Biografia e autobiografia de gente sem importância Egydio Coelho da Silva
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A chácara em Botucatu Meu avô, João Coelho da Silva (1a. geração), como acontecia com quase todos os portugueses, que chegavam ao Brasil, deveria ser bastante econômico e só gastavam dinheiro em coisas imprescindíveis e o restante guardavam. Mas mesmo assim era difícil fazer economia em pouco tempo, que levasse a poder adquirir propriedades. A chácara em Botucatu, onde me criei, foi adquirida com dinheiro de herança, que minha avó recebeu. Era meio alqueire, na Vila Casa Branca. Não sei se era terra nua, ou se já tinha alguma melhoria, quando adquiriu. Ficava na rua ......... n......... As ruas para cima, ................, entre as ruas.................... ainda não existiam. Ficava perto da famosa “Serraria Anônima”, que era uma S/A, cujos maiores acionistas eram os Milanesi. Ficava próxima a linha do trem que vinha do interior para São Paulo e passava próximo à chácara antes de chegar à estação da Sorocabana em Botucatu. E
o entendimento mais lógico e, provavelmente verdadeiro, é que o Brasil
vivia no final do Ciclo do Café. Como se sabe, o café era praticamente
o único produto brasileiro de exportação. Na
época, provavelmente entre 1.910 e 1.915, a chácara, de meio alqueire
de terra, já estava plantada com café. Era pouca terra e a produção,
conseqüentemente também era pequena, portanto, pareceria difícil
“uma micro-agricultora” exportar café, mas havia uma fórmula, que
funcionava muito bem. 27/07/97
(Arq. E-AB) PÁG. 11 A Ela, minha avó, vendia a produção a uma dessas máquinas. P Frutas
havia bastante, como manga rosa, que era plantada na divisa da chácara,
com os vizinhos, para não fazer sombra no meio da chácara e atrapalhar
a plantação de café. E havia muitas manqueiras e os vizinhos levavam
vantagem também, porque as frutas dos galhos, que ficavam de seu lado,
davam aos vizinhos o direito de colhê-las. Na pior das hipóteses,
maduras caiam e eram recolhidas por eles. Lembro-me de cáqui, mexerica,
abacate e laranja, estas não ficavam na divisa da chácara. E havia,
evidentemente, a horta de verduras, como couve, alface, tomate, etc. Criavam-se
porcos; para mim, numa visão de criança, eram bastantes, mas na
realidade não poderiam ser muitos, pois se destinavam apenas ao consumo
familiar. A gordura - eu me lembro bem - era guardada em tambor e usada
para cozinha. Aliás, toda a produção da chácara era para a sobrevivência
da família, com exceção do café, que era vendido. Do café, que se
consumia, lembro-me apenas de vê-lo moído - depois de beneficiado e
torrado por terceiros. Não sei se era de produção própria ou já era
comprado beneficiado e torrado. Só sei que era moído em casa. Como
se vê, havia uma “organização” de produção para consumo e para
venda do que era produzido nesta pequena chácara de meio alqueire de
terra. E, aparentemente, quase que milagrosa, pois, garantiu a
sobrevivência da família, os filhos freqüentaram a escola, todos
aprenderam a ler e escrever e completaram o curso primário e ainda fez
alguma poupança. As economias, que minha avó fazia do dinheiro
recebido da venda do café em grão, eram aplicadas na construção de
casas dentro da própria chácara. A meta que ela tinha em mente era a
de construir uma casa para cada filho. Como ela tinha oito filhos, o 07/08/97
(Arq. E-AB) PÁG. 13 objetivo
a atingir eram oito casas, o que foi conseguido. A medida em que ia
construindo casas, as alugava o que aumentava a renda familiar. O Isto
fortalecia a economia familiar, pois os portugueses, vindos para o
Brasil, sempre foram muito econômicos, seja por estarem em terras
estranhas, onde a insegurança é muito maior, seja por uma
conscientização de que o futuro da família depende realmente de algum
“pé de meia” ou patrimônio. Há
uma expressão que a gente usa até hoje, quando se refere ao espírito
econômico dos portugueses: “o dinheiro quando entra no seu bolso,
não sai nem com ‘habeas corpus’ ”. E
o que tornava viável a existência de uma micro empresa agrícola
familiar era a divisão do trabalho entre todos, inclusive os menores. O
ensino, na prática diária de que todos têm obrigação de trabalhar,
desde muito cedo, parece-me hoje muito positivo. A freqüência à
escola também era coisa sagrada. Meu pai e todos os seus irmãos
completaram o curso primário. O que era muito na época. Felizmente,
naquele tempo, não havia os políticos, que se dizem defensores de
"direitos humanos", que entendem que ensinar as pessoas a
trabalharem desde cedo constitui violentação dos direitos das crianças.
Se existissem, com certeza, a nossa família teria sido desagregada e o
ciclo de moradores e meninos de rua, que vivemos hoje, teria começado há
80 anos atrás. Em
fim todos trabalhavam. E como trabalhavam. Contava meu pai que, em noite
de lua cheia, o trabalho, na lida com a plantação, se estendia até 10
horas da noite. Somente muito trabalho justificaria a sobrevivência da
família e até conseguir fazer alguma economia. |
Meu avô paterno João Coelho da Silva (1a. geração) (Não tenho foto - se algum parente a tiver favor ceder) Mãe e pai: nomes não pesquisados.
Esposa: Ana Rosa Gonçalves Coelho da Silva (1a. geração) Foto em 1.939 com ais de 60 anos. Marido;
Irmãos: João,
Manoel, Aires e Augusto. Filhos: Manoel, João, Antônio, José, Maria, Ana, Matilde e Marta. |