VOZ DA TERRA

Jornal diário que circula em Assis
São Paulo – Brasil
Processos contra o jornal

 

Voz da Terra completa 46 anos. Valeu a pena?

*Egydio Coelho da Silva

 

Em todos os dias 14 de julho, as pessoas e/ou eu mesmo me perguntam se valeu a pena fundar o jornal Voz da Terra e trabalhar durante estes 46 anos para que continue a circular em Assis. Fico propenso a dizer que não valeu pena.

Talvez se a pergunta se referisse a determinado período de tempo, a resposta seria sim.
Com certeza, do dia 14 de julho de 1963 até 31 de março de 1964, sem dúvida, a resposta será sim, valeu a pena.
Fundado para dar cobertura à campanha de Abílio Nogueira Duarte a prefeito de Assis, candidato do partido Movimento Trabalhista Renovador (MTR), cujo diretório municipal eu estruturara na cidade, editamos Voz da Terra, um veículo político-partidário, que se encaixou perfeitamente no jornalismo romântico vigente na época.
O ambiente era propício: minha juventude e a ampla liberdade existente no País.
Com o advento do Regime Militar, somado a uma perseguição administrativa, removido, à revelia, para Presidente Prudente, muito do entusiasmo diminuiu e por pouco o jornal deixa de circular.
Mas sua manutenção foi útil. Embora com alguma autocensura, em face das circunstâncias políticas nacionais, várias matérias em VT conseguiram externar a insatisfação por perseguições políticas locais, inclusive contra o “terrorismo cultural” que se praticou na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis.

Talvez só por isso, neste período a resposta seria sim, valeu a pena.
Em seguida, o Regime Militar permitiu a existência de dois partidos: Arena, que aglutinou os governistas, e MDB, ao qual se filiaram os oposicionistas.
O bipartidarismo propiciou muito entusiasmo político em Assis, talvez sem precedentes na sua história. Embora local, deu-se intensa polarização entre governistas, favoráveis ou tolerantes com o regime militar e oposicionistas, que aspiravam ao retorno imediato do regime democrático, vigente antes de 1964.
Esta polarização, de certa forma, foi benéfica para Assis, que de um lado, era liderada por Santilli Sobrinho, Abílio N. Duarte e Hélio Rosas.

Voz da Terra não teve dúvidas em se alinhar na oposição, recusando inclusive muitas ofertas que acenavam para seu sucesso comercial, se se alinhasse à linha governamental ou mesmo estivesse eqüidistância de ambas as facções políticas.
Acredito que a nossa opção política ajudou a que Assis viesse a eleger por anos seguidos os deputados Santilli Sobrinho, Abílio e Hélio Rosas. E a bipolarização política, com certeza, propiciou que Rui Silva e Tuffi Jubran viessem também se eleger deputados estaduais pela Arena. Tratava-se de um “derby” político semelhante a que acontece no futebol e provoca o entusiasmo popular e ambos os clubes antagônicos obtêm sucesso.
Talvez só por isso, neste período a resposta seria sim, valeu a pena.
Com o advento da Lei de Imprensa, inicialmente pouca coisa mudou.
Porém, quando se descobriu que essa Lei poderia propiciar enriquecimento ilícito a quem alegasse ofensa com qualquer notícia em jornal, para alegria de alguns advogados pouco preocupados com a ética, se iniciou o drama da imprensa em Assis e, com certeza, no Brasil inteiro. Os pedidos de indenização contra o jornal chegaram a mais de um milhão de reais. Este fenômeno fez instalar em todos os veículos de comunicação do Brasil a autocensura, a pior de todas as censuras.
Portanto, para este período a minha resposta não podia ser outra: não valeu a pena.
Além dos problemas trazidos à liberdade pela Lei de Imprensa, agora estamos sob o regime da República Sindicalista, que vive de verbas governamentais e se encastelou nos segundo e terceiro escalões. Ela procura, de todas as formas, calar a imprensa, que não seja favorável à sua ideologia, fiscalizando-a como se fosse criminosa.
Assim é que recentemente fomos multados em mais de meio milhão de reais de uma só vez. Surpreendentemente o mesmo telefonema, recebido do Ministério Público do Trabalho de Marília, que nos informava que essa multa já se encontrava em execução no Fórum de Assis, também nos esclarecia que poderíamos pagar essa dívida com publicação de anúncios gratuitos de página inteira de interesse do Governo Federal.
E o mais estranho é que nos informaram que o mesmo procedimento já havia acontecido com vários outros jornais do interior de São Paulo.
Estes fatos, que acontecem hoje, nos levam a questionar se vale a pena fazer jornal no Brasil.
A esperança, que nos resta, é que a Lei de Imprensa foi extinta. E o povo pode, através do voto, fazer com que os que vivem de verba pública e querem calar a imprensa, percam o emprego e sejam obrigados a voltar a trabalhar para ganhar o seu pão de cada dia, como faz todo brasileiro sério e honesto.

*Egydio Coelho da Silva é diretor-fundador de Voz da Terra.

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Se preferir: envie email para: Egydio Coelho da Silva (vtmv@monteverdemg.com.br)

 

*“Se tivesse que decidir se devemos ter governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não vacilaria um instante em preferir o último” (Thomas Jefferson).

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