Centro de Oratória Rui Barbosa - CORB

Página destinada a recuperar a memório do Corb, entidade que tinha por finalidade o estudo e a divulgação da oratória.

(no momento sem sede e sem atividades normais)

Coordenador do Fórum corbiano: Egydio Coelho da Silva

Contos e crônicas de Geraldo Gomes Gatollini
(página em elaboração)

Atualizado em 20/04/2005


MARCO ZERO
Contos e reportagens de uma época em que a Praça da Sé foi transformada em Universidade do Povo.
por
GERALDO GOMES GATTOLINI



“Quem manda no terreiro
É o galo!
É o galo e não é o pinto!”

E lá vinha o carro de som, com um enorme galo. Era a campanha de Ademar de Barros, o inimigo político número um de Jânio. Em 1955, assim que tomou posse do governo de São Paulo, Jânio ordenou uma devassa na vida de Ademar. Este teve de fugir de São Paulo, num avião monomotor que desceu em Cochabamba, na Bolívia, quase sem combustível. Da devassa de Jânio restou uma urna marajoara, fabricada na Ilha de Marajó. Jânio dizia que esta havia sido roubada de um museu. Mas nada ficou provado. Ademar voltou, mais tarde, para outras campanhas. Ele tinha certa projeção. Foi o homem que, quando governador, ressuscitou, dos pampas gaúchos, a figura legendária de Getúlio Vargas para a presidência, na campanha de 1954. Dizia também ter construído a Via Anchieta, a Via Anhangüera e o Hospital das Clínicas de São Paulo, o maior hospital da América Latina. 
O professor Carvalho Pinto, o candidato de Jânio, carregava a fama da austeridade, mas não era um político. Demonstrou, após ter sido eleito, capacidade com seu plano de ação. Foi a primeira vez que o estado de São Paulo teve um plano de ação coerente. Carvalho Pinto foi, depois, ministro da Fazenda. 
A guerra fria entre os Estados Unidos e União Soviética formavam o centro dos grandes debates nas questões internacionais. Na frente interna, o presidente JK construía Brasília, a estrada Belém—Brasília, implantava a indústria automobilística, a indústria naval e dedicava-se a outras realizações. Seu lema de governo era: 50 anos em 5. Procurava expandir otimismo para toda a nação, mas a rapidez do progresso trouxe forte desestruturação econômica. Aumentou significativamente o êxodo rural. Falava-se muito em roubo na administração federal. 
Os debates na Praça da Sé eram apaixonados. A livre manifestação, a total liberdade de imprensa, a multiplicidade de jornais, a participação dos estudantes, aliados à crescente urbanização, faziam da Praça o eixo das grandes manifestações políticas. 



“O pinto cresceu
O galo espantou
A vassoura varreu
E o Carvalho Pinto
Venceu.”

Era a musiquinha que o pessoal do Jânio havia mandado gravar para tocar na Praça, em comemoração à vitória do professor.
Após a vitória, os debates voltaram-se para um tema que vem acompanhando o Brasil há muitas décadas: a entrada do Brasil no FMI e a necessidade de sair dele.
Naquela época, o Governo Federal usava um sistema de câmbio múltiplo. O trigo, por exemplo, tinha um câmbio favorecido, para que o pãozinho tivesse sempre um preço estável, sem sofrer as influências das oscilações cambiais. As importações de máquinas para a indústria automobilística também estavam enquadradas no sistema de câmbio favorecido. No geral, o sistema de câmbio favorecia as importações, mas emperrava as exportações. O Governo vivia em crise cambial. O FMI queria que o presidente JK acabasse com esse sistema de câmbio, desvalorizasse a moeda, para aumentar a entrada de divisas. Exigia também o fim dos gastos excessivos e o equilíbrio das contas públicas. JK dizia que tais exigências iriam levar o país ao colapso. O FMI queria também que o governo parasse as obras de Brasília. JK jamais aceitaria tais exigências. Em 1959, da sacada do Palácio do Catete, tendo ao lado Luís Carlos Prestes, o líder comunista, JK rompeu com o FMI. 
O acontecimento foi comemorado festivamente em São Paulo. Passeata de estudantes, de operários e da turma do Partido Comunista Brasileiro saiu da Praça da Sé para uma volta até a Praça da República. Depois retornou para a Sé, onde houve um grande comício. Os líderes do PCB não comemoravam apenas o rompimento com o FMI, regozijavam-se, porque o Brasil estava rompendo com o imperialismo financeiro internacional. 

Nova Era

Dois acontecimentos importantes assinalaram o ano de 1960: a mudança da capital federal para Brasília que, segundo o presidente JK, iria irradiar uma nova onda de progresso para o interior do Brasil, e as eleições para a sucessão presidencial. 
Os jornais e as revistas da época ainda discutiam se valeria a pena ou não a transferência do centro de decisões nacionais para um lugar tão distante dos grandes centros e que ainda precisava de grandes investimentos. Também o tema da sucessão adquiria conotações diversas. Chegou-se a aventar a possibilidade de prorrogação do mandato do presidente, tendo em vista o acentuado crescimento da economia, da abertura de novas oportunidades para o povo e, principalmente, do espaço que tinha adquirido o mercado de emprego e a renda da população. JK colocou um basta a essas especulações, ao dizer que a Constituição deveria ser respeitada. As eleições deveriam marcar, segundo ele, o fortalecimento das instituições e da democracia no Brasil. 
Na Praça da Sé, as músicas vindas dos alto-falantes assinalavam , porém, que havia algum sentido nas especulações de alguns jornalistas. 

“Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria.
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Companhia.” 
Era a música predileta de JK e que havia marcado o início de todas as suas campanhas. Portanto, era possível que, no íntimo, JK almejasse uma prorrogação de seu mandato. 
Mas a onda de moralização, de ética na política e da necessidade de apurações de gigantescos roubos, estimulados por grandes obras públicas, também levavam o povo a imaginar que, depois de um acentuado surto de progresso, havia necessidade de um presidente saneador. E este personagem político estava ali, fácil de ser encontrado. Era Jânio Quadros que, no governo de São Paulo, havia feito uma administração ética e também repleta de obras. 



“Varre, varre, vassourinha
Varre, varre a bandalheira
O povo está cansado
De viver dessa maneira.”

A campanha de Jânio já estava nas ruas. O Movimento Popular Jânio Quadros instalou seu comitê central na Sé. Dos escritórios centrais, partiam ordens e iniciativas para todos os bairros da cidade e também para o interior. 
Nas eleições de 1960, era possível o lançamento de candidatos a vice-presidente sem que estes estivessem vinculados ao candidato à presidência. Milton Campos foi lançado em Minas Gerais e João Goulart apareceu nas ruas centrais de São Paulo, para o lançamento de sua candidatura.


“Na hora de votar
Dona de casa vai jangar
É o Jango, é o Jango,
É o Jango Goulart
Prá vice-presidente
A nossa gente 
Vai votar
No João Goulart.” 


No dia 21 de abril, Brasília foi inaugurada. O Presidente Juscelino pediu a alguns amigos que fossem à solenidade vestidos de fraque e cartola, para mostrar, no exterior, que Brasília não ficava no meio do mato. 
A inauguração de Brasília emocionou a nação.
Gente de todos os lugares, que freqüentava a Praça todos os dias, tinha dúvidas a respeito da funcionalidade da nova capital, mas também enaltecia a coragem de um homem que conseguiu enfrentar a burocracia, os cariocas que mamavam nas tetas do governo, as forças conservadoras e que, com um pouco mais de três anos de obras, fez surgir, no cerrado goiano, uma capital moderna que assinalava o futuro com muitas promessas de mudanças.

“Bossa Nova
É mesmo ser presidente
Desta terra
Descoberta por Cabral
Para tanto
É preciso ser simplesmente
Simpático, humano, original.”

A música de Juca Chaves, estimulada pelo próprio Presidente JK, era tocada em todas as emissoras. 
A partir de julho, a campanha esquentou. No entanto, a candidatura do general Lot não decolava. O povo dizia que nem JK estava interessado nela. E também não havia como enfrentar o furacão Jânio Quadros. A vertente da moralidade de Jânio acabou prevalecendo. No entanto, a vitória de Jânio não foi total. Embora tenha sido eleito com a maior soma de votos obtida, até então, por um candidato a presidente, contrariando os prognósticos de muitos analistas políticos, seu candidato à vice perdeu para João Goulart. 
Após ter sido eleito, Jânio fez uma longa viagem, com parada obrigatória em Londres, para passear a vontade. 
Retornando ao Brasil, montou o seu ministério com as cores da UDN, partido de oposição, liderado por Carlos Lacerda, ferrenho opositor ao governo de Juscelino a quem considerava megalomaníaco e irresponsável. 
A ênfase dada por JK à industrialização e a acolhida ao capital estrangeiro tinham colocado o Brasil na vanguarda do desenvolvimento. A média de crescimento anual foi de 11 por cento. Mas a agricultura tinha sido colocada em segundo plano. JK dizia aos seus amigos que voltaria em 1965 e, então, seu plano de metas seria totalmente centrado na agropecuária. Destacava também que, agora que a Sudene já tinha os fundamentos básicos para o desenvolvimento auto-sustentável do Nordeste, começaria por um gigantesco plano de irrigação, a partir do Vale do São Francisco, atraindo a população que vivia nas terras áridas. Para o crescimento da agricultura tradicional, abriria novas estradas no centro oeste e descortinaria uma fronteira de produção de importância fundamental para o país. 
A dupla JQ-JG iria governar o Brasil. Os comunistas da Praça da Sé diziam que Jânio Quadros não iria agüentar o isolamento em Brasília. 
Na Sé, o povo vivia grandes momentos. Discutia política, ouvia historias e deixava que tudo fluísse ao sabor de uma existência alegre, divertida e repleta de acontecimentos memoráveis. 
























O GATO ESPIATÓRIO

Evaristo Cabello começou a freqüentar os debates na Praça da Sé, no início de 1958.
Não era preciso perguntar qual a sua preferência política, pois na lapela de seu paletó estava sempre pregada a vassourinha de ouro que simbolizava Jânio Quadros.
Chegava na Praça, ali pelas nove horas da manhã, almoçava por lá e só voltava para casa tarde da noite. 
Seu entrevero mais sério era com a turma dos comunistas que, naquela época, tinha verdadeira antipatia por Jânio. Mas Evaristo, simpático e diplomático, pagava almoços para os mais salientes intelectuais do PC.
Com o tempo foi demonstrando seus objetivos, ou seja, angariar na Praça adeptos para os planos políticos de Jânio. 
Em primeiro lugar, eleger para governador o candidato do movimento janista, Carvalho Pinto. Em seguida, lançar para a Presidência da República o próprio Jânio Quadros.
Como tudo o que acontecia na Praça da Sé tinha repercussão através das rádios e dos jornais, Evaristo buscava apresentar sempre fatos novos aos formadores de opinião.
Quando o movimento político começou a crescer, alugou um escritório, no qual as janelas principais davam para a Praça da Sé. Dali poderia acompanhar o movimento.
Contratou uma empregada que exercia simultaneamente as funções de faxineira e de cozinheira e, com esta, veio um gato, de sua estimação, a fim de acabar com os ratos que roíam tudo ao derredor. Os armários da pequena cozinha, os móveis da sala principal estavam roídos. 
A empregada disse a seu patrão que não se preocupasse com comida para o bichano, pois, com os ratos que ali moravam, o gato não precisaria de comida extra e, seguramente, teria um estoque que iria durar por muito tempo.
Logo após a chegada, o gato vivia sempre alerta. Depois, aos poucos, foi engordando, os pelos foram ficando lustrosos, e ele já não se importava muito com os ratos. Passou a dormir sobre a janela o dia inteiro. De vez em quando, abria os olhos, dava uma rápida espiadela na Praça e voltava a dormir.
Por isso, recebeu um nome: Gato Espiatório.
Evaristo passou a gostar do gato. Este fazia alguns agrados em seu patrão, passando-lhe o rabo e as costas nas pernas, e instigava Evaristo a retribuir, deitando-se de costas para receber carinhos na barriga.
A campanha para governador começou a pegar fogo. Nessa fase da vida política brasileira, era costume dos candidatos criarem slogans ou um símbolo para as suas campanhas. 
Ademar de Barros era o galo, que mandava no terreiro, porque o candidato de Jânio, a governador, havia adotado o pintinho como símbolo. Auro Moura de Andrade era o homem da peneira. Pretendia peneirar a bandalheira de Jânio e dos demais políticos. A Praça da Sé transformou-se no grande centro político de São Paulo.
E lá, na janela do escritório, o gato Espiatório dormia, coçava-se e ia, de quando em quando, espiando.
Quando a campanha tornou-se acesa, surgiu o Movimento Popular Jânio Quadros. Foi armada uma barraca e o escritório de Evaristo foi coberto com cartazes de Carvalho Pinto e Jânio Quadros. Um serviço de alto-falantes berrava o nome de Jânio, o de seu candidato e tocava músicas da campanha. 
Evaristo chegou um dia ao escritório todo esbaforido. Havia recebido a comunicação de que Jânio viria à Praça da Sé e iria permanecer, por alguns minutos, no escritório. Tudo teria de estar muito bem limpo e preparado. Enquanto os preparativos eram feitos, Espiatório espiava. 
No dia da chegada de Jânio, a praça apresentava movimento inusitado. 
Chegava gente de toda parte que se ia aglomerando na Praça.
Jânio falaria, da sacada do escritório, para a multidão e, em seguida, iria até o palanque, onde faria o discurso mais esperado do ano. 
Jânio chegou por volta das 18:00 horas e foi conduzido, por Evaristo, até seu escritório. 
Os alto-falantes enalteceram Jânio por seus feitos e méritos e profetizavam maiores façanhas para um futuro próximo.
Rojões, caramurus, bombas, foguetes foram lançados e suplantavam, intermitentemente, os sons dos alto-falantes e a grande celeuma da multidão.
Inesperadamente, um rojão explode bem na janela onde estava Espiatório. Assustado, perdeu o equilíbrio e caiu bem na frente de Jânio. Este, por sua vez, assustando-se também com a inesperada intromissão, deu um pulo para trás, pondo em guarda imediata seus seguranças e correligionários.
Foi só uma fração de minuto e, em seguida, todos desataram a rir. Só Jânio, ainda assustado, permaneceu sério.
Carvalho Pinto elegeu-se governador.
Em 1960 veio a campanha para presidente da república e Jânio elegeu-se por unanimidade.
Baseado na aura de sua meteórica carreira política, o povo esperava de Jânio uma nova era de honestidade e seriedade em âmbito nacional. Este, porém, governou por sete meses apenas e renunciou. Sua renúncia causou um grande abalo na Nação.
Muitos anos depois, quando Evaristo e alguns amigos estavam passando frente ao escritório, aquele olhou para cima e disse:
- A queda do Gato Espiatório foi um presságio para nós. Só Jânio percebeu isto. Onde já se viu um gato preto cair bem na frente do Governador? Aquilo foi um aviso ao qual nós não demos a devida atenção. 
O Gato Espiatório sumiu desde aquele dia. Mas ficou para sempre nas histórias dos amigos de Jânio. 
Depois desses acontecimentos, o economista Evaristo Cabello ocupou vários cargos na vida pública. Preparou projetos que ajudaram a transformar muitos setores da economia. 
É um profissional que prima pela racionalidade, mas, quanto ao gato preto, crê piamente que dá azar.







CORVO LUIZINHO

De segundas a sextas-feiras, os irmãos Sorriso chegavam à Praça da Sé por volta das 8:30 horas. Tinham o costume de tomar café juntos. No café, falavam de seus filhos, suas esposas, dos últimos acontecimentos com suas famílias, falavam também um pouco de política e, depois, cada um seguia para seu trabalho.
Foram apelidados de irmãos sorrisos, por terem o hábito de contarem suas histórias sempre com um sorriso nos lábios. 
Tomaz morava perto de Mogi das Cruzes, Seu Leopoldo e José, na Vila Mariana. 
Numa segunda-feira, estavam se despedindo frente à farmácia do Tesouro quando um barulho veio do céu. E, antes mesmo que conseguissem olhar para cima, um corvo caiu no meio deles. Retorcendo-se, tentando bater as asas desesperadamente, a grande ave não conseguia sair do chão. Seu Leopoldo pegou o corvo em suas mãos, levou-o até a farmácia e pediu ao farmacêutico, seu Marquetti, para que colocasse uma tala na asa da grande ave. Em princípio seu Marquetti pensou que aquilo iria lhe trazer um azar danado. Mas, como devia alguns favores aos irmãos, resolveu atender ao pedido.
Seu Leopoldo carregou a ave até um prédio onde havia uma fina joalheria e uma oficina de consertos de relógios. Perguntou ao zelador do prédio se, na varanda, havia algum espaço para o bichinho ficar. Havia. E ali ele foi ficando. 
No andar térreo, três portugueses eram proprietários de um restaurante de grande movimento. Ficaram sabendo do caso e, todos os dias, preparavam para a ave um prato repleto de restos de carne. Assim o corvo foi se recuperando e chegou até a engordar. Quando já tentava alçar vôo, resolveram levá-lo para Poá, onde Tomaz morava. E, assim, Luizinho deixou a praça onde estava vivendo, num sábado, para voltar à sua vida normal. 
Três dias depois, o corvo rondava a Catedral da Sé. Fazia evoluções em torno dos sinos. De repente, empinou o bico em direção ao Pátio do Colégio e veio, em um vôo rasante, até pousar na varanda, onde houvera passado vários meses. Na chegada provocou muito barulho. 
Como tinha muitos fãs, logo estes acorreram para revê-lo. 
Os portugueses trataram logo de preparar o almoço.
Deste modo, Luizinho foi ficando e se alimentando. Às vezes sumia. Passava algumas horas voando pelo centro da cidade e, depois, voltava. 
Parecia ter perdido o faro para carniças e bichos mortos. 
Foi fazendo sua vidinha. Mas, de repente, desapareceu. 
Como tinha uma argola vermelha presa na perna, era fácil distingui-lo. 
Foi visto em várias partes da cidade, mas não voltou mais para a Sé. 
Muitos meses se passaram. 
Numa madrugada de segunda-feira, um grupo de pessoas pregou faixas, cartazes e distribuiu panfletos na Praça.. No centro dessas peças publicitárias, aparecia um corvo.
Logo muita gente pensou que se tratava do Luizinho. 
Mas não era. Tratava-se da campanha promovida pelo jornal Última Hora contra o candidato à presidência Carlos Lacerda, governador da Guanabara. Panfletário e polemista terrível, tinha uma legião de admiradores e, igualmente, uma multidão de antipatizantes. Era um novo corvo que vinha habitar a Praça.
Os irmãos Sorriso continuaram com suas rotinas do dia a dia. Em suas conversas, sempre voltavam ao assunto do “Luizinho”, o corvo que, por muito tempo, foi o centro das atenções de muita gente na principal e mais dinâmica praça de São Paulo. 
Quanto ao outro corvo, foi cassado pelos militares. Hoje vive na lembrança de seus admiradores, muitos deles conhecidos por Viúvas de Lacerda. 










O ITALIANO FUMAÇA

Logo às sete horas da manhã, um senhor de chapéu, com um enorme cachimbo, atravessava a Praça da Sé. Ia direto a um prédio de sete andares, onde tinha uma sapataria muito bem aparelhada. Era ali o seu ninho de trabalho. Distribuía seus “Buon giorno”, suas “Madre mia, che bella ragazza, você está hoje”, “porco cane, che cosa parla? não me conta!” e muitas outras expressões mescladas de italiano e português, sempre no mais alto espírito. Quando o cumprimentavam e perguntavam como estava, respondia aos amigos, invariavelmente, com um “bene” e reforçava: “muito bem, obrigado!”
Às doze horas, suspendia o trabalho, lavava as mãos e o rosto e saía para almoçar. Possuía uma vasta freguesia. Era exímio artesão. Quando entregava um calçado de couro de zugue, era certo que seu Rossi reunia alguns amigos e iam almoçar na Cantina do Marinheiro, no Brás, ou, então, em uma das outras cantinas que freqüentava, nas quais era sempre bem recebido. Parecia que fazia amigos em todas as partes. 
Sempre com aquele enorme cachimbo e chapéu, com abas arrebitadas, logo ganhou apelido: italiano fumaça. Divertia-se muito quando alguém o chamava assim. Sempre refinado, gostava de vinhos bons, comida boa e farta que só os italianos sabiam fazer. Gostava também de lembrar de alguns pratos e parecia saboreá-los quando os mencionava: “Arancine alla Siciliana”, “Ossibuchi alla Milanese”, Fettucine Putanesca” e enumerava uma série de maravilhas da cozinha italiana. Possuía uma família numerosa. Filhas e filhos bonitos. As filhas chamavam a atenção pelas posturas, pelos andares graciosos e pelos constantes sorrisos nos lábios. O velho orgulhava-se da família e divertia-se com ela e com os amigos. 
Numa sexta-feira, com o dinheiro entrando farto na sapataria, combinou, com dois amigos, irem a São Roque no domingo, até um sítio que ele conhecia, para comprar vinho. Deveriam sair cedo, para virem almoçar com suas famílias. Arrumaram 9 garrafões. 
De manhã, às cinco horas, encontraram-se frente ao Correio, no Anhangabaú. Dali, rumaram para São Roque.
Entretanto, quando deu duas horas da tarde, as famílias começaram a ficar apreensivas. Nenhuma notícia. Às cinco horas resolveram ir à Delegacia, para saber se tinha havido algum acidente na estrada. Ligaram para a delegacia de São Roque e não constava nada. Somente às 11:00 horas da noite, foram encontrados. Estavam todos molhados, mas não havia chovido. Nada contaram. Cansados, foram dormir.
Na segunda-feira, começaram a surgir as primeiras versões. No sítio tinham tomado tanto vinho que perderam a hora. Depois resolveram rumar para a cidade. Um deles rolou por uma ribanceira, quebrou os garrafões. Outro não sabia onde havia deixado os seus. O terceiro não se lembrava de ter levado garrafões para São Roque. 
Como chegaram muito tarde na estação ferroviária de São Roque, só puderam tomar o último trem para São Paulo. Dormiram nos vagões e só acordaram quando o pessoal da limpeza começou a lavar os vagões com um enorme esguicho. 
“Puta madre, é o dilúvio!”
Seu Rossi era assim mesmo: muito alegre e divertido. 
Um dia comunicou aos amigos que iria fechar a sapataria. Iria embora para a Itália, onde tinha recebido uma grande herança. Despediu-se dos amigos, isto é, “piano, piano”, como ele mesmo alertava, passou bem uns seis meses despedindo-se. Foi-se. 
Um ano se passou e eis o seu Rossi de volta.
- Não gostou da Itália? – perguntavam os amigos.
- “Che bella Italia! Che bella Italia!”. Mas, que nada! Prefiro a vida de trabalho duro do que a de vagabundo ricaço.
E voltou a trabalhar, como se não fosse uma pessoa afortunada. 
Quando já não podia mais enfrentar o batente, viúvo, foi morar com uma filha. 
E assim terminou seus dias como uma pessoa de bem com o mundo.



A BRIGA DE GALO

Como o símbolo da campanha política de 1958 de Adhemar de Barros era o galo, um correligionário teve a idéia de trazer para a Praça da Sé, no dia de um gigantesco comício, 50 galos de briga, que ele arregimentou de um criador de Arthur Alvim, uma vila da periferia da Penha. 
Às 17:30 horas, os engradados chegaram em um caminhão e os galos foram soltos na praça, no meio da multidão, quando muita gente já estava saindo do serviço para pegar os bondes e ônibus. Foi um tumulto. 
O povaréu que veio para o comício e aquele que estava de passagem ficaram perplexos. Muitas pessoas corriam atrás dos galos, para levá-los para casa. A Polícia foi chamada para resolver a questão. Mas, como o governador era Jânio Quadros, o comando policial resolveu ignorar as solicitações. 
Assustados, os galos entravam em qualquer lugar. Bares, restaurantes, edifícios, o cine Santa Helena, lojas, barracas de jornais e as escadarias da Catedral foram invadidos pelos galináceos. 
A multidão ria. Mas os promotores do evento não acharam graça alguma na iniciativa do correligionário. Quando a multidão ficou mais calma, os galos pararam de correr. Aí, começaram a cantar. 
Então, seu Tonico Brelo, o dono dos galináceos chegou junto ao secretário de Adhemar e lhe disse: “doutor, com essa cantoria toda, acho que esta eleição está em nossas mãos”. 
A noite chegou e os galos foram se aquietando. Uma parte deles foi reconduzida para o caminhão. Os demais, porém, foram levados para as casas de umas dezenas de pessoas. 
A mídia não registrou o acontecimento. É que ela estava comprometida com o governador e não queria se envolver. Nos comícios de Adhemar, só iam os pequenos jornais que estavam fora dos esquemas do governo, umas três rádios. Quando, eventualmente, apareciam, os grandes jornais procuravam apenas ressaltar as gafes do candidato que, aliás, eram muitas.
Furiosa ficou a cúpula da campanha de Adhemar. O dono dos galos apresentou uma conta bem salgada pela participação dos galináceos. Como não conseguiu receber, abandonou a campanha e passou a dedicar-se àquilo que mais entendia: briga de galos na periferia de São Paulo. 
Muita gente considerou este acontecimento a raiz da ojeriza de Jânio por brigas de galo. Logo que assumiu a presidência da república, proibiu-as, sumariamente, em todo o território nacional. 
Mas, Tonico Brelo não deu bola para a proibição de Jânio e passou a convidar amigos para assistirem às brigas de grandes campeões. Promoveu campeonatos estadual e, mais tarde, promoveu um campeonato em âmbito nacional. 
Dois galos foram disputar a final: um deles chamava-se Jânio Quadros e o outro, Adhemar de Barros. A luta, porém não chegou a terminar.
Tomando conhecimento da rinha, a polícia invadiu o local e prendeu os donos dos galos. Quanto aos galos, afirma-se que também foram presos, mas liberados em seguida. Parece que o Delegado não conseguiu achar neles nenhuma culpa. 
Dias depois, todos voltaram para suas casas. 
Tonico Brelo teve de voltar para a sua velha Paraíba. Mas não estava triste, antes pensava: “minha pequena e doce Paraíba, a terra onde vou morrer”.
Após a renúncia de Jânio, as brigas de galo retornaram em todo o território nacional e Tonico Brelo terminou seus dias promovendo rinhas e apostas por todo o Nordeste.












O SERESTEIRO FANÁTICO 

André Gonçalves da Cunha se autodenominava “O Seresteiro de JK”. Dava ênfase a tudo o que falava. Dizia que, no tempo de estudante, havia se encontrado com Juscelino Kubitschec, em Diamantina, numa noitada de serestas que o encantou para sempre. 
A partir desse encontro, passou a gostar de cantores de músicas românticas. Seus prediletos eram Carlos Galhardo, Orlando Silva, Vicente Celestino, Sylvio Caldas, Francisco Alves, Ataulfo Alves e muitos outros. Isto sem falar nas cantoras favoritas como Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Marlene, Isaurinha Garcia, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira e tantas outras. 
De tanto ouvir os seus cantores e cantoras prediletos, passou a aprender a tocar violão. Das reuniões em sua casa, com os amigos e amigas, ficaram famosas as noitadas ao estilo diamantino. Músicas, interceptadas por café com leite, bolinhos, bolos e tortas, caprichosamente feitos pela sua mãe, que muito se orgulhava do filho, pela vocação e escolha de repertório tão ao seu próprio gosto, produziam noites agradabilíssimas.
Depois de formado, foi contratado por uma empresa paulista de engenharia. Em São Paulo, passou a freqüentar as rodas de boemia e, em pouco tempo, a participar de eventos importantes. 
Em março de 1959, começou a freqüentar a Praça da Sé. 
Havia se transformado em admirador de JK, em verdade era bem mais do que um simples admirador. Em suas conversas, logo demonstrava que era um fanático entusiasta das ações de JK. Dizia que JK já havia entrado definitivamente para a história do Brasil como o presidente que impulsionou para a modernidade a economia brasileira. A construção de Brasília era apenas uma de suas metas. Falava entusiasticamente sobre a implantação das indústrias automobilística e naval. Destacava que, antes do findar do século vinte, veículos automotores, fabricados no Brasil, seriam exportados para grandes nações, inclusive Estados Unidos. Navios brasileiros singrariam todos os mares. Aviões, projetados por brasileiros e construídos em fábricas nacionais, estariam voando em todos os continentes. Dizia, ainda, que, ao invés da siderurgia nacional produzir apenas 1 milhão de toneladas de aço por ano, passaria a produzir 30 milhões. E, aí, desfiava um rosário de futuras grandes conquistas. O Nordeste seria uma região diferente, a região Sul seria totalmente integrada com a Sudeste e, a partir desta integração, o Brasil passaria a ser o país líder da América do Sul. Nossas Universidades promoveriam uma revolução na ciência e na tecnologia, e seus resultados implicariam em um enorme salto na área industrial. A agricultura, ainda sob o regime de monocultura, passaria por uma grande transformação. Necessariamente o café deixaria de ser o carro-chefe das exportações. 
Diante de tanta eloqüência, até os comunistas ficavam divididos. Estes pregavam que Juscelino estava vendido ao capital internacional e que teria de romper com o Fundo Monetário Internacional, para demonstrar ao mundo nossa soberania. 
André Gonçalves nem prestava atenção. Parecia sonhar com o Brasil distante, vibrante, soberano, com a Bossa Nova invadindo os continentes, com o futebol projetando a vibração de seu povo alegre, acolhedor, criativo. 
Quando da inauguração de Brasília, André Gonçalves entrou na cidade chorando, tamanha era sua emoção. Ficou no trajeto do presidente, apenas para saudá-lo, de longe. Passou a morar definitivamente na capital federal e a Praça da Sé perdeu o seu mais vibrante brasilianista. 
Todas suas predições se confirmaram, inclusive a última.
Quando JK faleceu, em 1976, num desastre de automóvel, na Via Dutra, André não agüentou. Tomou seu violão e cantou, num misto de alegria e tristeza, as músicas preferidas do presidente, uma depois da outra, uma depois da outra. Ali mesmo, no terraço de sua casa, despediu-se de Brasília, de sua família e de seus amigos, dizendo: “ainda hoje vou estar com ele”. 
À noite morreu, placidamente, como, aliás, morrem quase todos os seresteiros.




ESTRIPULIAS DO REINALDÃO

Quando sorria, e isto era a todo instante, Reinaldo Celeste mostrava os dentes mais brancos que Deus colocou no rosto de um homem de cor.
Negrão, assim chamado pelos amigos, gostava de tocar pandeiros e fazia parte da turma de André Gonçalves que aprontava pelo menos uma seresta por semana. 
Reinaldo trabalhava em um banco, na rua Boa Vista. Começou como datilógrafo no serviço de contas correntes do Banco Nacional. Sua fama, como profissional da música, tinha lá suas vantagens, pois conseguia sempre algum dinheiro a mais no fim do mês. No banco, quando seus dedos cansavam, usava os cotovelos. E também conseguia datilografar com os dedos dos pés. Mas isto, depois do expediente. 
Seu colega de trabalho, Carlos Vicente, muito jovem, admirava Reinaldo por suas extraordinárias habilidades. 
Pandeirista famoso, apresentava-se em boates e inferninhos com a turma do André. Quebrava os galhos de todos os amigos e era muito querido por eles. Naquele início dos anos 60, São Paulo possuía cerca de 2,5 milhões de habitantes e não havia repartição pública ou jornal nos quais Reinaldo não tivesse algum amigo. 
Por essas qualidades, foi guindado, em pouco tempo, para chefe do Serviço de Contas Correntes. Como chefe, passou a ser mais sério, mas sem ser excessivamente exigente para com seus funcionários, pois tinha muita facilidade para conseguir que a turma trabalhasse. E, apesar da aparente seriedade, mantinha juntos aos colegas o seu próprio estilo.
Como sua atividade de músico estivesse sempre em evidência, Reinaldo começou a ficar cansado das noitadas e relaxar no banco. Chegava sempre atrasado e reclamava porque o banco não lhe pagava horas extras.
A gerência ficava na entrada da agência e, certo dia, o gerente o advertiu, na frente de alguns clientes. Ele não teve dúvidas. Pegou uma régua e deu duas reguadas na cabeça do gerente. E, calmamente, foi trabalhar. Poucos minutos depois, foi chamado pelo Departamento do Pessoal. Ficou feliz com a demissão, pois agora poderia dedicar-se à atividade de que ele mais gostava. Desejava ser músico e sentia-se imensamente feliz pela liberdade conquistada. 
O conjunto de André Gonçalves podia contar agora com o tempo integral do pandeirista. Seu amigo do peito, ex-companheiro de trabalho no Nacional, Carlos Vicente, pediu-lhe um grande favor. Queria que o conjunto fosse tocar nas bodas de prata de seus pais. Sim, poderia ajudar com alguns trocados. Eva, a recepcionista do banco iria passar uma lista entre os colegas e também ver se poderia converter em dinheiro alguns favores que ela fazia para vários clientes. A festa foi acertada. 
Mas onde moravam os pais? Em Perus, foram informados. A única condução viável era o trem. Então, foram de trem. Embarcaram às 19:00 horas de um sábado. Lá chegando, outra surpresa: a casa de Carlos era longe e só havia um meio de chegar até lá: a pé.
A festa foi de arromba. O dinheiro arrumado por Eva deu para tudo e ainda sobraram alguns trocados que o casal iria usar para arrumar o telhado, consertar o muro, comprar um fogão novo e um aparelho de televisão. 
O conjunto fez um sucesso enorme. Não havia se constituído para animar bailes, mas, com a cuba-libre livre (mistura de rum com coca-cola), o resultado foi fantástico. Reinou pura alegria o tempo todo. O baile acabou lá pelas três horas da manhã, e toca o conjunto caminhar até a estação. Nova surpresa. O primeiro trem só sairia às 7:00 horas da manhã. Reinaldo ficou fulo de raiva. Disse aos companheiros: “eu vou passear e ver se encontro uma saída”. 
Uns quinze minutos mais tarde, um furgão parou na porta da estação, e ao volante estava Reinaldo. 
- Subam rápido, turma! Vamos embora.
As mulheres foram com ele na cabine e os demais viajaram na carroceria, pendurados nos ganchos onde eram colocadas as peças de carne. 
E assim chegaram à Praça da Sé. 
Havia uma pizzaria aberta e Reinaldo estacionou o caminhão a uns cinqüenta metros de distância de sua entrada. Ele e as mulheres desceram da cabine e, da carroceria, saíram os artistas, todos meio amassados, grogues pelas bebidas e pelo cheiro de carne verde do furgão, sujos e esconjurando o dia em que aceitaram o convite para tocar naquele fim de mundo.
Entraram na pizzaria, e Manoel Fernando, um dos proprietários, foi logo dizendo: “a nossa casa já está fechando as portas, a menos que vocês nos façam o favor de animar o ambiente.”
Era o convite para a música. Quanto ao horário e à Polícia, fiquem certo, o proprietário da pizzaria já havia feito seus arranjos.
Lá pelas seis horas, a pizzaria estava lotada. Os músicos já não conseguiam mais tocar. Já tinham chegado embalados pela cuba-libre e, ali, regaram-se da cerveja e empacharam-se com a pizza do portuga. Já não podiam mais. André Gonçalves nem parava mais em pé. “Chega de patuscadas, por uma noite.” Despediram-se e saíram. 
Na calçada Negrão falou para a turma: “vamos nos divertir mais um pouco. Esperem”. 
Foi até um telefone público e ligou para a polícia, avisando que havia um caminhão suspeito na praça. 
Logo chegou um imenso aparato policial. A revolução de 64 estava no início, e a polícia queria mostrar eficiência e serviço. Negrão ficou ali, dando risada com a peça que havia pregado. Os demais foram saindo. Depois, sozinho, ligou para o açougue Três Estrelas, em Perus, avisando que o caminhão havia sido encontrado na Praça da Sé. E, calmamente, foi dormir.












O ROUBO DAS BROAS

Garboso, vestia-se com perfeição. Pedro Aranha Ludovino era esbelto, elegante e foi eleito, por uma emissora de rádio, o homem mais bonito de São Paulo, em 1963. 
Ninguém sabia de sua origem. 
Fazia todos os dias um passeio pela região central da cidade, começando pela Rua Barão de Itapetininga. Percorria o Viaduto do Chá, a Rua Direita a Praça da Sé. Depois, dirigia-se para as Lojas Sears, um dos pontos mais chiques de São Paulo. 
Quando estava na rua Direita, Pedro gostava de passear pelas Lojas Americanas. E qual seria o interesse dele por essas lojas?
Não havia qualquer manifestação de intenção de compras. Passeava o dia todo em busca de conquistas fáceis. E, como as Lojas Americanas e as Sears faziam uma seleção rigorosa de suas atendentes e vendedoras, escolhendo as mais bonitas e charmosas, Pedro descobriu a nata da beleza disponível em São Paulo.
Namorador, vivia de conquista em conquista. Arrebentava corações femininos. Mas Pedro não gostava de seu nome. Assim, passou a desfilar nomes mais distintos para si. Para uma, dizia chamar-se Daniel, para outra, Luiz Otávio. Mário Sérgio, Tony Lee, Raymond Buarque, Franco Taylor, foram alguns dos nomes que saíram de seus lábios com a maior facilidade, para parceiras distintas. 
Marcando encontros alternados, conseguiu, por algum tempo, mentir para todas. Dizia ser estudante de Direito, porque não escondia uma certa inclinação para esta profissão.
Com histórias contadas, sem pé nem cabeça, tentava manter o seu harém flutuante, como se fosse uma pena que ele pudesse ir manobrando no ar. 
Enrolador, acabou sendo enrolado. É que Pedro não possuía inteligência suficiente para manobrar as muitas mentiras que ia contando. Acabou por confundir-se com seus próprios nomes falsos, apesar de sua agenda marcar sempre o nome da garota e o nome que ele havia usado com ela.
- Mas como ? Você me disse chamar-se Tony Lee!
- Você me disse chamar-se Raymond Buarque e agora me vem com Franco Taylor?
- Você jurou que se chamava Daniel!
Com essas enrolações, Pedro acabou por ser chamado de Pedro Miolo Mole. O apelido pegou logo. Quando aparecia nas Lojas Americanas ou Sears, todos logo diziam:
- Lá vem o Pedro Miolo Mole.
Depois dessa situação constrangedora, envolveu-se mais estreitamente com os freqüentadores da Praça da Sé, onde fez amizade com um repórter da Rádio Piratininga. De tanto freqüentar a rádio, conseguiu um emprego nela. Ajudava na discoteca. Em seguida, passou por várias emissoras, até tornar-se um repórter político. Ora encontrava-se na Câmara Municipal, outras tantas vezes na Assembléia Legislativa, no Palácio do Governo, na Prefeitura. 
Freqüentava recepções e possuía o costume de encher os bolsos com salgadinhos e doces. Era um horror.
Casou-se. Isto é, a menina apareceu grávida e o pai, um delegado de polícia, exigiu que ele cumprisse com suas obrigações. Em pouco tempo tinha três filhos. A mulher, muito ciumenta, ficava sempre de prontidão, aguardando o marido voltar para casa. Mas Pedro não se intimidava. Continuava conquistando, traindo, se escondendo, negaceando amor e negando fidelidades.
Fazia amizades com facilidade. Conhecia os principais políticos. Sem capacidade de discernir, solicitava dos políticos favores absurdos, tais como levar para casa a caixa de fósforos, que o político usara, para servir de souvenir. Os políticos gostavam desse tipo de bajulação e Pedro Miolo Mole continuava no seu próprio ritmo.
Como repórter político, passou a fazer plantões exclusivos no Palácio do Morumbi. 
Por ser tão bem apessoado e estar sempre alegre, em pouco tempo tornou-se muito conhecido pelos guardas, pelas atendentes, pelos chefes de gabinetes e pelos cozinheiros e “garçons”. Dominava o Palácio. Conhecia as reentrâncias do prédio.
Ante a ameaça do Brasil não poder importar trigo, o secretário da agricultura, Herbert Levy, ordenou aos seus assessores um estudo de alternativas para solucionar aquele drama que se avizinhava. O Brasil encontrava-se com as finanças abaladas, e poderiam faltar divisas para a importação do cereal. 
Alguns dias depois, um técnico apareceu com uma solução: fabricar broas de milho. 
Bastava apenas mudar os hábitos da população. A broa, segundo ele, era muito melhor do que qualquer produto feito com trigo.
O governador Abreu Sodré gostou da idéia e, assim, foram providenciadas milhares de broas para iniciar uma campanha junto à população. 
O pessoal de marketing convocou a imprensa. Pronto, ali parecia estar a solução. 
O governador pediu para que todas as pessoas presentes experimentassem as broas e obteve delas a aprovação unânime: uma delícia!
A idéia foi aplaudida entusiasticamente e Pedro Miolo Mole transmitia, do palácio, com a voz embargada pela emoção. E, dramatizando, dizia que o Brasil não iria mais passar fome. 
O governador ouvia a sua transmissão e, senhor das facilidades, Pedro pediu permissão ao governador para levar algumas broas para a rádio. Disse que o pessoal iria gostar.
Autorizado pelo governador, Pedro dirigiu-se à cozinha e disse ao cozinheiro que, por ordem do governador, iria levar as broas que haviam sobrado.
Surgiu um problema: Pedro lembrou-se de que estava sem carro. Mas, providencialmente, um colega estava ali com uma Kombi e, assim, encontrou imediata solução para ele.
Encheram a Kombi e Pedro deu ordens: “vamos embora, enquanto temos chance”.
E lá foi Pedro, com as broas do governador.
Quando o governador e seu secretário pediram mais broas, não havia uma sequer na cozinha, pois o distinto repórter havia levado todas.
O Governador e seus assessores ficaram fulos. “Que brincadeira é esta?”, insistia o governador junto aos assessores.
Ainda bem que na rádio, Pedro Miolo Mole contava com a cobertura do patrão, pois, durante meses, foi proibido de freqüentar o Morumbi. 
Pedro Miolo Mole ficou conhecido como o repórter que roubou as broas do governador.
Algum tempo depois, provavelmente para preservar a amizade com o repórter e a sua superioridade em relação à insignificância do fato, o ex-governador desmentia o acontecimento. Mas os assessores, o dono da Kombi e o pessoal da cozinha sabiam que o ex-governador estava apenas sendo gentil.


























O GRANDE CASAMENTO

Simpático e discreto, Damião Góis da Silva trabalhava num dos sindicatos de trabalhadores, na periferia do centro de São Paulo. Dali, da rua Álvares Machado, bastava atravessar a praça João Mendes e ele alcançava o lugar em que mais gostava de ficar: a Praça da Sé. 
Para ele, e para outras milhares de pessoas que a freqüentavam diariamente, a praça constituía o centro nervoso do pensamento brasileiro. 
Damião ia à praça, para ouvir e discutir. Curtia debates e sua palavra, reticenciosa e firme, surgia no meio de acalorados debates. Quase sempre, botava um ponto final nas discussões. 
Com o tempo passou a ser um dos líderes sindicais mais requisitados de São Paulo.
O sindicalismo desse período, início dos anos 60, estava cindido em duas partes: os pelegos amarelos, desprezados pelo pessoal do movimento de esquerda, e os pelegos vermelhos, que seguiam, mais ou menos, a cartilha do PC. 
Chamorro, líder dos tecelões, destacava sempre que Damião era a fina flor dos representantes do capitalismo amarelo. Dizia que seu patrão estava em Washington.
Damião tinha muita facilidade de ampliar seu círculo de amizades. E, após algum tempo, aumentou consideravelmente seu grau de influência, principalmente nas altas esferas do sindicalismo paulista. 
Passou a freqüentar reuniões dos sindicatos dos patrões, com a finalidade de fazer acordos vantajosos para a categoria que representava, o que, para muitos sindicalistas, era uma atitude mortal. Mas, na visão dele, o que importava era colocar mais dinheiro no bolso dos associados de sua classe trabalhadora.
A política fervia nas praças, nas escolas, nos sindicatos, nas entidades de classes e nas cúpulas das grandes associações, tais como Fiesp, Associação Comercial, Federação do Comércio, Federação da Agricultura, Sindicato dos Bancos e outras entidades muito conhecidas. 
Para combater o que os patrões e os jornais de direita denominavam de “linha comunista”, foram angariados fundos que pudessem sustentar uma organização capaz de enfrentar a ameaça que vinha de cima, do topo do poder.
A Presidência da República, segundo essas associações, estava começando a ameaçar a democracia. 
João Goulart pretendia montar a República dos Sindicatos de Esquerda por meio de manobras já bem conhecidas do povo brasileiro, aprendidas quando Getúlio Vargas promulgou leis de proteção aos trabalhadores. Tudo indicava que João Goulart estava seguindo os mesmos trilhos do ex-ditador.
Trabalhava arduamente, incitando a assembléia à aprovação da lei do 13º salário, o que representava um verdadeiro horror para os patrões e para os sindicatos dirigidos pelos ditos pelegos amarelos. 
Foi na cúpula desse movimento que Damião Góis se destacou como angariador e distribuidor de fundos que pudessem articular os segmentos de vitais importâncias para a preservação da democracia. 
Naquela época difícil e conturbada da vida política, as empresas multinacionais receberam ordens de suas matrizes para ajudar, no que fosse possível e necessário, a campanha contra a onda vermelha que crescia assustadoramente no país.
Os fundos secretos para custear o movimento democrático receberam grande ajuda dessas empresas, através das diferenças de fluxos de câmbio. O mercado paralelo de câmbio, mais conhecido como o lado negro do capitalismo, organizou rapidamente um vasto esquema, com a ajuda de organizações do tipo IBAD e IPÊS, segundo os comunistas, para derrubar o presidente Goulart e acabar com as ameaças à democracia no Brasil.
Quando os militares derrubaram o presidente, Damião Góis surgiu como elemento de confiança dos novos líderes. Em pouco tempo, estava ao lado do governador.
Era pessoa de fala mansa, porém, de vontade férrea. O governador não tomava iniciativas na área sindical e trabalhista, sem antes ouvir seu jovem assessor e conselheiro. 
A vida, para Damião, estava no auge. Assim, orgulho e vaidade tomaram seu espírito e dominaram seu ego, levando-o a imaginar que poderia atingir posições impensadas até então. 
Inflado por bajuladores, Damião pensou ser possuidor de importância bem acima da imagem real que projetava.
Queria exibir a todos sua nova imagem e importância. Andava bem arrumado, de carro novo, mudou-se para um bom apartamento e, com tudo isso, não lhe foi difícil conseguir uma namorada das altas esferas.
Uma solteirona, para aquela época, com mais de trinta anos, preencheu seus requisitos. Dos primeiros encontros, para o noivado, foi um pulo. Aliás, no mesmo dia em que começou a freqüentar a casa dos pais da namorada, já ficou noivo. Em menos de um mês, marcou o casamento. 
Os pais da noiva queriam um casamento de arromba. Tal iniciativa vinha acomodar os anseios do jovem exibicionista. Tudo foi organizado cuidadosamente e toda a fina flor da política paulista recebeu convite para o pomposo casamento. Cerca de mil pessoas encheram a igreja. Muita gente ficou do lado de fora. 
Enfeites e mais enfeites cobriam o altar, os bancos, as vigas, as paredes. Realmente, um casamento para ficar na história.
Porém, no momento em que o padre perguntou se havia alguém no ambiente que pudesse .... ou deveria calar-se para sempre, uma jovem se destacou na multidão: 
- Eu posso! – disse aos berros, e completou – Esse pilantra ficou comigo, na minha cama, até às 10:00 horas da manhã. 
Vozerio ensurdecedor na igreja.
Pessoas tentaram acalmar a noiva, e o noivo passou a gritar, negando com veemência: 
- Prendam essa louca! Eu não a conheço, nunca a vi!
O padre acalmou o ambiente e começou a fazer perguntas para a moça: 
- A senhorita é casada com ele?
- Não, seu padre.
- Tem filhos com ele?
- Não, seu padre.
- Sabe se ele é casado?
- Não, seu padre
- Sendo assim – disse o padre, olhando para a multidão de convidados –, vamos prosseguir com a cerimônia.
Desmaiada, a garota foi retirada da igreja e levada para a sacristia.
O constrangimento foi enorme, mas o casamento terminou bem.
No domingo, na Praça da Sé, os assuntos giraram em torno do casamento de Damião. 
- Foi vingança, arranjada pela oposição – dizia Benedito Crespo, funcionário do Banespa.
- Que nada, aquele pilantra estava mesmo envolvido com a moça – retrucava outro. 
Após este acontecimento, Damião Góis foi perdendo interesse pela vida pública. Terminado seu estágio no palácio, com a mudança de governador, retirou-se para cuidar de sua vida particular. Sem os holofotes da carreira pública, passou a ter uma existência tranqüila. 
Mas, na Praça da Sé, muita gente continuou a jurar que o viu, várias vezes, com a moça que tentou impedir seu casamento. 





















FINANCISTA QUE CONFUNDIU A FRANÇA

Para Maurice Daudet, mais conhecido como Zezinho Dodé, tanto fazia se a guerra fria dividisse o mundo entre capitalistas e comunistas. Vivia acima dessas cogitações e também muito distante de outras realidades. 
Sua vida traçava uma linha perpendicular entre o viável e o cognoscível. Não gostava de linhas tortas na sua existência prática. Fora das comuns e eletrizantes personalidades de sua esfera, Zezinho Dodé mantinha sua vida de trabalho honesto e eficiente. 
Todos os dias, de segundas a sextas, trabalhava em um escritório de propaganda, onde desempenhava vários papéis. Era desenhista criativo, com traços rápidos e dinâmicos, redator de textos, sem grande comprometimento literário, datilógrafo e secretário do dono do negócio. 
Morava numa quitinete, junto ao Viaduto Dona Paulina, e trabalhava na rua Quintino Bocaiúva, pertinho da Praça da Sé. 
Aos sábados, Zezinho tirava pelo menos metade do dia para limpar o apartamento. Desde às 7:00 horas da manhã, já estava na faina da limpeza. Tirava o pó, lavava as roupas de cama e banho, esfregava o chão, limpava a cozinha e o banheiro. Gostava de tudo em perfeita ordem. Depois, almoçava, por volta das duas horas, tirava uma soneca e saía, ao redor das 18:30 horas. 
Nesse horário já não era a mesma pessoa. Não que tanta trabalheira o tenha esvaído. Agora, de chapéu azul e pena de ganso pintada de vermelho, camisa multicolorida, calça verde, sapatilhas amarelas, não se parecia jamais com aquele homem engravatado que todos os dias chegava ao escritório pontualmente, cumpria seus deveres e saía à noite, direto para a academia. 
Seu patrão, Álvaro Bordô, um ex-oficial de nossas Forças Armadas, agora reformado, tinha muitas atribulações. Além do escritório de propaganda, que prestava serviços para o governo e agências de publicidade, possuía outros negócios. Também dedicava-se à política de bastidores e vivia, portanto, naqueles meados dos anos 60, muito bem de finanças e com intensa vida social. Membro de um pequeno, mas vigoroso partido político, estava envolvido com reuniões partidárias, projetos e muitas nomeações. 
Um dia, porém, Álvaro Bordô teve de sair do país, a negócios. Deixou tudo nas mãos de seu fiel funcionário. Assim, Zezinho passou a controlar os negócios e os interesses políticos do patrão. 
Certo dia, chegou às suas mãos um documento confidencial do prefeito, no qual pedia para que Álvaro indicasse, em lista tríplice, um nome para a Secretaria Municipal de Finanças. 
Zezinho indicou dois nomes do partido do patrão e, para preencher vaga, assinalou seu próprio nome, apenas com o intuito de completar a tarefa. 
Não imaginava, no entanto, que, dias depois, seu nome aparecesse nos jornais como o novo Secretário de Finanças. 
Quem conhecia Zezinho Dodé, teve um chilique. 
Como pode o prefeito, um homem correto e de bem, nomear para a principal secretaria do município uma bichona como o Zezinho?
Aquilo foi demais. O prefeito não queria voltar atrás. Certamente, porque Álvaro Bordô havia feito essa indicação.
A posse de Zezinho foi festiva. Convidou todo mundo que ele conhecia e a Secretaria virou um pandemônio com tanta gente colorida, com lutadores de luta livre da academia, com desocupados da Praça da Sé, com as desencaminhadas da Praça Júlio de Mesquita, taxistas, choferes de gente rica de Higienópolis, onde Zezinho fazia ponto aos sábados à noite. E nenhum banqueiro, nenhum latifundiário de peso, nenhum representante da força industrial paulistana. Apenas uma meia dúzia de empresários, todos eles ligados às empresas de ônibus. Não havia também nenhum representante do poderoso sindicato das construtoras. Enfim, o recinto parecia um circo.
O Prefeito cumpriu suas obrigações oficiais e, por não poder alegar arrependimento, alegou estar doente e saiu logo.
Os jornais resolveram não perder tempo com assunto tão insípido e, assim, Zezinho tomou posse. 
Logo nos primeiros dias, porém, ao contrário do que muita gente supunha, Zezinho começou a mostrar seu lado que ninguém ali conhecia: sua capacidade de organização e de dedicação ao trabalho.
Mandou limpar o escritório de cabo a rabo, jogou muita papelada fora, exigiu das faxineiras limpeza meticulosa nos vidros, que há muito não viam a cara de um pano ou de água, trocou os móveis de seu escritório. Tudo limpo e novo, o lustre resplendia. 
Como precisassem com urgência de melhoria de tarifas e de outras acomodações financeiras, as empresas de ônibus mandaram seus representantes para falar com o novo secretário. 
Expuseram clara, ampla e detalhadamente suas necessidades e, sorrateiramente, falaram de propina. Neste exato ponto, apareceram, como se surgissem do nada, uns caras estranhos, com perucas coloridas, roupas diferentes, e Zezinho abandonou a comitiva e, com os novos visitantes, passou a falar sobre moda, sapatilhas, calcinhas pretas, soutiens, de tal forma que os empresários se sentiram banidos do local. 
Foram embora, sem quaisquer conclusões para suas reivindicações e propostas.
Tentaram, ainda, como manda o figurino, despedir-se formalmente do Secretário, mas nem isto conseguiram, pois este estava por demasiado entretido com outras coisas.
Os empresários marcaram hora e retornaram outro dia. 
Engordaram a conversa e, usando de sutilezas, passaram a falar sobre fantasias de carnaval, festas, roupas, mas Zezinho não dava sinais de querer abrir o jogo. 
Depois de várias tentativas, um dos empresários, sentindo que as negociações caminhavam para o fracasso, decidiu dizer ao Secretário que eles estavam planejando uma grande festa e que Zezinho seria o convidado de honra. 
Inexplicavelmente, o Secretário desconversou e deu por concluída a reunião. 
Mas, ao ficar sozinho no gabinete, viu uma mala embaixo da mesa de reuniões.
Chamou seus assessores e procurou saber de quem era aquela mala. Ninguém sabia. Resolveu abri-la e verificou que estava cheia de dinheiro. 
Ato contínuo, pegou a mala e a levou até o gabinete do prefeito. 
Ao ver tanto dinheiro, o prefeito perguntou: 
- Mas onde você achou isto?
Zezinho explicou que a mala apareceu depois da saída dos empresários das linhas de transportes e que , embora já tivesse telefonado para todos eles, não conseguira descobrir o dono. Ninguém havia assumido a propriedade.
Prefeito e Secretário resolveram, então, incorporar aquele dinheiro ao patrimônio municipal, sem dar a conhecer o doador. 
Zezinho não ficou muito tempo no cargo e o prefeito morreria logo após ter deixado o poder. 
Álvaro Bordô, de volta ao Brasil, ficou estupefato de ver a ousadia de seu funcionário. Quis puni-lo com demissão. Mas, ao tomar conhecimento do caso da mala, resolveu enaltecer o seu gesto com aumento de salário, compra de carro e mudança de apartamento. 
Quando o país vivia na penumbra da ditadura militar, Maurice Daudet teve sua história publicada num jornal francês. Tempos depois, o presidente de França, Charles de Gaulle, afirmou que o Brasil não era um país para ser levado a sério. 
Houve quem dissesse que o presidente francês estava se referindo à história do Zezinho.














A HEROÍNA SEM IDEAL

Amábile Vicentini tinha tudo para não dar certo. Filha de italiana com japonês, herdou de seus pais características típicas das duas raças. Seus cabelos eram pretos, para quem os olhassem de frente, mas avermelhados, se observados de lado. Olhos amendoados e tez branca, boca fina, queixos avantajados. O estrabismo lhe deu um certo ar estranho. Não se sabia nunca se ela estava prestando atenção na conversa ou se vivia em outra esfera. Busto para a frente e bem salientes, dava a impressão de que iria abalroar alguém ou alguma coisa. Passos largos e firmes, parecia desfilar como os soldados de Hitler. Tinha um ombro meio caído, de tanto carregar sacolas, grandes mãos, parecendo destinadas a espalmar o mundo. Enfim, nela tudo parecia quixotesco.
Quando falava a uma criança, suas palavras pareciam uma pequena cachoeira suave e transparente. Se desafiada, era capaz de jogar tudo o que tinha nas mãos e partir para o ofensor com a fúria de um touro bravio. Tinha o costume de jogar pedras em rapazolas e mocinhas que mexiam com ela e, por causa desse procedimento, acabou por ganhar a fama de ser de má índole. De perto, nos estreitamentos das intimidades, revelava seu lado espiritual construtivo. 
Pois a esta mulher singular coube uma tarefa das mais espinhosas. No ardor da perseguição aos comunistas, recebeu a incumbência de distribuir, no centro de São Paulo, o jornal Voz Operária. Para os comunas, todos os jornais eram vendilhões da pátria e só o Voz Operária relatava a verdade. Seus artigos eram lidos, relidos, comentados em surdina, e o mesmo exemplar passava de mão em mão, por muitas mãos. Durante esses comentários, uma palavra falada, acima do tom necessário ao secreto, poderia comprometer. Perseguidos pela polícia, os comunas faziam reuniões secretas, muitas vezes fora de São Paulo, em sítios, fazendas ou praias, longe da perseguição.
Como Amábile atravessava o centro da cidade de São Paulo, diariamente, com sacolas nas mãos, há mais de vinte anos, ela foi escolhida para uma tarefa difícil para qualquer outra pessoa. Ela era amiga até dos delegados de polícia do centro e continuaria em sua rotina, isto faria com que ninguém desconfiasse dela. Foi assim que o PC incumbiu a nossa nipo-italiana de distribuir o jornal no centro da capital paulista, após informá-la de que todo cuidado teria de ser tomado para evitar que a polícia visse a distribuição, sem, contudo, explicar-lhe detalhes do porquê.
O jornal era impresso em gráficas clandestinas, ou em oficinas de ex-militantes comunistas que haviam se tornado empresários, mas que continuavam a ser simpatizantes com a causa. 
Se imprimir era relativamente fácil, principalmente porque o trabalho de impressão podia ser feito em lugares alternados, para não chamar a atenção, distribuir era extremamente difícil, porque o periódico tinha de penetrar na boca do inimigo. Distribuição necessitava de logística. Montar um esquema de Norte a Sul, de Leste a Oeste, para fazer o jornal chegar aos militantes mais distantes, exigia planejamento, audácia, coragem, rapidez e cautela.
O comando de combate aos comunistas pertencia a um delegado de polícia que havia feito uma carreira fulminante. Em apenas um ano ele passou de escrivão de quinta classe para a de primeira. No ano seguinte, passou de delegado de quinta para de primeira. Toda essa ascensão meteórica do Delegado Fleury foi obra do general Golbery do Couto e Silva, segundo os próprios delegados que o cercavam. 
Fleury, por isso, devia muitas obrigações ao general que havia providenciado suas promoções, como também devia um outro tanto aos empresários que o ajudavam, por terem ojeriza ao movimento de esquerda. 
Ao saber que o jornal chegava, com regularidade, às barbas do comando policial, Fleury fez tudo o que pôde para descobrir um meio de coibir a distribuição do jornal no centro da cidade de São Paulo, que lhe parecia até um insulto.
Como a melhor solução para exterminar a distribuição do jornal Voz Operária, seria acabar, de uma vez por toda, com a sua impressão, Fleury recebeu ordens do Comando Militar para efetivamente agir nesse sentido.
À sua disposição foi colocado o serviço de inteligência do Exército e as polícias civis e militares fizeram uma coligação para a empreitada. 
Corre daqui, pega de lá, o jornal continuava chegando.
Porque os comunas não dispunham da inteligência militar, adotaram um sistema simples: um carro preto chegava na rua Wenceslau Brás, o motorista abria a porta do carro e dona Amábile subia. Descia, logo em seguida, com duas sacolas de pano. Em menos de uma hora, duzentos jornais chegavam ao destino certo.
As medidas tomadas contra o movimento de esquerda foram rigorosas. Centenas de pessoas foram presas e milhares desapareceram. No auge da perseguição, o motorista informou à Dona Amábile que aquela seria a última vez. O jornal interromperia sua edição e, se voltasse um dia, ela seria avisada. Triste com a notícia, decidiu guardar dez exemplares. 
Pela madrugada colocou os exemplares nos pára-brisas dos veículos do Dops, um deles no do automóvel do delegado Fleury. 
Possesso, o Dr. Fleury determinou devassa total, mas a boa senhora já andava longe.
Por muitos anos continuou sua rotina diária de idas e vindas pelo centro, pela Praça da Sé. Quando houve o grande comício das Diretas, lá estava ela, embaixo do palanque. Aplaudia os líderes que estavam tentando sepultar, de uma vez por todas, a ditadura militar. Reconhecida por um dos motoristas que lhe entregava os jornais para distribuição, ela foi homenageada e elogiada. Pelo menos alguém a considerava como peça fundamental de um grande ideal. 
Mas, só aí, descobriram seu segredo maior. Analfabeta, não sabia que o jornal que havia distribuído por tanto tempo era comunista. Como aparecia sempre um homem barbudo em suas páginas, imaginou tratar-se de um jornal católico. E o homem barbudo, o santo de sua devoção, São Pedro. Mas, naquele momento de exaltação democrática, ninguém prestou muita atenção na sua versão. Os homens estavam por demais entretidos com outros assuntos. 
Tempos depois, ficou doente e descobriram que ela morava em uma favela, tinha sustentado, durante anos a fio, dois netos, órfãos de sua única filha. 
Amábile nunca pôde entender que havia feito tanto pelo ideal de tantos homens.

































ESMERALDINO E SEU CACHORRÃO

Esmeraldino Ramos nasceu para ser radialista. Em São Paulo, trabalhou para várias emissoras, sempre com grande sucesso. Seu programa de variedades era procurado por muitos anunciantes. Por isso, com a emissora faturando alto, Esmeraldino era a coqueluche do proprietário. Casado, pai de duas filhas, dizia-se apaixonado pelas três mulheres de sua vida: Aída, a esposa, Vera e Marilda, as filhas. 
Sua paixão, porém, guardava ingredientes estranhos. Passava a maior parte de seu tempo pelos bares e restaurantes da Praça da Sé. Das nove ao meio-dia, era o locutor empolgado, engraçado, que dava mil conselhos para as donas de casa. Passava receitas de bolos, declamava poesias, falava de Jesus, pregava fidelidade, apresentava músicas românticas. No seu programa não entrava jingles. Ele mesmo lia a propaganda, recomendando este ou aquele produto. Sua conta no banco estava engordando rapidamente. Mas, além disso, fazia negócios com imobiliárias e recebia, como comissão, lotes de terrenos na periferia de São Paulo, na Praia Grande, em Itanhaem, em Peruíbe e possuía, no Guarujá, um apartamento. Ele era o tipo de radialista que todo dono de emissora adora. 
O único defeito de Esmeraldino era o copo. Após o trabalho, estava ele sempre de copo na mão, nos bares de sua predileção. E assim, entre um negócio e outro, tomava suas longas talagadas da pinga mais pura, uma tal de Quatro Paus, que, quase por ironia do destino, ou presságio, era fabricada em Itapira.
Sua fama era tanta, que os mídias das agências o procuravam para anúncios e campanhas publicitárias, e, muitas vezes, ele dizia, do alto de seu pedestal da fama:
- Bem, só daqui a um ano. O programa está lotado e tem uma fila enorme, esperando.
- Mas não se esqueça de nós, estaremos aguardando sua ligação — respondiam os interessados.
O dono da rádio quis, certa vez, ampliar seu programa para até as 14:00 horas, mas Esmeraldino foi descartando. Disse que não agüentaria falar durante tantas horas. Corria o risco de comprometer a qualidade. E, assim, Esmeraldino ia vivendo.
Cansada da bebedeira do marido, Dona Vera, por ver frustradas todas suas tentativas de interferência, tomou uma decisão radical. Sem que ele soubesse, embarcou com as duas filhas para os Estados Unidos e lhe deixou um bilhete: “só retornaremos quando você parar completamente de beber”. Conciso e claro, atingiu o radialista como um soco na cara. Leu novamente o bilhete, saiu e bebeu mais. Ao chegar a casa, completamente bêbado, foi direto para o sofá da sala, onde ficou até no dia seguinte pela manhã. Acordou com o pessoal da rádio, batendo as suas portas. Já eram 9:20 horas, e o programa estava no ar com uma gravação. 
Tinha de ir urgente para o trabalho e saiu com a mesma roupa amassada, cheirando à cachaça, da noite anterior. Só retornou à noite para casa, após ter tomado um banho na Rádio e ter mandado buscar, na Ducal, uma camisa, uma cueca e calças novas. 
Os diretores da rádio, que já sabiam que Vera e as filhas o haviam abandonado, intervieram e providenciaram uma internação para ele em um hospital, onde permaneceu por dois dias, para desintoxicação. 
As emoções e desencontros eram fortes demais para o radialista, e a rádio tomou as medidas necessárias, para levar o programa ao ar, sem a presença dele por alguns dias. 
Sem a família, começou a ficar apaixonado pelo seu cachorro, Medonho. 
Saía com ele pelas ruas, ia trabalhar com aquele cachorrão enorme, de cara sempre fechada e bravo, que impedia que qualquer pessoa se aproximasse. O rosnar do animal lembrava um trovão.
Num domingo, estando de folga, resolveu dar uma volta de carro pela cidade. Algemou Medonho em seu próprio braço e passou a visitar seus amigos de copo. Numa certa altura, resolveu mudar de bar e ir para um da Avenida São João. Convidou dois amigos para irem com ele, mas estes não puderam ir, pois, na hora de entrarem no carro Medonho virou um bicho. “Nada de intrusos” — diziam seu rosnar e seus dentes amedrontadores. Lá foram sós, dono e cachorro.
No trajeto para a Av. São João, bateu seu carro em outro, dirigido por uma senhorita belíssima. A moça ficou levemente escoriada e, vendo seu carro novinho amassado, partiu para Esmeraldino com a fúria dos elefantes. Vendo Medonho, retraiu-se contrafeita e passou a agredi-lo apenas verbalmente, mais insultando do que buscando uma solução prática para os problemas. Aí, começou a juntar gente. A Rádio Patrulha chegou e a moça foi até o telefone público, de onde chamou o amante, um deputado muito querido na cidade e com prestígio em várias esferas. Casado, não quis envolver-se diretamente, mas ligou para os manda-chuvas da polícia, do governador, da Força Pública e outras autoridades. O delegado foi até o local e tentou conversar com o infrator. Mas, cada vez que tentava falar, o cachorro dava uns latidos ensurdecedores e amedrontadores. Não sabendo como proceder, ordenou aos pobres soldados que tirassem o motorista do carro. Mas como realizar tal proeza, com o cachorro algemado nos braços do motorista? Não conseguiram. Chegou um sargento da Força Pública, mas Medonho não distinguia patentes e ficou ainda mais furioso. Uma senhora da Associação dos Defensores dos Animais aproximou-se para protestar contra as ameaças que os policiais faziam contra o animal. A situação ficou fora de controle. A amante do deputado queria indenização, reparos materiais e morais e soltava o jargão: 
- Vocês sabem com quem estão falando?
- Senhorita, agora não é hora para falar dessas coisas, vamos com calma — dizia o delegado conciliador. 
O Delegado percebia o perigo, uma vez que a esta altura já sabia que o motorista era o famoso radialista Esmeraldino.
Assim, resolveu pedir para que o motorista o acompanhasse até a delegacia. Mas, que nada. Esmeraldino não parecia saber o que estava fazendo e nem onde estava. 
A solução foi levar o carro guinchado até o pátio da delegacia e deixar o radialista e seu cachorro dentro dele até passar a carraspana. 
Ali na delegacia, dentro do carro, dormiu por aproximadamente 12 horas. Quando acordou, umas quarenta pessoas saudaram Esmeraldino. O cachorro lambeu sua testa. Aquele sorriu. Parecia estar curado. 
Levado para dentro da delegacia, com aquele cachorro enorme, preso por uma corrente e algemado ao seu braço, Esmeraldino quis saber quem tinha feito aquilo: “onde já se viu me amarrar desse jeito ao cachorro?”.
O delegado de plantão quis fazer a ocorrência. Mas, a essa altura, o dono da rádio e o deputado, que queria permanecer no anonimato, tinham feito um acordo para solucionar o caso. 
Esmeraldino precisou ir ao banheiro. E lá se foi, com Medonho. A privada era um cubículo, de modo que o radialista ficava sentado no vaso e o cachorrão, do lado de fora, de vigília, olhando para ele.
Em seguida, despediu-se do delegado, agradeceu a todos e foi almoçar. Mas como entrar no restaurante com o cachorro ? Esmeraldino havia perdido as chaves da algema. Precisaria encontrar um chaveiro para abri-la. Frente ao restaurante, chamou alguns conhecidos, e um deles conhecia um chaveiro que morava na Aclimação. Foi providenciado um táxi para ir buscá-lo. Enquanto aguardava, muita gente começou a circular em torno do famoso radialista e de seu cão. Jornais apareceram para fotografá-lo. Estavam ambos com fome, e alguém providenciou, junto ao restaurante, comida para ambos comerem ali mesmo na calçada do restaurante. O cachorro bebeu cerveja. Tal como o dono, estava viciado. Com a chegada do chaveiro, o assunto foi resolvido. 
Esmeraldino voltou, no dia seguinte, para o seu programa. O dono da rádio, para evitar possíveis problemas futuros, resolveu gravar o maior número possível de programas e internou o radialista no Instituto Bairral de Itapira.
Os jornais divulgaram o drama do radialista e a história com seu cachorro. 
Quando saiu do hospital, Esmeraldino resolveu mudar-se para os Estados Unidos, onde sua família o esperava, assegurada de seu restabelecimento. Lá fez novos tratamentos e curso de inglês. Algum tempo depois, surgia a notícia, entre seus amigos da Praça da Sé, que Esmeraldino estava fazendo grande sucesso com seu programa em Dallas, no Texas. Até exibiram uma revista com Esmeraldino falando no microfone ao lado de seu cachorro Medonho, que havia também sido contratado para latir, toda vez que seu dono mandasse.
O radialista parou de beber, mas seu cachorro, viciado em cerveja continuou e, por isso, recebeu o nome americano de Mr. Beer. 
Esmeraldino abria o seu programa assim: 
- E com vocês. Mr. Green.
Enquanto viveram, dono e cão, foram a alegria de milhares de lares americanos. 




























UM BISPO MUITO ESPERTALHÃO

Entre os anos de 1963 e 64, os freqüentadores da Praça da Sé, assim como a opinião pública nacional, estavam divididos em três alas: a dos nacionalistas radicais, a dos nacionalistas sensatos e a dos liberais. Dentro de cada uma dessas alas existiam facções que não se entendiam, principalmente pela impossibilidade de traçarem uma linha que delimitasse com clareza seus possíveis campos de atuação. Por isso, às vezes, tinham a nítida impressão de que os inimigos não estavam nos campos opostos. E esta sensação provocava desentendimentos que alicerçavam discursos calorosos para expressar vãs paixões. Na ala dos neoliberais, entendia-se que a Igreja deveria ocupar uma posição de vanguarda. Mas a própria igreja estava dividida, tendo por extremos o TFP e os democratas avançados do Frei Josaphat.
Foi nesse clima de embate político que surgiu, na Praça da Sé, uma nova personagem.
A partir de sua primeira aparição, já a figura esguia de Dino Lillo levantou suspeitas nos radicais e simpatia geral nos homens de centro. 
O Cardeal de São Paulo, Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, procurava não se envolver a fundo na política partidária. Para uns, ele era um equilibrista. Para outros, um homem cuidadoso que, apesar das aparências, não se negava a uma ponta de conspiração contra o desastrado governo federal, cujos presidentes não tinham conseguido debelar a inflação, promover melhor distribuição de renda e, conseqüentemente, eliminar a crise econômica.
Dino Lillo aparecia todas as sextas-feiras para almoçar, no Restaurante do Sol, o seu prato predileto: bacalhau à Gomes de Sá.
Seu carro, um Odsmobile branco, com frisos vermelhos, parava frente à Caixa Econômica Federal. Ele atravessava quase toda a praça e chamava muita atenção para si, por ser bispo. Isto mesmo, um bispo com todas as vestimentas características do posto: roupa vermelha, com camisa roxa, sapatos pretos, anel de bispo, solidéu de bispo, andar de bispo. Tudo nele transparecia a aura católica. 
Logo que fez as primeiras amizades na Praça, perguntaram-lhe, por ser tão extrovertido e liberal, se era da Igreja Católica.
- Como não? – respondeu.
- E o que o senhor propõe para melhorar o mundo?
- Que os melhores cuidem dos piores.
- Mas como o senhor organizaria a sociedade?
- Cada um responderia, na esfera de sua atuação, em conformidade com suas próprias possibilidades.
- O que o senhor quer dizer com isto?
- Que as normas, incluindo as leis, têm de tratar com desigualdade os desiguais.
As respostas do bispo Dino Lillo granjearam imediata simpatia. 
E, para dar maior brilho à sua imagem, certo dia, após o almoço, subiu as escadarias da Catedral e desapareceu no interior dela. Muitos curiosos assistiam à majestosa evolução e os duvidosos viram desvanecerem-se todas suas dúvidas sobre a autenticidade do clérigo.
Era um bispo católico de vanguarda, bem pouco parecido com as eminências da igreja tradicional.
Começaram a surgir boatos e falava-se, inclusive, que havia vindo diretamente de Roma, com ordens expressas do Papa, para, oportunamente, ocupar o lugar do venerável Dom Carlos Carmelo. 
Começou a vir almoçar com dois padres, ricamente paramentados. Sempre bem penteados e com as barbas raspadas com rigor, demonstravam ter cuidado esmerado com as aparências. 
Depois de algum tempo, observando o comportamento deles, algumas pessoas começaram a desconfiar. 
Os radicais desprezavam acintosamente os representantes da igreja, os homens de centro julgavam a oportunidade ótima, com a troca dos bispos, para mudar o panorama político. Assim que ele tomasse posse, tudo poderia mudar. Até os portugueses, proprietários do restaurante, não cobravam mais as suas refeições e ainda lhes ofereciam, de graça, o raro vinho do Porto que, para os demais clientes, era vendido a peso de ouro.
Dino Lillo fazia de tudo para não se envolver em debates políticos, mas, às vezes, via-se compelido a responder algumas perguntas. Possuía muita facilidade para fazer citações bíblicas e, freqüentemente, falava sobre os santos mais evidentes da crendice brasileira, com impressionantes detalhes. Tinha veneração pelos santos heróis, por aqueles que haviam dado suas vidas à causa do cristianismo.
Dono de um porte atlético e supostamente de uma história interessante, narrava ter sido na juventude, boxeador, jogador de futebol, corredor olímpico e treinador de cavalos. Um pouco mais velho, foi ser locutor de rádio e corretor de anúncios, antes de ingressar para a Santa Igreja. Chegou a montar em Campinas um escritório imobiliário, mas não deu certo. 
Na realidade, Dino havia se casado com a irmã de um general, que nunca obtivera um único namorado na juventude, no Rio de Janeiro, onde passou a morar em uma casa confortável, com todas as despesas pagas. Mas, de repente, assim como havia aparecido na família do general, desapareceu. 
Sua esposa, que idolatrava aquela presença masculina inusitada em sua vida e que concentrava todas suas atenções naquele príncipe que os céus lhe haviam enviado, ficou desconsolada. O general fez tudo para encontrar o fujão e trazê-lo, de volta, para sua irmã que se referia ao marido como terno, dedicado, amoroso. Mas não obteve êxito. 
A esposa, inconformada, insistia que nem que tivesse de passar o resto da vida a procurá-lo, ela o faria. Esta já seria uma maneira de viver para ele, de amá-lo. E, assim, finalmente conseguiu encontrá-lo e descobrir que não poderiam ficar juntos. 
É que Dino, apesar do conforto material, da vida fácil às custas do irmão de sua mulher, não tinha vocação para ser o machão que sua esposa precisava. Desconversou, frente à insistência da esposa para que voltasse com ela, e esclareceu, sem muitos detalhes, que ele gostava de outras coisas que eram incompatíveis com a vida da família do general e de sua mulher. Ela retornou ao Rio desconsolada.
Aí encontramos Dino, já maduro e seguro, desfilando de Bispo pela Praça da Sé. 
Com as suas aparentes virtudes, isto é, inteligência, cultura, capacidade de oratória, o que estaria escondendo sobre o trajeto da vida civil comum para a rigorosa disciplina da Igreja?
Aos poucos, pega dali, puxa de lá, a face verdadeira de Dino Lillo começou a ser delineada. 
Ele era, efetivamente, um bispo católico. Possuía prerrogativas neste sentido. Chefiava uma diocese e era senhor absoluto de sua autoridade, em sua região. Sua igreja, porém, possuía algumas diferenças. Não obedecia ao Papa. Não ligava a mínima para alguns dos princípios da Igreja Católica Romana. É que Dino Lillo era bispo da Igreja Católica Brasileira e sua diocese compreendia três igrejas, a dele, onde morava, e outras duas, dos amigos que andavam vestidos de padre e vinham almoçar com ele na Praça da Sé. Combatiam o preconceito e celebravam casamentos entre desquitados, separados, viúvos e solteiros, sem exigir proclamas ou documentações desnecessárias à bênção do Senhor.
Sempre que inquirido sobre a validade de tais procedimentos, respondia:
- Se Deus une, no céu, por que não podemos unir na Terra?
Logo após o golpe militar de 64, Dino Lillo apareceu em um jornal. Estava sendo procurado pelo DOPS, para ser ouvido sobre suas relações com comunistas da Praça da Sé.
Em princípio, escondeu-se, mas, mais tarde, resolveu apelar. Telefonou para sua esposa, dizendo ter-se arrependido. Queria uma nova chance. A esposa tomou o primeiro avião que pôde, da ponte aérea, e veio encontrar-se com ele. 
Ao vê-lo, atirou-se como uma meninota nos braços do amado e entregou-se toda. Ele sabia que havia ganhado mais esta.
Ele necessitava e conseguiu a salvaguarda do cunhado general, para resolver os problemas de envolvimento político em São Paulo. 
A esposa não queria saber da nova profissão de Dino e ele retirou definitivamente a batina.
Assim, a Praça da Sé perdeu o seu Bispo. 
Um outro iria surgir, alguns anos depois, mas este com o respaldo do Papa. Dom Paulo Evaristo Arns passou a desfrutar, por méritos, do reconhecimento e gratidão de todo o povo brasileiro pela sua corajosa atuação à frente das causas dos perseguidos e dos pobres.




































A RENÚNCIA DE JÂNIO

Jayme Martins, repórter do jornal Última Hora, disse que o Governo Jânio Quadros estava no fim, perante um grupo de Esquerdistas da Praça da Sé, no final de julho de 1961. 
- Em que você se baseia? — perguntaram-lhe. 
- Tenho informações, recebidas do vice-prefeito, Vladimir de Toledo Pizza, de que Jânio não ficará por mais de um mês no governo. Quando muito, permanecerá até o dia 25 de agosto. Vocês devem saber que Vladimir tem amplas ligações com a linha nacionalista da oficialidade do Exército e, portanto, sente-se seguro do que está falando.
A notícia espalhou-se rapidamente. 
No início do governo Jânio, o pessoal de esquerda o combatia tenazmente. Mas, depois que Jânio enviou a Missão João Dantas para a União Soviética e outros países do bloco socialista, condecorou Che Guevara e passou a pregar a autodeterminação dos povos, portanto, contra a invasão dos Estados Unidos a qualquer país do mundo, os esquerdistas mudaram de posicionamento em relação a ele. Assim, temiam, agora, a queda do presidente.
Nos jornais, nas rádios e na incipiente rede de televisão, o combate a Jânio vinha aumentando. Muitas pessoas consideravam a atitude de buscar relações nos países da Cortina de Ferro uma verdadeira discrepância dos princípios ocidentais. 
Jânio dizia que para o Brasil sair da situação de dependência dos Estados Unidos, seria necessário abrir novos mercados no exterior. Para ele, a solução para os problemas nacionais residia na moralização dos costumes públicos e na abertura do comércio exterior. 
Naquela época, a economia brasileira encontrava-se muito dependente do mercado americano, enquanto a Europa e o Japão, devido ao desastre da Segunda Grande Guerra, faziam grandes esforços para a necessária recuperação econômica.
O Brasil enfrentava um grande constrangimento cambial e não havia crédito externo que pudesse proporcionar ao Governo condições de manter uma administração sustentável. 
Além disso, agora que o Presidente acenava para uma ampla abertura externa, aparentemente sem preocupar-se com a guerra-fria, os órgãos de financiamentos americanos estavam fechados para o Brasil. 
Somando-se a esse panorama pouco favorável, o Presidente contava com a antipatia da maioria do Congresso Nacional que era dominada por forças conservadoras. 
Avaliando a situação com seus assessores e amigos, o Presidente Jânio afirmou que não via como realizar grandes reformas, sem fechar o Congresso. 
Para completar o quadro de pressão, Jânio também já não mais contava com a imprensa conservadora e com a cúpula da Igreja Católica, esta muito influente naquela época. 
A afirmativa de Vladimir Toledo Pizza a Jayme Martins tinha, portanto, o condão da fluência da conjuntura para uma situação de impasse político, cujo desfecho poderia ser a renúncia do Presidente.
Os jornais que haviam apoiado abertamente sua candidatura publicavam extensos editoriais para afirmar que o Presidente tinha se desviado do pensamento ocidental, para enveredar-se por um caminho de retorno impreciso e incerto.
O Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que havia apoiado a Candidatura de Jânio, estava agora na oposição. Com recursos disponibilizados por empresas norte americanas, tinha acesso direto à rádio, à televisão. Seus artigos, publicados no Jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, de sua propriedade, eram reproduzidos e publicados em todo o território nacional, por jornais menores. 
Foi nesse ambiente conturbado que entrou a Igreja, através do arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jayme Câmara, para colocar ainda um pouco mais de lenha na fogueira. Sua oposição ferrenha ao Projeto de Lei do Divórcio, que tramitava pela Câmara e havia sido elaborado pelo deputado Nelson Carneiro, induziu-o a uma participação ativa contra o Governo.
Conhecido nacionalmente, pelos católicos, e muito influente na comunidade como um todo, Dom Jayme inicia uma campanha para angariar fundos para um programa concreto de combate àquilo que ele denominava de “o perigo comunista”. Ele afirmava que o Presidente estava levando o Brasil para a órbita Soviética e isto poderia provocar uma guerra civil com grandes conseqüências internas e fortes conotações internacionais. 
Um grupo de pessoas foi convidado por Franco Montoro para ouvir o Presidente, na casa deste. O pessoal da Praça da Sé indicou cinco representantes para ouvir o que o Presidente tinha a dizer. Jânio afirmou, nesse encontro, que forças internacionais estavam manobrando para derrubá-lo, mas ele estava certo de poder contar com as Forças Armadas para defender a democracia. 
Ao retornarem à Praça da Sé, naquela noite de 28 de julho, estes representantes demonstravam real preocupação com o estado de ânimo do Presidente. Poucos dias depois, o Presidente fez um pronunciamento e desanuviou o ambiente.
Aparecendo e permanecendo por pouco tempo na Praça da Sé, o jornalista João Batista de Godoy Moreira, redator do Diário de São Paulo e assessor de imprensa da Fiesp, disse que membros das entidades de cúpula das classes produtoras de São Paulo estavam se reunindo, secretamente, para uma avaliação mais precisa da situação. Se houvesse a queda de Jânio, o sucessor, em conformidade com a constituição, seria o vice, João Goulart, que era visto como inimigo dos empresários. 
João Goulart tinha sua base de sustentação junto aos sindicatos, em São Paulo. Daí provinha a antipatia dos empresários pelo seu nome. 
A situação tinha a aparência de normalidade quando, no dia 23 de agosto, o governador Carlos Lacerda fez um violento pronunciamento contra Jânio. No dia 25, o Presidente renunciaria.
Para a Praça da Sé convergiam pessoas vindas de toda São Paulo. Todos queriam obter informações. Onde estaria Jânio? Tornou-se evidente que o Congresso Nacional foi convocado e, em pouco tempo, declarou vago o cargo de Presidente da República. Por essa ocasião Jânio já se achava em Cumbica, reunido com o Governador Carvalho Pinto. De nada adiantaram os apelos dos amigos para que o Presidente voltasse atrás.
Foram também inúteis os esforços, durante reunião que alguns senadores fizeram com o presidente do Congresso, Auro Soares de Moura Andrade, para controlar a situação. Em verdade, Auro e o Presidente haviam se desentendido em 1958, por questões ligadas à sucessão do governo de São Paulo e tudo indicava que o presidente do Congresso Nacional via ali uma oportunidade de vingança.
Partidos políticos, instituições, empresários e cidadãos comuns externavam, das mais variadas formas e pelos múltiplos canais de mídia disponíveis, seus sentimentos em relação àquilo que parecia ter sido uma decisão precipitada de nosso Presidente, mas que, sem dúvida, acarretaria graves conseqüências para o país.
Uma dessas vozes, a de Antônio Sampaio, estudante da Faculdade de Direito da São Francisco, militante não radical da esquerda comunista, analisava as questões políticas com um certo sentido pragmático. Dizia não ter ilusões e saber que o comunismo, como o conhecíamos até então, não tinha força galvanizadora. Não iria prosperar nos próximos cem anos, mas ganharia força, a partir do momento em que o povo tivesse acesso à educação e cultura. Ele, particularmente, estava satisfeito com as últimas atitudes de Jânio Quadros, principalmente com a abertura política para o mundo socialista. Com essas atitudes, Jânio contrariava os interesses americanos no Brasil e, por extensão, os privilégios das elites endinheiradas.
Sampaio dizia, ainda, que o Brasil só iria sair da situação de dependência e escravidão em que se encontrava quando se libertasse do jugo das forças conservadoras. Para isso, seria necessário formar um partido político com base nas forças autênticas do operariado. Para sua atuação pessoal dizia que, quando se formasse, iria montar escritório de advocacia no ABC e trabalharia exclusivamente para a classe operária. 
Muitos anos depois, já famoso por seu idealismo, iria trabalhar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e, ali, influir na formação do PT.
Quando Jânio renunciou, dizia aos seus amigos, da Praça da Sé, para prestarem muita atenção no futuro político, já que, em decorrência dos recentes acontecimentos, as forças de direita estavam se aglutinando nos bastidores e provocariam grandes alterações. A queda de Jânio, representava, para ele, apenas o prenúncio de grandes borrascas políticas. 

ENGANANDO O DELEGADO

Em 1966, o ambiente político estava mais calmo do que havia estado nos dois anos anteriores. Alguns líderes comunistas encontraram-se com seus camaradas em alguns pontos alternados da praça da Sé. Às vezes, reuniões secretas eram feitas dentro da Catedral. Cada companheiro ia chegando, ocupando um determinado banco, aguardando que os demais chegassem e se acomodassem, enquanto fingiam orar. Dirigiam-se a um determinado altar, continuavam a fingir que oravam, trocavam informações e debandavam-se nos intricados movimentos da Praça.
Em decorrência da opressão militar dos anos precedentes, a fim de receber informações e traçar novas diretrizes políticas para o futuro imediato, seria necessário a realização de um congresso com a participação dos líderes de todos os estados. Trazer de todas as remotas partes do Brasil os companheiros, com o intuito de restabelecerem a organização perdida, parecia ser necessário ao Partidão. Este era, contudo, um empreendimento árduo, se não um verdadeiro desafio. 
Prender os principais comunistas brasileiros em uma única tacada, seria a glória para o Delegado Fleury. E ele, certamente, estava atento. 
A ligeira calmaria que reinava no Brasil poderia ser simplesmente uma estratégia da Política de Repressão. 
Mesmo assim, Carlos Marighela, o mais procurado de todos eles, deu a palavra final: o Congresso se realizaria e, para isto, bastaria enganar o delegado.
Marcado o Congresso, os convidados começaram a chegar a São Paulo. Convencionou-se que cada um dos participantes só receberia as instruções quando chegassem a São Paulo e que, dali, seriam conduzidos por guias em pequenos grupos. Foi indicado um alcagüeta da polícia para passar informações falsas. Desta forma, a polícia foi informada de que Marighela estava na Bahia, para a realização de um Congresso do PC. 
No dia marcado, à medida que foram chegando, os convidados eram conduzidos em ônibus, carros, caminhões para São João da Boa Vista, de onde, após várias precauções, eram levados a uma fazenda, de propriedade de um capitalista simpatizante com as causas dos trabalhadores e com as do PC.
A sede da fazenda estava localizada numa colina que possibilitava ampla visão, dando, assim, condições para que os participantes do Congresso pudessem enxergar qualquer movimento suspeito à longa distância.
Os participantes começaram a chegar na fazenda na sexta-feira à noite em intervalos de quarenta minutos. Tinham de deixar os veículos afastados da sede da fazenda e de vir até ela a pé. 
Ao adentrarem a sede, receberam instruções severas concernentes à segurança de todos, pois ali se concentrava a força ativa do PC. Camaradas encontraram camaradas que não viam há muito e confraternizaram-se entusiasticamente. Demonstravam a mais genuína alegria. 
Um grande número de pessoas já havia chegado, o fluxo de chegada foi diminuindo, mas só Marighela não aparecia. Estava escondido em uma cabana, próxima à sede. 
O Congresso teve início às 8:00 horas de sábado e foi interrompido às 12:00, para o necessário churrasco. Às 14:00 horas retornaram aos debates. 
Para a organização de grupos de sentinelas, resolveram fazer um sorteio. 
Para guarnecer a porteira principal, no turno da meia noite, foram sorteados Marighela e Cid Tavares. Os companheiros protestaram, pois achavam que Marighela deveria ser poupado. Mas ele achou isto um insulto. Não queria privilégios. 
Com dois fuzis e uma metralhadora, foram fazer a rendição dos companheiros. 
Cid Tavares ainda contava, muitos anos depois, como foram aquelas horas com Marighela: “ele olhava para o céu, sorria para as estrelas: 
- Veja Cid, quanta harmonia no céu! As estrelas e os planetas em perfeita sincronia. Velhos e jovens, grandes e pequenas, vivendo o esplendor do momento. E nós aqui, na Terra, empunhando armas que podem matar nossos irmãos.
Refletia um pouco, sob os sons da noite no mato, e continuava:
- E o que nós queremos? Nada além de implantar na Terra essa harmonia do céu. Por que têm de haver tantas divergências aqui na Terra? Não poderia ser tudo diferente?
A paz reinava nos derredores, eu não sabia o que dizer, além de concordar, e ele, após perscrutar por várias vezes o infinito, continuava: 
- Olha Cid, o que o nosso partido quer é dar igualdade, fraternidade e o socialismo para todos. Acabar com os exércitos, extinguir a opressão, as polícias de todos os tipos, as armas. E com o dinheiro não gasto nessa corrida armamentista, eliminar a fome no mundo. 
Eu concordava com frases curtas. Às vezes uma única sílaba, às vezes, duas ou três. Depois, perguntei a Maringhela se ele não tinha medo de ser morto, já que era o homem mais procurado do país”.
Marighela respondeu: 
- Se for para ser morto pela causa dos miseráveis e dos trabalhadores, gostaria de ser pranteado como herói. Deixarei para eles uma semente que poderá germinar e, desta forma, minha morte não terá sido em vão.
Foi este o nosso principal diálogo, enquanto tiramos guarda.”
Durante o Congresso daquele domingo, Marighela pedia para que todos fossem confiantes, pois a causa do PC era Universal e que todos, no futuro, iram se glorificar. Salientava, contudo, que era preciso apressar a chegada desse dia. Ele não viria sem muita luta. 
No domingo as palestras e debates foram encerrados às 13:00 horas, para que todos pudessem retornar às suas casas. Marighela com três companheiros foram os últimos a abandonar a fazenda. Esperaram escurecer. 
Seguiram em um carro. Passaram pelo centro de São João da Boa Vista, por volta das 21:30 horas e seguiram, pela Anhangüera, com destino a São Paulo. Na altura de Americana, quatro policiais pararam o carro. Houve um grande susto. Segundos antes do carro parar, Marighela disse: “Adeus companheiros. Parece que estamos fritos”. Marighela estava sentado no banco traseiro, ao lado de Antônio Galdino que viria muitos anos depois, ser candidato à Vice-Governador na chapa de José Dirceu. Dentro do carro, todos, com exceção do motorista, haviam engatilhado seus revólveres. 
Os policiais se aproximaram e um deles dirigiu a palavra ao motorista: 
- Será que vocês podem ajudar a tirar um carro da ribanceira? Ele perdeu o controle, saiu da pista e há uma pessoa dentro dele. 
Todos se prontificaram, com exceção de Marighela que alegou ser cardíaco e não poder fazer força. Assim, ficou sozinho dentro do veículo, pois tinha medo de ser reconhecido.
Empurraram o carro, a pessoa foi socorrida e os viajantes continuaram viagem com os agradecimentos da polícia.
Já distantes do local, todos riam muito e se divertiam com a situação. 
- Senti que nascemos de novo — disse Marighela. 
Decidiram que seria melhor dormir em Jundiaí e lá se separariam. Assim fizeram. Marighela foi de trem para São Paulo, vestindo um macacão de mecânico da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
Dias depois soube-se que a polícia havia organizado um gigantesco aparato sobre a ponte Jaguaré, na Via Anhangüera, para prender Marighela. 
Quando perguntamos ao Cid Tavares, como o PC conseguiu realizar aquele congresso, ele responde simplesmente:
- Enganando o delegado.












DITÃO CHEIROSO

Ditão cheiroso andava sempre com duas sacolas pela Praça da Sé. Dentro delas, várias garrafas e litros. Ele chegava com vários engradados de madeira em uma perua velha. Começava bem cedo a sua trabalheira. Entrava e saía de todos os bares e restaurantes da praça e das imediações.
Ditão tinha um cheiro muito característico. Cheirava a essências estranhas que ninguém conseguia descobrir o que eram. 
Numa manhã de segunda-feira, os amigos de Ditão levaram um susto: a foto dele estava estampada nos dois matutinos populares, Última Hora e Notícias Populares. Tinha sido preso em flagrante, por falsificação de bebidas. 
Ali mesmo, na Praça, os amigos resolveram tentar ajudar e contrataram um advogado para tirá-lo da cadeia. Mas não teve jeito. Ditão já era reincidente e, agora, para piorar a situação foi pego vendendo uísque falsificado. Se fosse preso vendendo pinga falsificada, certamente seria solto na hora. Mas uísque? Bebida de rico e de classe média, isto a polícia e a justiça não podiam tolerar. 
Ditão foi condenado a passar alguns anos no Carandiru. 
Logo que chegou, os presos começaram a conhecer a sua história. Fabricante de bebidas finas, como ele mesmo se intitulava, havia tido azar. Agora, iria descansar. Comer e beber à custa do Estado. Dormir bem, tomar banho, jogar, contar histórias, ouvir anedotas, enfim, um vidão. Para ele, tão sacrificado retirante do Nordeste, até que não estava ruim. “Melhor do que ficar em minha terra”, dizia sempre.
Mas havia alguém de olho nele, na penitenciária. Era Zuim Barboza, o chefe de uma vasta rede de interesses. No pátio, pegou Ditão para conversar. 
— Olha aqui, Ditão, você pode ter tudo comigo, se for sincero. 
— Sinceridade é comigo mesmo.
— Bem, Ditão, me diga uma coisa, como você fabricava uísque?
— Fabricar uísque não é difícil. É manha. Mas eu fabricava outras bebidas também, como groselha, vermouth, conhaque e até perfumes. 
— Mas como você conseguia fazer?
— Era fácil. Eu tenho um fornecedor, o João, que trabalha numa fábrica de essências. Ele me arrumava tudo o que eu precisava.
— E ele pode ainda continuar a fazer isto?
— Pode. É só ter dinheiro para pagar.
— Então, Ditão, você vai continuar a ter muito trabalho.
— Como assim?
— Você vai fabricar bebidas, aqui mesmo.
— Mas como?
— Deixa isto comigo. Vou montar as telhas. Construir a rede, você tá ligado?
— Um pouco.
— No momento certo, você volta a trabalhar.
Uma semana depois, Ditão foi convocado para trabalhar de ajudante de cozinha.
Ali começava a nova fase na vida de Ditão Cheiroso. 
Zuim Barbosa era também o responsável pelo abastecimento e distribuição interna de comida. Tudo arranjado com a direção. 
— Ditão, agora você precisa me dizer onde mora esse fornecedor. Convoque sua mulher, para ela colaborar com as compras de essências para nós. Ela sabe onde mora o fornecedor, não sabe?
— Sabe sim. Ela já ajudava no negócio, antes de me prenderem. Deixa comigo.
— Você faz as listas, ela compra tudo direitinho e deixa lá na casa dela. Nós vamos lá buscar e trazemos para cá.
— E como será feito isto?
— Fácil. Entra tudo dentro dos latões de leite, de caixotes e sacos, tudo numa boa. 
— E onde vamos fazer as bebidas? Precisamos de vasilhames grandes. 
— Isto já temos de sobra. Caldeirões gigantes não faltam por aqui. Já requisitei mais dois.
— E quando começamos? 
— Quando as essências chegarem. 
— Agora, Ditão, é só fazer a lista. 
Ditão fez as listas, com as essências necessárias para a fabricação de vermouth, groselha e conhaque, e entregou ao Zuim.
Poucos dias depois, a cozinha do presídio passou a ser também uma fábrica de bebidas. 
Os elogios dos presos eram gerais. 
Além da distribuição interna havia também uma externa, tudo bem controlado.
Alguns anos depois, Ditão foi posto na rua. 
Livre, experiente, tinha agora novos planos. Iria fabricar as bebidas dentro da lei e da ordem. 
Quando estava preso, ganhava R$ 0,30 por litro vendido. Agora, desejava ganhar muito mais.
Arrumou dois sócios, ambos colegas da prisão, que também já estavam curtindo a liberdade e, assim, nasceu mais uma fábrica de bebidas, em São Paulo. 
O fornecimento para os bares e restaurantes da Praça da Sé e para o centro continuou por muito tempo. 
As essências que Ditão utilizava para fabricar as bebidas eram tão fortes que os cheiros impregnavam-se nele.
Um infarto tirou Ditão deste mundo. 
Morreu cedo, aos 48 anos, provavelmente intoxicado pela exposição excessiva às inúmeras essências que usava.
Essas essências eram tão fortes que, mesmo depois de morto, seus cheiros impregnavam o ambiente e incomodavam as pessoas que foram ao seu velório. 
Sua mulher continuou por algum tempo no ramo e, mais tarde, vendeu sua parte na fábrica para os outros dois sócios. Voltou para sua terra, no Ceará, podre de rica.






A ANÉSIA DO CAPITÃO

Todo mundo, no quartel, tinha o maior respeito pelo comandante, Capitão Barboza, assim conhecido por todos.
Depois de ter ficado viúvo, demonstrava uma certa melancolia. 
“A viuvez é assim mesmo”, diziam os soldados para confortá-lo.
Mas o capitão tinha outra coisa em mente. Não era a viuvez que pranteava. Agora, solteiro novamente, sonhava rever sua antiga namorada. “Uma flor, entre as mais belas flores. Uma Diva, a mais bela das Minas Gerais.”
Depois que os soldados ficaram sabendo, passaram a lhe perguntar:
— Quando o senhor vai para os sertões das Gerais?
— O que está esperando para correr atrás de sua Diva?
— Um dia, um dia eu tomo coragem.
Havia sempre sido muito cuidadoso com o corpo e não cansava de repetir a máxima de Platão “corpo são em mente sã...” e exaltava a necessidade de cuidados pessoais, de preservação das dádivas naturais. 
Aposentou-se e, num certo dia, arrumou suas coisas. Vestiu o melhor terno, o melhor sapato, tudo combinando, e voltou para o torrão natal. 
Não contou o motivo da viagem aos parentes. Dizia, simplesmente:
— Vim rever o meu povo. 
Anda daqui, anda de lá, sempre conversando e espreitando, até que soube onde morava a sua adorada Anésia.
Morava num sítio pras bandas da quebrada do Zeca Leite.
Tomou coragem. Ele que era tão valente para lidar com os bandidos de São Paulo. Por que não? Iria sim rever a sua amada.
E lá se foi, o intrépido comandante. 
Chegou, foi apeando do cavalo. Viu uma velhinha varrendo o quintal. Toda suja, cabelo sem vida, desgrenhado, sem dentes. 
Perguntou:
— A senhora pode me dizer onde mora a dona Anésia?
— Tô aqui, meu senhor, pra lhe servir.
O capitão teve um chilique. Onde buscar forças para tanta decepção?
Perdeu o controle, olhou por instantes atônito para aquela figura e, sem saber o que dizer, disse, simplesmente: 
— Obrigado. 
Subiu no cavalo e foi-se, sem olhar para trás. 
Voltou para São Paulo, arrumou um novo trabalho como chefe de segurança em uma empresa privada. 
Quando encontrava os velhos companheiros, e estes lhe perguntavam sobre seu antigo amor lá das Gerais, respondia:
— Ainda não pude ir até lá. Um dia, quem sabe?
Para sua filha contou a verdade:
— O passado é para ser lembrado, nunca para ser revivido.

























CHUMBOS TROCADOS

Mister Carvalho era o protótipo da pessoa bem sucedida. 
Diretor de multinacional, com apenas 32 anos de idade, era bem formado, com inglês fluente e casado. 
Tudo nele recendia o perfume do sucesso. 
Era fechado, taciturno, soberbo, mantinha todo mundo à distância, no estilo britânico. 
Tão importante na empresa em que trabalhava, tinha apenas um casal de amigos. 
Jantavam juntos sempre às quintas-feiras. As crianças dos dois casais eram amigas. 
Mas, com o passar do tempo, foram aparecendo alguns sinais de preocupação no rosto do tão importante diretor. Suas maneiras, de recatadas, passaram a ser quase hostis.
As secretárias procuraram descobrir o que poderia estar acontecendo, mas dele nada transpirava. 
A única pista que parecia aflorar de tão compenetrado e eficiente executivo era o fato de que em todas as tardes de terças-feiras ele desaparecia. Não deixava telefones para contatos e nem chamava a empresa.
Estaria aí a chave do mistério, já que, de resto tudo parecia ser uma rotina altamente satisfatória?
Pensaram que, talvez, o problema estivesse relacionado com sua esposa. 
E, realmente, estava.
Certo dia o executivo ligou para sua mulher e pediu para que levasse os filhos para a casa da mãe dela. Ele tinha um assunto urgente e importante para discutir com ela.
Chegou a casa mais cedo do que o habitual e tentou, como era seu estilo, ser prático, claro e conciso. Não conseguiu. Balbuciou algumas palavras, mas eram desconexas, ininteligíveis. Tão fora do seu normal. Deu murros na parede, chorou. 
— Conte para mim o que o aflige, meu amor. Seja qual for o problema, eu saberei compreender.— dizia a mulher, tentando ajudar.
Tomou uma dose dupla de uísque, acalmou-se um pouco e resolveu enfrentar a mulher:
— Sabe querida, eu guardo um segredo há quatro anos. Mas já não agüento mais. É que sou amante de sua melhor amiga.
Sem pestanejar a mulher disse calmamente:
— Ah! Querido. Você me tirou um peso da consciência. É que eu sou amante de seu amigo há uns três anos.
Carvalho se indignou. Quase bateu na mulher. Como podia ela traí-lo com seu melhor amigo?
Como podia falar tão calmamente, enquanto ele se digladiava para encontrar uma forma de não magoá-la mais do que o necessário?
Mas, orgulhoso, de maneiras britânicas, engoliu o impacto, para pensar mais demoradamente sobre a situação.
Alguns dias passaram, até que ambos pudessem absorver as traições.
Conversaram, conversaram, inicialmente, em dois. Conversaram, posteriormente, com seus respectivos amantes e chegaram a um acordo: os homens mudariam de casa.
E assim foi feito.
Mas, obviamente, tal mudança, apesar de nosso herói ser pessoa reconhecidamente reservada, ficou conhecida de muitos.
Superior à mediocridade social, fingiu não ser atingido.
Fato é que, depois disto, Dr. Carvalho passou a ser mais humilde, deixou mesmo de ser o executivo de nariz empinado. Afinal, chumbos cruzados merecem respeito. 
Atualmente, após muitos anos, os dois casais voltaram a jantar juntos nas quintas-feiras, no Clube Inglês. 
É melhor amigo pra cá, amigão pra lá ...











JURINHO É COISA SAGRADA

Seu Polite andava bem devagar. Seus amigos diziam que era para não gastar os sapatos. 
Era considerado muito rico e também muito esperto.
Uns diziam que era Judeu, outros acrescentavam que não tinha pátria. 
A pátria dele é o dinheiro! — diziam.
Ele ria dessas gozações e dizia: 
— Vocês não sabem de nada.
Conhecido por ser rico, vivia de emprestar dinheiro.
Quando aparecia um pato, os juros eram mais altos. 
Quando o cliente não podia pagar, falava em voz chorosa: “Pelo menos paga os jurinhos. Jurinhos são coisas sagradas”.
Seu Polite era contra casa própria. Ele possuía muitas lojas comerciais. “Casa própria é um engodo. Sempre a gente precisa ir arrumando, consertando. Na casa de aluguel a gente não precisa fazer nada disso. Economiza. E, se tem algum vizinho ruim, a gente vai embora. Se a casa ameaça cair, a gente aluga outra”
E quando alguém lhe perguntava como tinha ganho a sua fortuna, desconversava.
Mas seus amigos mais íntimos diziam que ele havia posto fogo na loja da 25 de Março. 
Nas vésperas de Natal, mandou colocar um Papai Noel gigante na porta de entrada. No dia de Natal, provocou um curto-circuito. Incendiou o prédio todo.
Estoque já não tinha mais. Tinha seguro do estoque que já não existia. Havia vendido tudo à vista, a maior parte sem nota fiscal. 
Em seguida, apareceu com um escritório super chique na Rua Anchieta. Andar todo, carpetado. Dizia para os amigos: 
-- Não é meu. É do meu filho.
Muita gente vinha do exterior para fazer negócios. Algumas pessoas desconfiavam dos tipos dos clientes. 
Até que um dia, o escritório permaneceu fechado. Os jornais publicaram notícias de um grande golpe. O filho havia fugido.
Alguns anos depois, o velho voltou a andar pela Praça da Sé, rua da Boa Vista, Pátio do Colégio, sempre fazendo negócios de agiotagem e sempre repetindo:
“Jurinho é coisa sagrada. Eu não quero receber o principal agora, filho, vá pagando o jurinho. Você sabe, jurinho é coisa sagrada.



























MANDINGA DA BRAVA

Seu Delmiro chegou de Portugal em 1955. 
Veio tentar a vida no Brasil. Em sua terra natal as coisas estavam difíceis.
Logo arranjou emprego com um alfaiate. O patrão atendia a freguesia, cortava, e Seu Delmiro costurava.
E assim foi vivendo, até que lhe surgiu a oportunidade de entrar nos negócios das pensões. 
Alugava casas grandes e depois transformava os cômodos em “vagas para rapazes ou moças”.
Foi ganhando dinheiro. Até começou a paquerar. 
Conheceu Marina, a namorada que passou a ser a luz de sua vida. 
Dizia a todo mundo que estava apaixonado. 
Num fim de tarde, recebeu Marina em sua sala. Seu Delmiro fechou a porta a chaves. Mas, de repente, começou um alvoroço. 
Saiu da sala aos tapas com o amor de sua vida, expulsando-o com sopapos e pontapés. 
Acorreram curiosos, a quem ele reclamava:
— A gaja me enganou. Não era mulher, era homem. 
Mais tarde, tentou paquerar uma mineirinha, mas esta já foi lhe dizendo que preferiria dormir com bichos a dormir com o portuga.
Sem alternativa, mandou vir a mulher e mais as cinco filhas lá de Portugal. 
No início, alojou a família em dois quartos. Um era o dormitório das meninas, o outro era o quarto do casal, a sala de refeições e a cozinha.
Alugou mais uma casa na rua Albuquerque Lins. Nesta passaram a ocupar a parte da frente e “no fundos” instalou 18 vagas. 
Esse novo negócio era para a esposa. Não metia o bedelho. Só fazia a exigência de que dali tinha de sair o dinheiro para sustentar a família.
E foi ampliando sua rede de pensões e de casas de aluguel.
Jamais abandonou o ramo de alfaiataria.
Aos amigos que lhe diziam ser ele unha de fome, respondia: “as pensões e o aluguel são o meu ganha pão.”
Antes de morrer, tornou-se proprietário de hotéis. Todos de curta permanência. Não queria mais saber de inquilinos. Com o passar do tempo iam fazendo amizades, querendo vantagens, dando calotes. Eram todos uns ingratos. 
Lidando com o giro rápido dos hotéis, não ficava conhecendo os inquilinos. Assim era melhor. 
Tentou voltar para Portugal, mas seu coração já era brasileiro. 
Mandou colocar este epitáfio em seu túmulo:
“Esta terra tem mandinga e das bravas. Me pegou para sempre”.

























SEVERINA, A EMPREGADA

Cansada dos atropelos do lar e das empregadas paulistas, Dona Marly pediu para que seu tio lhe mandasse uma empregada dos sertões das Alagoas. Requisitos básicos: ser limpa, conhecer bem os serviços domésticos e que não fosse muito bonita para não atiçar o marido. E mais: que não tivesse certos vícios, pois dona Marly detestava cigarros e não tolerava álcool e outros mais tão em voga com as empregadas de hoje.
Exigia, finalmente, que já tivesse o sexo gelado, para evitar transtornos insuportáveis. 
Católica fervorosa, Dona Marly transpirava virtudes. 
Tempos depois, num domingo, por volta da hora do almoço, tocaram a campainha. 
Era o porteiro acompanhado de uma moça com um saco na cabeça e cara de retirante.
A moça foi logo dizendo: 
- Sou Severina, aquela que a senhora encomendou para seu tio. 
Dona Marly logo sorriu e pensou: “ainda bem que chegou a empregada que pedi a Deus”.
- Entre, Severina. Venha cá que eu vou lhe mostrar o seu quarto. 
O marido de Dona Marly, para puxar prosa foi logo perguntando: 
- Gostou da viagem?
- Qual o que! Vim na boléia do caminhão, fazia muito catabio. 
Estranhando, o homem perguntou: 
- E o que é boléia, o que é catabio?
- O siô num sabe, não?
- Não, eu não sei. 
- Sei não, cumo explicá!
Assim, Severina começou a sua lida cotidiana em São Paulo. 
Longe de Severina a família se divertia e os filhos perguntavam: “onde a mãe foi buscar um tamanho disparate?”.
E as crianças contaram na escola, para os familiares o pitoresco daquela estranha criatura. Imitavam-na e repetiam o que ela dizia: “cadê a taubinha de passá roupa?”, “carece de trocá a lâmpida da cozinha”, “você vai mais ele?” e coisas assim. Todos riam. 
Severina não era aquela empregada com a qual Dona Marly havia sonhado, mas sabia fazer algumas coisas. Nem era tão estúpida, quanto a língua poderia sugerir. Tinha lá suas espertezas.
Quando Dona Marly ia sair, dizia a Severina para cuidar bem das crianças e dar-lhes o que pedissem. Severina respondia.
— Dexa pra mim que eu assunto eles, D. Marly. Pode dexá.
Dona Marly reclamava de algumas coisas, junto às amigas, mas sempre dizia: “pelo menos não tenho de aturar os namoros das empregadas. Isto já é uma qualidade.” 
Mas, tão logo adaptou-se à nova cidade e começou a sair, Severina já arrumou alguns fãs. Eram homens vindos de todos os lados e Severina dormia com qualquer um. 
Logo o condomínio virou um tumulto. Todo mundo comentava os namoros relâmpagos de Severina. 
— E agora, Dona Marly, o que fazer com a empregada que a senhora trouxe do Nordeste? — perguntavam as amigas e os familiares. 
— A culpa é do meu tio.— respondia contrafeita e querendo pôr um ponto final na conversa que tanto a incomodava.
Ligou para o tio em Maceió e deu-lhe uma bronca. Mas como devolver Severina?
A moça trabalhava direito e ela, uma autêntica cristã, não poderia prejudicá-la. 
Logo resolveu o problema. Pôs um anúncio no jornal oferecendo uma empregada que sabia fazer de tudo e agenciou, pessoalmente, Severina. 
Severina, quieta e submissa só observou tudo o que foi feito. Escutou as restrições que algumas patroas em perspectiva apresentaram, observou a maneira como dona Marly argumentava, insistindo nas qualidades da moça e nas desculpas esfarrapadas que justificavam a necessidade de mudança de emprego. 
A moça obteve um novo emprego e Dona Marly jurou que nunca mais falaria com o tio, nem confiaria em nordestinos. 
Agora faz o serviço de casa ajudada pelos demais membros da família.
O tempo passou. 
E Severina?
Ela diz que agora é dona de uma agência de empregadas domésticas. Todas vêm de Alagoas. 
Diz, ainda, que agora as empregadas não são escolhidas e são elas que escolhem. 
Severina, como o próprio nome vaticina, é severa com suas pupilas. Namorar no serviço, é a conta na hora. 
De vez em quando, visita Dona Marly. As duas ficaram amigas do peito. 
- Você se lembra, Severina, quando chegou a São Paulo? Parecia um bicho. 
- Suas rezas me ajudaram a mudar, quando vejo um homem interessado em mim, já mando ou buscar outra ou ir para os quintos dos infernos. 
E continua: 
- Meu negócio agora é lidar com mulher. 
Crente, fervorosa, Dona Marly pensa que Severina vai virar uma santa. 
Virou, na verdade, empresária. Era dona de um bordel. 














CHAGUINHA, O PIANISTA

Chaguinha Tosta, funcionário público municipal, tinha um público feminino invejável, na rua onde morava, no Tatuapé. 
Não que fosse bonito, mas era homem cumpridor de seus deveres. 
Era casado com Matilde, uma guapa loira descendente de alemães. 
Na Secretaria da Fazenda, atendia o público. Prestava informações sobre finanças e mostrava-se sempre atencioso.
Às 18:00 horas, nem mais um minuto, já estava com o pé na porta. Ia correndo para casa.
Assim passavam os seus dias. 
Até que Matilde ficou doente. Não vivia bem da cabeça. 
Chaguinha andava aborrecido e os amigos perguntavam:
— O que está acontecendo?
Chaguinha, inicialmente, desconversava. Mas, um dia contou: “sua mulher não queria mais ele como homem. Queria só como companheiro. O que ele iria fazer?”
Os amigos se reuniram. “Vamos dar um jeito”, propuseram.
Levaram-no para que se entrosasse com a vida noturna de São Paulo. 
Mas Matilde colocou um obstáculo: reuniões noturnas, só aos sábados.
Nesse dia, Matilde dava banho no marido, perfumava