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HISTÓRIA DO BAIRRO
DO BIXIGA
Egydio Coelho da Silva PÁG.
Data da fundação: controvérsias
O bairro do Bixiga, conforme
pesquisa feita pelo jornalista Egydio Coelho da Silva, diretor do Jornal da
Bela Vista, foi fundado em primeiro de outubro de 1878. Completa agora em 2008
130 anos.
Como toda interpretação histórica, esta também tem recebido algumas críticas.
Para dirimir dúvidas, entrevistamos o jornalista Egydio Coelho.
Jornal dos bairros: Consta que o bairro do Bexiga era mais antigo, pois já existia antes de
primeiro de outubro de 1878?
Egydio Coelho da Silva: Nossa pesquisa
procurou descobrir quando se formou a comunidade. E comunidade, que surgiu em
primeiro de outubro de 1.878, foi predominantemente italiana, embora
influenciada pela cultura dos escravos negros, que se libertaram dez mais
tarde. O antigo bairro do Bexiga existiu onde é hoje
a Praça das Bandeiras, que se emendava com antigo Largo do Piques. A
comunidade, que ali existiu foi desaparecendo e hoje a região é apenas lugar
de tráfego intenso, passarelas e até estação do metrô. Nada teve a ver com o nova comunidade que surgiu novo bairro do Bixiga em
1878.
Jornal dos bairros: O bairro não
teria sido fundado pelos italianos. Se assim fosse, o bairro da Liberdade
teria sido também fundado pelos japoneses, que também o ocuparam?
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Padre
Antônio Feijó, que denunciou o desumano enforca-mento de Chaguinhas na Liberdade.
Seu busto, que se encontrava no Largo da Liberdade foi removido
indevidamente para Piracicaba.
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Egydio Coelho da Silva: A história é diferente.
O bairro da Liberdade está intimamente ligado à Independência do Brasil, pois
seu nome surgiu em 1.821. E os japoneses ocuparam parte do bairro somente no
início do Século XX (1.900)
Conta a história que, na noite de 28 para 29 de
Junho de 1821, houve um motim de soldados, que estavam com seus soldos
atrasados. Os amotinados atacaram um navio português, ancorado no Porto de
Santos. Foram presos e os que residiam em Santos foram lá mesmo enforcados.
Porem, o cabo Francisco José das Chagas (O Chaguinha)
foi enviado para São Paulo, para ser enforcado no “Campo da Forca”, mais
tarde Largo da Forca, hoje Largo da Liberdade. Nessa tentativa de
enforcamento, aconteceram fatos estranhos, que foram denunciados pelo Padre
Diogo Antônio Feijó, na Câmara dos Deputados, 11 anos mais tarde em 1832.
“Vi com meus próprios olhos a execução do cabo Chaguinha,
que se deu antes do julgamento do pedido de clemência feito ao príncipe
regente, D. Pedro I.
Ao iniciar o enforcamento, o cabo caiu porque a corda se rompeu. Como não
havia corda própria para enforcar, usaram laço de couro, mas o instrumento
não foi capaz de o sufocar com presteza. A corda novamente se partiu e o
condenado caiu ainda semi-vivo; já em terra foi
acabado de assassinar”.
O povo revoltado então começou a gritar Liberdade, Liberdade! E esse grito
popular é que deu o nome ao bairro em 20 de setembro de 1.821.
Esse episódio influenciou a decisão de D. Pedro I em proclamar a nossa
independência no ano seguinte em sete de setembro de 1.822
. Note-se que D. Pedro I vinha de Santos para São Paulo e no Ipiranga
proclamou a nossa independência. O assunto que, provavelmente, mais discutiu
em Santos deve ter sido o motim, o qual mais uma vez externou o
descontentamento dos brasileiros com o fato de ser colônia de Portugal.
Havia inclusive um busto do Padre Antônio Feijó na Praça da Liberdade, que,
por ignorância, foi transferido para Piracicaba. A mim isso fosse contado
pelo jornalista Paulo Zing, quando presidente da
API. Ele tentou, sem sucesso um movimento, para o retorno do busto do Padre
Diogo Antônio Feijó ao Largo da Liberdade.
Jornal dos bairros: Os primeiros
moradores do bairro foram os negros, escravos fugidos que se refugiavam na
região, portanto, eles sim teriam fundado o bairro?.
Egydio Coelho da Silva: Os historiadores são
unânimes em afirmar que na Chácara do Bexiga (que ia
da Rua Abolição, antiga Rua da Misericórdia, até é onde fica a Rua
Estados Unidos) se escondiam escravos fugidos, mas não poderiam formar uma
comunidade. Principalmente, porque se escondiam talvez até em quilombos e se
libertaram somente dez anos mais tarde. Portanto, muitos deles, com certeza,
deixaram seus quilombos e esconderijos e vieram para o “baixo Bexiga“, junto ao Saracura, onde é hoje a Pça. 14 Bis. Tiveram sim forte
influência na formação do bairro, mas me parece que foi preponderante a
presença italiana na fundação do bairro.
FUNDAÇÃO DO BIXIGA
Neste primeiro de outubro de 2010, o Bixiga completa
132 anos de existência.
Considera-se a data de fundação do Bixiga novo, o dia primeiro de outubro de
1.878, quando D. Pedro II lançou uma pedra fundamental de um hospital num terreno
doado por Antônio José Leite Braga à Santa Casa de Misericórdia. Tratava-se
do quadrilátero, formado hoje pelas ruas Abolição, São Domingos e Conselheiro
Ramalho e Santo Antônio.
A Santa Casa aceitou a doação, mas optou por não construir o hospital no
Bixiga porque preferiu investir no hospital, próximo ao hoje Largo do
Arouche, em vez de desviar recursos para outro empreendimento.
Pessoas, que não são versadas em história, costumam confundir data de
fundação de um bairro ou de uma cidade com outras datas históricas, mas nada
relacionadas com sua fundação.
Confundem datas de emancipação política, de leis que dão nome ao bairro, de
escrituras públicas, residências isoladas, etc. com a verdadeira data de
surgimento da comunidade.
O historiador consciente não é cartorário. Ele estuda a população, que
iniciou uma convivência num determinado território e que já tinha e/ou passou
a ter crenças, costumes e objetivos comuns.
Algum historiador mais conservador poderia alegar que, como o hospital não
foi construído, a data mais correta seria 15 de agosto de 1918, quando no
Bixiga "foi erguida uma capelinha de construção simples, em homenagem à Nossa Senhora". Nesta data, não haveria a menor
dúvida de que uma comunidade já existia neste local. Havia, portanto, um bem
público utilizado pela comunidade.
No nosso entender, porém, aceitamos que foi graças à inauguração efetiva do
loteamento, culminada com o lançamento da pedra fundamental do hospital, que
o bairro praticamente nasceu.
Diferente do
que noticiou o jornal O Estado de São Paulo, Antônio José Leite Braga,
loteador, que doou o terreno para o hospital, considerado fundador do bairro,
nada tem a ver com Antônio Bexiga, citado por Saint-Hilaire em 1.819, que era
proprietário da Estalagem do Bexiga; provavelmente
tinha esse apelido por morar no Bexiga e não por ter a doença bexiga.
Antonio José Leite Braga não pode ser o mesmo Antônio Bexiga porque viveu por
volta de 1878 e não consta, como informou o jornal O Estado de São Paulo, que
o fundador do bairro tivesse tido a doença varíola, popularmente conhecida
como bexiga, nem pode ser confundido com o proprietário da Estalagem do Bexiga.
Veja em http://www.ajorb.com.br/hb-1863-escritura-bexiga.htm
a escritura de venda da Chácara do Bexiga por Antônio José Dias Leite a
Thomaz Luiz Álvares. Egydio
Coelho da Silva (São Paulo-SP-Brasil)
Página inicial da
história do Bixiga
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Referências bibliográficas – desta página
(1)
Expressão muito usada por Pierre Monbeig
(2)
Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume
15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979-
página 16
(3)
Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo,
volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de
1.979- página 16
(4)
Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo,
volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de
1.979- página 40
(4)
Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo,
volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de
1.979- página 15
(5) MENESES, Raimundo de – artigo na Folha da Noite de 07/03/1954
(6)
Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo,
volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de
1.979- páginas 52/53.
(7)
Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo,
volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 39.
(8) BRUNO, Ernani Silva - Histórias e Tradições
de São Paulo, vol. II.
(9)
Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo,
volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de
1.979- página 58
Referências bibliográficas - todas
1)
Dicionário de História de
São Paulo – Antônio Barreto do Amaral – Coleção Paulista; V.19 – 1.980 –
Governo do Estado de São Paulo.
2)
Câmara Municipal de São
Paulo: 1560-1998: Quatro séculos de história/ Délio
Freire dos Santos, José Eduardo Ramos Rodrigues. São Paulo: Imprensa Oficial,
1.998, página 70, páginas 67/68, obra citada de Mawe,
John.
3)
Idem, páginas 67,
68,69/70, obra citada de Zaluar, Augusto Emílio.
4)
Idem, página 72, citação
a Henrique Raffard, artigo publicado no Diário do
Comércio do Rio de Janeiro.
5)
Idem, páginas
70/71
6)
Marzola, Nádia – História
dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de
Cultura – Dezembro de 1.979- página 15
7)
Idem, página 16.
8)
Gilberto Kujawski (artigo no jornal O Estado de S. Paulo 30-05-2.002)
9)
SAIA, Luís - "Fontes
primárias para o estudo das habitações das vias de comunicação e dos
aglomerados humanos em São Paulo no século XVI", lnst.
De Adrninst. da Faculdade
de Ciências Econômicas e Administrativas da USP, pág. 3 e 4.
10)
TAUNAY, Afonso de E. - Non Ducor, Duco, pág. 211
11)
BRUNO, Ernani Silva -
Histórias e Tradições de São Paulo, vol. 1, pág. 205
12)
NOGUEIRA, Almeida - Academia
de São Paulo, Viii, pág. 128
13)
FREITAS, Afonso A. de -
"São Paulo no dia 7 de setembro de 1822",
Rev. do lnstit. Hist. e Geog. de
São Paulo, XXII, pág. 3
14)
BRUNO, Ernani Silva - op.
cit., vol,
1, pág. 96
15)
PRADO, Paulo - Paulística, págs. 8 e 9
16)
BRUNO, Ernani Silva - op.
cit., vol,
1, pág. 96
17)
BRUNO, Ernani Silva - op.
cit., vol.
1, pág. 91
18)
SAINT-HILAIRE, Auguste de
-Viagem à Província de São Paulo, pág. 89
19)
BRUNO, Ernani Silva - op.
cit., vol.
1, págs. 93 e 94
20)
BRUNO, Ernani Silva - op.
cit., vol.
1, pág. 45
21)
MORSE, Richard N. - São
Paulo - Raízes Oitocentistas da Metrópoi
- pág. 474
22)
PRADO Jr., Caio - op. cit., pág. 229
23)
PRADOJr.,Caio- Forrnação
do Brasil Contemporâneo pág-61
24)
Marzola, Nádia – História
dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de
Cultura – Dezembro de 1.979- página 34
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