HISTÓRIA DO BAIRRO DO BIXIGA                   Egydio Coelho da Silva PÁG.

Livro em elaboração na internet – última alteração: em 24-04-2004

Bixiga novo

Por volta de 1.870, fatores externos, econômicos e sociais fizeram com que São Paulo começasse a evoluir, a crescer e a tomar feições mais urbanas. A história do Bixiga está relacionada à cultura do café  e a imigração italiana. Um pouco antes da fundação do bairro, São Paulo se caracterizava pela baixa densidade populacional, quando comparado a outras cidades contemporâneas.  Mas a partir de 1870, a plantação de café no Estado de São Paulo já havia se tornado intensa, o que fez com a a Capital se tornasse o centro do sistema ferroviário do País. A população cresce, entre 1875 e 1900, de 20 mil para 240 mil habitantes. 

Portanto, há urgente procura de novas moradias e os proprietários de terras se apressaram a atender a demanda. 

Por isso, nas três últimas décadas do século XIX e nas duas primeiras do século XX, todos os donos de chácaras antigas, localizadas perto da área central ou em alguns de seus arrabaldes, começaram a loteá-las. (9)

Assim como aconteceu na época com outras chácaras em São Paulo, parte da Chácara do Bexiga também foi arruada, dando origem a um novo bairro.

Segundo documentos da época, aproveitando dessa situação, da "febre de urbanização" (1) (2), que dominava São Paulo, Antônio Braga, cujo nome completo era Antonio José Leite Braga, proprietário da Chácara do Bexiga, na década de 1.870, resolveu arruar e lotear parte da chácara. A área a ser loteada se localizava, mais ou menos, entre as ruas Abolição e 13 de Maio, e entre a Av. Brigadeiro Luiz Antônio e Santo Antônio.

Embora a Chácara do Bexiga fosse pasto e mato, seu início, próximo ao centro, ficava praticamente junto ao antigo bairro do Bexiga, que era onde é hoje a Praça das Bandeiras e bastante conhecido de todos, naquela época. 

Hoje, tudo parece perto. Não era, porém, bem assim naquele tempo. 

O antigo bairro do Bexiga era separado do trecho da Chácara do Bexiga, onde se procedeu ao loteamento, pelo Córrego do Bexiga (hoje canalizado e se encontra, em parte, sob a Humaitá e Rua Japurá), o qual desembocava no Córrego Saracura (hoje canalizado e se encontra em parte sob a Av. nove de Julho).

Portanto, nada mais comercial e comunicativo do que os proprietários dos lotes anunciar que o loteamento ficava no bairro do Bexiga, que ficava bem mais central e não distante e separado pelo Córrego do Bexiga, como poderia dar idéia se fosse anunciado com outro nome. 

Daí, a divulgação publicitária do loteamento indicando o bairro do Bexiga.

Por isso, em 28 de julho de 1879, o jornal "A Província de São Paulo", atual "O Estado de São Paulo", publicou o seguinte anúncio:

“Terrenos no Bexiga  

 Vendem-se estes magníficos terrenos às braças ou em lotes, com pastos ou matas, à vontade do comprador. Não há nada a desejar nestes terrenos, dentro da cidade, água corrente, em diversas fontes, lindos golpes de vista, para bonitas chácaras, ruas de 60 palmos de largura; preços baratíssimos, desde 20$, 30$,40$, até 50$ a braça, com 30 braças e mais de fundos, conforme a localidade escolhida. A planta acha-se nas oficinas de Santo Antonio, no Bexiga, podendo ser examinado a qualquer hora, tanto a planta como os terrenos. Para tratar com os proprietários na mesma oficina ou com E. Rangel Pestana, Rua da Imperatriz, n.o 44". (4)

Antonio Braga (Antonio José Leite Braga) faleceu e a viúva casou, em segundas núpcias, com o Sr. Fernando de Albuquerque, que prosseguiu nas vendas dos lotes anunciados e, conseqüentemente, na formação do bairro do Bixiga.

Historicamente, o Bairro do Bixiga novo, como o conhecemos, já surgiu com entusiasmo e com festa.

Isto aconteceu em primeiro de outubro de 1.878.  

Antônio Braga (José Antonio Leite Braga), proprietário do loteamento do Bixiga, ofereceu uma quadra de seus terrenos, com 8475 braças quadradas, à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia. 

Havia, porém uma condição: a de edificar aquela irmandade ali um hospital destinado aos pobres de São Paulo. 

A abertura do loteamento aconteceu solenemente, com a presença do Imperador Dom Pedro II, que visitava a cidade de São Paulo, pela terceira vez.

Dom Pedro II lançou a pedra fundamental do hospital, que seria construído na quadra, formada pelas ruas Santo Antônio, rua da Misericórdia (Abolição), São Domingos e Cons. Ramalho.

No dia 1.° de outubro de 1878, realizou-se a colocação da pedra fundamental do hospital.

"O ato foi presidido pelo bispo diocesano, D. Lino Deodato Rodrigues de Carvalho. Compareceram muitos sacerdotes e mais de duas mil pessoas. Depois da benção da pedra, foi ela conduzida em padiola até o lugar em que tinha de ser lançada por D. Pedro II. 

Acompanhavam- no, na ocasião, o senador João Lins V. C. de Sinimbu, então presidente do Conselho de Ministros, o Dr. João Batista Pereira, Presidente da Província de São Paulo, e o comendador Joaquim Egídio de Sousa Aranha, depois marquês de Três Rios. Uma guarda de honra do Corpo de Permanentes, postada nas imediações, prestou as continências de praxe. O povo ovacionou as autoridades presentes e todos se retiraram, finda a cerimônia, levando a melhor impressão sobre o local do futuro hospital. Tal, porém, não aconteceu. Os médicos da capital, ouvidos a respeito, foram de parecer contrário. Alí era o local mais contraindicado para um estabelecimento daquela natureza.

Não sabemos bem o que alegaram, o pretexto que indicaram. O certo é que o hospital da Santa Casa não chegou a ser construído no Bexiga. Outro local foi escolhido. (5) (6) (51)

E desse modo, o Bexiga não teve o seu hospital".

A inauguração do hospital, que era uma grande benfeitoria, inserida no loteamento e que evidentemente seria um bem público a ser utilizado pela comunidade é, sem dúvida, a data mais certa, para caracterizar o surgimento do bairro Bixiga.

Portanto, torna-se evidente que o bairro do Bixiga novo nasceu no dia primeiro de outubro de 1.878.

Entende-se assim porque:

Pouco antes de seu loteamento, a área onde se formaria o bairro do Bexiga, apresentava-se bastante selvagem. Ainda em 1.870, nessa área caçavam-se perdizes, veados e até escravos foragidos. (7) (8)  (17)

Embora o hospital jamais viesse a ser construído, o loteamento foi sucesso comercial. Talvez pela técnica de "marketing" de doar um terreno para hospital, contando inclusive com o Imperador para inaugurá-lo; por localizar-se próximo ao centro, ou talvez ainda pelo preço, pois, eram lotes pequenos e baratos. E os que mais se interessaram foram os italianos, gente pobre e recém-chegada ao Brasil, a maior parte deles vindos da Calábria.

Portanto, o Bixiga, formado a partir de 1.878, desde a sua fundação, foi ocupado, na sua maioria, por italianos.

Com certeza o bairro do Bixiga, que mantém muitas das suas características até hoje, nasceu com a presença preponderante dos italianos.

E é essa população italiana, que vai caracterizar profundamente o bairro. (3)

Eles, ao se aculturarem com negros e brancos (brasileiros, portugueses, espanhóis, árabes, etc.) formaram uma comunidade bem característica.

Esta região, como comunidade com marcas culturais preponderantes italianas, não existia antes do loteamento desse trecho dos Campos do Bexiga.

Portanto, a comunidade, que surgiu nesta região, nasceu com o loteamento.

Tratava-se de um de um fenômeno urbanístico novo, que nada tinha em comum com o antigo bairro do Bexiga ou Largo do Bexiga e, menos ainda, com a Chácara do Bexiga ou Campos do Bexiga, que, na sua maior parte, era mata fechada.

Sabe-se que o principal marco histórico, que caracteriza o surgimento de uma comunidade, é quando se constrói um bem, que seja de uso comum de todos, como: igreja, hospital, praça pública, etc.

Entendemos que a doação de um terreno à Santa Casa de Misericórdia para se construir um hospital no bairro (4), época em que todos se preocupavam com as constantes epidemias, que assolavam S. Paulo, caracterizou o seu nascimento.

Algum historiador mais conservador poderia alegar que, como o hospital não foi construído, a data mais correta seria 15 de agosto de 1918, "foi erguida uma capelinha de construção simples, em homenagem à Nossa Senhora". Nesta data, não havia a menor dúvida de que uma comunidade já existia neste local. Havia, pois, um bem público utilizado pela comunidade.

No nosso entender, porém, entendemos que foi graças a inauguração efetiva do loteamento, culminada com o lançamento da pedra fundamental do hospital que o bairro praticamente nasceu. Portanto, em 1o. de outubro de 1.878, nasceu o bairro do Bixiga, um bairro bem típico, marcado pela cultura italiana, que até hoje mantém muitas dessas características bem acentuadas, deixadas pelos imigrantes, que aqui se instalaram.

  

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Referências bibliográficas – desta página  

 

 

 

 

 

 

(1)

Expressão muito usada por Pierre  Monbeig

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(2)

Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 16

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(3)

Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 16

 

(4)

Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 40

(4)

Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 15

 

(5) MENESES, Raimundo de – artigo na Folha da Noite de 07/03/1954

(6)

Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- páginas 52/53.

 

(7)

Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 39.

 

(8)  BRUNO, Ernani Silva - Histórias e Tradições de São Paulo, vol. II.  

(9)

Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 58

 

 

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