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HISTÓRIA DO BAIRRO DO BIXIGA Egydio Coelho da Silva PÁG.
BIXIGA
COM “I” OU BEXIGA COM
“E”
Armando
Puglisi (Armandinho do Bixiga) defendia ardorosamente a grafia do nome do
bairro com “i”, alegando, com insistência, que era assim que o
pronunciavam os italianos em São Paulo.
Há
quem diga que o motivo seria o sentido pejorativo da palavra bexiga, que
teria dado origem ao nome ao bairro: bexiga de boi ou a doença varíola,
que era conhecida também como bexiga. Num
desejo de afastar esse sentido, os moradores do bairro, procurariam um
jeito de evitar, de forma até inconsciente, o aspecto pejorativo, mudando
a grafia para Bixiga. No entanto, a grafia com “i” já tem até gramáticos - se não como defensores - pelo menos, que a justificam, como se vê no artigo publicado no jornal Folha de São Paulo de autoria do professor Emil Nogueira (1). Nesse artigo, ele explica: “o que acontece é que, na pronúncia normal do Brasil, há forte tendência para pronunciar como o 'i' o 'e' átono, isto é, não acentuado, pronunciado com pouca força e o uso acaba consagrando variantes em 'i', que é inútil combater”. E complementa: “É o mesmo uso que, em São Paulo, está dando foros de legitimidade à palavra Bixiga, para designar um dos mais tradicionais bairros paulistanos. Observe-se que, aí, a variante popular em 'i' tem um sentido específico (indica o bairro); em sentido geral, bexiga é ainda a forma correta, apesar de se pronunciar 'bi' ". Eis seu artigo na íntegra:
"A língua nossa de cada dia Emil Nogueira Considerado
um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos, “Pixote” tem
mais uma particularidade: consagra
uma palavra “que não existe”. De
fato, se você consultar o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua
Portuguesa – a nossa ortografia oficial -
lá não encontrará o verbete pixote. Ele
não aparece também na maioria dos dicionários modernos. O Aurélio o
registra sumariamente como s.m. (substantivo masculino), remetendo o
consulente para o verbete pexote, onde se encontram as definições: aquele que joga mal, novato, principalmente, inexperiente. O
mesmo Aurélio dá pexote como derivado da expressão chinesa
“pexote”, não sei, usada em Macau. Assim, portanto, a forma “oficial” é com e, pexote; seu derivado é pexotada. Acontece, porém, que nunca se ouviu brasileiro algum pronunciar dessa maneira. Todos
dizem pixote, pixotada. Um gol sofrido por inabilidade ou incompetência
é produto de uma autêntica pixotada. O irrealismo ou o conservadorismo dos dicionários foi, aí, derrotado pelo uso. O
que acontece é que, na pronúncia normal do Brasil, há forte tendência
para pronunciar como o “i” o “e” átono, isto é, não acentuado,
pronunciado com pouca força. Alguns dão a esse fenômeno o nome de lização
e dizem que a pronúncia brasileira é lizada. Como
o e átono final essa lização é por assim dizer absoluta: ele, este,
parede são pronunciados como se fosse “i” seu som final. Nas
sílabas iniciais e intermediárias a mesma tendência se observa, embora
com menor intensidade: mininu, istudanti (menino, estudante) é como se
pronuncia. Na maioria dos casos, o falante culto tem consciência de que, não obstante a pronúncia, é com “e” que devem ser escritas palavras como as recordadas acima. Mas,
às vezes, o uso acaba consagrando variantes em “i”, que é inútil
combater. Pode acontecer de as duas formas (a “certa” e a popular)
coexistirem durante algum tempo até que uma se imponha à outra. Vamos aos exemplos. Em pixote/pexote, não há como negar que a primeira predomina nitidamente sobre a última, se é que esta alguma vez foi usada no Brasil: pixote, pois há que ser considerada como forma correta, consagrada pelo uso. É o mesmo uso que, em São Paulo, está dando foros de legitimidade à palavra Bixiga, para designar um dos mais tradicionais bairros paulistanos. Observe-se
que, aí, a variante popular em “i” tem um sentido específico (indica
o bairro); em sentido geral, bexiga é ainda a forma correta, apesar de se
pronunciar “bi”. Também a tradicional brincadeira dos estudantes de direito paulistanos, para comemorar o 11 de agosto, já merece ser normalmente grafada como pindura. O
verbo, como se sabe, é pendurar e daí derivados como pendura,
dependurar, penduricalho etc. Mas o uso, pelo menos em São Paulo, parece
tornando irreversível a variante pindura (em obediência à tendência de
pronunciar como o i o e átono), para designar o calote dos estudantes no
dia em que se recorda a instituição dos cursos jurídicos no Brasil".
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Referências
bibliográficas – desta página
(1) Nogueira, Emil, artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo. Nota do autor: Tenho o recorte do jornal, mas infelizmente não marquei a data da publicação.
Página
inicial da história do Bixiga e de São Paulo antigo
Referências
bibliográficas - todas 1)
Dicionário de História de São Paulo – Antônio Barreto do
Amaral – Coleção Paulista; V.19 – 1.980 – Governo do Estado de São
Paulo. 2)
Câmara
Municipal de São Paulo: 1560-1998: Quatro séculos de história/ Délio
Freire dos Santos, José Eduardo Ramos Rodrigues. São Paulo: Imprensa
Oficial, 1.998, página 70, páginas 67/68, obra citada de Mawe, John. 3)
Idem, páginas 67,
68,69/70, obra citada de Zaluar, Augusto Emílio. 4)
Idem,
página 72, citação a Henrique Raffard, artigo publicado no Diário do
Comércio do Rio de Janeiro. 5)
Idem,
páginas 70/71 6)
Marzola,
Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São
Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 15 7)
Idem, página 16. 8)
Gilberto Kujawski (artigo no jornal O Estado de S. Paulo
30-05-2.002) 9)
SAIA, Luís - "Fontes primárias para o estudo das habitações
das vias de comunicação e dos aglomerados humanos em São Paulo no século
XVI", lnst. De Adrninst. da Faculdade de Ciências Econômicas e
Administrativas da USP, pág. 3 e 4. 10)
TAUNAY,
Afonso de E. - Non Ducor, Duco, pág. 211 11)
BRUNO,
Ernani Silva - Histórias e Tradições de São Paulo, vol. 1, pág. 205 12)
NOGUEIRA, Almeida - Academia de São Paulo, Viii, pág. 128 13)
FREITAS, Afonso A. de - "São Paulo no dia 7 de setembro de
1822", Rev. do lnstit. Hist. e Geog. de São Paulo, XXII, pág. 3 14)
BRUNO, Ernani Silva - op. cit., vol, 1, pág. 96 15)
PRADO,
Paulo - Paulística, págs. 8 e 9 16)
BRUNO, Ernani Silva - op. cit., vol, 1, pág. 96 17)
BRUNO,
Ernani Silva - op. cit., vol. 1, pág. 91 18)
SAINT-HILAIRE,
Auguste de -Viagem à Província de São Paulo, pág. 89 19)
BRUNO,
Ernani Silva - op. cit., vol. 1, págs. 93 e 94 20)
BRUNO, Ernani Silva - op. cit., vol. 1, pág. 45 21)
MORSE, Richard N. - São Paulo - Raízes Oitocentistas da Metrópoi
- pág. 474 22)
PRADO Jr., Caio -
op. cit., pág. 229 23)
PRADOJr.,Caio- Forrnação do
Brasil Contemporâneo pág-61 24)
Marzola,
Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São
Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 34 |