande evento, dia, hora, participantes. Fechou o cerco
em Ibiúna e prendeu todo mundo. Ary contou algum tempo depois que o PC queria
a prisão de todo mundo para que a imprensa mundial tomasse conhecimento e
divulgasse o que estava acontecendo no Brasil. Os estudantes, presos,
cantavam abertamente a canção Caminhando, de Geraldo Vandré, que na versão
original chamava-se Pra não Dizer que não Falei das Flores.
O governador Abreu Sodré lamentava os acontecimentos. Ele, que fora ferido na
testa por uma pedrada no famoso comício do Dia do Trabalho na praça da Sé,
dizia que tinha ódio do comunismo, mas amava os comunistas. Teve a
oportunidade de provar que falava isso com convicção.
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