HISTÓRIA DO BAIRRO DO BIXIGA                   Egydio Coelho da Silva PÁG.

 

Escravos no Bexiga e em São Paulo

 

É  coisa pouca sabida que, em meados do século IXX, nas terras entre a ruas da Consolação e Santo Amaro, se caçavam escravos fugidos.

De fato, nessa época, a repressão aos escravos fugitivos e aquilombados era severa. Eles se escondiam nas capoeiras e capinzais, que havia em torno do Tanque Reúno, no Bexiga, e em outros pontos do Anhangabaú e do Saracura.

Pelas Atas da Câmara Municipal de São Paulo verificamos que, em 1831, membros da Administração chegaram a pedir o fechamento do córrego do Anhangabaú "para a parte do Bexiga", em cujas margens se acoitavam ladrões e escravos rebeldes. 

Mas espaço para esconderijo havia à vontade na quinta de Francisco Machado, nas chácaras Streib, Miguel Carlos, do Sertório, do Barão de Limeira. (1)

No Largo do Piques, junto ao obelisco, realizavam-se, uma vez por semana, concorridos leilões de escravos. (2)

Logo que o sol se aprumava e já não se viam restos de garoa no ar, iam-se chegando ao Largo os clássicos senhores de calça de brim branco, engomada, sobrecasaca de lasticotina, chapéu alto, preto, ou um legítimo "panamá" branco. Ao ato nunca faltavam as nobres damas, principalmente sinhazinhas cloróticas, de rostinhos pálidos, mantilha de seda e vestidão repolhudo apenas justo ria cintura e no busto rigorosamente espartilhado. Davam elas àquele estranho espetáculo um marcante sentido de profunda piedade cristã. Acompanhavam "o senhor seu pai", muitas vezes se viam obrigadas a ler o que dizia o edital colado num pedaço de tábua, a guisa de tabuleta, com respeito às cotações das "peças" a serem leiloadas: (3)

 

Negro bem feito:

420$000

Trombeteiro:

700$000

Molecão:

350$000

Mulata de Partes, boa:

840$000

Moleque:

168$000

Negra cozinheira, ladina:

350$000

Crioulo, bom oficial:

700$000

Negro sem dentes, meio cansado:

200$000

Mulato de Partes ou Oficial:

 

750$000

 

Peças sem recomendação:

150$000

Molequinhos desde:

80$000.

 

Com a abolição, os leilões terminaram, mas ficou na memória do Largo a triste recordação desses tempos.

Mas a principal função do largo não era ligada ao comércio de escravos, e sim ao movimento de tropas. (3)

 

Página inicial da história do Bixiga e de São Paulo antigo

 

Fale com o autor

 

 

Referências bibliográficas – desta página

 

(1)

 

  Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 39

(2)

 

  Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 46

 

(3)

Marques, Gabriel - Ruas e tradições de S. Paulo

 

Página inicial da história do Bixiga e de São Paulo antigo

 

Fale com o autor

 

 

 

 

Referências bibliográficas - todas

 

1)            Dicionário de História de São Paulo – Antônio Barreto do Amaral – Coleção Paulista; V.19 – 1.980 – Governo do Estado de São Paulo.

2)            Câmara Municipal deSão Paulo: 1560-1998: Quatro séculos de história/ Délio Freire dos Santos, José Eduardo Ramos Rodrigues. São Paulo: Imprensa Oficial, 1.998, página 70, páginas 67/68, obra citada de Mawe, John.

3)            Idem, páginas 67, 68,69/70, obra citada de Zaluar, Augusto Emílio.

4)            Idem, página 72, citação a Henrique Raffard, artigo publicado no Diário do Comércio do Rio de Janeiro.

5)            Idem, páginas 70/71

6)            Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 15

7)            Idem, página 16.

8)            Gilberto Kujawski (artigo no jornal O Estado de S. Paulo 30-05-2.002)

9)            SAIA, Luís - "Fontes primárias para o estudo das habitações das vias de comunicação e dos aglomerados humanos em São Paulo no século XVI", lnst. De Adrninst. da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da USP, pág. 3 e 4.

10)        TAUNAY, Afonso de E. - Non Ducor, Duco, pág. 211

11)        BRUNO, Ernani Silva - Histórias e Tradições de São Paulo, vol. 1, pág. 205

12)        NOGUEIRA, Almeida - Academia de São Paulo, Viii, pág. 128

13)        FREITAS, Afonso A. de - "São Paulo no dia 7 de setembro de 1822", Rev. do lnstit. Hist. e Geog. de São Paulo, XXII, pág. 3

14)        BRUNO, Ernani Silva - op. cit., vol, 1, pág. 96

15)        PRADO, Paulo - Paulística, págs. 8 e 9

16)        BRUNO, Ernani Silva - op. cit., vol, 1, pág. 96

17)        BRUNO, Ernani Silva - op. cit., vol. 1, pág. 91

18)        SAINT-HILAIRE, Auguste de -Viagem à Província de São Paulo, pág. 89

19)        BRUNO, Ernani Silva - op. cit., vol. 1, págs. 93 e 94

20)        BRUNO, Ernani Silva - op. cit., vol. 1, pág. 45

21)        MORSE, Richard N. - São Paulo - Raízes Oitocentistas da Metrópoi - pág. 474

22)        PRADO Jr., Caio -  op. cit., pág. 229

23)        PRADOJr.,Caio- Forrnação do Brasil Contemporâneo pág-61

24)        Marzola, Nádia – História dos Bairros de São Paulo, volume 15- Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura – Dezembro de 1.979- página 34